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Sempre sobra pro Prudente...
Um certo senhor, veja abaixo, resolveu escrever um artigo confuso ao jornal Tribuna Piracicabana, que eu copiei abaixo, com um espaventoso título que procura ligar Prudente de Morais aos crimes cometidos em Canudos, de forma um tanto indireta, típico de quem emite uma opinião sobre algo que ignora, talvez para parecer mais politicamente correto. Decidi, portanto escrever-lhe uma resposta
Prudente de Moraes e a chacina do Arraial de Canudos
24 de setembro de 2021
No Governo Prudente José de Moraes Barros, 1894 a 1898, havia
grande influência política dos florianistas que buscavam o retorno dos
militares ao governo – atente-se que os militares brasileiros são protagonistas
de uma história de golpes e busca pelo poder — nada diferente do momento que
vivemos hoje .
As forças armadas, segundo nossa Constituição, são
organizadas como forças permanentes, organizações constituídas por militares
profissionais que não dispõem de outra profissão que não seja de se prepararem
e de se empenharem em operações de guerra na defesa do território ou dos
patrimônios nacionais. Todavia os florianistas estavam próximos ao poder com
possibilidade real de um retorno dos militares ao governo.
A Revolução Federalista encontrava-se em pleno andamento, o
que aumentava a intranquilidade ao novo governo.
Para estudiosos, “a principal obra de Prudente de Moraes
deveria ser, portanto, fazer o país retornar à normalidade, dentro do projeto
político liberal da oligarquia cafeeira. Entre suas primeiras realizações,
esteve o fim da Revolução Federalista, em agosto do ano de 1895, que na
realidade, já havia perdido muito do seu vigor quando da substituição de
Floriano Peixoto. Assim, a habilidade política de Prudente, anistiando os
principais líderes maragatos, foi importante para o encerramento relativamente
pacífico das hostilidades no Rio Grande do Sul”.
O Governo de Prudente de Moraes buscou também resolver
questões diplomáticas pendentes ao período imperial. Em sintonia com o momento
político que vivia reatou relações diplomáticas com Portugal, rompidas por
Floriano em 1893. Desta forma, com a intermediação de Portugal, Prudente tomou
posse da ilha de Trindade, tomada do Brasil pela Inglaterra. Em seu governo,
também Prudente resolveu as questões das fronteiras com a Argentina, na região
das Missões.
Prudente implementou políticas econômicas em protecionismo
aos cafeicultores, contrariando as tendências nacionalistas e até
modernizadoras dos primeiros governos republicanos. As taxas alfandegarias
protecionistas, que de algum modo, se mantinham desde o período de Rui Barbosa,
foram alteradas com elevação dos valores em dezembro do ano de 1897.
Diferente do que se ensinava nas histórias contadas aos
alunos do ensino fundamental no Estado de São Paulo a grande mancha do governo
Prudente de Moraes surgiu com o conflito de Canudos.
A Guerra de Canudos foi um conflito que envolveu a população
sertaneja do Nordeste, principalmente da Bahia. Suas causas aludem a situação
fundiária do país e ao total abandono em que se encontravam as populações mais
humildes.
Nossa estrutura agrária, acontecia com um total descaso das
elites conservadoras e do governo com uma população sertaneja. A tensão social
explodia com frequência.
Historicamente as alternativas disponíveis à população do
sertão eram mínimas. Uma era de banditismo social com moldagem do cangaço.
Consequentemente, havia muito misticismo religioso: uma população condenada à
miséria material passava a acolher apoio no imaginário espiritual, devoção
religiosa com forte exaltação mística: de salvação eterna em troca das misérias
terrenas.
Antônio Conselheiro percorria por longas jornadas o interior
do Nordeste a pé, realizando discursos e profecias, dando conselhos,
proclamando a fé no Reino de Deus. Nos seus limites prestava assistências à
população mais severina, como líder comunitário em uma sociedade abusada.
Longas batalhas surgiram desde 1896 com expedições do
exército brasileiro para destruir a força motivadora da adoração espiritual e a
resistência de um povo que não tinha nada e reivindicavam vida digna. Primeira
expedição com cerca de 100 homens do exército foi massacrada pelos moradores de
Canudos.
Na segunda expedição foram 500 soldados, além de
metralhadoras e canhões, fracassou a caminho do arraial. Nova expedição vem na
sequência com 1300 homens trazidos do sul do país, também fracassou.
Definitivamente veio o massacre do Arraial de Canudos que
somou um contingente de 15 mil homens trazidos de todas as partes do país. O
Arraial de Canudos sofreu intensivos bombardeios, sitiados sem suprimentos ou
água, seu destino estava selado, com uma população de 30 mil habitantes. Em 5
de outubro de 1897, o arraial foi derrotado, com os últimos defensores sendo
mortos e degolados pelas tropas.
Velhos, crianças cidadãos comuns também foram degolados,
mulheres estupradas, antes de encontrarem o mesmo fim, uma covardia que se
configura até hoje como o maior massacre em território nacional atribuída a um
governo e ao exército brasileiro.
