https://cangaconabahia.blogspot.com/2015/07/evocacao-de-canudos.html
(Os capuchinhos são uma congregação, antes uma ordem ou subgrupo, da família dos franciscanos, logo usam aquele cordão branco típico amarrado à cintura. no final do século XIX tão eram considerados como os jesuítas do século XVI: pau-pra-toda-obra. Sentado à esquerda frei Caetano de São Leo e ao lado dele, segurando um crucifixo, frei João Evangelista do Monte Marciano)
Eduardo Simões (a Margarida Maria)
A missão dos capuchinhos
(início)
Os pesquisadores preocupados em criar heróis, fabricar
mitos, consolidar ideologias, tendem a ver como de pouca importância a motivação religiosa, ou veem nela como que um desvio, um atalho, que o sertanejo usaria,
consciente ou não, para levantar, em meio a tanta 'pobreza' e 'opressão', bandeiras de revolução social e política, etc. ignorando a profundidade sncera com que o sertanejo
abraça as realidades “espirituais”, que para nós, gente urbana e secularizada,
são estranhas, mesmo quando partilhamos as mesmas crenças que eles.
Conselheiro era um pregador de ouvir falar. Ele nunca fez teologia ou um curso mais aprofundado sobre doutrina católica, da qual ele se fazia não só o maior dos campeões como a única autoridade confiável, pelo menos para si e para os seus simpatizantes. Um fiel mais estudado ou um especialista nas verdades dessa fé, da história e da tradição da Igreja, ao fim dos novecentos, certamente diria ao ver o espetáculo dele com as massas: “é um cego guiando cegos”.
De fato, o conteúdo de sua pregação derivava do que ele
aprendera nas aulas de catecismo, e de escutar junto a outros pregadores do
sertão, como o célebre padre Ibiapina, e da convivência com os padres, que certamente
abaixavam a complexidade de seu conhecimento teológico, para se tornar mais
aceitos pelo povo do sertão, tradicionalmente abandonado à sua sorte –
convenhamos, que também já era famoso o despreparo de nossos padres, em
especial os do sertões mais longínquos – enquanto combinavam fragmentos da complexa
doutrina católica, da qual o mistério da Santíssima Trindade é o ápice, com resíduos da religião dos índios e crenças
africanas trazidas pelos negros recém saídos das senzalas.
Talvez ele tivesse notícia sobre o recente Concílio do
Vaticano I, de 1870, onde foi consagrado princípio da infalibilidade do Papa,
embora em contextos muito específicos, que não creio que Conselheiro fosse
capaz de compreender, assim como outros problemas que tumultuavam o mundo
católico de então como a Questão Romana (disputa pelo território de Roma), e o
conflito entre regalismo (exacerbação do poder do estado sobre a religião) e do
ultramontanismo (exacerbação do poder da Igreja sobre o estado e a sociedade). Que
deixava os católicos da época tensos e propensos a confrontar o estado laico.
No final do Império a hierarquia católica tinha uma meta bem
clara: era preciso acabar com o Padroado, que ligava intimamente o clero ao
Imperador, e cujo resultado fora a abusiva intervenção deste e dos políticos na
disciplina interna da Igreja, além da Questão Religiosa, com a consequente
desmoralização do clero, obrigado pela força a se submeter aos ditames da elite
maçônica, com a Maçonaria se colocando como inimiga aberta da
Igreja. Tudo isso para quê? Para ficar na sombra do poder; um poder que lhe
tratava dessa maneira, enquanto o povo, abandonado, exprimia sua religiosidade
com práticas que lembravam o antigo paganismo, sem dar aqui uma conotação moralmente negativa, antes
como algo já superado no hemisfério ocidental.
Já nesse tempo, no final do Império, autoridades
eclesiásticas, em especial o Arcebispo de Salvador, mostravam preocupação com a
ação missionária de Conselheiro, visto que ele representava exatamente aquele um
momento teológico, político e moral que a Igreja queria superar, enquanto ele se
colocava, como o fez até o fim, como porta-voz do autêntico catolicismo, com o grande sucesso nas suas pregações. A causa disso era que, além do seu
estereótipo impressionante, ele vivia no meio do povo, tornou-se um deles, um
seu familiar, e por isso obteve a lealdade absoluta de seus devotos, em
humildes e incondicionais demonstrações, e é possível que isso também tenha lhe
subido a cabeça.
