28 março 2024

JESUS CRISTO HISTÓRICO

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Eduardo Simões (a Margarida Maria)

É complicado discorrer historicamente sobre o mais famoso personagem da história do Ocidente. Jesus Cristo teve pelo menos quatro biografias “autorizadas”: duas escritas por quem o conheceu de perto, e outras duas por quem o conheceu de “segunda mão’, por meio de quem o conheceu de perto, exatamente como são escritas uma infinidades de biografias reconhecidas hoje em dia como dignas de citar elementos históricos, e nenhum de seus biógrafos foi, até hoje, denunciado por alguma falsificação ou fraude quanto à sua identidade e acréscimos indevidos à sua narrativa.

Sabe-se que Jesus foi um pregador, como muitos que existiram nessa época de crise, na região mais próspera do mundo antigo, na confluência do Ocidente com o Oriente, naquela época disputada pelas maiores potências regionais: o Império Romano e o Império Parto, na antiga Pérsia, que condensavam outra disputa mais abrangente que passava ao largo, mas também motivava, o choque de potências políticas: a luta entre a Cultura Ocidental, com seu viés materialista, crítico e imanente, politicamente “democrático”, e a Cultura Oriental com seu viés mais espiritual, resignado, transcendente, politicamente “autoritário”. E devemos ressaltar também que ele não pode ser definido apenas como um “pregador”, com manias de reformas ou de aparecer aos seus contemporâneos como profeta, embora seja isso também, porém antes como um pregador marginal, periférico, nascido e educado em lugarejos inexpressivos, longe do centro de poder, que era Jerusalém, com uma mensagem de reforma em favor de uma camada da população desassistida pelos poderes políticos, e em confrontação com o centro de poder já estabelecido no magnífico Templo de Herodes. Sua pregação inclusive ocorreu, cresceu e consolidou-se em regiões da periferia, Galileia e Samaria, indo raramente ao centro; da última vez para morrer.

Viveu cercado de pobres e fracassados, quando muito um ou outro equivalente à nossa classe média, e quando alguém mais abastado ousava se aproximar ele impunha a que este abrisse mão de seus bens. Há fortes indícios, nas suas quatro biografias, que ele procurou ativamente a sua morte. Um suicida?

Nesse sentido ele destoa muito de seus êmulos que também fundaram grandes religiões, como o príncipe Sidarta Gautama, o Buda, saído diretamente de um centro de poder político e econômico, e Mohammed, que se tornou um rico mercador, antes de sua reforma religiosa, com um bom suporte político e econômico para a sua causa, cuja gestação ocorreu em torno do centro de poder da Arábia, e que, mais tarde, se tornaria o centro da nova religião. Nesse sentido podemos dizer que, contrastando com as outras, o cristianismo fez a revolução mundial dos “pobres coitados”, e mesmo sem ser esse seu objetivo precípuo, acabou fazendo em largas regiões do globo, em especial no Ocidente, uma revolução política e social, cuja profundidade tem sido atualmente contestada, talvez de forma equivocada, por muitos tentarem projetar no passado valores e costumes próprios deste tempo.

Nesse sentido, a capacidade de sua doutrina, tão contrária às forças que tradicionalmente supomos moldar as sociedades, como a prosperidade econômica e o poder político e social, de impregnar os agentes sociais e orientar, ainda que precariamente, as suas ações – o nível de suas exigências é estonteante – sem falar da estranha capacidade de sobrevivência das instituições por ele criadas, tudo isso baseado em dois absurdos: um ser, supostamente mais poderoso que a natureza, que se deixa matar da forma mais vergonhosa possível, e um homem que passou pela experiência que nenhum outro passou: a ressurreição, constitui sem dúvida um mistério e uma fonte permanente de reflexão sobre o que realmente move a história do mundo, as ações humanas e para onde caminha essa humanidade, e talvez isso explique também a dificuldades porque muitos, apesar das abundantes provas, têm em reconhecer a sua historicidade, pois isso nos obriga a ficar alertas contra teorias que tentam simplificar ou racionalizar em demasia a dinâmica do processo e as motivações dos agentes da história.

Talvez só o Grande Dramaturgo (Shakespeare) consiga expressar o sentimento que toma conta de nós, quando refletimos profundamente sobre esses fatos: “Existe mais coisa entre o céu e a terra, do que imagina a nossa vã sabedoria” 



27 março 2024

O DOCUMENTO DE DAMASCO


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https://en.wikipedia.org/wiki/Damascus_Document 

Eduardo Simões (a Margarida Guimarães)

Esse documento fazia parte daqueles encontrados na Geniza do Cairo, em 1896, e foi classificado por Solomon Schechter em 1897, que percebeu tratar-se de um tipo de “regra-manifesto” de um grupo de judeus piedosos, que evocavam muito elogiosamente a memória do Sumo Sacerdote Sadoc, e de sua genealogia, em oposição àqueles que, na época do documento, um século antes de Cristo, pontificavam em Jerusalém, trazendo, na concepção dos autores do texto, a corrupção e a ira de Deus sobre a comunidade judaica e Jerusalém, agora sob domínio dos romanos. O documento trazia ainda várias orientações sobre como deveria ser convivência entre os membros da seita, suas crenças e esperanças básicas e questões organizacionais, de uma forma ainda muito incipiente e incompleta.

Como o documento mencionava muito ao sacerdote Sadoc, aquele que ficou ao lado de Davi, na tentativa de golpe de Absalão, e posteriormente contra Adonias, a favor de Salomão, na tentativa de golpe daquele, tornando-se o exemplo do sacerdócio historicamente exemplar, claramente perceptível nas passagens de Ezequiel 40,46; 43,19; 44,15; 48,11. Com base nessa bagagem bíblica, e ainda desconhecendo a extrema riqueza e diversidade do judaísmo da época, só revelado ao mundo após a descoberta dos Pergaminhos do Mar Morto, a partir de 1947, Schechter batizou o texto como Documento Sadoquita, em referência a Sadoc.

Entretanto, as buscas arqueológicas feitas em diversas cavernas nos arredores do Mar Morto, após as primeiras descobertas feitas entre novembro de 1946 e fevereiro de 1947, e que redundaram nos milhares de documentos conhecidos como os Rolos, Manuscritos ou Pergaminhos do Mar Morto, espalhados em diversas cavernas na região, tudo mudou, e o Documento Sadoquita de Schechter, ganhou um novo nome: Documento de Damasco.

O que acontece é que novos pedaços do Documento Sadoquita, e outros a ele conectados, foram descobertos nas cavernas Q4, Q5 e Q6, permitindo a reconstrução do seu texto integral, ou pelo menos mais completo que o anterior, e perceber que o que caracterizava esse grupo era muito mais a sua expectativa escatológica, ou seja o mundo que há de vir depois deste, do que envolver-se nas questões políticas referentes a ocupação do cargo de Sumo-Sacerdote, e aí entra o texto de um dos profetas mais vigorosos e acusativos do Antigo Testamento, digno de servir de modelo a um grupo que repudiava de forma tão extremada o sacerdócio oficial do Templo: o Profeta Amós, que em uma de suas profecias diz: “portanto [como um castigo] levarei você para um exílio além de Damasco” (5,27), que neste caso específico não se refere literalmente à cidade de Damasco, mas a um lugar distante de Jerusalém e do Templo.

