16 setembro 2024

BRASIL-CHINA-MUZEMA

O governo petista do Brasil nunca escondeu sua admiração pela China e por toda e qualquer ditadura derivada do marxismo, porque elas são uma poderosa justificativa para a filosofia que move o projeto econômico do presidente: O ESTADO INDUTOR DO DESENVOLVIMENTO, e o caso chinês, parece corroborar essa esperança, nunca concretizada em nenhum outro país do mundo, de que a interferência do estado pode realmente trazer a prosperidade, e levar um grupo nacional ao melhor dos mundos, seguindo o caminho exatamente contrário ao seguido pelas atuais superpotências econômico-sociais, todas capitalistas. Que se danem estas: existe a China!

Em 12 de abril de 2013, no Morro da Muzema, Rio de Janeiro, dois prédios desabaram do nada, matando 24 pessoas. Investiga daqui investiga dali, ficou-se sabendo que a construção dos prédios fora irregular, e que a empresa que os construiu era uma extensão ou cúmplices de bandidos milicianos, que se apropriaram do lugar e criaram um território de ilegalidade, subornos e violência, exatamente o que acontece em todas as ditaduras. Mas quem liga? Isso já é comum nas grandes cidades brasileiras!

Abaixo um documentários sobre o efeito do crescimento acelerado, artificial, promovido pelo estado, no setor mais importante da tecnologia e da economia chinesa: a engenharia civil, e a construção de prédios residenciais e rodovias; feitos às pressas, para alcançar metas burocráticas a revelia da qualidade e sem nenhuma preocupação com a integridade da população.

Em 1973 Chico Buarque, revoltado com os militares, cantava, na canção Fado tropical, que "essa terra, um dia, vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal", que na época era uma ditadura, mas pela corrente política oposta à dele. Hoje, para sua alegria, e a dos que adoram o marxismo e as ditaduras dele derivadas, certamente se cantará assim: "mas essa terra ainda vai cumprir sua missão, ainda vai tornar-se um imenso Muzemão!" 

Enquanto isso milhares de famílias perdem tudo o que pouparam ao longo de sua vida, porque foram atrás de promessas do governo. Por que é tão difícil aprender com os erros dos outros?  

 







11 setembro 2024

VIVE LA FRANCE! POBRE BRASIL!

O POVO QUE SE ENVERGONHA DE SUA HISTÓRIA NÃO MERECE TER UMA

Em abril de 2014, o povo da pequena comuna francesa de Fontainebleau saiu às ruas vestido com roupas da época, para rememorar um fato famoso que aí aconteceu a 200 anos atrás: a despedida de Napoleão Bonaparte de sua Velha Guarda, a tropa de elite que fazia sua segurança e decidia as batalhas mais difíceis, antes de partir para o exílio na ilha de Elba, conforme acordado no Tratado de Fontainebleau, assinado aí mesmo, em 11 de abril de 1814, após o qual ocorreu uma famosa e emocionante despedida, quando os rudes soldados veteranos, choraram de vergonha pela derrota e o consequente exilio de seu comandante, que era um camarada para eles. Em Waterloo, no ao seguinte, eles se deixarão matar até o último, mas não se renderão.

Napoleão é um personagem controverso, os franceses bem o sabem, mas também é parte importante da história da França,  e certamente a cultura francesa de hoje muito lhe deve, no que tem de qualidades e defeitos. Napoleão foi o passado inevitável, resultado das circunstâncias e das possibilidades da época. Precisamos aceitar e agradecer pelo nosso passado, pelos nossos ancestrais, enquanto no esforçamos para não repetir os seus erros e aprimorar as suas qualidades, e é por isso que as crianças tomaram uma parte importante no evento aprendendo a amar sua pátria e a ser francês nos dias de hoje, resultado da sequência de todas as gerações que vieram moldando sua cultura, desde a mais remota antiguidade.

