30 junho 2024

IMAGEM: LULE OU MENTE OU IGNORA OU AMBOS

 

https://texasislife.com/wp-content/uploads/2022/02/elonmusk-charrodays-sombrerofestival-696x418.png
https://texasislife.com/culture/elon-musk-kept-his-word-and-went-to-charro-days-in-brownsville-tx/

Após o 'PT' da Califórnia ter mandado Elon Musk, literalmente, se foder, ele fez as malas mudou-se para o Texas, onde, na cidadezinha desconhecida de Brownsville, investiu um bilhão de dólares numa empresa aeroespacial, além de investir outros milhões em rodovias e melhoramentos de áreas públicas, de sorte a gerar um movimento de riquezas enorme nessa região, outrora ignorada, e que agora, além disso está no mapa por conta da mais famosa empresa de artefatos astronáuticos do planeta. Ora, no início de fevereiro de 2022 um grupo de estudantes locais entrevistou-se com ele, algo muito mais fácil, que entrevistar-se com aquele que nos preside, e o convidaram para uma festa mexicana popular local chamada Charro Day. E ele foi, com seu filho menor, e ficou andando no meio do povão, fez fotografar-se entre eles, usando roupas parecidas com as deles e comeu aquilo que essa gente humilde fez. Eis alguns comentários de um site chicano nos EUA, escrito em espanhol: 
"Qué lindo ver a este hombre tan popular y tan humilde disfrutando de la gente y sus papas", "Elon Musk, hermano, ya eres mexicano", "El compa [compañero] Elon", fueron algunos de los comentarios". 
El dueño de SpaceX acudió al festival en compañía de su hijo, despreocupado y andando entre la multitud, Musk iba de puesto en puesto con su hijo en brazos, pero lo que más le llamó la atención fue la deliciosa espiropapa que compró.
Cabe destacar que, a principios de febrero, un grupo de estudiantes de Stell Middle School, de Brownsville, invitaron a Elon Musk para que los acompañara en el 'Charro Days'." (ele cumpriu a palavra).
(https://www.heraldousa.com/tendencias/2022/3/2/elon-musk-degusta-una-espiropapa-junto-su-hijo-en-fiesta-mexicana-momento-se-hace-viral-video-20809.html)
Parece coisa de um homem tão obcecado e enojado de estar entre pessoas pobres que gastaria bilhões para construir veículos para leva-los para fora da terra para ficar longe do povo? Você consegue ver nosso presidente e sua 1a dama também fazendo isso, sem que as pessoas não quisessem agredi-lo verbal ou fisicamente? Ele que só pensa e que só faz bem ao povo? 
Está completamente desequilibrado. 

https://www.supertejano1021.com/home/wp-content/uploads/2022/02/Image-from-iOS-3-1-768x1406.jpg

https://www.supertejano1021.com/elon-musk-and-his-son-make-an-appearance-at-the-sombrero-fest-in-brownsville-tx/




29 junho 2024

GUERRA DA COREIA: A ELEIÇÃO DA ONU

https://www.terra.com.br/byte/ciencia/coreia-do-norte-aparece-sob-total-escuridao-em-foto-da-nasa,98c7c37789564410VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html

https://img.r7.com/images/2014/08/15/mwbrn5u64_36hk020twi_file.jpg

https://noticias.r7.com/tecnologia-e-ciencia/fotos/coreia-do-norte-e-tao-secreta-que-nao-e-possivel-ve-la-do-espaco-18082014/

(A PROVA MAIS ACACHAPANTE DO FRACASSO: Um satélite americano, enviando fotos da superfície terrestre descobriu que a Coreia do Sul, na verdade é uma ilha, na foto mais acima. Porém se traçarmos com uma linha branca os contornos do litoral veremos que o mar escuro, entre a Coreia do Sul e a China é a Coreia do Norte. O país que gasta bilhões fazendo armas nucleares é incapaz de garantir uma boa oferta de energia elétrica à noite, para suprir as necessidades básicas de seus habitantes, mas seus dirigentes estão tranquilos, pois sabem que essas imagens jamais chegarão ao povo do país, e se chegarem eles têm polícia e até forças armadas o suficiente para garantir que esse conhecimento não tenha consequência alguma)

Eduardo Simões (à Margarida Maria)

Sobre as eleições de maio de 1948, que o senhor Filipe Castanhari pretendeu sugerir no seu vídeo, que elas foram maliciosamente fiscalizadas pela ONU apenas no âmbito da Coreia do Sul, como se a ONU, por instigação alienígena, supostamente americana, não quisesse homologar eleições no norte, quem sabe temendo a derrota, vejamos o relato e a análise abaixo feita pelo professor universitário e historiador militar Alexander Bevin, que inclusive participou da guerra, em seu livro muito seco e direto: Korean War The First War We Lost (Guerra da Coreia, a primeira que nós perdemos). Sobre os episódios que antecederam e sucederam às eleições da ONU.

“Como fronteira administrativa, e muito menos política, o paralelo 38º não tinha nada a recomenda-lo. Ele cruzava a Coreia em seu ponto mais largo e não tinha conexão com nenhuma característica geográfica... A seleção do paralelo 38ª como fronteira, imediatamente irritou os coreanos, e sua divisão tão pouco natural do país desempenhou um papel importante na paixão com que os coreanos de ambos os lados, desejaram eliminá-lo e reunificar o país”.

Os soviéticos rapidamente consolidaram o seu controle da Coreia do Norte em 1945 e se empenharam em destruir qualquer possibilidade de um país unificado, que não fosse sob seu domínio. Primeiro eles minaram um governo de tutela de toda a Coreia, sob uma Comissão Conjunta de quatro potências (Rússia, Estados Unidos, Grã-Bretanha, China) aprovada no final de 1945. Em seguida a Rússia insistiu por uma comissão que trabalhasse apenas com os grupos políticos coreanos que apoiavam uma tutela [, destaque de minha autoria] — na verdade, apenas grupos comunistas minoritários e grupos simpatizantes do comunismo se encaixavam nesse critério, já que todas as outras facções políticas coreanas se opunham à tutela, e queriam uma independência rápida. Os russos também selaram a fronteira no paralelo 38ª, controlando o tráfego de entrada e saída da Coreia do Norte. Essa decisão na prática sacramentava a divisão da Coreia.

[Ou seja, os soviéticos queriam uma eleição definida previamente, como eram as eleições na URSS, de tal sorte que só vencesse quem eles queria. Fora isso não haveria eleição em absoluto]

Incapazes de superar a intransigência soviética, os Estados Unidos, apresentaram a questão às Nações Unidas. A Assembleia Geral da ONU votou, em 14 de novembro de 1947, por uma eleição para toda a Coreia, e nomeou uma Comissão Temporária da ONU sobre a Coreia (UNTCOK), de nove nações para supervisioná-la. A comissão, menos um de seus membros (a República Socialista Soviética Ucraniana que se recusou a participar), se reuniu em 8 de janeiro de 1948, no Palácio Duksoo em Seul, mas a Rússia proibiu a eleição no norte e se recusou a permitir que a comissão entrasse na Coreia do Norte [destaque de minha autoria].

[Vemos assim que as eleições decididas da Assembleia Geral da ONU foi antecedida por outra tentativa de pactuação, que envolvia apenas as potências mais diretamente envolvidas no entorno coreano, que o Castanhari não cita, e que também foi vetada pela URSS. Ficando uma pergunta diante desses fatos: quem estava com boa-vontade para resolver a situação da Coreia, e quem radicalizou até produzir a guerra?]  

Essa oposição levantou dúvidas dentro da comissão sobre seu status legal, e o seu presidente pediu uma nova resolução da ONU. Em 26 de fevereiro de 1948, o Comitê Interino da ONU resolveu que a comissão prosseguisse com a eleição em toda a Coreia, onde isso fosse possível. Isso significava, é claro, apenas a parte da Coreia ao sul do paralelo 38º, que ficou sob o governo militar dos EUA. Porém, apenas dois partidos de extrema direita na Coreia do Sul endossaram a eleição da ONU: a Sociedade Nacional para a Rápida Realização da Independência Coreana de Syngman Rhee e o Partido Democrático Coreano.

