29 fevereiro 2024

TAXIS DO MARNE (1914)

 


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    Em setembro de 1914 os alemães estavam às portas de Paris, e o alto-comando francês precisou deslocar urgentemente tropas para a frente, a fim de apoiar aquelas que já estavam tentando conter os alemães, próximos ao rio Marne. A solução foi convocar alguns dos 10 mil táxis de Paris, a maioria velhos renaults, de cor vermelha, para levar um reforço de 6 mil soldados recém-treinados. Mil e trezentos taxis foram usados, e o preço da corrida, feito pelo taxímetro, foi pendurado na conta do governo. O esforço deu certo, os alemães foram derrotadas e Paris foi salva. Pelo menos desta vez. A imagem é exagerada, os filmes e fotos mostram os soldados apertados, mas todos dentro dos taxis, jamais sobre a frágil lona que os cobria ou em pé nos estribos.

QUEM TRATOU AOS JUDEUS MELHOR?

 


Eduardo Simões (a Margarida Maria)

O termo Palestina foi criado pelos romanos, como uma divisão administrativa do território tradicionalmente ocupado pelo povo hebreu, durante o seu domínio sobre a região. O interesse dos romanos por esta região foi particularmente ditado pelo fato de aí passarem as principais rotas de comércio terrestre do Mundo Ocidental, ligando produtores e consumidores da Europa Ocidental (Roma) do norte da África (Egito) e do Oriente Médio (Mesopotâmia e Ásia Menor (= Turquia)), e até com o Estremo Oriente, além da necessidade de proteger os portos comerciais estratégicos daquela área do Mediterrâneo, em especial as ilhas gregas, repletas de oliveiras e rico artesanato. Essa divisão tinha também um objetivo fortemente fiscal.

Ora, essa região, a antiga Canaã, era o lar, há mais de um milênio, de um povo, que aí prosperara e se definira como nação, graças ao controle dessas rotas comerciais e a uma religião muito original. Nos seus estágios finais, o seu reino funcionava como uma teocracia, e no contexto conturbado das relações internacionais, do 1º século AC, seus reis, os asmoneus, descendentes da aguerrida família dos Macabeus, tomaram uma decisão fatal: aliaram-se aos inimigos de Roma, os partos, nas guerras pelo domínio político da Palestina. Para evitar a perda dessa região, os romanos, que até aquele momento eram aliados dos judeus, invadiram a Palestina e tomaram Jerusalém, em 63 AC. Aos asmoneus restou uma ignominiosa extinção.

Em que pese as concessões feitas aos judeus pelos romanos, e que não foram feitas a outros povos, (ver Raymond Bloch e Jean Cousin; Roma e o seu destino; Cosmos; 1964), aqueles nunca se conformaram com a presença romana, o que os levou a três guerras colossais:  em 67-70, em 115-117 e em 132-136, onde a paixão dos revoltosos foi respondida com uma profissional e meticuloso extermínio, que quase apagou por completo os traços da presença judaica na região (1), só visíveis por cuidadosas escavações arqueológicas (2). Ao termo das guerras, os judeus foram proibidos de entrar em Jerusalém, sob pena de morte...

Com o fim das maiores comunidades judaicas, várias pequenas comunidades, fieis aos antepassados, continuaram morando em pequenas vilas precárias na periferia da Palestina, em especial no território onde hoje é a Síria. Enquanto o Império Romano se cristianizava, e legava aos cristãos toda a sua predisposição contra os judeus, agravada pelas circunstâncias da morte de Jesus Cristo, assim como pela lembrança das primeiras perseguições.

Com a divisão do Império Romano, em 395, a Palestina, ficou sob o domínio do Império Romano do Oriente, ou Bizâncio, de matriz cultural predominantemente grega, que desde o final do império de Alexandre tinha uma tradição de muita hostilidade aos judeus. Nessa época, a comunidade judaica mais próspera, embora pequena, ficava na cidade de Hebron, na atual Cisjordânia.

Chegam os Árabes e o Islã (636-640)

            Com a chegada dos árabes muçulmanos, e a consequente expulsão dos bizantinos, o status dos judeus moradores na Palestina sofre uma mudança, à primeira vista para melhor, e eles, assim como os cristãos, que não quiseram se converter ao Islã, passaram a ser tratados como “Dhimmi” -  “Os dhimmi (que significa "pessoa protegida") eram cristãos, judeus e, eventualmente, samaritanos, que os muçulmanos designavam como "povos do livro" (ahl al-kitab), e que recebiam tratamento de cidadãos de segunda classe, e embora as perseguições do estado não fossem frequentes, seu cotidiano era de muita humilhação.

Ao contrário de romanos e bizantinos, os árabes muçulmanos permitiram-lhes praticar a sua religião... quase em paz, pois como súditos de categoria inferior, estavam sujeitos a muitas restrições, além de impostos exclusivos. Porém os muçulmanos suspenderam a proibição imposta pelos romanos, de os judeus entrarem em Jerusalém, e eles criaram aí uma colônia permanente.