Bem diferente de nós, que buscamos a qualquer custo denegrir e enxovalhar, os personagens de nossa História, muitas vezes induzidos por mestres e doutores de nossas universidades, que deveriam ser os primeiros a julgar os fatos do passado no contexto mesmo de sua evolução histórica, e não de seus interesses e preconceitos pessoais. Os portugueses sumiram da história e passaram a ser tratados como "brancos" ou "europeus": como se eles fossem todos iguais, dificultando ou deformando a análise do passado; os bandeirantes são "genocidas" e "escravocratas", numa época em que todo mundo praticava a escravatura, inclusive os chefes africanos, fruto da perda completa do sentido da história como evolução; a Guerra contra o Paraguai, uma guerra entre dois países soberanos, começada pelo Paraguai, tornou-se um genocídio exclusivo do exército brasileiro, livrando a argentinos e uruguaios, que lutaram ao nosso lado,  e um êxito de vendas para um autor que não se pejou em falsificar o relato da testemunha ocular mais importante dessa guerra: o Visconde de Taunay; por fim a mesma ignorância dos fatos, indispensável para criar culpa e ódio, para matar o espírito de um povo, aparece na iniciativa bizarra do próprio Congresso Nacional ao eleger Antônio Conselheiro para o Panteão Nacional de Heróis e Heroínas. Uma DESMORALIZAÇÃO.

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AÍ CRIANÇADA!

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A CAVALARIA POLONESA COM SEUS QUEPES DE QUATRO PONTAS EM VERMELHO, E LANÇAS COM BANDEIROLAS. À FRENTE UM OFICIAL DOS HUSSARDOS, COM SEU CHAPÉU DE PELO DE URSO E MAIS ATRÁS OUTROS HUSSARDOS COM PENACHO BEM GRANDE NO QUEPE - OS HUSSARDOS ERAM A ELITE DA CAVALARIA


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A VELHA GUARDA, COM A TRADICIONAL BARBA. ELES ESTÃO DE AVENTAL PORQUE FAZEM PARTE DO GRUPO DE SAPADORES - ESPECIALISTAS EM DESTRUIR POSIÇÕES FORTIFICADAS


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A INFANTARIA DA VELHA GUARDA COM O SEU UNIFORME IMPECÁVEL, COMO ERA EM 1814. A HISTÓRIA DESFILANDO NAS RUAS.

Se quiserem ver isso em filme é mais interessante




10 setembro 2024

I-NI-MA-GI-NÁ-VEL!!! VIETNÃ - EUA

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https://www.defense.gov/Multimedia/Photos/igphoto/2003120229/

Minha geração cresceu vendo as imagens cresceu vendo as imagens terríveis da GUERRA DO VIETNÃ, nas revistas Cruzeiro, Manchete, Visão e Veja, numa época em que se achava que as pessoas não eram feitas de fios de algodão doce, e por isso nós todos tínhamos acessos a fotos diretas do campo de batalha, sem censura e sem borrões - estes eram apenas para pelados e peladas - e havia muito menos violência na sociedade, enquanto hoje, que a pretexto de proteger as pessoas de traumas e más sugestões visuais, se censura tudo, a violência, tanto a física natural como a sexual, estão fora de controle. 

Nós jamais imaginaríamos a cena acima, com o Secretário de Defesa americano Lloyd Austin III, apertando as mãos do seu homólogo vietnamita, general Phan Van Giang, em Siem Reap, no Camboja, 22.11.2022, numa reunião de Ministros da Defesa de países da área, sem a presença da China e da Rússia. O Vietnã, que é uma ditadura comunista, e que travou uma guerra medonha com os EUA, conseguem vencer o passado e estabelecer diálogos vantajosos com o o país mais poderoso do planeta, e tirar muitas vantagens disso, enquanto o Brasil, uma suposta democracia, vencendo o seu passado vantajoso de país amigo dos EUA, não cessa de fabricar conflitos com estes, enquanto tenta se aninhar junto ao concerto de ditaduras falidas.  


 

08 setembro 2024

CANUDOS, GUERRA INTERMINÁVEL - 18

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https://ampfmairinque.org/patrimonio-historico/prudente-de-morais/

Sempre sobra pro Prudente...

