Eduardo Simões (a Margarida Maria)
O termo Palestina foi
criado pelos romanos, como uma divisão administrativa do território
tradicionalmente ocupado pelo povo hebreu, durante o seu domínio sobre a
região. O interesse dos romanos por esta região foi particularmente ditado pelo
fato de aí passarem as principais rotas de comércio terrestre do Mundo Ocidental,
ligando produtores e consumidores da Europa Ocidental (Roma) do norte da África
(Egito) e do Oriente Médio (Mesopotâmia e Ásia Menor (= Turquia)), e até com o
Estremo Oriente, além da necessidade de proteger os portos comerciais
estratégicos daquela área do Mediterrâneo, em especial as ilhas gregas,
repletas de oliveiras e rico artesanato. Essa divisão tinha também um objetivo
fortemente fiscal.
Ora, essa região, a
antiga Canaã, era o lar, há mais de um milênio, de um povo, que aí prosperara e
se definira como nação, graças ao controle dessas rotas comerciais e a uma
religião muito original. Nos seus estágios finais, o seu reino funcionava como
uma teocracia, e no contexto conturbado das relações internacionais, do 1º
século AC, seus reis, os asmoneus, descendentes da aguerrida família dos
Macabeus, tomaram uma decisão fatal: aliaram-se aos inimigos de Roma, os
partos, nas guerras pelo domínio político da Palestina. Para evitar a perda
dessa região, os romanos, que até aquele momento eram aliados dos judeus,
invadiram a Palestina e tomaram Jerusalém, em 63 AC. Aos asmoneus restou uma
ignominiosa extinção.
Em que pese as
concessões feitas aos judeus pelos romanos, e que não foram feitas a outros
povos, (ver Raymond Bloch e Jean Cousin; Roma e o seu destino;
Cosmos; 1964), aqueles nunca se conformaram com a presença romana, o que os
levou a três guerras colossais: em 67-70, em 115-117 e em 132-136,
onde a paixão dos revoltosos foi respondida com uma profissional e meticuloso
extermínio, que quase apagou por completo os traços da presença judaica na
região (1), só visíveis por
cuidadosas escavações arqueológicas (2). Ao termo das guerras, os judeus
foram proibidos de entrar em Jerusalém, sob pena de morte...
Com o fim das maiores
comunidades judaicas, várias pequenas comunidades, fieis aos antepassados,
continuaram morando em pequenas vilas precárias na periferia da Palestina, em
especial no território onde hoje é a Síria. Enquanto o Império Romano se
cristianizava, e legava aos cristãos toda a sua predisposição contra os judeus,
agravada pelas circunstâncias da morte de Jesus Cristo, assim como pela
lembrança das primeiras perseguições.
Com a divisão do
Império Romano, em 395, a Palestina, ficou sob o domínio do Império Romano do
Oriente, ou Bizâncio, de matriz cultural predominantemente grega, que desde o
final do império de Alexandre tinha uma tradição de muita hostilidade aos
judeus. Nessa época, a comunidade judaica mais próspera, embora pequena, ficava
na cidade de Hebron, na atual Cisjordânia.
Chegam os Árabes e o
Islã (636-640)
Com
a chegada dos árabes muçulmanos, e a consequente expulsão dos bizantinos, o
status dos judeus moradores na Palestina sofre uma mudança, à primeira vista
para melhor, e eles, assim como os cristãos, que não quiseram se converter ao
Islã, passaram a ser tratados como “Dhimmi” - “Os dhimmi (que
significa "pessoa protegida") eram cristãos, judeus e, eventualmente,
samaritanos, que os muçulmanos designavam como "povos
do livro" (ahl al-kitab), e que recebiam tratamento
de cidadãos de segunda classe, e embora as perseguições do estado não fossem
frequentes, seu cotidiano era de muita humilhação.
Ao
contrário de romanos e bizantinos, os árabes muçulmanos permitiram-lhes
praticar a sua religião... quase em paz, pois como súditos de categoria
inferior, estavam sujeitos a muitas restrições, além de impostos exclusivos.
Porém os muçulmanos suspenderam a proibição imposta pelos romanos, de os judeus
entrarem em Jerusalém, e eles criaram aí uma colônia permanente.
“Ao
longo desse período, a Palestina foi ... para o califado uma das suas
províncias mais prósperas e férteis. A riqueza da Palestina derivava da sua
localização estratégica, por ser um entroncamento de importantes rotas
comerciais, do afluxo de peregrinos, da excelência de seus produtos agrícolas e
de seu rico artesanato... Os judeus palestinos eram fabricantes de vidro
especializados cujos produtos ficaram conhecidos como "vidro judeu"
na Europa. A Palestina também era conhecida por sua produção de livros e de
ciência feitas por hábeis escribas” (Wikipedia em inglês, tradução livre). Os
judeus, é claro, enriqueciam com isso, e essa riqueza gerava um certo mal-estar
nos seus “protetores”, principalmente quando tinham que recorrer aos seus
serviços financeiros.
