Eduardo Simões (a Margarida Maria)
É complicado discorrer historicamente sobre o mais famoso personagem
da história do Ocidente. Jesus Cristo teve pelo menos quatro biografias “autorizadas”:
duas escritas por quem o conheceu de perto, e outras duas por quem o conheceu
de “segunda mão’, por meio de quem o conheceu de perto, exatamente como são escritas
uma infinidades de biografias reconhecidas hoje em dia como dignas de citar
elementos históricos, e nenhum de seus biógrafos foi, até hoje, denunciado por
alguma falsificação ou fraude quanto à sua identidade e acréscimos indevidos à
sua narrativa.
Sabe-se que Jesus foi um pregador, como muitos que existiram
nessa época de crise, na região mais próspera do mundo antigo, na confluência
do Ocidente com o Oriente, naquela época disputada pelas maiores potências regionais:
o Império Romano e o Império Parto, na antiga Pérsia, que condensavam outra
disputa mais abrangente que passava ao largo, mas também motivava, o choque de
potências políticas: a luta entre a Cultura Ocidental, com seu viés
materialista, crítico e imanente, politicamente “democrático”, e a Cultura
Oriental com seu viés mais espiritual, resignado, transcendente, politicamente “autoritário”.
E devemos ressaltar também que ele não pode ser definido apenas como um “pregador”,
com manias de reformas ou de aparecer aos seus contemporâneos como profeta, embora
seja isso também, porém antes como um pregador marginal, periférico, nascido e
educado em lugarejos inexpressivos, longe do centro de poder, que era
Jerusalém, com uma mensagem de reforma em favor de uma camada da população
desassistida pelos poderes políticos, e em confrontação com o centro de poder
já estabelecido no magnífico Templo de Herodes. Sua pregação inclusive ocorreu,
cresceu e consolidou-se em regiões da periferia, Galileia e Samaria, indo raramente
ao centro; da última vez para morrer.
Viveu cercado de pobres e fracassados, quando muito um ou
outro equivalente à nossa classe média, e quando alguém mais abastado ousava se
aproximar ele impunha a que este abrisse mão de seus bens. Há fortes indícios,
nas suas quatro biografias, que ele procurou ativamente a sua morte. Um
suicida?
Nesse sentido ele destoa muito de seus êmulos que também
fundaram grandes religiões, como o príncipe Sidarta Gautama, o Buda, saído diretamente
de um centro de poder político e econômico, e Mohammed, que se tornou um rico mercador,
antes de sua reforma religiosa, com um bom suporte político e econômico para a
sua causa, cuja gestação ocorreu em torno do centro de poder da Arábia, e que, mais
tarde, se tornaria o centro da nova religião. Nesse sentido podemos dizer que,
contrastando com as outras, o cristianismo fez a revolução mundial dos “pobres
coitados”, e mesmo sem ser esse seu objetivo precípuo, acabou fazendo em largas
regiões do globo, em especial no Ocidente, uma revolução política e social, cuja
profundidade tem sido atualmente contestada, talvez de forma equivocada, por muitos
tentarem projetar no passado valores e costumes próprios deste tempo.
Nesse sentido, a capacidade de sua doutrina, tão contrária às
forças que tradicionalmente supomos moldar as sociedades, como a prosperidade
econômica e o poder político e social, de impregnar os agentes sociais e orientar,
ainda que precariamente, as suas ações – o nível de suas exigências é
estonteante – sem falar da estranha capacidade de sobrevivência das
instituições por ele criadas, tudo isso baseado em dois absurdos: um ser, supostamente
mais poderoso que a natureza, que se deixa matar da forma mais vergonhosa
possível, e um homem que passou pela experiência que nenhum outro passou: a
ressurreição, constitui sem dúvida um mistério e uma fonte permanente de
reflexão sobre o que realmente move a história do mundo, as ações humanas e
para onde caminha essa humanidade, e talvez isso explique também a dificuldades
porque muitos, apesar das abundantes provas, têm em reconhecer a sua historicidade,
pois isso nos obriga a ficar alertas contra teorias que tentam simplificar ou
racionalizar em demasia a dinâmica do processo e as motivações dos agentes da
história.
Talvez só o Grande Dramaturgo (Shakespeare) consiga expressar
o sentimento que toma conta de nós, quando refletimos profundamente sobre esses
fatos: “Existe mais coisa entre o céu e a terra, do que imagina a nossa vã sabedoria”