A repetição inúmeras vezes do termo Damasco na recensão completa, ou mais completa, obtida após a tradução dos Rolos do Mar Morto, e o seu significado escatológico fundamental, para a comunidade dos sadoquitas, que passaram a se chamar essênios, justificaram a mudança do nome.

Esse episódio mostra a importância do historiador se manter aberto e humilde, pronto para renunciar as suas crenças políticas, econômicas e sociais em vista às novas descobertas que a cada momento acontecem no mundo e lançam nova luz sobre os eventos, mesmo aqueles tão antigos, como os ocorridos há mais de 2 mil anos, achados nas margens do Mar Morto, e evitar todo tipo de dogmatismo e doutrinação no que se refere tanto aos acontecimentos históricos como à interpretação de seu sentido.

 O texto espanhol do Documento de Damasco: http://comuna.cat/Glosario/q_cd.pdf


26 março 2024

OPINIÃO: DIÁLOGO INTERGERACIONAL

 


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Eduardo Simões (a Margarida Maria)

A história é a memória permanente das experiências passadas das diversas comunidades humanas, para economizar, às gerações que se seguirão, o trabalho de reinventar a roda, e começar tudo do zero, permitindo a estas concentrar-se no aperfeiçoamento do que existe, ampliando as possibilidades de sobrevivência e bem estar – isso é perceptível no desenvolvimento tecnológico, no barateamento dos bens de consumo antes considerados luxo e no aumento da expectativa de vida. Mas só sabe disso quem sabe história. Como continuar a fazer isso se se reduz cada vez mais o diálogo entre as gerações e o conhecimento da própria história. Uma decorre da outra impreterivelmente, pois se não existe o conhecimento da história e a noção do quanto custou chegarmos aonde estamos não pode existir gratidão, e sem ela não há respeito, e sem o respeito não há diálogo nem valores sociais herdados, e sem o valores sociais transmitidos de do pssado não há valores morais estabilizadores.

As novas gerações viverão cada vez mais como os animais selvagens, incapazes de abstração, literalmente da mão para a barriga, ou seja se aquilo que fazem agora, de imediato, lhes dá prazer então é positivo e deve continuar a ser feito, independente dos efeitos que isso possa causar às outras pessoas que com ele dividem o mesmo espaço: familiares, vizinhos e cidadãos. É o mundo dos animais selvagens, onde vigora a lei do mais forte, cada um por si ou pelo bando senão o chefão estraçalha e não se conhece o planejamento e o longo prazo, ou o atraso da satisfação presente, pra uma satisfação muito maior no futuro. Não é isso que vivemos nos subúrbios de nossas grandes cidades e de maneira mais velada nas elites dos condomínios exclusivos. O que muda são os métodos porque a ausência de valores morais, logo sociais também, é a mesma.

O ponto-chave são os valores. Como ensinar valores, que nos orientaram na escolha de nossas prioridades, se não conhecemos a história e o preço real de escolhas, cujos resultados só aparecem na sua aplicação, várias gerações à frente? Não importa, por exemplo que tal abordagem econômica, no caso o capitalismo-burguês, tenha criado, ao longo de 250 anos, prosperidade e grandes potências econômicas e políticas, justo o contrário do seu êmulo, o socialismo, nos últimos 170 anos, e ajudado a integrar milhões de seres humanos que, naquela época, o século XIX, vivam isolados em sociedades e estados tribais, e que hoje, mesmo xingando o capitalismo, não querem de forma alguma voltar ao que existia antes desse capitalismo chegar. Isso não diz nada?

Para conseguir seus objetivos, oportunistas usam de alguns eventos ou características negativas, que sempre existiram nas sociedade humanas, principalmente naquelas que se diziam “socialistas”, explorando o termo ambíguo e enganador de “igualdade”, anulando a diferenciação criada pela própria natureza, e que se manifesta inclusive nas matilhas de animais selvagens, onde o animal líder manifesta suas qualidades, ações e postura desde recém-nascido. Entre nós, que somos capazes de criar pela força da ação guiada por uma abstração superior e valores sociais e morais, uma realidade complexa tal que “n” formas de lideranças podem se manifestar, abrimos mão de tudo isso pela “igualdade”, levados por líderes “universalistas”, populistas, que igualam a todos como incapazes, necessitados de “salvadores da pátria”, e que se impõem pela sua capacidade de mentir, de mistificar as multidões, de dramatizar uma postura carismática.

Não poderia terminar um artigo sobre diálogo intergeracional sem explicitar minha gratidão ao tio de meu pai, Antônio Simões, o Vovô Simões, nascido quando a rainha Vitória, da Inglaterra, ainda reinava. Um garoto pobre, do interior de Pernambuco, que saiu por esse Brasil, financiado pela sua incomum habilidade de vendedor. Teve uma vida venturosa e me repassou a sua sabedoria de vida, que junto com o que aprendi com a minha família, da sociedade em que vivi, hoje extinta, e da história, da qual nunca me desliguei, me ajudaram a ser quem sou e chegar até esse ponto de minha vida sem nunca ter assumido uma causa criminosa ou ter obtido vantagem, devidas ou indevidas,  às custas de outrem.

Se é que isso importa...

REPARTINDO A EXPERIÊNCIA: O quadro abaixo mostra bem o quanto é positiva o encontro da velha com a nova geração, quando feita com interesse recíproco. O menino, imaturo, com valores ainda centrados na sua pessoa, como é normal nessa idade, esconde o cachorro quente de seu “velho amigo”, mas está prestes a perde-lo para seu mais “novo” e “maior amigo” de quatro patas, incapaz de apreender um valor moral humano, enquanto o velho lhe oferece uma parte de sua refeição, bem mais saudável. Quanta coisa essa ilustração nos ensina!!!!


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25 março 2024

IMAGEM: GENIZA DO CAIRO (1896-1898)

 


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A Sinagoga Bem Ezra no Cairo, Egito, tinha um depósito de “velharias”, uma geniza, no qual se encontravam muitos documentos antigos, numa desordem indescritível. Por elas já haviam passados muitos viajantes desde a metade do século XVIII, que se saiba, e ninguém atinou para a preciosidade daquelas “velharias’, até que duas irmãs gêmeas escocesas, Agnes Smith Lewis e Margareth Dunlop Gibson, estiveram lá em 1896 e pegaram alguns documentos antigos e mostraram a seu amigo, o incansável pesquisador judeu, Salomom Schechter, que imediatamente percebeu a importância do achado e, financiado por um hebraísta ricaço, mas cristão, foi para o Cairo e, junto com o rabino-chefe local, classificou e recolheu a maior parte dos 400.000 manuscritos que lá jaziam, amassados e espalhados, como em uma cesta de lixo, e os organizou em coleções espetaculares de documentos, hoje espalhados em várias instituições de ensino acadêmico na Inglaterra e em outros países. O período abrangido por esses documentos vai do século VI até o século XIX, e entre eles se destacam: as mais antigas cópias de textos bíblicos do Antigo Testamento, até as descobertas dos Rolos do Mar Morto em 1947, datados do século X,  documentos sobre a vida das comunidades judaicas na Península Ibérica ao longo do domínio muçulmano, na Idade Média – essa é uma das mais numerosas coleções de documentos medievais  do mundo – e as primeiras informações sobre os essênios em Qumran, como no chamado Documento Sadoquita, que mais tarde se chamará Documento de Damasco, ainda muito obscuras. As pesquisas do doutor Schechter duraram até 1898, e na foto acima vemos ele concentrado, e decerto angustiado, em meio a tal massa de documentos desordenados, sobre as caixas e sobre a mesa – o sujeito precisa ter uma disciplina de trabalho espetacular para não ficar maluco em meio a tanto estímulo. Na foto abaixo vemos uma foto de como seria o aspecto dos documentos nessas caixas, quando de suas descobertas.