            “Ao longo desse período, a Palestina foi ... para o califado uma das suas províncias mais prósperas e férteis. A riqueza da Palestina derivava da sua localização estratégica, por ser um entroncamento de importantes rotas comerciais, do afluxo de peregrinos, da excelência de seus produtos agrícolas e de seu rico artesanato... Os judeus palestinos eram fabricantes de vidro especializados cujos produtos ficaram conhecidos como "vidro judeu" na Europa. A Palestina também era conhecida por sua produção de livros e de ciência feitas por hábeis escribas” (Wikipedia em inglês, tradução livre). Os judeus, é claro, enriqueciam com isso, e essa riqueza gerava um certo mal-estar nos seus “protetores”, principalmente quando tinham que recorrer aos seus serviços financeiros.

            Alguns historiadores, baseados em algum evento específico, numa época específica, a Espanha Muçulmana, criaram a ideia de um Islã tolerante ou mais tolerante que a Europa Ocidental cristã, quando, tanto no Islã como no cristianismo medieval, tudo dependia do contexto. Se acontecia um acirramento doutrinário, uma tragédia, uma evento climático, doença ou qualquer incidente grave, tanto os cristãos europeus como árabes muçulmanos logo buscavam um bode expiatório nos judeus, restando a estes fugir para outro reino mais tolerante.

            Analisando os relatos de perseguições a judeus entre povos muçulmanos, vê-se que elas são tão brutais quanto as ocorridas na Europa, e, o que é até certo ponto contraditório, aparentemente se agravaram com o passar do tempo, como podemos ver nos conflitos atuais, quando o mais lógico seria que elas abrandassem com o passar dos anos.

            É possível haver uma atenuação até proposital, certamente, inconsciente, no relato das atrocidades passadas em áreas dominadas por islâmicos, uma vez que, pela interpretação literal do texto bíblico, corroborada pelo Corão, árabes e judeus seriam descendentes do mesmo pai, Abraão, e portanto meios-irmãos, abençoados pela revelação, enquanto os cristãos europeus seriam os filhos desnaturados, embora não-amaldiçoados, do velho Noé, que se perderam no mundo atrás de deuses de mentira, após o dilúvio. Haveria assim uma predisposição de judeus e árabes em ver previamente os cristãos ocidentais sob uma mais turva.

            Há também o fato de a cultura letrada e secularista dos cristãos europeus, além dos avanços tecnológicos, criar um maior interesse em saber e conservar os dados dessas experiências passadas, o que não é tão valorizado pelo Islã, por sua conotação mais mística ou metafísica. Logo o arquivos das perseguições sofridas pelos judeus tende a ser maior e mais bem conservado no Ocidente, independentemente de sua frequência e da sua virulência, que no mundo muçulmano. Um exemplo disso, por exemplo é o artigo referente à história das comunidades judaicas dentro do Império Otomano, na Jewish Encyclopedia, como veremos adiante

É possível que a perseguição contra judeus e cristãos, perpetrada pelas massas, no calor do momento, fosse considerada tão natural, e os massacres de judeus tão espontâneos, por pesarem sobre estes tantas restrições como dhimmis, que os muçulmanos não se preocupavam muito em os documentar, sem falar que a cultura europeia herdada da Antiguidade Greco-romana, hábitos de grandes assembleias, mais atenta à necessidade de registros minuciosos e cuidado com arquivos, sem falar da preocupação com as consequências econômico-fiscais da destruição  de toda uma comunidade.

Favorecia também à proliferação dos arquivos, a estrutura mais vertical, mais hierarquizada, do cristianismo europeu, centrada em pessoas: os bispos, o Papa, de tal sorte que tudo tinha que passar por eles, ficar registrada, etc. enquanto no Islã há mais descentralização, menos hierarquia, e menos necessidades de registros sobre fatos do cotidiano.

A Questão da Jewish Encyclopedia, de 1903

            No verbete Turquey de Joseph Jacobs e Mary W. Montgomery, vê-se essa contradição: eu preferi esse tema porque a Turquia foi, do Séc. XIII até 1919, a detentora dos direitos sobre a Palestina, sem falar da fama que os turcos sempre gozaram, na historiografia tradicional, de ser um povo mais ‘tolerante’, os autores acima não poupam palavras para elogiar a situação dos judeus sob domínio turco: “Sob o comando do sultão Murad I. (1360-89), os turcos cruzaram para a Europa, e os judeus da Trácia e da Tessália ficaram sob o domínio otomano. A mudança foi bem-vinda para eles [os judeus], pois os seus novos governantes muçulmanos trataram-nos com muito mais tolerância e justiça do que os bizantinos cristãos [meu destaque]...”. Os dois autores inclusive reproduzem o texto de uma carta de um tal Isaac Zarfati, judeu, que diz... “A Turquia é uma terra onde nada falta. Se você quiser, tudo pode correr bem com você... Não é melhor viver sob o domínio dos muçulmanos do que sob os cristãos? [idem]. Aqui você pode usar as melhores roupas...”.