Os coreanos [a classe média urbana] temiam que tal eleição perpetuasse a divisão da Coreia, porque os russos fatalmente responderiam, criando um estado comunista rival no norte... insatisfeitos com essa perspectiva, os partidos moderados e esquerdistas pediram um boicote à eleição da ONU, marcada para 9 de maio de 1948. Nesse ínterim (22 a 23 de abril de 1948), o Comitê Popular comunista norte-coreano convidou grupos coreanos de ambos os lados do paralelo 38º para uma grande conferência sobre unificação, em Pyongyang... Estiveram presentes 545 delegados, 360 deles do Sul....muitas organizações moderadas e esquerdistas no Sul participaram [só um líder mais à direita]. O comandante militar dos EUA na Coreia, tenente-general John R. Hodge, reagiu mal e denunciou a conferência como uma conspiração política comunista.

[Era óbvio que embora os Estados Unidos não tivessem um projeto consolidado para a Coreia, e esta não fizesse parte do arco de segurança que eles estavam montando, eles não iam deixar que os russos, que não mexeram um dedinho no pior do enfrentamento ao Império Japonês, agora simplesmente saíssem abocanhando tudo naquela região, sem falar que todos sabiam da ajuda da URSS à guerrilha comunista chinesa. Os russos haviam feito grandes sacrifícios na luta contra os alemães, e já tinham sido regiamente presenteados com o domínio sobre Europa Oriental, graças à ingenuidade roosevelteana]   

Por volta dessa época, a Rússia propôs a retirada de todas as tropas estrangeiras da Coreia e deixar os assuntos pendentes nas mãos dos coreanos, uma proposta que era similar e paralela aos principais pontos contidos no comunicado da conferência de Pyongyang. A conferência de Pyongyang foi um último esforço da União Soviética e dos comunistas norte-coreanos para bloquear a eleição da ONU, e teve apenas o efeito de polarizar a situação política na Coreia em um grau surpreendente. Como todos os líderes moderados na Coreia do Sul se opuseram à eleição da ONU, Syngman Rhee, que passou quarenta anos exilado fora da Coreia [e era muito reacionário], ficou sem desafiantes.... Assim, a eleição da ONU [e a decisão desastrada dos moderados] criou forçosamente um governo direitista [radical] no Sul, que seria necessariamente contrastado por um governo comunista [radical] no Norte, sustentado pela Rússia.

Os moderados, que sem dúvida representavam a maioria em ambos os lados do 38º, foram assim completamente enganados, e a Península Coreana, de um golpe, foi dividida em dois campos políticos extremos e em dois estados soberanos, pelo paralelo 38º.... O maior obstáculos foi a pouca esperança que os moderados na Coreia tinham, antes da eleição da ONU, de criar pacificamente um país unificado e democrático diante, da intransigência russa e da suspeita americana sobre os motivos dos comunistas. .....A Coreia foi manipulada por ambos os lados para propósitos totalmente estranhos à península, e os próprios coreanos se tornaram dispensáveis.

[A direita coreana jamais concordaria com as decisões de Pyongyang, e a classe média centrista, moderada e majoritária foi incapaz de perceber a malícia e a hipocrisia dos movimentos e dos discursos dos soviéticos e seus asseclas do norte. A atitude de boicote dos moderados apenas abriu caminho para que os radicais, nas duas extremidades, conduzissem o processo e tornassem a guerra inevitável, com o caráter que teve: impiedoso ajuste de contas]

Os Estados Unidos, com a subversão comunista na Europa Oriental ainda fresca na memória, não confiavam na Rússia. E os soviéticos, paranoicos sobre a antipatia ocidental, não confiavam nos Estados Unidos. Talvez mais do que qualquer outra coisa, os russos, que há muito cobiçavam o controle da Coreia, não estavam dispostos a se retirar da posição que ocupavam, apenas para satisfazer as aspirações nacionais do povo coreano.

[Ou seja, os soviéticos pensando em termos estreitamente nacionalistas, aproveitaram para resgatar a honra nacional da humilhante derrota frente ao Japão, em 1904, e, na melhor das hipóteses, avançar sobre o Japão – é sabido a enorme lentidão com que os russos devolveram seus prisioneiros alemães e japoneses, após a 2ª Guerra. Aqueles que voltaram das prisões soviéticas relataram, além da rígida disciplina, sessões intermináveis de doutrinação no comunismo e a brutalidade mortal com que executavam os prisioneiros que resistiam à doutrinação]  

Consequentemente, a Coreia se viu novamente seguindo uma política que já havia adotado um milênio antes: a sadae-sasang, dependência de uma grande potência como salvaguarda de sua independência. Esta política permitiu à Coreia manter uma existência separada da China durante séculos, beneficiando a ambos os países: a Coreia tinha a sua quase independência, quando a China protegia a Coreia do expansionismo japonês, enquanto a mantinha como um estado-tampão, entre ela e os mesmos japoneses... Em 1948, no entanto, a Coreia viu-se forçada a jogar sadae-sasang com duas potências opostas, não uma só. No Sul, surgiu uma República da Coreia apoiada pelos EUA..., com Syngman Rhee, de setenta e três anos, como presidente autocrático

Os Estados Unidos, por sua vez, não tinham uma ideia clara, quando apoiaram a eleição da ONU, de que estavam adquirindo um "estado tributário civilizado" na forma da Coreia do Sul e que, como o Império Chinês de outrora, estavam assumindo um relacionamento de "irmão mais velho" com um "irmão mais novo" da Coreia do Sul. No entanto, Rhee regularmente defendia o uso da força como meio para realizar a unificação coreana... Rhee tratava qualquer opinião sobre uma reunificação pacífica do dois países como heresia.

Também não está claro se a União Soviética assumiu conscientemente o papel de um irmão mais velho... Mas o fato é que Kim II Sung no Norte adotou posturas agressivas muito pouco diferentes das de Rhee. No final de 1948, portanto, dois governos coreanos hostis defrontavam-se no paralelo 38, cada um alegando representar toda a Coreia e cada um dedicado à destruição do outro lado, ambos os lados estimulavam ataques fronteiriços, alguns deles bastante sangrentos.

Korean, The First War We Lost; Hipocrenes Books; New York; 2000 (p 10-14)

Para mais dados sobre as eleições de 1948 na Coreia do Sul, recomendo dois artigos da wikipedia em inglês: 1948 South Korean Constitutional Assembly election (a de maio, supervisionada pela ONU, para eleição de um Parlamento) e 1948 South Korean presidential election (quando Syngman Rhee foi eleito presidente, por voto indireto, por 92% dos representantes)


27 junho 2024

CASTANHARI, A RETA É MAIS EM CIMA!

https://www.mauritius-images.com/en/asset/ME-PI-6408657_mauritius_images_bildnummer_12283933_president-joao-goulart-of-brazil-%2528right%2529-confers-with-president-john-fitzgerald-kennedy-in-the-latter's-office-in-the-white-house-in-background-left-to-right:-roberto-de-oliveira-campos-ambassador-to-the-us-from-brazil-francisco-clementino-san-tiago-dantas-brazilian-minister-of-foreign-relations-and-us-secretary-of-state-dean-rusk-3-april-1962

(VAMOS APRENDER? Sentado, Presidente John Kennedy; inclinado sobre Kennedy, nosso embaixador em Washington, Roberto de Oliveira Campos, o Boby field, o avô do atual Presidente do Banco Central; Com as mãos no bolso e bigode de "amigo da onça", nosso Ministro das Relações Exteriores, Francisco Clementino Santiago Dantas; de pé, com os braços cruzados à frente: o coronelzinho do paralelo 38º, David Dean Husk, Secretário de Estado, e sentado de perfil, o Presidente do Brasil, João Belquior Marques Goulart - 03.04.1962))

Eduardo Simões (a Margarida Guimarães)

Num arroubo de arrogância, típico dos que ignoram, Castanhari, em seu tolo vídeo, faz uma cara de ironia e deboche, quando diz que os americanos, desprezando milênios de paradisíaca história nacional coreana, entregam a um reles coronel e um general a tarefa de dividir o país – nessa hora, inclusive, a boca dele fica mais torta que o habitual. Estes simplesmente traçam uma linha arbitrária, o paralelo 38º, separando a Coreia em duas áreas de influência, desunindo um povo que até ali fora um exemplo de união e felicidade, e outras bobagens desse calibre.