Nesse sentido, um dos principais, e menos creditado
documentos sobre a Campanha de Canudos, foi o relatório do frei João
Evangelista do Monte Marciano (1843-1921), que junto com um companheiro, frei
Caetano de São Leo, e o vigário de Cumbe, pe. Vicente Sabino, que de vez em
quando atendia em Canudos, foi até lá em missão de olheiro, recomendado pelo Arcebispo de Salvador dom Jerônimo Tomé, a
pedido do governador Rodrigues Lima (1845-1903), o primeiro governador eleito
da Bahia, depois da mixórdia que foi a transição política do Império para a
República no estado. Tudo começa com a informação do frei João, dizendo que
partiu a 26 de abril e só chegou no dia 13 de maio, em Canudos, o que dá uma 3
semanas de viagem. Não sei porque meios (1).
A propósito: ambos os freis eram italianos, recém-chegados
ao Brasil.
A primeira impressão de frei Evangelista não foi boa, pois
encontrou, ainda a caminho de Cumbe, que distava 260Km de Canudos, um grupo de
homens, mulheres e crianças, armados, que os trataram com desconfiança e
hostilidade, dando indícios de ser uma comunidade já em pé de guerra contra um
mundo tido como hostil – isso não bate muito com a versão de uma comunidade
pacífica, só interessada no em trabalhar e orar, que a historiografia
tradicional, socializante, da segunda metade do século XX, tem se esforçado
para mostrar.
Foi isso o que ele viu assim que entrou em Canudos: “Passado
o rio [o Vaza-Barris], logo se encontram essas casinholas toscas, construídas
de barro e cobertas de palha, de porta [uma porta só, que um autor, talvez
Cunha, comparou a uma “toca”], sem janela, e não arruadas. O interior é imundo,
e os moradores, que, quase nus, saiam fora a olhar-nos, atestavam no aspecto
esquálido e quase cadavérico as privações de toda a espécie, que curtiam” (2).
Enfim uma comunidade muito pobre, passando severas
necessidades, mas nem por isso pouco operosa. Para mim, um problema era que a
riqueza que o seu trabalho, que não era muito intenso por causa das condições
climáticas, hidrográficas e de solo – muito pedregoso, com pouca água e calor
acentuado: temperatura média anual é 23,8 ºC – conseguia coletar era fortemente
concentrada para na construção de igrejas, havia duas, a última era imponente,
comparada ao casario e a comunidade que a envolviam, e na manutenção da elite
local, que além do Conselheiro, que morava numa casa de alvenaria coberta por
telhas, havia a “caserna”, onde se abrigava a Guarda Católica ou Companhia do
Bom Jesus ou ainda Santa Companhia, os valentes responsáveis pela segurança do
Conselheiro, como a guarda pessoal do rei Davi, da Bíblia, além das casas mais
imponentes dos principais comerciantes do lugar, como Antônio da Mota, Antônio
Vilanova e Jesuíno Correia Lima. Noutras palavras a comunidade não era tão
igualitária quanto Edmundo Moniz fantasiou.
Notas
1- A distância de Canudos a Salvador é de 407 km, e hoje, de
carro, é percorrida em torno de 5h45min.
2 – Aliás uma
das características mais marcantes da campanha de Canudos presentes em todas as
obras a seu respeito é o ambiente de miséria absoluta em que jagunços e
soldados travam essa guerra, Parece que falta tudo e que a qualquer momento
toda uma aparatosa expedição vai desmoronar sob o peso da completa falta dos
recursos mais básicos.
(Abaixo a prova das condições miseráveis que essa gente vivia, casa sem janelas, uma só porta. Uns as compararam com 'tocas', mas talvez seja melhor dizer 'ocas'. Não devemos esquecer que a altura média dos brasileiros do sexo masculino nessa época era em torno de 1, 64m)


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