 

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22 março 2024

IMAGEM: ESPÍRITO DE VENCEDORES (1941)

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Nessa foto do jornal Daily Mirror, os moradores de uma área de Londres, os que sobreviveram, se reúnem no que sobrou de uma casa conhecida, depois dos bombardeios nazistas, para comemorar alguma coisa, durante o ano de 1941. Provavelmente o aniversário de um ou uma deles. Homens e mulheres relaxados, alegres – notem a que se sentou em cima do piano, muito à vontade, como se as paredes ainda estivessem lá, e ninguém é nem louco de faltar ao respeito com ela, pois todos são amigos e se conhecem, e, embora estranhos também possam aparecer, todos sabem qual é a regra quando em público: não faça ao outro (a) o que não quer que lhe façam. Observe que aqueles que você consegue discernir a expressão estão todos sorrindo ou curiosos. Tudo sem frescura ou hipocrisia, mas também com muito respeito e vontade de se divertir sadiamente. A bandeira do Reino Unido, do lado direito, lembra o momento em que estão vivendo: a Segunda Guerra Mundial, encurralados em sua ilha, fazendo das tripas coração para não se render a Hitler e à sua máquina, torcendo para que os americanos saiam do seu imobilismo, de seu isolacionismo estéril e burro. É interessante notar seus semblantes alegres e comparar com os rostos duros e tensos de alemães e russos em situações análogas nesse mesmo período. Só uma autêntica democracia pode causar isso. Com esse espírito que um povo pode facilmente deixar uma marca na história da humanidade, construir uma grande potência e se tornar um berçário de grandes potências.


21 março 2024

IMAGEM: EM FLAGRANTE (Séc. XVIII)

 

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Guerra é coisa cruel. Esse homem, que se alistou regularmente no exército inglês, para talvez combater os patriotas americanos, ou outra guerra qualquer, desertou e foi procurar abrigo junto à sua família, mais especificamente esposa e filho, acaba de ser encontrado pelos soldados que o procuravam. Em vão ele pede, "pelo amor de Deus", que os soldados deixem por menos e façam de conta que não o encontraram. Tudo em vão, inclusive a tentativa da esposa de enxotar os soldados com uma vassoura. Se for considerado culpado pela corte marcial a sua punição inapelável será o morte pela forca, afinal por alguns meses ele teve casa, roupa, comida e salários por conta do governo inglês e não havia ainda terminado o seu contrato de alistamento, justo quando as batalhas começaram a esquentar. Entre as fontes primárias americanas há um caso parecido; o do soldado raso John Sullivan, do 5º regimento a pé, que desertou em 1777. Levado a Corte Marcial foi condenado à morte, em abril de 1777, mas depois, perdoado, acabou desertando novamente, em setembro do mesmo ano, e dessa vez foi procurar abrigo longe de sua cama favorita.


19 março 2024

IMAGEM: MARIA ANTONIETA RUMO AO SEU DESTINO (1793)

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Era quase 11  horas da manhã, de 16 de outubro de 1793, quando a conspiradora franco-austríaca Maria Antonieta Joana de Habsburgo-Lorena, quase 38 anos, Rainha da França, parte na infame carroça de duas rodas, que antes levava o lixo da cidade, e agora leva os condenados à Place de la Concorde, em Paris, onde ficava armada a principal guilhotina de Paris, o instrumento de execução de todos os inimigos reais e imaginários da Revolução, rumo ao seu destino. Ao seu lado, vemos um padre olhando para baixo, constrangido, ao lado de uma Maria Antonieta indiferente e voluntariosa, sentindo fortemente a humilhação de seguir naquele carro, com as mãos amarradas. Esse padre foi-lhe oferecido pelos revolucionários, é um padre constitucionalista, logo prestou juramento à Revolução e o seu título e nome é Abade Girard, da paróquia de St Landry - Girard foi um entusiasta da Revolução, embora mais tarde tenha se retratado desse deslize, muito convenientemente em 1795, e como não era o seu confessor, Maria Antonieta recusará decididamente os seus serviços. Ao redor as pessoas gritam palavrões e desaforos, enquanto 30 mil soldados, espalhados por todo o percurso, evitam que a multidão faça justiça com as mãos e qualquer tentativa de resgate de última hora. Ela vai vestida de branco e não de negro, porque os revolucionários que o preto, que seria o normal, afinal ela acabara de perder o marido,   causasse algum sentimento de piedade entre as pessoas. Ao subir o cadafalso, sempre serena e firme, ela pisa no pé do carrasco, o famoso Henri Sanson - filho de outro carrasco famoso, Charles-Henri Sanson, que se aposentou após guilhotinar o rei, marido dela - lhe dizendo na ocasião: "desculpe senhor carrasco, não foi minha intenção pisar no seu pé". Estas foram suas últimas palavras. Às 12:15 h tudo estava acabado. Dizem que quando a carroça chegou junto à guilhotina, o Abade Girard, querendo dar uma de padre fiel, teria dito para ela, "Coragem, minha filha", a que ela respondeu com desdém: "Agora que vão acabar os meus sofrimentos, o senhor acha que me faltará coragem?"

 





18 março 2024

IMAGEM: ESPERANDO O TREM DA HISTÓRIA (1914)

 

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Os franceses em descompasso. Ora nas ruas clamando por revolução, porque as coisas não mudam, ora insistindo até o desastre em velhas receitas, e na manutenção de antigos hábitos. Há um bom tempo que os exércitos europeus estavam investindo em cores mais discretas para os uniformes dos soldados - os ingleses no caqui e os alemães e austríacos no cinza, os russos no verde, etc. de forma a camuflar e proteger mais os soldados, da eficiência das armas modernas. Na França os debates em torno desse tema assumiram feições apaixonadas na imprensa, "as calças vermelhas são a França", gritavam os editoriais, e o assunto morreu na casca. Na foto acima soldados franceses da Primeira Guerra Mundial aguardam o embarque para a frente de batalha entre 1914 e 1915, como se estivessem no século anterior; o vermelho vivo das calças não aparece tanto nessa foto artificialmente colorizada, o que dava aos soldados alemães um alvo perfeito: ´"é só mirar acima dos dois palitos vermelhos mais próximos". As baixas escandalosas no primeiro ano de guerra forçaram o Alto-Comando a rever essa situação, optando por um uniforme azul esmaecido e um capacete de aço famoso: o adrian. Eles repetiram a mesma mentalidade na Segunda Guerra, e dessa vez foram fragorosamente derrotados.