O que Castanhari e sua tchurma não pesquisaram – não sei se o interesse em doutrinar e criar fantasias, era maior que o de apresentar os fatos para os jovens, que vão assistir ao vídeo – é a real patente dos oficiais envolvidos, e mesmo a estatura do maior entre eles.

Mas agora eu vos digo...

1º - Não havia nenhum general presente no momento dessa decisão. Todos; tanto os que traçaram a linha, como os que decidiram a sua conveniência, eram coronéis. Um dos que traçou a linha, o coronel Charles Bonesteel III, se tornará general, mas só em 1º de setembro de 1966 (https://pt.findagrave.com/memorial/49125337/charles-hartwell-bonesteel).

2º - O companheiro do Coronel Bonesteel nessa tarfe foi o também Coronel Dean Husk. Sabem o que fez o Coronel Dean Rusk mais tarde?....... Foi o segundo mais longevo, Secretário de Estado (Ministro das Relações Exteriores) da história dos Estados Unidos. Ele, Cordel Hull e Henry Kissinger, cada um no seu tempo, formam a trindade máxima das relações exteriores americanas do século XX. 

Consegui o livro autobiográfico de Dean Husk (1909-1994), e traduzi para vocês o trecho que narra como foi a tarefa de determinar esse paralelo; relato em primeira mão em primeira pessoa:

Finalmente chegamos a um acordo que se manteria pelo menos algumas forças dos EUA no continente asiático, uma espécie de ponto de apoio na península coreana para fins simbólicos.

Durante uma reunião do SWINK [sigla de algum órgão do governo que não consegui descobrir], em 14 de agosto de 1945, o mesmo dia da rendição japonesa, o Coronel Charles Bonesteel [Charles Bonesteel III] e eu nos retiramos para uma sala adjacente, tarde da noite, e estudamos atentamente um mapa da península coreana. Trabalhando às pressas e sob grande pressão, para cumprir uma tarefa formidável: escolher uma zona para a ocupação americana. Nem Tic [apelido de Bonesteel] nem eu éramos especialistas em Coreia, mas nos parecia que Seul, a capital, deveria estar no setor americano. Também sabíamos que o Exército dos EUA se opunha a uma extensa área de ocupação. Usando um mapa da National Geographic, procuramos ao norte de Seul uma linha divisória conveniente, mas não conseguimos encontrar uma linha geográfica natural. Em vez disso, vimos o paralelo 38 e decidimos recomendá-lo. SWINK aceitou sem muita delongas e, surpreendentemente, os soviéticos também... Ninguém presente em nossa reunião, incluindo dois jovens coronéis americanos, sabia que na virada do século os russos e japoneses haviam discutido esferas de influência na Coreia, divididas ao longo do paralelo 38. Se soubéssemos disso, quase certamente teríamos escolhido outra linha de demarcação.

Lembrando dessas discussões anteriores, os russos podem ter interpretado nossa ação como um reconhecimento de sua esfera de influência na Coreia ao norte do trigésimo oitavo paralelo. Qualquer conversa futura sobre a reunificação acordada da Coreia seria vista como mera encenação. Mas nós ignorávamos tudo isso, e a escolha do SWINK pelo trigésimo oitavo paralelo, recomendada por dois cansados ​​coronéis trabalhando até tarde da noite, provou ser fatídica. Nós do OPD [sigla] também estávamos envolvidos com a ocupação da Alemanha pelas quatro potências. Devido a uma grave escassez mundial de alimentos no final da guerra, uma de nossas principais preocupações era alimentar o povo alemão, uma responsabilidade direta dos exércitos de ocupação. Nós criamos uma força-tarefa especial, mas simplesmente manter os alemães vivos não era uma tarefa fácil. As zonas de ocupação já haviam sido estabelecidas quando entrei para o OPD, e nós lutávamos constantemente com os russos sobre a ocupação da Alemanha e a administração dessas quatro zonas.

A obstinação soviética reforçou nossa determinação de não deixar os russos terem uma zona de ocupação no Japão. Claramente, cometemos um erro ao não exigir um corredor terrestre sob controle aliado em Berlim. “(Dean Rusk; As I saw it – by Dean Rusk as told to Richard Rusk (o filho dele); W. W. norton & Company; New York-London; 1990; pg 124-125.).

Aaaaah! Então nós ficamos sabendo que NÃO FORAM OS AMERICANOS, MAS OS RUSSOS, OS PRIMEIROS A SUGERIR A DIVISÃO DA COREIA, e acabar com o paraíso maravilhoso que castanhari disse existir por lá!

Isso foi em 1903, quando russos e japoneses disputavam áreas de influência na China e arredores, e, principalmente a liberdade de navegação, vital para o comércio russo com a China, do chamado Estreito da Coreia, entre essa península e as principais ilhas japonesas, numa largura de 200 km. As negociações eram difíceis e os japoneses não se mostraram propensos a ceder muita coisa, pois sabiam da fragilidade dos russos, principalmente no crucial aspecto logístico.

(Abaixo: à direita o presidente John Kennedy; ao centro o risonho Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética, Nikita Sergeyevich Kruchev; no alto da escada o coronelzinho do paralelo 38º, David Dean Husk - 03.06.1961)

https://2009-2017.state.gov/cms_images/20khruschev_kennedy2_600.jpg

https://2009-2017.state.gov/p/eur/ci/rs/200years/123012.htm

Em setembro de 1903 os russo mandaram aos japoneses uma proposta para demarcar a zona de influência dos dois países na região, que os japoneses responderam com frieza. Em 11 de dezembro os russos apresentaram outra proposta mais favorável aos japoneses, recebida da mesma forma. Porém o que mais chama a atenção, neste contexto, é o artigo 6º, eram oito, nas duas propostas, que diz o seguinte:

Compromisso mútuo para considerar a parte do território da Coreia situada ao norte do paralelo trinta e nove como uma zona neutra na qual nenhuma das partes contratantes introduzirá tropas.” (Park Bella; Russia’s Policy Towards Korea during the Russo-Japanese War; International Journal of Korean History(Vol.7, Feb.2005; Moscou)

Ou seja, uma Coreia, ao sul do paralelo 39º, ficará sob completo domínio dos japoneses, e a outra área, ao norte desse paralelo, seria como que compartilhada pelas duas potências, pelo menos no aspecto de segurança.

Portanto: QUEM PRIMEIRO ABRIU A FELIZ COREIA PARA O BRUTAL E MASSACRANTE DOMÍNIO DOS JAPONESES FOI A RÚSSIA, ASSIM COMO TAMBÉM FOI ELA A PRIMEIRA QUEM SUGERIU A PARTILHA DESSA NAÇÃO, DE ACORDO COM INTERESSES ESTRANGEIROS.

A diferença foi que os russos marcaram o seu traço mais acima, no paralelo 39º, o que não faz nenhuma diferença, pois continua sendo a divisão do que não deveria ser dividido, mas quem estranharia se, para Castanhari e seu grupo, isso mudasse tudo...

Será????