Para quem se interessa por essa história em todas suas
controvérsias não pode deixar de ler “Os Sertões” de Euclides da Cunha que
interpretou a guerra de Canudos a partir de fontes orais, como os poemas
populares e as profecias religiosas, encontrados em papéis e cadernos nas
ruínas da comunidade. Baseou-se em profecias apocalípticas, que julgou serem de
autoria de Antônio Conselheiro, para criar, em Os sertões, um retrato sombrio
do líder da comunidade. Estes poemas e profecias foram o ponto de partida de
sua visão de Canudos como movimento sebastianista e messiânico, vinculado a
religiosidade da Igreja Católica do século XIX.
Logo, toda deferência ao governo Prudente de Moraes precisa
de uma análise histórica mais profunda com pesquisas em novas fontes para
sanarem dúvidas que na literatura posterior conta ouvindo-se apenas os
vitoriosos sem que os derrotados contassem as suas verdades.
José Osmir Bertazzoni, jornalista, advogado.
Minha resposta:
Afinal o que pretendeu o Sr. Bertazzoni com esse artigo? Ele
se propõe a falar sobre Prudente de Morais e a chacinha do Arraial de Canudos,
e é justo isso que não faz, ou o faz de forma desnecessária, por meio de
generalidades triviais.
1º - Ignora por acaso que Canudos nunca se rendeu nem ensejou
qualquer negociação? – a rendição do Beatinho, com velhos mulheres e crianças
foi algo absolutamente privado, e só depois da morte do Conselheiro.
2º - Ignora que os canudense resistiram de armas nas mãos,
até à morte, ao cerco do exército. Em vista disso eu pergunto: quando um membro
do PCC mata um policial ele está cumprindo a lei e habilitando para ser
posteriormente declarado herói? Os policiais que, num confronto legítimo, matam
membros do PCC, estão praticando uma chacina, são criminosos, e merecem a reprovação
da sociedade?
3º - Ignora que quem começou e tocou fogo na guerra com
Canudos, foi o vice de Prudente, Manoel Vitorino, que se bandeou para o lado
dos militares radicais, aproveitando-se do momento em que Prudente tirou licença
saúde, em 10.11.1896, só voltando justo no dia anterior à chacina de prisioneiros,
doentes e feridos da Expedição Moreira Cesar, pelos canudenses, a pauladas, golpes
de facão, machadadas e coronhadas, como disse uma jagunça num interrogatório
posterior, “para economizar balas”.
4º - Ignora que além de massacrar prisioneiros, doentes e
feridos do Exército Brasileiro e da Polícia da Bahia, o Conselheiro, numa
decisão de selvageria rara, ordenou que se tripudiasse de seus cadáveres,
deixando-os expostos ao tempo, “enfeitando” a estrada, além de mandar uma
ameaça de morte para as autoridades, que se atrevessem a dar ‘palpites’ ali.
Esse foi o tratamento mais desumano e brutal já recebido por soldados do
Exército Brasileiro em ação, por parte de um inimigo, em toda a sua história.
5º - Ignora que a indissolubilidade e a incolumilidade do
território nacional, e a expressa proibição de secessão deste território,
presente em todas as Constituições, que era o que o Conselheiro fazia, quando
proibia as leis, o dinheiro e a jurisdição das autoridades republicanas no
território sob sua influência, que ia além da área do arraial? Não se faz
guerra a um estrangeiro que queira tomar território nacional? Se o estado devia
deixar aquela área para o Conselheiro, então vale deixar em paz a traficantes,
milicianos e criminosos em geral que se apropriam de bairros inteiros em nossas
cidades? Se um pode, todos podem
6º - Ignora que as operações de guerra do Exército ficavam a
cargo de generais que conspiravam contra ele, Prudente, nomeados por Vitorino, e
que tentaram matá-lo, em 5 de novembro?
7º - Ignora que nem todos os oficiais de alta patente
executaram prisioneiros. Segundo o soldado gaúcho Isidoro Virginio, o comadante
do 12º BI, o General Carlos Maria Silva Teles, soltou seus prisioneiros, apesar
da ordem de degola do comandante Arthur Oscar. O General Savaget, segundo Frank
McCann, também se opunha aos métodos de Oscar, O General Girard e mais dois
outros tiraram licença para não participar daquilo. A frase de Machado
Bittencourt, nomeado por Prudente, de que em Monte Santo, não havia lugar para prisioneiros,
pode ser perfeitamente entendida como: “para que a gente quer prisioneiro? “Decida
como quiser, libera esse povo!” Como Carlos Telles fez, e não foi repreendido. A
degola não era uma política de governo, sequer do Exército, mas de alguns
militares que precisam ser nomeados. Nunca foi da tradição do Exército Brasileiro,
desde as Invasões Holandesas, massacrar prisioneiros. Pode-se acusar o exército
de leniência com Arthur Oscar e seus cúmplices, mas a situação era muito
confusa na época e as instituições periclitavam.
A verdadeira história, a história científica, baseada em
documentos e análises descontaminadas de ideologia maniqueísta, análise crítica,
não moralista, sobre Canudos, ainda não foi contada – precisamos muito do
material do exército.
Ou seja, a guerra ainda nem começou; e já tem gente
entregando as armas.