NA ESCOLA SUMERIANA

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Vida dura, a de estudante nas antigas escolas sumerianas, a edubba. Grandes blocos de alvenaria fazem as veze de cadeira, quase não há feriados ou férias, e os exercícios consistiam basicamente da copias intermináveis de antigos textos ou outros preparados pelo professor, além de uma quantidade interminável de contas matemáticas. Mas as famílias nobres e as mais abastadas sempre achavam que compensava, pois ela abriria ao educando a possibilidade de, no futuro, servir como escriba no palácio real, uma profissão que dava dinheiro e muito prestígio, o que, nas condições daquela época, significava principalmente isenções ou o privilégio de fazer coisas que não estavam ao alcance, embora estivesse no desejo, das pessoas comuns, sem sofrer maiores consequências - sonho de muitos políticos brasileiros até hoje, assim como os de chefões e chefetes de quadrilhas nos nossos subúrbios. Como o suporte para a escrita era a argila, os meninos, e só eles, ficavam todos sujos de argila, que carregavam em  porções em suas sacolas aos seus pés. As meninas não entravam. Nas tabuinhas já encontradas, os arqueólogos traduziram um relato ingênuo de um menino que estava tendo dificuldades na escola, apanhando muito do mestre, como era de praxe, por não aprender no ritmo que este queria. O pai, preocupado que o professor se desinteressasse do aluno, o que seria um desastre, resolveu convidar o mestre para um jantar, deu-lhe de presente uma bela saia de pele de carneiro, e o professor, satisfeito, disse-lhe que ia, dali pra frente, prestar mais atenção nos progressos do garoto, e até fez-lhe alguns elogios, para a alegria de todos e o nosso conhecimento de que, lá, os salários dos professores não era grande coisa... Como naquele outro país, com uma diferença: lá os pais ainda tentam agrada-los, aqui eles os ameaçam. 


16 março 2024

NÃO SE FAZ MAIS LADRÕES COMO ANTIGAMENTE (SÉCULO XVII)

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O nobre francês falido, Claude Du Vall, nascido em 1643, que trabalhava como lacaio do Duque de Richmond, resolveu mudar de vida e se tornar um salteador de estradas. E o foi. Um dos mais bem-sucedidos da Inglaterra, onde vivia desde 1660. De fato, fez fama por se trajar impecavelmente durante os assaltos e não praticar violência, mais que a necessária, com as suas vítimas. Seus modos finos e corteses, principalmente com senhoras e donzelas, chamavam a atenção. Acho que ele devia falar assim: "por favor, pode me passar, por obséquio, todo o seu patrimônio?" Quem iria ficar com raiva? Aconteceu que em algum momento ao final da década de 1660, em que ele e seu bando assaltaram uma diligência na qual ia um rico senhor (o homem de cabelos branco, amarrado, em primeiro plano), acompanhado de sua bela senhora, o galante bandido pediu-lhe que lhe fizesse par, para dançar ali mesmo o courante, uma dança tipo quadrilha em que o casal nem se toca (veja https://www.youtube.com/watch?v=8laqWk7qcQo). Um dos comparsas, a esquerda, faz o acompanhamento musical, Ele gostou tanto daquele momento que poupou ao casal alguns bens - cena apresentada nesse quadro de William Powell Frith, de 1860. Bonito, legal, mas os juízes, que deviam ser escoceses, preferiram considerar os prejuízos financeiros causados, e o condenaram ao enforcamento no dia 21 de janeiro de 1670. Na sua lápide escreveram assim: "Aqui jaz Du Vall: leitor, se você é homem/ Cuidado com a sua bolsa; se mulher com o seu coração/ Ele causou muitos estragos em ambos, pois fez/ Os homens se levantarem e as mulheres caírem/ Segundo os padrões de conquista da raça normanda/ Os homens se renderam ao seu braço e as mulheres ao seu rosto/ Du Vall a alegria das solteiras e  tristeza das senhoras". Isso hoje daria um baita processo....    



 

TRANSPORTE TERRESTRE NO SÉCULO XIX

 

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https://www.sammlungszentrum.ch/fr/services/collections/raineaux-vehicules

A diligência suíça, que fazia o correio e o transporte no Passo de São Gotardo é magnífica e começou a ser usada a partir de 1830, carregando apenas dois passageiros, devido ao pequeno fluxo, até se transformar nesse enorme carro para oito lugares, seis na parte fechada e dois no banco conversível mais elevado, atrás, a partir do ano de 1842, devido ao aumento da demanda provocada pela melhoria das estradas ao redor. O cocheiro viajava na parte de cima, exposto aos elementos. A viagem de Basileia a Milão, pelo Passo de São Gotardo, não era barata: ficava em 68,60 francos, o equivalente a três meses de salário dos cocheiros, mas sempre havia gente querendo ir, obrigando a empresa e abrir até um horário noturno. As diligências transportaram 14 mil passageiros em 1849, até alcançar o seu pico em 1875, com 72 mil passageiros, quando começou a decair em virtude da abertura de túneis para a passagem de trens, que encurtavam tremendamente a duração da viagem, até o encerramento do serviço em 1882. Entre os contratempos dessas viagens contam-se assaltos como o 22 de novembro de 1862, em que se roubou muito dinheiro e objetos de valor, e o de 13 de outubro de 1864, quando um cocheiro foi assassinado. Outro problema eram as avalanches de neve, como a de novembro de 1874, que matou o cocheiro. Conta-se que quando a carruagem passava nas cidadezinhas os moradores se punham em alerta, e se acontecia uma parada todos acorriam para ver os tipos esquisitos, gente de cidade, que saía dela, e ter assunto para conversa o resto da semana. Quando o serviço foi encerrado, muita gente ao longo da rota ficou sem seu ganha-pão e não poucos emigraram para a América para tentar outro modo de vida. Atualmente o serviço foi aberto novamente, para alguns trechos, a fim de entreter turistas (abaixo)

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TRANSPORTE TERRESTRE EUROPA OCIDENTAL (SÉCULOS XVIII E XIX)

 

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A França experimentou, entre 1774 e 1776, a modernizadora ação do Ministro das Finanças Anne Robert Jacques Turgot - entre os franceses era relativamente comum colocar nomes tradicionalmente femininos, como Anne, em meninos - e uma de suas ações foi estatizar as companhias de correios, que prestavam um serviço caro e muito precário, e assim surgiu, em 1775, uma viatura, tipo diligência, que as pessoas logo associaram ao nome do ministro, responsável pelo transporte tanto de correspondência como de passageiros. Da esquerda para a direita vemos um acento de dois lugares para o cocheiros e o ajudante, com uma cobertura conversível, para o caso de muito sol ou chuva, no centro uma cabine de 4 a 8 lugares, e atrás, sobre uma plataforma um enorme cento de vime para acomodar as bagagens dos passageiros além de uma cobertura sobre a cabine. Passageiros da época reclamavam da velocidade e da precariedade das estradas - sem um feixe de molas os solavancos deviam ser insuportáveis - que, além de esburacadas e cheias de irregularidades, eram estreitas, e forçavam os carros que se encontravam em direções opostas a saírem de seu leito e arriscar um tombamento, o que era razoavelmente comum. Em caso de ferimento dos passageiros, estes que pagassem a conta dos médicos. Em termos de velocidades, esse e todos os transportes até o início do XX, desenvolviam o mesmo que os cavaleiros do neolítico, que domesticaram o cavalo pela primeira vez. 