(Reconhece o cara abaixo Castanhari? Time de 26.12.1960. Na tarja amarela está escrito: O homem de Kennedy - A Face da Nova Administração - SECRETÁRIO DE ESTADO DEAN HUSK (abaixo))

https://content.time.com/time/magazine/archive/covers/1960/1101601226_400.jpg

https://content.time.com/time/covers/0,16641,19601226,00.html#:~:text=TIME%20Magazine%20Cover%3A%20Dean%20Rusk,%2D%20Dean%20Rusk%20%2D%20Diplomacy%20%2D%20Politics



A FADA MADRINHA DE CASTANHARI

 

https://i0.wp.com/sinonk.com/wp-content/uploads/2015/01/KCNAKISTeenager1.jpg?ssl=1

https://sinonk.com/2015/01/31/hagiography-of-the-kims-the-childhood-of-saints-kim-il-sung/  

(Self-made man? Esqueça Rockfeller, Edson, Carnegie, Luiz Gama, o Visconde de Mauá, o próprio Jesus Cristo, porque você tem Kim Il Sung, o adolescente gênio, que aos 14 anos sabia mais que sem mestres na escola, orientava e comandava adultos em questões de política internacional e ações de guerrilha, etc. pelo menos no livro que ele próprio escreveu sobre si mesmo. Fora dele não há registros)  

Eduardo Simões (a Margarida Guimarães)

A única biografia oficial de Kim Il Sung, e única fonte aceitável para qualquer pesquisa biográfica “séria”, na Coréia do Norte, foi escrita por ele próprio, quando já era octagenário, em 1992, segundo o professor e pesquisador sul-coreano Dae-Sook Suh, em seu livro Kim Il Sung The North-Corean Leader, e embora o professor reconheça algumas virtudes políticas importantes em Kim, ele também reconhece, como inúmeros outros, que sua biografia está cheia de “exageros”, digamos assim, difíceis de “engolir”, e o mais célebre deles, repetido com ênfase pelo militante esquerdista Filipe Castanhari, em seu ignóbil vídeo sobre a Guerra da Coreia, é de que Kim, aos 14 anos apenas, teria fundado e dirigido uma associação de resistentes à dominação japonesa.

Foi quando frequentava a escola ginasial de Jilin, na Manchúria, que, cansado da superficialidade do ensino, dissociado dos graves problemas porque passava a sua terra ea China, que ele resolveu abandonar a escola e montar o movimento Aliança Para derrubar o Imperialismo em 17 de outubro de 1926, com 15 anos incompletos, e tal era o seu discernimento que passou a liderar antigos guerreiros adultos, e, já nessa idade, prescrever com muitos detalhes as melhores táticas para o enfrentamento dos japoneses, que foram aplicadas  pelos guerrilheiros da época e pelo exército norte-coreano, pesteriormente...

Contra essa história incrivelmente maravilhosa, que nos faz lembrar aqueles lutadores de kung fu que saem voando pela tela ou a Sininho... de Peter Pan, pesam dois contratempos:

a) Um líder tão jovem, criando um movimento político tão importante e abrangente, liderando adultos em ações político-militares, é algo absolutamente fora do comum, e com certeza teria chamado a atenção de todos, tanto dos que conviveram com ele, chineses e coreanos, como, principalmente, dos japoneses – haveria fotos, citações em livros, memórias, matérias de jornais, alguém ou algo além da memória de Kim, e, é claro, teria deixado algum testemunho a respeito. Entretanto, NÃO EXISTE NADA... absolutamente NADA.

b) Mais complicado ainda é a existência do chamado Aliança (ou União) Para Combater o Imperialismo, que é, segundo Kim, um ponto de virada na luta contra os japoneses e o núcleo do futuro Partido dos Trabalhadores da Coreia. Mas as dúvidas aí são maiores ainda.

b.1. Não há nenhuma menção em qualquer órgão de imprensa ou repressão da época que aponte para essa organização, antes de 1968, quando ela foi citada pela primeira vez por um escritor norte-coreano, Baik Bong, mas aí há uma questão: como ela pode ter sido um “ponto de virada” se ninguém sequer notou a sua existência?

b.2. Estudos mais recentes, fora da Coreia do Norte apontam noutra direção. “Biografias de Kim publicadas na Coreia do Norte contam... que Kim, quando era um jovem adolescente na Manchúria, formou a sua primeira organização armada chamada União Abaixo o Imperialismo. A maioria dos acadêmicos fora da Coreia do Norte não pensa que isto seja verdade, antes ele parece ter aderido a uma organização fundada por um militante radical chamado Ri Chongrak, uma organização que por vezes [meu destaque] era conhecida pelo nome de União Abaixo o Imperialismo. Esta organização foi dissolvida pelo Japão em 1931” (Ness, Immanuel – Cope, Zak; The Palgrave Encyclopedia of Imperialism and Anti-imperialism; Kil Il Sung (1912-1994); Palgrave-McMillan; New York-Belfast; 2021; p 1470) – segundo a Wikipedia em coreano, Ri Chongrak, ou Lee Jong-rak, era 5 anos mais velho que Kim, e acabou sendo preso em 1931 e cooptado pela polícia japonesa, e, segundo ainda a wikipedia em coreano, ele estava trabalhando para cooptar Kim il Sung para os japoneses, quando foi capturado por um grupo chinês antinipônico, e fuzilado no final de 1939 ou início de 1940.

Por fim a pergunta que não quer calar: como esse gênio militar assombroso, maravilhoso, estupendo, inigualável, etc. etc., foi completamente esmagado por um general tão comum, e “vulgar”, como Marc Arthur, em 1950? Afinal quem salvou a Coreia do Norte da ocupação total foram as tropas infindáveis enviadas pela China, chefiadas por generais chineses, enquanto Kim se refugiava na China: “Num ensaio recente para a Sino-NK, Adam Cathcart [professor especializado em relações sino-coreanas da Universidade de Leeds, UK] explorou os contornos mutáveis da hagiografia Kimista, que antecedeu as celebrações do Dia da Vitória deste ano na RPDC... e a marginalização concomitante do papel da República Popular da China na “derrota” dos imperialistas Americanos. Mais uma vez, a história está em risco, pois, como observa Cathcart com razão, Kim “na verdade passou a maior parte da Guerra da Coreia não na Coreia, mas na Manchúria, no âmbito relativamente pacífico da República Popular da China e da cidade de Jilin”. (https://sinonk.com/2014/08/12/hagiography-of-the-kims-and-the-childhood-of-saints-kim-jong-il/)

Certamente criando os capítulos da incrível história que comentamos acima.

Dúvida cruel: Se Kim Il Sung era assim tão inteligente, o que explica ele ainda ser socialista após os 40 e, inclusive, morrer nessa crença? Ele estava ganhando algo por fora?

Fontes: wikipedia inglês e coreano, verbetes, Baik bong; Down-with-Imperialism Union; Kim Il Sung; 타도제국주의동맹; 김일성; 이종락

GUERRA DA COREIA: A HISTÓRIA É UMA FANTASIA (final)

 

https://media-cldnry.s-nbcnews.com/image/upload/t_fit-1240w,f_auto,q_auto:best/MSNBC/Components/Photo/_new/111006-northkorea-food-3p.jpg

https://www.nbcnews.com/id/wbna44808274

(Não se impressione com a coloração roxa das crianças. Há 50 anos atrás, eu também ficava assim quando mamãe passava iodo nas minhas feridas, antes da vulgarização do uso do mertiolate, e outros produtos para assepsia de ferimentos. As duas estão "bem" cuidadas no hospital de Hwanghae do Sul, na Coreia do Norte, após se ferirem na passagem de um tufão em outubro de 2011. As duas apresentam também sinais de desnutrição, que, na Coreia do Norte, acontecia com certa frequência, antes da China ficar milionária. Essa imagem é um dos raríssimos momentos em que o governo permitiu que a imprensa internacional, no caso a empresa americana NBCNews, mostrar a situação real da população. Fora isso só há os desenhos e ilustrações permitidas pelo governo, e fotos ensaiadas) 

Eduardo Simões (a Margarida Guimarães) 

Mas a história científica é deturpada, ignorada, falsificada

1º) Não cabe apenas aos americanos a responsabilidade pela divisão da Coreia: ela foi pactuada. Dois oficiais americanos, de fato, fizeram um estudo determinando o paralelo, 38º, para a divisão das zonas de influência. Mas essa divisão que já havia sido discutida, 42 anos antes, entre a Rússia Czarista e o Japão. Isso explica porque a proposta americana, telegrafada aos russos no dia 15 de agosto, recebeu aprovação já no dia seguinte – ver o verbete Division of Korea na wikipedia, e o paper, Russia’s Policy Towards Korea during the Russo-Japanese war, em https://ijkh.khistory.org/upload/pdf/7_02.pdf. Os americanos ficaram com Seul, mas Pyongyang era a segunda maior cidade do país, e a parte norte era a mais rica em recursos minerais e mais industrializada (https://en.wikipedia.org/wiki/Charles_H._Bonesteel_III).