Alguns
historiadores, baseados em algum evento específico, numa época específica, a
Espanha Muçulmana, criaram a ideia de um Islã tolerante ou mais tolerante que a
Europa Ocidental cristã, quando, tanto no Islã como no cristianismo medieval,
tudo dependia do contexto. Se acontecia um acirramento doutrinário, uma
tragédia, uma evento climático, doença ou qualquer incidente grave, tanto os
cristãos europeus como árabes muçulmanos logo buscavam um bode expiatório nos
judeus, restando a estes fugir para outro reino mais tolerante.
Analisando
os relatos de perseguições a judeus entre povos muçulmanos, vê-se que elas são
tão brutais quanto as ocorridas na Europa, e, o que é até certo ponto
contraditório, aparentemente se agravaram com o passar do tempo, como podemos
ver nos conflitos atuais, quando o mais lógico seria que elas abrandassem com o
passar dos anos.
É
possível haver uma atenuação até proposital, certamente, inconsciente, no
relato das atrocidades passadas em áreas dominadas por islâmicos, uma vez que,
pela interpretação literal do texto bíblico, corroborada pelo Corão, árabes e
judeus seriam descendentes do mesmo pai, Abraão, e portanto meios-irmãos,
abençoados pela revelação, enquanto os cristãos europeus seriam os filhos
desnaturados, embora não-amaldiçoados, do velho Noé, que se perderam no mundo
atrás de deuses de mentira, após o dilúvio. Haveria assim uma predisposição de
judeus e árabes em ver previamente os cristãos ocidentais sob uma mais turva.
Há
também o fato de a cultura letrada e secularista dos cristãos europeus, além
dos avanços tecnológicos, criar um maior interesse em saber e conservar os
dados dessas experiências passadas, o que não é tão valorizado pelo Islã, por
sua conotação mais mística ou metafísica. Logo o arquivos das perseguições
sofridas pelos judeus tende a ser maior e mais bem conservado no Ocidente,
independentemente de sua frequência e da sua virulência, que no mundo
muçulmano. Um exemplo disso, por exemplo é o artigo referente à história das
comunidades judaicas dentro do Império Otomano, na Jewish Encyclopedia, como
veremos adiante
É possível que a
perseguição contra judeus e cristãos, perpetrada pelas massas, no calor do
momento, fosse considerada tão natural, e os massacres de judeus tão
espontâneos, por pesarem sobre estes tantas restrições como dhimmis, que os
muçulmanos não se preocupavam muito em os documentar, sem falar que a cultura
europeia herdada da Antiguidade Greco-romana, hábitos de grandes assembleias, mais
atenta à necessidade de registros minuciosos e cuidado com arquivos, sem falar
da preocupação com as consequências econômico-fiscais da
destruição de toda uma comunidade.
Favorecia também à
proliferação dos arquivos, a estrutura mais vertical, mais hierarquizada, do
cristianismo europeu, centrada em pessoas: os bispos, o Papa, de tal sorte que
tudo tinha que passar por eles, ficar registrada, etc. enquanto no Islã há mais
descentralização, menos hierarquia, e menos necessidades de registros sobre fatos
do cotidiano.
A Questão da Jewish
Encyclopedia, de 1903
No
verbete Turquey de Joseph Jacobs e Mary W. Montgomery, vê-se
essa contradição: eu preferi esse tema porque a Turquia foi, do Séc. XIII até
1919, a detentora dos direitos sobre a Palestina, sem falar da fama que os
turcos sempre gozaram, na historiografia tradicional, de ser um povo mais ‘tolerante’,
os autores acima não poupam palavras para elogiar a situação dos judeus sob
domínio turco: “Sob o comando do sultão Murad I. (1360-89), os turcos cruzaram
para a Europa, e os judeus da Trácia e da Tessália ficaram sob o domínio
otomano. A mudança foi bem-vinda para eles [os judeus], pois os seus novos
governantes muçulmanos trataram-nos com muito mais tolerância e justiça
do que os bizantinos cristãos [meu destaque]...”. Os dois autores
inclusive reproduzem o texto de uma carta de um tal Isaac Zarfati, judeu, que
diz... “A Turquia é uma terra onde nada falta. Se você quiser, tudo pode correr
bem com você... Não é melhor viver sob o domínio dos muçulmanos do que sob
os cristãos? [idem]. Aqui você pode usar as melhores roupas...”.