15 março 2024

IMAGEM: IH, SUJOU!


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Um garoto, provavelmente pensando em salário garantido, roupa bonita e vistosa, e viagens por conta do governo, além de prestígio junto às garotas - nessa época ainda havia o glamour das fadas - resolve se alistar no exército sueco no início do século XVIII, mas agora, o oficial do recrutamento lhe pede uma coisa para a qual não estava preparado: assinar o nome, pois nessa época, início dos 1700s, o analfabetismo na Suécia era superior a 50%, semelhante a do Brasil em 1950. Note-se os seus grandes sapatos de madeira,  distintivos de sua condição social pobre, uma vez que sapatos de couro era muito caros, e a borracha e a lona para tênis não tinham sido ainda inventados. Não sei dizer se nessa época era obrigatória a alfabetização para efeito de ingresso no exército sueco, mas isso sempre depende do momento. Se existe paz as exigências aumentam, mas se há guerra, então se fazem manobras "por baixo dos panos", e todo mundo é aceito; até menor, principalmente se for pobre... A precariedade da luz artificial, as velas na prateleira e pendurada no teto, faz com que toda cena ocorra debaixo de uma janela, enquanto há luminosidade natural, que na Suécia não é muito comum. 

O FIM DE CARLOS XII (1718)

 

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Em vez da vitória a decepção, em vez de um retorno glorioso, a morte seguida de derrota. Carlos XII da Suécia bem que podia ter pendurado as chuteiras dos campos de batalha depois da derrota em Poltava (1709), mas quem se propõe a governar um império ou reino poderoso não se aposenta quando quer; mas quando deixam, sem falar que a História é uma amante exigente que cobra caro daqueles que buscam o seu favor - por isso minha relação até agora tem sido platônica. O certo é que no início do século XVIII havia uma instabilidade permanente na Escandinávia, envolvendo especialmente os interesses de Suécia e Dinamarca, e a Noruega como recheio do sanduiche. Enfrentando uma coligação de reinos que incluía Hannover e Saxonia (na Alemanha), Rússia, Inglaterra e Dinamarca, os suecos atacam o forte norueguês de Fredriksten, na esperança de forçar a Dinamarca a abandonar esse país, que estava unido a ela, e ameaçava território sueco. No dia 11 de dezembro de 1718, enquanto inspecionava as trincheiras, ele foi atingido pela metralha de um canhão da fortaleza, que lhe atravessou a cabeça, na têmpora, matando-o na hora - o ferimento é visível no quadro acima - obrigando ao exército sueco a uma retirada apressada (o velho e a criança, ao lado, deve estar rezando por duas coisas: pela alma do rei e para que os impostos não aumentem muito devido ao fracasso da guerra). A guerra e a história acabaram para Carlos XII, que não teve tempo sequer de constituir uma família e deixar herdeiros; o reino ficou para a sua irmã, Ulrica Eleonora. SOBRE O QUADRO: esse quadro foi pintado pelo pintor sueco Gustaf Cederströn (1845-1933), muito depois do ocorrido, em 1878, usando modelos e modificando como de fato ocorreu o transporte do corpo de Carlos XII, numa forma de enaltecer o monarca, como se fora um símbolo, a fim de participar de uma exposição de arte em Paris, onde a tela foi vendida a um nobre russo. Essa notícia deixou os suecos em polvorosa, dispostos a atirar pela janela seu frio pragmatismo habitual, porque o quadro do seu rei fora parar nas mãos de seus inimigos piores históricos, e Cederströn foi convidado, e quase intimado, a fazer uma replica em 1884. Mais tarde o quadro original voltou para a Suécia e está no Museu de Arte de Gotemburgo.   

DIFERENÇA ENTRE O ARADO E CHARRUA MEDIEVAIS

 


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Eduardo Simões (a Margarida Maria)

Livros e sites em português na Internet tentam explicar, sem sucesso, a diferença entre o arado antigo e a charrua medieval, uma diferença que não se nota em outras línguas, como o inglês, e buscam explica-la a partir de detalhes como: era feito de ferro, era pesado, tinha rodas, puxado por animais, etc. mas não é bem assim. A gravura acima mostra um arado egípcio antigo puxado por bois, mas a característica que devemos observar é o formato da lâmina ou da parte do arado que rasga o solo, e que é universal nos arados antigos: é uma ponteira. Exatamente como a ponta de um lápis, e que podia perfeitamente ser de madeira, de ferro ou outro material resistente. Esse formato como que “risca” o solo, faz com que o arado penetre só superficialmente a superfície. Ele é próprio para terrenos leves, granulosos (grãos soltos) de pouca profundidade, como os solos do sul da Europa, na bacia do Mediterrâneo, ou de outros lugares.



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A principal característica da charrua era a lâmina de aiveca, ou seja a lâmina curva, decerto metálica e em geral mais pesada que o arado tradicional de madeira, mas que tinha um efeito bem diferente do arado de ponteira tradicional. A aiveca corta e revolve a terra; traz a terra que está abaixo da superfície para cima, e ajuda a oxigenar o solo e à proliferação de micro-organismos, o que é muito benéfico para o desenvolvimento das plantas, ainda mais num solo que, apesar de mais fértil, era compactado de três a quatro meses por ano por toneladas de neve, todos os anos. Esse solo, mais fértil, porém, mais pesado e mais profundo, só podia render bem com a aragem pela charrua, ou o arado de aiveca. Entretanto cuidado!!! Esse mesmo recurso, usado em solos leves, mais granulosos, pode ser muito danoso e acelerar a erosão e perda de solo, então não podia ser usado nas regiões da Europa Mediterrânea – num exemplo recente, um fabricante inglês desenvolveu um arado de aiveca leve e barato, o Ransome Victory, foto acima, que foi amplamente distribuído entre os agricultores do Quênia e da África Austral, na década de 1920, e o resultado foi uma catastrófica perda de solo nas regiões onde foi usado mais intensivamente, como em Zâmbia.