2º) A declaração de guerra da URSS ao Japão foi em 8 de agosto: e não 7. Logo dois dias depois da primeira bomba em Hiroshima (https://en.wikipedia.org/wiki/Division_of_Korea). Essa data é corroborada pelos arquivos nacionais do Reino Unido (https://blog.nationalarchives.gov.uk/soviet-japan-and-the-termination-of-the-second-world-war/#:~:text=However%2C%20on%208%20August%201945,Union%20declared%20war%20on%20Japan), embora desmentida pela Encyclopaedia Britannica de 1966; Vol 23; p 792-793, que a faz mais tardia, em 9 de agosto – provavelmente a declaração de guerra tenha sido no dia 8 e o começo das operações no dia 9.

 

3º) De fato, americanos se surpreenderam com o desmoronamento repentino da resistência japonesa aos soviéticos: a resistência aos americanos foi gigantesca, pois uma vez vencido o mar eles estariam pisando o solo japonês, já o avanço ou perda de solo chinês não motivava muito o soldado japonês, muito desgastado pela guerra, enfrentando tropas frescas.

4º) Os americanos tiveram de enfrentar um grande obstáculo, e estavam desorganizados: por causa da morte repentina de Franklin Roosevelt em 12 de abril de 1945, no meio de uma guerra mundial, e o novo presidente ainda estava aprendendo o ofício mais difícil do mundo, o quê, além do isolamento secular autoimposto, explicam as trapalhadas iniciais. 

5º) Os americanos não tinham “pesadelos” por medo do poderio russo, mas por causa dos acordos já pactuados: quem faz história científica, logo lê fontes factuais, sabe perfeitamente que os alemães, ao invadirem a Rússia destruíram inúmeras fábricas e equipamentos russos, e os americanos foram FUNDAMENTAIS para suprir a Rússia de equipamento militar e munição, enquanto os russos reconstruiam suas fábricas, longe da linha de frente, com máquinas modernas cedidas pelos americanos. Os americanos abasteciam os russos, os ingleses e eles ainda eram, de longe, a maior força aeronaval do mundo. Tinham 38 porta-aviões. Sem contar a arma mais poderosa do mundo na época (Naval history of World War II, Wikipedia em inglês).

5º) Os russos, além de não terem uma marinha respeitável não sabiam fazer desembarques: eles bem o tentaram em 18 de agosto, na ilha de Shumshu, no arquipélago das Kurilas. O encaminhamento da operação foi tão desastrado que nos 5 dias que durou a batalha eles perderam um quarto de sua força. O plano de um desembarque anfíbio em Hokaido foi logo abandonado (https://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Shumshu)   

6º) Roosevelt foi muito tolo em confiar em Stalin, e ter cedido tanto: De fato, no Oriente a guerra foi quase toda travada pelos EUA, e pelos aliados que ele sustentava, inclusive a China. Stalin não pôs um prego no caixão do Japão, mas quis ficar com as posses do defunto. Os americanos não tinham porque concordar isso, afinal foram eles que, além de destruir os japoneses, sustentaram a União Soviética no pior da guerra.

6.1. Stalin recusou-se a declarar guerra ao Japão até 8 de agosto de 1945, quando o Japão já estava totalmente estropiado pelos americaos a um preço altíssimo, em vidas e recursos.

6.2. Quando um piloto americano pousava na Rússia após ataque ao Japão ele era internado (uma espécie de prisão domiciliar), e só muito depois, por subterfúgio era devolvido aos Estados Unidos (https://en.wikipedia.org/wiki/Doolittle_Raid)

7º) A primeira força russa a tocar em solo coreano foi num desembarque anfíbio entre 11 e 17 de agosto de 1945: quando já não havia mais resistência apreciável. O segundo desembarque aconteceu em 16 de agosto (https://en.wikipedia.org/wiki/Division_of_Korea). Segundo a Wikipedia em inglês, foram primeiro tomados os portos de Yuki (Sombong) e Racine (Rason), mas só no dia 13 começou o desembarque de forças propriamente dito, em Shongjin, com menos de 600 baixas entre russos e japoneses. No dia 17 chegou mensagem do Imperador determinando o fim da resistência. (https://en.wikipedia.org/wiki/Seishin_Operation). Essa informação bate com a do verbete 청진 상륙 작전 (Desembarque em Shongjin) da Wikipedia coreana.

 

8º) A entrada de forças russas em Pyongyang aconteceu em 24 ou 25 de agosto: e não como diz no vídeo. Confere o verbete 한반도 na Wikipedia coreana e Division of Korea, em inglês e na Britannica de 1966.

9º) O texto se engana frontalmente, quando tenta forçar um conluio entre japoneses e americanos – imperialistas “malvados”, contra socialistas bonzinhos – e que por isso houve mais resistência no sul que no norte à ocupação estrangeira:

9.1. Como vimos quem acabou com os japoneses foram os americanos, ingleses e australianos. Os soviéticos se limitaram a olhar e depois querer a melhor parte do botim.

9.2. No verbete Division of Korea é dito que os soldados japoneses, ressentidos pela esmagadora derrota infligida ao Japão, estavam espalhando notícias alarmantes entre os sul-coreanos, contra os americanos, obrigando o comando japonês a intervir para que cessasse essa ação.

9. 3. Muito ilustrativo do tratamento dado pelos sociéticos e socialistas norte-coreanos aos opositores do regime foi o desaparecimento do líder anticomunista e herói local Cho Man-sik, que sempre viveu na Coreia, em Pyongyang, e era admirador de Gandhi, Tolstoi e Jesus Cristo. Ele sofreu uma vida de horrores na luta contra os japoneses, e no final, por não querer ser comunista, foi sabotado por Kim Il Sung e seus tutores russos, sendo preso e depois “desaparecido”, deixando o caminho livre para o delírio dinástico de Kim. Copie o nome dele e pesquise.

10º) Castanhari desinforma ao querer sugerir que a ONU, em 1948, vistoriou apenas as eleições do sul de propósito ou por ter ligação com os EUA:

10.1. As eleições na Coreia foram decididas pela Assembleia Geral, e não por uma comissão guiada pelos americanos. Logo tinha toda legitimidade, mas a Rússia só aceitava eleições que validassem previamente os seus interesses?

10.2. A União Soviética não apenas falou, mas se opôs a que fossem realizadas eleições no norte – pesquise a Wikipedia em inglês, francês, alemão, chinês, russo, coreano, que você terá, gratuitamente, a confirmação disso (a wikipedia em italiano apenas cita as desconfianças do russos)

10.3. Se é verdade que o domínio dos socialistas no norte era mais tranquilo e que os americanos estavam às turras com os coreanos do sul, matando e prendendo milhares, porque a União Soviética e os socialistas iriam fugir de uma eleição que lhes traria vtória certa?

11º) As eleições gerais no Sul aconteceram em 10 de maio de 1948, como pois o texto, referindo-se à criação da República da Coreia do Norte, acontecida a 9 de setembro de 1948, diz que foi feita um mês depois? Onde foram parar os meses entre maio e setembro? NÃO PESQUISARAM NEM O BÁSICO!!!!