Entrementes,
a medida que o verbete se desenrola começam a aparecer indícios do contrários:
“O sultão Murad III (1404-1451), por exemplo, em certa ocasião ordenou a
execução de todos os judeus do império simplesmente porque estava incomodado
com o luxo que eles exibiam em suas roupas. Foi somente após a intervenção
de Solomon Ashkenazi, e de outros judeus... apoiada pelo pagamento de uma
grande soma em dinheiro, que a ordem foi transformada em uma lei que restringe
o vestuário”, desmentindo o texto acima.... “A condição próspera dos
judeus na Turquia durante este período [séc XVII]... dependia inteiramente dos
caprichos de governantes individuais [não era assim também entre os
cristãos?]. “sob Murad IV. (1623-40) os judeus de Jerusalém foram
perseguidos... e no tempo de Ibrahim I (1640-49) houve um massacre de
judeus asquenazes... no ano de 1648”... “A história dos judeus na Turquia no
século XVIII é acima de tudo uma breve crônica de infortúnios”... “Em 1702, foi
aprovada uma lei proibindo os judeus de usar chinelos amarelos e ordenando que,
no futuro, eles deveriam usar apenas peças pretas para os pés e a
cabeça. Em 1728, os judeus que viviam perto do..., ou mercado de peixe,
foram obrigados a vender as suas casas aos muçulmanos e a mudar-se, para não contaminar
a mesquita vizinha com a sua presença.”... “A destruição dos janízaros no
início do século XIX (1826) foi um grande alívio para os judeus... Quase todos
os grandes incêndios em Constantinopla começaram no bairro judeu, sendo acesos
por gananciosos janízaros, que fingiam ajudar a apagar as chamas, quando na
realidade aproveitavam para saquear as casas... “A atitude do governo
é uniformemente gentil; e a punição imediata segue-se aos ataques aos
judeus.”... Mas também, “O governo turco discrimina os judeus estrangeiros que
visitam a Palestina... Em 1885, os irmãos Lubrowsky, dois cidadãos
americanos, foram expulsos de Safed [na Galileia] por serem judeus. Em 1888, a
Porta [Turquia] declarou que os judeus estrangeiros não poderiam permanecer na
Palestina por mais de três meses, após o que os governos dos Estados Unidos,
Grã-Bretanha e França enviaram notas protestando contra tal discriminação
contra credo e raça. O governo turco anunciou então que a restrição se
aplicava apenas aos judeus, que chegavam em grande número à Palestina... a
regra permanece em vigor [em 1903], e os judeus estrangeiros não estão
autorizados a permanecer na Terra Santa por mais de três meses. Em 1895, surgiu
a questão de saber se os judeus estrangeiros poderiam possuir bens imóveis em
Jerusalém, e a Porta decidiu pela negativa”. Se esse é o país mais tolerante...
Conclusão
Não é científico
comparar comportamentos coletivos espontâneos ou supostos efeitos de
legislações, que podem ser seguidas ou não, conscientes ou não, pelos detentores
do poder, sobre as coletividades sob sua direção, porque embora saibamos que
houve perseguições e injustiças de ambas as coletividades, cristãs e
muçulmanas, contra os judeus, não dá para medir a sua intensidade apenas pelo
número frio dos mortos, feridos ou deslocados, ignorando a perversidade, ou a
intensidade, com que tais atos foram praticados, e o desconforto e a dor que
causaram nas vítimas, e mais ainda por não dispormos de um arquivo completo das
perseguições ocorridas num lado e noutro. Inclusive falta-nos pesquisar a fundo
sobre o que “fisgava”, qual era o “gatilho” que disparava tal frenesi de
violências, contra as comunidades judaicas, que pode ser tanto por sua
“teimosia” em não se converter á religião dominante, mesmo após tantos anos
entre cristãos e muçulmanos, agravado por seu pequeno número, sua habilidade
lendária para o comércio e às finanças, etc. De onde vem tão forte e
‘obsessivo’ senso de identidade? Eram outros tempos, outras culturas, logo
outros humanos.
O que podemos dizer
cientificamente é que ao longo da Idade Média, Moderna e Contemporânea, os
judeus sofreram perseguições tanto nas mãos de cristãos, como de diversas
vertentes do Islã, num antissemitismo generalizado, e nada mais. O que passa
daí não acrescenta nada ao estudo científico desse fenômeno, e de outros
correlatos, servindo apenas para aumentar a confusão e, no limite, os males que
no passado era atribuídos à ignorância, mas que hoje parecem ser mais
atribuíveis à uma política deliberada, mais popular do que se poderia
almejar...
Notas
1 – Os romanos passaram o arado por
toda a extensão das cidades majoritariamente ocupadas pelos judeus, de sorte
que não sobrasse nem os alicerces das construções – semelhante tratamento só
foi dados duas outras vezes na história de Roma: em Cartago e em Corinto. Esse
detalhe é usado pelos árabes palestinos de hoje, para dizer que a presença
judaica no passado não foi tão expressiva assim, e que, por conseguinte, Israel
não teria todo esse direito, que afirma ter, de reivindicar aquele território
para si.
2 - Hoje, as escavações arqueológicas
empreendidas pelos israelenses no subsolo do monte do templo, encontram uma
feroz resistência dos palestinos, por motivos tanto religiosos, o monte é um
lugar “sagrado”, como política, uma vez que objetos encontrados nessas
escavações podem servir para criar ou reforçar a ideia de um direito dos judeus
a todo o monte.