14 março 2024

FIACRES (TÁXIS)- 1890

 


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A disputa por um lugar, numa tarde chuvosa, na Place de la Concorde, na Paris de 1890, num elegante fiacre, termina bem, pois o ilustre cavalheiro, com uma grande cartola e gestos solenes, compreensivamente, conforme mandava a etiqueta, cedeu o veículo a uma bela senhorita, que olha agradecida pela janela, embora nem sempre essas situações acabassem assim. Ao seu lado. Na chuva, uma senhora, talvez filha da classe operária ou da pobreza onipresente, com uma criança nos braços, estende-lhe a mão para receber um algo mais que uma simples cortesia. Os taxis de Paris tiveram o seu início em uma concessão real dada a Nicolas Sauvage, um construtor de carruagens do interior, que veio se instalar no Hotel São Fiacre, em Paris, em 1645, de explorar o transporte público em carruagens, que iam para 8 lugares diferentes, em 5 linhas, serviço que durou até 1679. Essas carruagens passaram a se chamar “fiacres”, e em 1789 elas já eram 800. Em 1855, Napoleão III, determinou o monopólio, e criou a Compagnie Imperiale de Voiture à Paris, que em 1860 administrava 3.000 fiacres de diversos tamanhos e 10 mihões de passageiros/ano – o monopólio acaba em 1866. Os fiacres foram perdendo a importância a partir de 1898, com a introdução do automóvel, mas até 1911, 3.500 veículos puxados a cavalo fazendo serviço de transporte público em Paris. Avaliem o cheiro! A cultura parisiense cultivou o mito do fiacre, como local privilegiado de encontros proibidos, entre homens e mulheres, casados ou não, nas chamadas "corridas de alcova", e para isso as janelas tinham cortinas, embora não isolamento de som, gerando farto material para as comédias e operetas de teatros e cafés-concertos, e muita música picaresca. Conta-se até que um músico desses espetáculos, León Fourneau, ou Xanrof (1867-1953), quase foi atropelado por um motorista de fiacre, distraído com as peripécias de um casal dentro do seu veículo. Nos fiacres antigos, como nos táxis de hoje, em dias de chuva podia haver problemas: quando um passageiro entrava pela porta da calçada e outro pela porta da rua ao mesmo tempo, às vezes tinham que ir até uma delegacia, para o delegado decidir com quem ficaria o transporte.

A EXECUÇÃO DE YEMELIAN PUGACHEV (1795)



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Yemelian Pugachev é filho de um cossaco proprietário de terras na bacia do rio Don, que deserta do exército, onde fazia carreira e assume a chefia de um gigantesco movimento camponês-popular que alcança tal envergadura que chega a ameaçar a elite governante russa em Moscou, chefiada pela imperatriz Catarina II. Embora as razões do movimento de Pugachev sejam justas, acabar com a brutal exploração do campesinato pela nobreza, seus métodos são absolutamente brutais e sanguinários, tanto quanto o daquele que combate, por isso, quando é derrotado em Tsaritsin, 1774, e logo depois preso. O inquérito não foi muito longo, mas foi penoso para Pugachev, como podemos ver pela jaula onde foi aprisionado, abaixo, e ele é, condenado, no julgamento à pena de esquartejamento. No dia da execução, 10 de janeiro de 1775, ele aparece tranquilo e solene. Sobe ao cadafalso, pede perdão, curvando-se nos quatro lados do tablado, ao "povo cristão ortodoxo". E aí ocorre algo inusitado, segundo uma testemunha ocular: pela lei, o carrasco devia primeiro cortar os membros para só depois cortar a cabeça, prolongando o sofrimento do condenado, para a grande alegria dos representantes da nobreza presentes ao evento, mas o carrasco, seja porque nutria simpatias pelo condenado, seja porque tenha sido subornado ou porque era apenas um prisioneiro destacado para isso, e se atrapalhou, começa cortando a cabeça. O oficial que comandava a execução grita para ele: "SEU FILHO DA.... vamos logo para os braços e pernas", como quem diz: "quem sabe ele ainda sinta alguma dor!". Foi só mais um dia na velha Rússia czarista.



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OPINIÃO: QUEM É ESSE HOMEM?



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https://www.bbc.co.uk/programmes/b05xd5s1

Eduardo Simões (a Margarida Maria)

Recentemente o papa bergoglio, se meteu em mais uma polêmica, até parece o nosso presidente, ao dar a entender que a guerra estava perdida para a Ucrânia, e que ela devia se render. Talvez até alguém diga que ele tem frequentado muito as redes sociais, e anda pegando gosto...

Mas se analisarmos as reações do papa, sobre o assunto e outros correlatos, desde o início do pontificado, veremos que já se manifesta um padrão. Por exemplo, em 2015, logo após o massacre da direção do jornal Charlie Hebdo, e de outros inocentes nas ruas de Paris, quando indagado a respeito, ele disse textualmente: “É verdade que não se deve agir violentamente, mas se o doutor Gasbarri (seu secretário) falar alguma coisa contra minha mãe, espere um soco, é normal, é normal, você não pode provocar, não se pode insultar a religião dos outros”.

Afinal o que ele está dizendo? “Não se deve agir violentamente” contradiz frontalmente a ele considerar “normal” alguém responder com um soco a uma ofensa verbal; e ao dizer que “não se pode insultar a religião dos outros”, torna também “normal” o massacre da direção do jornal, de cidadãos e policiais franceses, atingidos pela sanha sanguinária, dos terroristas. Essa resposta foi um escândalo. 

Logo que a Ucrânia foi atacada ele saiu com mais uma dessas expressões misteriosas, dúbias, a marca do seu pontificado. Quando, indagado por uma revista jesuíta (La Civilta Cattolica) sobre a guerra na Ucrânia ele disse que: 

“Para responder a essa pergunta, temos que nos afastar do esquema normal de "Chapeuzinho Vermelho": a Chapeuzinho Vermelho era boa e o lobo era o mau. Aqui não há bons e maus metafísicos [absolutos].... Alguns meses antes do início da guerra encontrei um chefe de Estado, um homem sábio, que fala pouco, muito sábio mesmo.... estava muito preocupado com a maneira como a OTAN estava se movendo. Eu lhe perguntei o porquê, e ele me disse: "Estão latindo nas portas da Rússia. E não entendem que os russos são imperiais e não permitem que nenhuma potência estrangeira se aproxime deles".

“Aquilo que estamos vendo é a brutalidade e a ferocidade com que esta guerra está sendo conduzida pelas tropas, geralmente mercenárias, utilizadas pelos russos.... Mas o perigo é que só vemos isso, o que é monstruoso, e não vemos todo o drama que está se desenrolando por trás desta guerra, que talvez tenha sido de alguma forma provocada ou não impedida. E registro o interesse em testar e vender armas”

(fonte: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2022-06/papa-francisco-conversa-revistas-jesuitas-la-civilta-cattolica.html)

Sobre essa resposta longa, capciosa e muito confusa, chamamos atenção para o seguinte:

1º - A questão central não é metafísica, mas bem FÍSICA, a invasão e o arrasamento de um país pequeno e pacífico, por outro mais poderoso, sem qualquer agressão ou ameaça prévia.

2º - “Sábio” aos olhos de quem coloca Rússia e Ucrânia no mesmo nível, como o nosso presidente?