Isso foi o que levantei apenas em 20 minutos de um vídeo de 58 minutos, e não vou mais perder meu tempo com uma peça de doutrinação tão barata. Alguém pode até dizer que centenas de milhares, talvez milhões, tenham visto esse vídeo; e eu respondo: se milhares, talvez milhões, de pessoas adultas resolverem ser enganadas, se atirar de um despenhadeiro, etc. O que você pode fazer?

Esse vídeo é só mais um dos sintomas, entre muitos, da falência intelecto-cultural dos brasileiros, depois que a esquerda conseguiu impor sua hegemonia nas universidades. O país está politica, econômica e culturalmente falido, e as pessoas parecem estar gostando disso. Mas, há duas coisas que eles não estão considerando e que podem mudar tudo.

Primeira: o Brasil não é o único país do mundo. Outros países podem preferir outro caminho, como por exemplo: ter uma educação séria; aprofundar um conhecimento científico de si mesmo e do mundo, ao invés de se seguir a falcatruas doutrinárias; optar por soluções político-econômicas que deram certo nos últimos séculos; etc. e passar à nossa frente e nos desafiar e vencer em nosso próprio terreno – vários países da América do Sul já perceberam isso e estão se atualizando, enquanto dobramos a aposta em fórmulas fracassadas, ultrapassadas.

Segunda, e mais importante: a realidade sempre dá a última palavra. Eu posso tomar o poder envolto em um mundo de fantasia, como num conto de fadas, como é nesse vídeo, mas a realidade sempre se impõe, e no final eu colherei o resultado das estratégias inadequadas usadas para a realidade do momento. Essa e sem dúvida a maior e mais gigantesca lição para a história, deixada pelo fim da União Soviética: não adianta você convocar as maiores mentes, os melhores marqueteiros, controlar todos recursos e meios de comunicação, as pessoas vão olhar sempre, em primeiro lugar, para o prato na sua mesa, para a sua situação concreta do momento atual. Se não tiver bom pulam fora...

A disputa não é entre os teóricos do capitalismo e os do socialismo, entre filósofo ‘X’ e filósofo ‘Y’, mas sobre qual dos dois foi capaz de perceber melhor a realidade, dar a sua solução, e ela, a realidade, responder positivamente. É pelos frutos que se conhece a árvore, e é pelos sucessos e pelos fracassos reais, históricos, que sabemos se um dado regime funciona ou não, o resto é fanatismo religioso, que, se curado a tempo, nos permitirá retomar ao bom caminho. Agora se o fanatismo, com a sua arma mais comum: a ocultação de fatos, vencer, isso nos levará de volta à formas mais graves de pobreza, em meio à formidável quantidade de recursos naturais, artificiais e sociais, à nossa disposição.

Mirem a Venezuela.


26 junho 2024

GUERRA DA COREIA: A HISTÓRIA É UMA FANTASIA (início)

 

https://www.telegraph.co.uk/multimedia/archive/01948/north-korea-3_1948182c.jpg?imwidth=960

https://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/asia/northkorea/8641946/North-Korea-faces-famine-Tell-the-world-we-are-starving.html
(Uma pobre camponesa norte-coreana vende produtos à beira da estrada, numa perto de Pyongyang para se virar, e enfrentar as da pobreza, em 2011, resultante de uma crise de fome ocorrida dez anos antes(!) Num dos poucos momentos em que foi autorizada a entrada de jornalistas do Ocidente no país. Será que a mitologia e a doutrinação do vídeo de Castanhari é capaz de mudar realidades como essa ou impedir que acabemos assim, se aplicarmos aqui a mesma fórmula que foi aplicada lá? A lei da gravidade funciona diferente lá?)

Eduardo Simões (a Margarida Maria)

Infelizmente vejo-me obrigado a interromper minhas pesquisas para reagir a um vídeo, supostamente histórico, de um canal chamado “Nostalgia”, com o pomposo nome de A Guerra da Coreia – A História não Contada, ao qual me dedicarei, e indo direto ao assunto chamo atenção da abertura que diz:

A Coreia era um paraíso

A península coreana apresentada como um paraíso terrenal, com todo mundo feliz, e vivendo como Adão e Eva, que faz parte da mitologia coreana do norte que smepre apresenta seu líder Kim Il Sung com traços de “deus encarnado”, como Jesus Cristo.

O que a história, entretanto, diz: a península coreana era uma região estratégica, disputada historicamente por Japão e China, dois impérios poderosos, e quem vive uma situação dessas não pode ter uma vida de paz, alegria e, principalmente, uma construção identitária que não seja resistir e continuamente àqueles que lhe querem dominar.

Fatos:

* Entre 1592 e 1598 os coreanos travaram guerras dramáticas e altamente mortíferas contra os japoneses, até vencê-los definitivamente.

* De 1627 a 1637 os coreanos sofreram a dominação chinesa, sob a direção dos manchus, o que também gerou longas guerras de resistência.

* Mesmo sob o domínio da família real coreana de Joseon, ele ainda tiveram que amargar as bizarrices de tiranos como Yeonsangun, sem falar nos massacres em massa de intelectuais, lutas pelo poder e um forte levante camponês.

Era uma vida difícil de muitas batalhas, muito antes da 2ª Guerra Mundial, mas que foi muito agravada pelo domíno japonês após 1910.

A mitologia é exaltada!

b) A apresentação mitológica da vida de Kim Il-sung é simplesmente bizarra e oscila entre o ridículo e o infantil. O apresentador quer nos fazer crer que um menino de 14 anos rompe com a escola, em 1926, cria e lidera movimento de guerrilhas antijaponês....

Para quem não acredita em Papai Noel recomendo a leitura de KIM IL SUNG The North Korean Leader (Columbia Press; New York; 1988), do historiador sul-coreano Dae-Sook Suh, onde, já na introdução, ele fala da dificuldade de abordar a biografia de Kim Il-Sung, simplesmente porque a única fonte biográfica original é ele próprio, que começou a escrever a sua biografia oficial quando já era octagenário. Não existe uma única fonte fora dele próprio, e outras, obras mitológicas e desinformadoras repetem isso mecanicamente.

Por exemplo o avô de Kim, na história oficial, mudou-se para próximo a Pyongyang para trabalhar no cemitério de uma família nobre, mas nenhum sinal desse cemitério aparece hoje no local, e ninguém é louco apontar esse “furo” dentro da Coreia do Norte.

Na casa em que ele nasceu. Cuidada como se fora um lugar sagrado, tem uma árvore onde se diz Kim il-Sung brincou e subiu nela. Entretanto pela idade da árvore seria impossível Kim ter subido nela. Exceto na imaginação.

Diários de militares chineses e japoneses, sobre as operações na Manchúria, onde Kim atuou, desmentem muitas histórias contadas por ele em sua biografia, sobre esse período – mais tarde ele fugirá da Manchúria para a URSS, em 1940, e de lá só voltará à Coreia para assumir o poder. 

