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(Acima: O caipira de Piracicaba. O melhor presidente que o Brasil já teve, e um completo desconhecido para nós, e talvez por isso, também o mais difamado)
A importância da política
(final)
Eduardo Simões
O Rio de Janeiro não
está melhor
A deposição de Deodoro gerou uma difícil aliança entre os
cafeicultores paulistas e a ala autoritária do exército comandada pelo
Vice-Presidente Floriano Peixoto. Os paulistas logo perceberam que com esse também
não poderiam pregar os olhos. O seu autoritarismo natural, o seu temperamento
inexorável, tendiam a ver a existência de outros projetos políticos para o
país, como uma ofensa pessoal, e, de uma forma mais sorrateira e cruel que
Deodoro, pôs-se a combatê-los com uma determinação neurótica, sem medir, tempo,
despesas e vidas, que se perdiam aos montes.
A rendição incondicional era a sua única proposta na mesa.
Enquanto isso os cofres públicos iam se esvaziando, a dívida externa crescendo,
e um sólido programa de valorização para o café e a agricultura em geral ficava
em compasso de espera.
A medida que o tempo passava Floriano dava sinais ambíguos,
se iria largar o poder quando chegasse a hora. Os paulistas acercaram-se de
todas as alianças para garantir o controle do Congresso e a realização de
eleições normais ao final do mandato de Floriano. Destacou-se na defesa desse
encaminhamento o político baiano Manuel Vitorino, que, por isso, foi chamado
pelos republicanos para compor a chapa com Prudente de Morais, e que, na eleição
de 1º de março de 1894, adiada por Floriano – deveria ser em outubro de 93 – saiu
vitoriosa.
A presidência de Prudente começou estranha, em 15 de novembro
de 1894. Ninguém foi busca-lo na estação Central do Brasil, e ele foi de taxi
para o Palácio do Itamarati, a sede do Governo Federal, e o encontrou praticamente
abandonado. Floriano escafedera-se após destruir a mobília. Segundo Edgar
Carone (A Republica Velha II - evolução
política (1889-1930); 4ª edição; Diffel; São Paulo; 1983; p 147), Floriano
estava pensando em aplicar um golpe, mas foi demovido desse projeto em virtude
de resistência no meio político e militar, inclusive do célebre coronel Moreira
César, que nesse momento ajudou a salvar a legalidade e a democracia.
Contrariado abandona o cargo, mas sai falando mal do governo – ele não
suportava os civis – até que a morte nos livra desse flagelo, em junho de 95,
não sem antes fomentar todo tipo de desconfiança contra Prudente e deixar um
“testamento político” em que ignora completamente seu sucessor e o valor de
governo pacífico.
A morte repentina de Floriano, não aliviou as coisas para
Prudente, até piorou, poi ajudou a levantar um culto apaixonado ao Marechal, em
especial na capital federal e no Rio Grande do Sul, ficando o paulista na
incômoda oposição de o último grande inimigo do Marechal de Ferro, do
Consolidador da República. Títulos bons para desviar a atenção para o grande
desastre que foi a sua administração...
Os florianistas, que às vezes se autoproclamavam jacobinos,
como na Revolução Francesa, muita agitação nas ruas, nos jornais e nas
casernas, principalmente depois da iniciativa de Prudente em fechar um acordo
com os marinheiros da Revolta da Armada e os Federalistas gaúchos, para a
cessação das hostilidades. Os cofres públicos e a sociedade brasileira não
suportavam mais tanta despesa, destruição e matanças. Em 23 de agosto de 1895,
o país começa a entrar num ciclo de paz.
Golpe contra Prudente
Em 10 de novembro de
1896, após passar por uma intervenção cirúrgica Prudente entra em licença
de tratamento. O Vice, Manuel Vitorino, andava bandeado para os florianistas, embora
até ali inspirasse confiança, mas suas primeiras iniciativas geraram muita
apreensão.
Em primeiro lugar reformou todo o ministério, deixando apenas
um dos ministro de Prudente, Bernardino Campos, que informava o presidente
licenciado de tudo – havia também um estudante de medicina disfarçado de
copeiro de olho no golpista. Apesar de os cofres públicos estarem em petição de
miséria – por causa do encilhamento e das guerras no Sul – Vitorino comprou um
palácio novo para morar, o Palácio do Catete, por uma fortuna, e que será a
residência oficial do Presidente da República até inauguração de Brasília.
Armando um golpe começou a se cercar de jacobinos e florianistas
radicais, civis e militares, pensando em resistir a Prudente pela força. E é nesse
momento, com a República em estado de “boteco em escombros”, que Canudos
acontece, justo para salvar o regime que o Conselheiro tanto abominava. Nossa
história é muito estranha.
Em 21 de novembro de
1896, acontece a inesperada e sangrenta batalha matinal de Uauá, evolvendo
os conselheiristas e a tropa do Tenente Manuel da silva Pires Ferreira. Mas não
chamou a atenção para do país.