3º - Mas que estranha justificativa! os russos são imperiais então devemos nos curvar toda vez que eles se sentirem ameaçados? Não foi isso que diziam e fizeram os apaziguadores antes da 2ª Guerra Mundial, e tudo que conseguiram foi dar a Hitler muitas vantagens para iniciar a sua uma guerra?

4º - O papa reconhece que a “brutalidade e ferocidade” dos russos é “monstruosa”, mas nos convida a olhar noutra direção. Na direção do quê, exatamente? Um “drama... por trás”; “talvez [a guerra] tenha sido provocada”, ou seja: o mesmo discurso ambíguo, obscuro, indefinido, da esquerda tentando justificar o injustificável. Me desculpe santidade ou vossa senhoria começa a “dar nome aos bois”, aponta a direção para nós olharmos, ou pare de falar besteiras.

5º - Afinal sai algo concreto: “o interesse em testar e vender armas”. Logo vi, são “o capitalismo e os capitalistas de sempre”. Suprema ironia: a Rússia é o terceiro maior exportador de armas do mundo, e o peso relativo e absoluto da indústria bélica russa, no conjunto da economia do país, só fez crescer com a guerra – segundo alguns até 40% do orçamento anual e o conjunto da economia russa está sendo dirigido para o atendimento da guerra, enquanto o Ocidente capitalista e “malvado” pena para abastecer a Ucrânia. Não existe país que esteja investindo mais nessa guerra do que a Rússia, e indústria bélica que esteja lucrando mais do que a russa.

O papa nunca pôs os pés na Ucrânia, pois ele sabe o quanto Putin não é confiável, e quando interagiu com os russos incitou aos jovens a seguir o modelo de czares imperialistas e autocratas brutais [Pedro o Grande e Catarina II], em agosto de 2023, com a invasão já em curso, e que agiam justamente como Putin age agora. Assessores tentaram corrigir a lambança: “o papa pretendia encorajar os jovens a preservar e promover tudo o que há de positivo na grande herança cultural e espiritual russa, e... não exaltar a lógica imperialista e as personalidades governamentais”. 

É pergunta é óbvia: porque ele não citou então os grandes nomes da cultura russa como Tolstoi, Gogol, Gorki, Dostoievsky, Repin, Pasternak, Chagal, Kandisnky, Tchaikovsky, Stravinsky, Pushkin, Akhmatova, Vereshchagin, etc. etc. etc. Por que, por todos os santos, não aproveitou a ocasião para fazer menção ao legado cristão da Rússia, de Cirilo e Metódio, os apóstolos dos eslavos, e lembrar que guerras de agressão são sempre contrárias ao espírito do cristianismo? Não, não dá para acreditar que ele queria dizer outra coisa além do que disse, nem que não tenha cultura suficiente para citar os grandes artistas russos do passado, mas consigo conceber um “ato falho”.

O ápice veio com essa última declaração, cercada da mesma verborragia enganosa, ambiguamente caridosa, de sempre: considerando que a Ucrânia não pode ganhar a guerra, “é preciso ter coragem para levantar a bandeira branca e negociar a paz”, como se essa fosse uma guerra comum, equilibrada, entre dois países, independentes e autônomos, que decidiram acertar as contas numa guerra. Essa proposta, joga o conceito de “justiça” na lata do lixo, e coloca rigorosamente Rússia e Ucrânia no mesmo nível de responsabilidade pelo conflito, e chama de guerra o que na verdade foi um invasão, não provocada, não alertada – ao contrário, a Rússia prometeu até o último momento que não haveria guerra.

Agora não se trata mais de enquadrar os intrigantes: os governos e as sorrateiras indústrias de armas, que estimulam as guerras por interesses inconfessáveis, mas pensar nas pessoas que estão morrendo, sem indicar nada sobre a questão principal: o que vai sobrar do direito internacional se sacramentarmos a vitória antecipada, ainda não decidida no campo de batalha, da Rússia. 

Iniciar uma negociação de paz sem qualquer condição prévia, que não seja o respeito aos tratados já assinados pela Rússia, é o mesmo que abrir o período de caça a todos os países pequenos que resistem à influência de vizinhos poderosos, com a benção do papa. É o mundo da lei do mais forte, dos fora-da-lei, sem falar que esvazia frontalmente a proposta ucraniana de paz, já apoiada pela União Europeia, e torna o agressor, Putin, o grande protagonista e senhor do processo de paz, enquanto a Ucrânia é jogada, pelo papa, na difícil situação de "inimiga da paz", ao mesmo tempo em que convoca as nações para empurra-la a abrir mão de seu território mais rico e a engolir, sem mais, os crimes horríveis que sofreu até agora!

 Infelizmente, esse não é um mau hábito do papa atual, desenvolvido a partir das redes sociais, mas uma crença pessoal sobre o funcionamento do mundo que não passa pelo respeito e admiração pela democracia, os fundamentos da civilização e da cultura ocidentais e às leis internacionais, visível nas diversas vezes que ele foi chamado a opinar sobre esse e outros assuntos. 

Fontes:

https://www.dw.com/pt-br/l%C3%ADderes-mundiais-prestam-homenagem-a-veteranos-do-dia-d/a-49071466

https://www.terra.com.br/noticias/mundo/mundo-relembra-70-anos-do-dia-d-com-homenagens,728e1c3cb2c66410VgnVCM3000009af154d0RCRD.html

https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2022-06/papa-francisco-conversa-revistas-jesuitas-la-civilta-cattolica.html

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/vaticano-diz-que-francisco-nao-exaltou-czares-russos-em-frase-criticada-por-ucranianos/


12 março 2024

O DESTINO DE CLARENCE MCKENZIE (1861)

 


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https://www.green-wood.com/2013/june-11-clarence-mackenzie/

Clarence McKenzie e seu irmão Willie, eram dois adolescentes nova-iorquinos, do século XIX, de 12 e 13 anos respectivamente, que, contaminados pelos ares da guerra, resolveram se alistar no exército, em 1861, logo que estourou a Guerra Civil Americana. A mãe foi contra, mas o pai adorou a ideia, pois isso encheria a família de honra e fama, seeeeee... os meninos voltassem vivos da guerra. Os dois estavam muito abaixo da idade mínima de se alistar, mesmo com autorização do pai, mas foi feito um cambalacho e os dois se alistaram no 13º Regimento de Nova York. Mas Clarence não viu a guerra. Ainda durante a fase de treinamento, um amigo pegou um fuzil carregado sem o saber, e disparou-o acidentalmente, em Clarence. Enquanto agonizava ele dizia: "O que minha pobre mãe vai dizer". Ele faleceu, pouco depois, às 14:00h do dia 11 de junho de 1861.Seu enterro em Nova York foi um acontecimento; em torno de 3 mil pessoas o acompanharam, e hoje um monumento, no meio das tumbas dos veteranos dessa guerra, no Cemitério de Green Woods do Brooklin, o destaca do restante (abaixo). Morreu como um homem, mas ainda era uma criança. Numa de suas cartas ele diz para a mãe "Mãe, por favor mande outro bolo, pois o último os meninos [seus camaradas na banda] comeram todo". 