            Entrementes, a medida que o verbete se desenrola começam a aparecer indícios do contrários: “O sultão Murad III (1404-1451), por exemplo, em certa ocasião ordenou a execução de todos os judeus do império simplesmente porque estava incomodado com o luxo que eles exibiam em suas roupas. Foi somente após a intervenção de Solomon Ashkenazi, e de outros judeus... apoiada pelo pagamento de uma grande soma em dinheiro, que a ordem foi transformada em uma lei que restringe o vestuário”, desmentindo o texto acima....  “A condição próspera dos judeus na Turquia durante este período [séc XVII]... dependia inteiramente dos caprichos de governantes individuais [não era assim também entre os cristãos?].  “sob Murad IV. (1623-40) os judeus de Jerusalém foram perseguidos... e no tempo de Ibrahim I (1640-49) houve um massacre de judeus asquenazes... no ano de 1648”... “A história dos judeus na Turquia no século XVIII é acima de tudo uma breve crônica de infortúnios”... “Em 1702, foi aprovada uma lei proibindo os judeus de usar chinelos amarelos e ordenando que, no futuro, eles deveriam usar apenas peças pretas para os pés e a cabeça. Em 1728, os judeus que viviam perto do..., ou mercado de peixe, foram obrigados a vender as suas casas aos muçulmanos e a mudar-se, para não contaminar a mesquita vizinha com a sua presença.”... “A destruição dos janízaros no início do século XIX (1826) foi um grande alívio para os judeus... Quase todos os grandes incêndios em Constantinopla começaram no bairro judeu, sendo acesos por gananciosos janízaros, que fingiam ajudar a apagar as chamas, quando na realidade aproveitavam para saquear as casas... “A atitude do governo é uniformemente gentil; e a punição imediata segue-se aos ataques aos judeus.”... Mas também, “O governo turco discrimina os judeus estrangeiros que visitam a Palestina... Em 1885, os irmãos Lubrowsky, dois cidadãos americanos, foram expulsos de Safed [na Galileia] por serem judeus. Em 1888, a Porta [Turquia] declarou que os judeus estrangeiros não poderiam permanecer na Palestina por mais de três meses, após o que os governos dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França enviaram notas protestando contra tal discriminação contra credo e raça. O governo turco anunciou então que a restrição se aplicava apenas aos judeus, que chegavam em grande número à Palestina... a regra permanece em vigor [em 1903], e os judeus estrangeiros não estão autorizados a permanecer na Terra Santa por mais de três meses. Em 1895, surgiu a questão de saber se os judeus estrangeiros poderiam possuir bens imóveis em Jerusalém, e a Porta decidiu pela negativa”. Se esse é o país mais tolerante...

Conclusão

Não é científico comparar comportamentos coletivos espontâneos ou supostos efeitos de legislações, que podem ser seguidas ou não, conscientes ou não, pelos detentores do poder, sobre as coletividades sob sua direção, porque embora saibamos que houve perseguições e injustiças de ambas as coletividades, cristãs e muçulmanas, contra os judeus, não dá para medir a sua intensidade apenas pelo número frio dos mortos, feridos ou deslocados, ignorando a perversidade, ou a intensidade, com que tais atos foram praticados, e o desconforto e a dor que causaram nas vítimas, e mais ainda por não dispormos de um arquivo completo das perseguições ocorridas num lado e noutro. Inclusive falta-nos pesquisar a fundo sobre o que “fisgava”, qual era o “gatilho” que disparava tal frenesi de violências, contra as comunidades judaicas, que pode ser tanto por sua “teimosia” em não se converter á religião dominante, mesmo após tantos anos entre cristãos e muçulmanos, agravado por seu pequeno número, sua habilidade lendária para o comércio e às finanças, etc. De onde vem tão forte e ‘obsessivo’ senso de identidade? Eram outros tempos, outras culturas, logo outros humanos.

O que podemos dizer cientificamente é que ao longo da Idade Média, Moderna e Contemporânea, os judeus sofreram perseguições tanto nas mãos de cristãos, como de diversas vertentes do Islã, num antissemitismo generalizado, e nada mais. O que passa daí não acrescenta nada ao estudo científico desse fenômeno, e de outros correlatos, servindo apenas para aumentar a confusão e, no limite, os males que no passado era atribuídos à ignorância, mas que hoje parecem ser mais atribuíveis à uma política deliberada, mais popular do que se poderia almejar...   

 

Notas

1 – Os romanos passaram o arado por toda a extensão das cidades majoritariamente ocupadas pelos judeus, de sorte que não sobrasse nem os alicerces das construções – semelhante tratamento só foi dados duas outras vezes na história de Roma: em Cartago e em Corinto. Esse detalhe é usado pelos árabes palestinos de hoje, para dizer que a presença judaica no passado não foi tão expressiva assim, e que, por conseguinte, Israel não teria todo esse direito, que afirma ter, de reivindicar aquele território para si.

2 - Hoje, as escavações arqueológicas empreendidas pelos israelenses no subsolo do monte do templo, encontram uma feroz resistência dos palestinos, por motivos tanto religiosos, o monte é um lugar “sagrado”, como política, uma vez que objetos encontrados nessas escavações podem servir para criar ou reforçar a ideia de um direito dos judeus a todo o monte.

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