Nos dias 18 e 19 de
janeiros de 1897 ocorrem as duas batalhas envolvendo a expedição do Major
Febrônio de Brito, com centenas de homens, canhões e metralhadora. Ao ser
forçada a recuar, essa expedição chamou a sua atenção das autoridades para o
que estavam enfrentando em Canudos. Não podia ser apenas um ajuntamento de
fanáticos e gente simplória e sem juízo. O problema começou a ganhar contornos
nacionais, e para justificar as pataquadas e motivar a repressão os militares e
civis jacobinos começaram a falar em reação monarquista e ajuda externa aos
rebeldes. Ninguém dava nada pelos homens e mulheres que habitavam e a região
mais inóspita e pobre do Brasil.
Alguém, creio que foi Edgar Carone, conjeturou que, quando esse
assunto chegou à capital, empolgando os meios militares e a classe média do Rio
de Janeiro, Vitorino viu aí uma forma de ganhar estatura nacional, vencendo
esse “levante monarquista”, junto com os radicais, e para tanto escolheu um dos
florianistas mais respeitados para dirigir a 3ª Expedição: Moreira César, até
para agradá-lo, pois mais uma vez este se opôs ao projeto de Vitorino de dar um
golpe em Prudente – segundo ainda Carone. Vitorino usaria de quem resistiu ao
seu projeto de poder para aumentar as chances desse projeto dar certo.
Alarmado com o encaminhamento das coisas, vendo ir por terra
todo seu esforço de pacificação do país, Prudente resolve antecipar seu retorno
ao Rio de Janeiro. Fê-lo de surpresa, sem que Vitorino soubesse. No dia 3 de março de 1897, ele chegou de
mansinho, foi de mansinho para o seu gabinete. Chamou o secretário e disse-lhe:
“Encontre o senhor Vice-Presidente e diga-lhe que estou reassumindo o meu
cargo”.
Vitorino tomou um susto, mas ele ainda tinha um trunfo:
Moreira César em Canudos. O trunfo chegou, mas não foi exatamente para ele.
No dia 4 de março de
1897, pela madrugada, Moreira César, morre de um ferimento a bala e a sua
expedição se desfaz da forma mais vexaminosa impossível. As notícias da
derrocada chegam ao Rio no dia 7 de
março. Os jacobinos mais raivosos saem às ruas, jornais e púlpito do
Congresso, a vociferar providências, como se tudo fosse culpa exclusiva de
Morais. ‘Não está ainda convalescente? Quem sabe ele não fica nervoso e morre’.
‘Quem sabe ele não se acovarda, os militares se enfurecem, e tudo mais fácil?’.
A medida que os detalhes vão chegando aos jornais e a alta oficIalidade
do 3º Distrito Miltar de Salvador, passa os detalhes colhidos dos sobreviventes
para as altas oficialidades dos outros distritos, cria-se um clima de estupor e
ódio visceral. Aconteça o que acontecer, Moreira César deve ser vingado.
Florianistas e jacobinos piram. Em várias cidades do país há manifestações e
passeatas, no Rio e em São Paulo jornais ligados aos monarquistas, por mais
moderados que sejam, são empastelados, pessoas são cassadas nas ruas, no Rio de
Janeiro, um ex-militar monarquista: Gentil de Castro é selvagemente assassinado,
em São Paulo outro monarquista é gravemente ferido. Em algumas escolas
militares os alunos a sinalizar a possibilidade de motins, que no final ocorrerão,
enquanto os combates se desdobram no sertão.
Aquilo era uma desgraça para Prudente. Depois de tudo o que
ele sofreu para pacificar o país, isolar a agressividade de florianistas/jacobinos
e tentar recuperar economicamente a República, ali estava ele às voltas com uma
nova guerra civil, herdada do seu substituto, sem ter dado um único passo nessa
direção. Era a volta a estaca zero. E não há alternativa.
Nas reuniões do alto-comando do exército e nas ruas, a sorte cruenta
de Canudos já está decidida, resta saber se Prudente de Morais vai endurecer o
discurso ou tentar mais uma vez serenar os espíritos, se colocar contra a
corrente, e ser arrastado por ela à perda do cargo e ou a uma violência pior. Ele
faz um discurso duro, embora ponderado e perfeitamente dentro da legalidade e
do bom senso, a partir do que se supunha ser, e era divulgado por toda a
imprensa, a causa do problema em Canudos, e manda preparar uma tropa para encerrar
aquele conflito definitivamente.
O Ministro da Guerra, General Argolo, florianista roxo, que
fora nomeado por Vitorino, após dispensar o ministro de Prudente, entrega o
comando da missão a outro florianista pior ainda: Arthur Oscar. Eles exultam!
Talvez agora dê para matar dois coelhos de uma só paulada: dar um passeio no
Conselheiro, e depois, carregados nos braços do povo, depor definitivamente a
Prudente de Morais.
Mas o futuro planejou diferente.








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