  
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https://civilwarchildren.wordpress.com/after-the-war-2/clarence-mckenzie/




GLOBONEWS: TODOS CONTRA A POLÍCIA

 

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Eduardo Simões (a Margarida Maria)

Estou hoje, 12 de março de 2024, assistindo ao Jornal globonews, quando leio no rodapé embaixo na tela uma mensagem que me deixa estupefato: “mais polícias nas ruas, mais homicídios”. Vejam bem que essa chamada não nos remete a nenhum fato específico, a um estudo sério, feito por gente séria em uma instituição séria, nada disso: é a linha editorial, o posicionamento oficial da emissora.

Qualquer um pensaria logo: “é coisa de estagiário esquerdista fanático, feita sem o conhecimento da editoria do jornal”. Mas como pode um texto tão escandaloso, quase criminoso, fica passando impune por tanto tempo sem uma correção, supondo que não é a linha editorial da empresa. Os executivos da Globo não assistem à emissora? Só há uma explicação possível e razoável: esse texto, que joga o povo contra a polícia e dá ‘moral’ para bandidos, não apareceu aí por acaso ou por “falha no sistema”. É intencional.

Essa impressão fica mais forte ainda quando a gente lembra do tratamento dado pela emissora ao caso da menina Ágata, que, como sabemos, foi vítima de um disparo da arma de um policial, cuja bala, seguindo uma trajetória absurda, vitimou a criança. Pois bem, durante uma semana, o apresentador do programa Em Pauta, da globonews, fez editoriais apaixonados, furiosos, expondo o crime do policial, chamando bastante atenção para o fato de o autor ser um policial e a criança ser pobre e preta.

Nessa mesma época, porém, ocorreu um crime muito pior, envolvendo crianças pobres e pretas. Três molequinhos de uma comunidade, desapareceram, e posteriormente se descobre, que os três, roubaram a gaiola com o passarinho de estimação do traficante local; descobertos, os três foram barbaramente torturados e assassinados. As chamadas na globonews, apesar desse crime ser muito mais grave que o de Ágata, foram supermoderadas, e a abordagem da notícia preferiu chamar atenção para o fato de os próprios traficantes terem dado cabo dos assassinos – claramente para evitar a presença da polícia na comunidade, com prejuízos para os negócios – chamando a atenção para a incapacidade da polícia, como se fosse fácil a um policial obter informações dentro de comunidades. 

Por que a diferença? É medo de represália dos traficantes ou é para não revelar que a origem de muita e da pior violência provém justamente de dentro mesmo das comunidades, invalidando o discurso do conflito racial que a empresa tanto investe?

Quando fala das vítimas da violência, a globonews sempre ressalta, a cor e a condição social destas, quando são pretas e pobres, mas não cita a cor daqueles que cometem os crimes, ou a sua motivação, exceto quando reforça a sua política de estimular o conflito racial no Brasil, como foi o caso recente de um entregador, preto e pobre, ferido por um policial militar branco. Uma apresentadora da globonews, famosa por seus desatinos, deu bastante ênfase ao anunciar o detalhe: “BRANCO”. E ela também é BRANCA! Um estrangeiro, que assista a globonews, é levado a pensar que o Brasil é dirigido por uma elite de loucos psicóticos, brancos de classe média e alta, que vivem em coberturas e condomínios exclusivos, que, por esporte ou compulsão, largam seus luxuosos condomínios e vão matar pretos e pobres na periferias das grandes cidades!! É assim?

Mas de que cor era mesmo o sujeito que degolou uma velha de 77 anos e a sua funcionária de 52, e meteu fogo no apartamento da Zona Sul do Rio? De que cor era o senhor de 42 anos que sequestrou, estuprou e matou uma criança de 12 anos, se matando em seguida, em Minas? De que cor era o assassino Tim Lopes? Quem como eu, acompanhou esses crimes no noticiário, sabe que os autores destes crimes são todos pretos, e suas vítimas, menos o Tim Lopes, eram brancas, agora só sabe disso quem viu seus rostos na TV, porque parece ser política editorial da emissora, ressaltar apenas a cor das vítimas e nunca dos assassinos, a não ser que estes sejam brancos e/ou da polícia.

Por fim eu gostaria de perguntar aos responsáveis pela rede globo se quando ocorre um crime dentro da emissora, se a empresa segue o conselho do Chico Buarque e chama o ladrão, os traficantes, os Robin Woods das esquerdas, capazes de torturar e matar três crianças. Farão melhor que essa polícia tão agredida pelo jornalismo militante? 

Nem Chico Buarque acredita nisso, e é por isso ele que ele prefere morar no Leblon, frequentar a praia do Arpoador, o Calçadão de Ipanema, pontos comerciais sofisticados, cercado de gente branca e não exatamente pobre, bem diferente do que sugere nas suas músicas, sem falar que comemorou seus oitenta anos em Paris!!! Chico chique...

Obs: Essa chamada imoral foi vista por mim pela primeira vez às 6:50 h da manhã, e só parou de ser veiculada às 11:30h, passando ao ritmo de uma a cada 2 minutos. 

11 março 2024

IMAGEM: A MORTE CEIFADORA (1640)

 

https://www.deutsche-lieder-online.de/images/es-ist-ein-schnitter-heisst-der-tod-der-todesengel-praraffaelitisches-gemalde-von-evelyn-de-morgan-1881-450.jpg
https://www.deutsche-lieder-online.de/es-ist-ein-schnitter-heisst-der-tod-deutsches-volkslied.html

A imagem da morte como um ceifeiro, no Ocidente, surge no seio de uma sociedade agrícola, torturada por ondas de mortes causadas pelo flagelo da peste negra, a partir do século XIV. nada mais natural uma vez que a vida de todos provinha da atividade dos ceifadores no início das colheitas, que não trazia alimentos para os vivos e excedentes para o comércio internacional, também baseados em produtos agrícolas, extraídos ou plantados. A morte das plantas resultava na vida e a falta delas, algo não muito raro naqueles tempos, em morte ou perigo de morte para muitos ou para todos. Há um poema popular alemão famoso, a respeito disso, datado de 1640, chamado chamado "Der Schnitter Tod": "A morte ceifadora". A primeira estrofe é angustiante: "Há um ceifador chamado morte/ Ele ceifa o grão quando Deus ordena/ Ele está afiando a foice/ Para que corte melhor/ Logo ele vai te cortar/ E você se encontrará só/ Entre na fila para a colheita/ Cuidado linda florzinha (a alma)". Mas a última estrofe é mais esperançosa: " Apesar de tudo, morte venha aqui, que eu não tenho medo/ Eu te desafio a acabar rápido o que tens de fazer/ E ainda que eu me fira/ É assim que me transportarei/ Para o jardim celestial/ Aquele porque todos ansiamos/ Alegre-se minha linda florzinha" (adaptação da tradução Google do original em alemão)...
OBS: o quadro acima, que ilustra esse texto, não é de 1640, mas do século XIX ou início do XX.

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