Os dados acima são de um autor que considera, apesar de tudo isso, Kim Il-Sung um líder capaz, competente o bastante para por uma nação ao seus pés e os de seus descendentes, e lidar com as disputas entre China e União Soviética. Noutro extremo temos:

a) Relatos do governo militar americano da Coreia dizendo que o líder coreano era na verdade o sobrinho do verdadeiro Kim Il-sung, e que se fez passar por este. Portanto um impostor.

b) A jornalista americana Annie Jacobsen, conceituadíssima, ganhadora do prêmio Pulitzer de 2016, pesquisando os documentos da CIA, e publicando-os três anos depois, revela que, para a CIA, Kim Il-Sung é um falsário, preparado pelo serviço secreto soviético, para garantir na Coreia um governo absolutamente leal a Moscou (Surprise, kill, vanish, the secret history of CIA paramilitar armies, operators, and assassins; Little Brown; London-Boston-New York; 2019; pgs 47-49 contador pdf)

c) Um oficial russo, Grigory Mekler (1909-2005), que fazia a ligação entre Kim Il-Sung e o Kremlin, e o conheceu intimamente, no final da URSS foi entrevistado sobre o líder coreano para um programa de televisão, russo em duas partes, lançado em 1994. Logo após o lançamento do 1º programa o jornalista produtor do programa, Leonid Mechlin, começou a receber telefonemas ameaçadores, de uma voz que noutro contexto havia se identificado como funcionário da embaixada da Coreia do Norte, ameaçando-o, se exibisse o segundo programa. Foi necessário o governo russo intervir junto a Pyongyang para as ameaças cessarem e o programa ser liberado (a esse respeito recomendo o verbete Grigory Mekler na Wikipedia em inglês, e o artigo: Kim Il Sung's Soviet Image-Maker, no site do Moscou Times, no endereço https://www.themoscowtimes.com/archive/kim-il-sungs-soviet-image-maker)

O culto doentio à personalidade, que se instalou nesse país, e o caráter dinástico do mecanismo de ascensão ao poder parece apontar na direção de que algo muito sério, além do que é habitualmente escondido por razões político-militares, está sendo oculto da nação e do mundo. De resto você não precisa saber muita coisa de socialismo, marxismo para ver logo que o que existe na Coreia do Norte é tudo, menos qualquer coisa que sequer cheire a socialismo e menos ainda a democracia.

Enfim citar acriticamente, como se fosse verdade, a versão oficial da vida de Kim, é um testemunho cabal de infantilidade emocional e muita ignorância. Ou as duas coisas juntas.

22 junho 2024

MAORI PROGRESSISTA X INTELECTUAL REACIONÁRIO (final)

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/62/Maori_Girl_Learning_the_Haka%2C_by_Gottfried_Lindauer.jpg/800px-Maori_Girl_Learning_the_Haka%2C_by_Gottfried_Lindauer.jpg

https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Haka#/media/File:Maori_Girl_Learning_the_Haka,_by_Gottfried_Lindauer.jpg

(Menina maori, exercitando a haka, uma dança guerreira ritual típica dos maoris, numa ilustração de Gottfried Lindauer, do início do século XX)

Eduardo Simões (a Margarida Maria)

O caso dos moriori

Segundo pesquisas mais recentes, os maoris são um povo originário de Taiwan, que lá por volta de 1320 - 1350, aportaram no arquipélago da Nova Zelândia. Os maoris eram uma gente selvagem na plena acepção do termo, ou seja: vivia de acordo com as leis da natureza, onde o que vigora é a luta pela sobrevivência, manifesta no predomínio ou na sobrevivência do mais forte, sem que isso os torne melhores ou piores que os outros homens. Qualquer povo submetido às condições em que eles viviam nos século XIV, com a cultura que traziam de sua terra natal, certamente agiria do mesmo modo. É a humanidade se “descobrindo”.

Os maoris, como outros povos primários de Taiwan, são extremamente belicosos e cheios de iniciativa, e logo os clãs começaram, em sangrentas guerras, a disputar os melhores quinhões das ilhas principais, até chegarem ao extremo na chamada Guerra dos Mosquetes de 1807 a 1837 (1) – essa guerra tem esse nome porque, nesse período, eles começaram a entrar em contato com pescadores europeus, dispostos a trocar produtos da terra por mosquetes, um tipo de espingarda, e logo começou um corrida entre os clãs em busca de mosquetes para usá-los contra seus adversários, e encerrar vitoriosamente antigas disputas. Uma corrida armamentista, feita à custa deles próprios.

Entre os maoris, um grupo destacou-se da principal corrente e, por volta de 1500, estabeleceu-se na ilha Chatham. Ora, os maoris já eram produtores de alimentos, praticavam a agricultura de subsistência e criavam porcos e cabras, porém, como a geografia da ilha Chatham era muito inóspita, e ela própria não era muito grande, essa gente, por questão de sobrevivência, retornou ao estágio de caçador-coletor exclusivo, ocorrendo então uma simplificação (ou um retrocesso) tecnológica, passando a chamar-se morioris. 

A vida nessa ilha era tão precária, que em determinado momento eles começaram a castrar meninos recém-nascidos para evitar o aumento populacional, e, o que é incomum em termos de comunidade caçadora-coletora, desenvolveram uma mitologia radicalmente pacifista, a partir dos ensinamentos de um tal Nunuku-Whenua, que proibia em absoluto a guerra, o canibalismo e o assassinato – de fato, uma guerra como as que havia nas ilhas maiores, poderia levar facilmente a comunidade à extinção. E assim criaram uma comunidade muito diferente dos maoris das outras ilhas que eram agricultores-coletores, com uma tecnologia mais complexa e canibais convictos.

Porém, em 1835, em meio a matança generalizada da Guerra dos Mosquetes, um grupo de maoris, gente de dois clãs poderosos e combativos, tomaram um navio pesqueiro inglês, o apetrecharam, e, em número de uns 500, desembarcaram na ilha Chatham. Eles foram bem recebidos pelos moriori, mas já deixaram o seu cartão de apresentação: canibalizaram uma adolescente moriori de 12 anos, cujos ossos ficaram expostos, como aviso – costume semelhante, exposição de ossos de canibalizados, também era visível entre os índios tupis no Brasil cabralino. Os morioris, entretanto, continuaram com acenos de paz, prontos para fazer um acordo.

A situação se agravará com a chegada de mais uns 400 maoris, aliados ao primeiro grupo, o que fez os invasores partirem de vez "para cima". Dizem as crônicas orais que, ante a resistência dos mais velhos de se desviar dos antigos ensinamentos, eles decidiram fugir e se esconder na zona mais montanhosa da ilha. Entretanto eles ainda estariam vivos, disputando com os maoris os poucos recursos alimentares da ilha, e isso estes não iriam aceitar, O que se seguiu pode ser descrito da seguinte maneira nas palavras de um moriori: 

"[Os maoris] começaram a nos matar como ovelhas... [Nós] ficamos apavorados, fugimos para o mato, nos escondemos em buracos... e em qualquer lugar para escapar de nossos inimigos... fomos descobertos e mortos – homens, mulheres e crianças indiscriminadamente." Um conquistador maori explicou: "Tomamos posse... de acordo com nossos costumes e capturamos todas as pessoas. Ninguém escapou..." Os invasores mataram ritualmente cerca de 10% da população, o que incluiu isolar mulheres e crianças nas praias e deixá-las morrer lentamente após vários dias de exposição ao sol, à fome e à sede. Durante a escravização massiva que se seguiu, os maoris proibiram a fala da língua moriori, forçaram os morioris a profanar seus locais sagrados... foram proibidos de se casar com gente de outros grupos ou de ter filhos entre si... Apenas 101 morioris, de uma população de cerca de 2.000, foram deixados vivos em 1862, tornando o genocídio moriori um dos mais mortíferos da história, pela percentagem de vítimas” (texto da Wikipedia em inglês, tradução livre). Eu faço ressalvas ao uso do termo genocídio, para um fenômeno acontecido pelo menos 80 anos antes da invenção do conceito, isso não é muito científico, sendo necessário, nesse caso, usar um termo mais geral, como massacre, carnificina, o que não deixa um sonoro tapa naqueles que defendem o caráter pacífico e cooperativo dessas comunidades pré-estatais.

Conclusão

O que mais me chama a atenção nesse relato é a declaração do maori a respeito do trágico destino que seu povo deu aos seus gentis e pacíficos hospedeiros, coisa que absolutamente não aconteceria nos dias de hoje, na atual civilização britânica-maori, onde tal atitude seria considerada criminosa, genocida. E ele a diz com absoluta  naturalidade, sem peso na consciência ou indignação, fabricada: “era o nosso costume”, noutras palavras: nossa ideologia, nossa crença, no momento dos acontecimentos. Simples assim.

Esse homem, de uma cultura tribal, primitiva, ágrafa, expressou-se, sem o saber de uma forma absolutamente moderna, e ouso dizer até científica, por reconhecer o caráter específico, ditado pelos costumes de seu tempo, das ações de seus antepassados, pelas quais não há porque guardar qualquer tipo de mágoa ou vergonha.  É inaceitável hoje, mas não o era na época dos acontecimentos, e o nome disso é: CONSCIÊNCIA HISTÓRICA, EVOLUTIVA. Os costumes antigos podem ser descritos, mas estão para além de nossa compreensão, porque não existe mais o contexto social que lhes autorizava e até impunha. Aqueles que nos EUA na Inglaterra ou no Brasil ou em qualquer parte saem destruindo monumentos históricos a pretexto de valores morais, mostram-se mais primitivos que o 'primitivo' maori, na pior acepção desse termo.

(Abaixo um monumento a Lincoln, chamando atenção para a sua origem humilde, um exemplo para garotos pobres de hoje nos EUA, é selvagemente pichado - não é apenas aqui, que existem idiotas - por conta de revisões históricas completamente a-históricas, cobrando de um homem do século XIX uma consciência moral avançada mesmo para o século XXI, dentro da cultura americana


https://a57.foxnews.com/static.foxnews.com/foxnews.com/content/uploads/2022/11/720/405/Video-3.jpg?ve=1&tl=1

https://www.foxnews.com/us/abraham-lincoln-statue-vandalized-chicago

Nota

1 – Um colossal banho de sangue, uma guerra de extermínio generalizada. Nesse período, calcula-se, morreram umas 40 mil pessoas, todas maoris, lutando uns contra os outros. Como termo de comparação, as Guerras Neozelandesas, travadas contra os britânicos, de 1845 a 1872, causaram a morte de quase 800 britânicos e uns 2.100 maoris.

21 junho 2024

MAORI PROGRESSISTA X INTELECTUAL REACIONÁRIO (início)

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Eduardo Simões (a Margarida Guimarães)

A justa indignação de muitos, ao selvagem assassinato do cidadão americano George Floyd, em maio de 2022, que levou multidões às ruas do mundo, foi parcialmente desmerecida pela atitude de alguns aloprados, que, aproveitando a intensidade emocional do momento, começaram a induzir os mais impressionáveis a atacar monumentos que lembravam homens e eventos, que esse tais aloprados ignoram ou conhecem só parcialmente. De um lado e doutro do Oceano, tombaram ou quedaram pichados bustos e estátuas de Cristóvão Colombo, Winston Churchill, Abraham Lincoln, etc. – de nosso lado vimos aqui, na metade de 2021, um inculto motoboy, atear fogo na estátua de Borba Gato, a pretexto de começar uma discussão. E ele nem sabia falar direito.

Essa atitude, entretanto, tem origem recente, e está bem entranhada em nossos meios acadêmicos, artísticos e na imprensa em geral – num programa da Globo News, escutei jornalistas repetindo o bordão de que Borba Gato e os bandeirantes paulistas eram “escravocratas” e “genocidas”, como se o que ele fizeram já fosse crime hediondo, no seu tempo. Será que eles não sabem, que nos séculos em que Borba Gato e os Bandeirantes viveram, essas coisas não eram crime em lugar nenhum do mundo? Será que desconhecem o conceito de EVOLUÇÃO?

A matriz, de onde vem toda essa ignorância, é uma doutrina especulativa a-histórica e anticientífica, o marxismo, que encontra-se largamente difundida nos ambientes supostamente ‘cultos’ de muitos países. Porém, se você tomar o Manifesto do Partido Comunista (2ª edição; Avante; Lisboa; 1997), percebe logo a absurda contradição de suas proposições básicas, como Engels as descreve no Prefácio à edição inglesa de 1888, página sem número, onde ele diz que a proposição central do Manifesto é que: “em qualquer época histórica, o modo predominante da produção económica e da troca, e a organização social que dele necessariamente decorre, formam a base sobre a qual se constrói, e só a partir da qual pode ser explicada, a história intelectual e política dessa época”.

Ou seja, cada período e forma de comportamento social só pode ser explicado a partir das condições objetivas de seu próprio tempo, e só deste, da mesma forma que os costumes de uma sociedade primitiva, tribal, só pode ser explicada a partir do seu funcionamento e lógica internos, da sua cultura. Corretíssimo. Logo a consciência do certo e do errado nas relações humanas e a sua expressão social, a ideologia, também são filhas necessárias do seu tempo.

Porém logo a seguir ele desfaz o que acabara de dizer: “que, consequentemente, toda a história da humanidade (desde a dissolução da sociedade tribal primitiva...) tem sido uma história de lutas de classes, de conflitos entre classes exploradoras e exploradas, entre classes dominantes e oprimidas; que a história destas lutas ... alcançou hoje um estádio em que a classe oprimida e explorada — o proletariado — não pode atingir a sua emancipação do jugo da classe dominante e exploradora — a burguesia — sem emancipar, ao mesmo tempo e de uma vez por todas, toda a sociedade de qualquer exploração e opressão, de quaisquer distinções de classes e lutas de classes”. 

Se eu uso o conceito de oprimido e opressor, eu estou necessariamente supondo que, desde o início, há um grupo que conscientemente oprime outro que, ao ter consciência dessa opressão, luta contra ela, e aí faz sentido dizer que a luta de classes é o motor da história. Mas se não há mudança, se a consciência da opressão está presente desde o início, eu sou obrigado a dizer que a mente humana é a-histórica e desfaço absolutamente o nexo entre o ser humano e o seu ambiente, logo à realidade, que  muda e evolui.

Há muitas razões que fazem com que aparentemente ricos e pobres disputem ao longo da história, sendo o mais comum, pelos relatos que nos chegam e pela característica familial das antigas formas de sociedade, que determinados líderes, à frente de alguma ou algumas famílias mais abastadas, liderem multidões de pobres contra outra ou outras famílias, e seu respectivo séquito de pobres, mesmo porque não basta escrever que existe classes sociais para, automaticamente, as pessoas que fazem parte desses grupos ganhem a consciência de tal realidade. 

Noutras palavras: se não há ainda a consciência de classe, algo tão difícil de se ver até os dias de hoje, como se pode falar em luta de classes? Da mesma forma, como podemos falar em relações de “dominação”, “exploração”, “opressão”, se não há consciência disso em quem explora e, principalmente, quem é “oprimido”, “explorado”, etc. Afinal se existisse essa consciência certamente que há muito essas relações teriam sido modificadas uma vez que os explorados, dominados e oprimidos sempre foram em muito maior número e ninguém gosta de viver assim. O fato de Marx ver isso nos relatos históricos, e por vezes até para além destes, não os transforma automaticamente em acontecimentos reais.

O que há, nesse caso, é uma projeção psicológica de sentimentos, carências e mágoas do autor da máxima e seus seguidores, geradas por situações diversas, em relação ao passado, sobre o qual o indivíduo se impõe como um juiz onipotente, tanto mais quanto menos o conhece, exarando sentenças condenatórias a partir de sentimentos e valores atuais, inexistentes nos indivíduos e nas sociedades antigas, numa retroação legal marcada pela ilegalidade e a ignorância. 

Chamar acusativamente um homem ou um grupo do século XVII ou XVIII, de escravocrata e genocida, é ignorar vergonhosamente que todos nessa época praticavam esses ‘crimes’, inclusive líderes africanos, sem os quais a escravidão moderna na América não seria possível. E o mais curioso é que as pessoas que cometem esse tipo de desatino se autoproclamam progressistas.

Vejamos um caso que encerra uma lição espetacular, absolutamente acachapante aos chamados “progressistas”, dado por um povo distante.

https://i.em.com.br/bMqX5EIaGRzSW5uO0_uVenhRBg4=/790x/smart/imgsapp.em.com.br/app/noticia_127983242361/2021/07/25/1289721/20210725073018685045a.jpeg

https://www.em.com.br/app/colunistas/ricardo-kertzman/2021/07/25/interna_ricardo_kertzman,1289721/o-brasil-maltrata-o-brasil-nao-foi-o-borba-gato-que-queimou-fomos-nos.shtml


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