Um certo senhor, veja abaixo, resolveu escrever um artigo confuso ao jornal Tribuna Piracicabana, que eu copiei abaixo, com um espaventoso título que procura ligar Prudente de Morais aos crimes cometidos em Canudos, de forma um tanto indireta, típico de quem emite uma opinião sobre algo que ignora, talvez para parecer mais politicamente correto. Decidi, portanto escrever-lhe uma resposta


Prudente de Moraes e a chacina do Arraial de Canudos

24 de setembro de 2021 

No Governo Prudente José de Moraes Barros, 1894 a 1898, havia grande influência política dos florianistas que buscavam o retorno dos militares ao governo – atente-se que os militares brasileiros são protagonistas de uma história de golpes e busca pelo poder — nada diferente do momento que vivemos hoje .

As forças armadas, segundo nossa Constituição, são organizadas como forças permanentes, organizações constituídas por militares profissionais que não dispõem de outra profissão que não seja de se prepararem e de se empenharem em operações de guerra na defesa do território ou dos patrimônios nacionais. Todavia os florianistas estavam próximos ao poder com possibilidade real de um retorno dos militares ao governo.

A Revolução Federalista encontrava-se em pleno andamento, o que aumentava a intranquilidade ao novo governo.

Para estudiosos, “a principal obra de Prudente de Moraes deveria ser, portanto, fazer o país retornar à normalidade, dentro do projeto político liberal da oligarquia cafeeira. Entre suas primeiras realizações, esteve o fim da Revolução Federalista, em agosto do ano de 1895, que na realidade, já havia perdido muito do seu vigor quando da substituição de Floriano Peixoto. Assim, a habilidade política de Prudente, anistiando os principais líderes maragatos, foi importante para o encerramento relativamente pacífico das hostilidades no Rio Grande do Sul”.

O Governo de Prudente de Moraes buscou também resolver questões diplomáticas pendentes ao período imperial. Em sintonia com o momento político que vivia reatou relações diplomáticas com Portugal, rompidas por Floriano em 1893. Desta forma, com a intermediação de Portugal, Prudente tomou posse da ilha de Trindade, tomada do Brasil pela Inglaterra. Em seu governo, também Prudente resolveu as questões das fronteiras com a Argentina, na região das Missões.

Prudente implementou políticas econômicas em protecionismo aos cafeicultores, contrariando as tendências nacionalistas e até modernizadoras dos primeiros governos republicanos. As taxas alfandegarias protecionistas, que de algum modo, se mantinham desde o período de Rui Barbosa, foram alteradas com elevação dos valores em dezembro do ano de 1897.

Diferente do que se ensinava nas histórias contadas aos alunos do ensino fundamental no Estado de São Paulo a grande mancha do governo Prudente de Moraes surgiu com o conflito de Canudos.

A Guerra de Canudos foi um conflito que envolveu a população sertaneja do Nordeste, principalmente da Bahia. Suas causas aludem a situação fundiária do país e ao total abandono em que se encontravam as populações mais humildes.

Nossa estrutura agrária, acontecia com um total descaso das elites conservadoras e do governo com uma população sertaneja. A tensão social explodia com frequência.

Historicamente as alternativas disponíveis à população do sertão eram mínimas. Uma era de banditismo social com moldagem do cangaço. Consequentemente, havia muito misticismo religioso: uma população condenada à miséria material passava a acolher apoio no imaginário espiritual, devoção religiosa com forte exaltação mística: de salvação eterna em troca das misérias terrenas.

Antônio Conselheiro percorria por longas jornadas o interior do Nordeste a pé, realizando discursos e profecias, dando conselhos, proclamando a fé no Reino de Deus. Nos seus limites prestava assistências à população mais severina, como líder comunitário em uma sociedade abusada.

Longas batalhas surgiram desde 1896 com expedições do exército brasileiro para destruir a força motivadora da adoração espiritual e a resistência de um povo que não tinha nada e reivindicavam vida digna. Primeira expedição com cerca de 100 homens do exército foi massacrada pelos moradores de Canudos.

Na segunda expedição foram 500 soldados, além de metralhadoras e canhões, fracassou a caminho do arraial. Nova expedição vem na sequência com 1300 homens trazidos do sul do país, também fracassou.

Definitivamente veio o massacre do Arraial de Canudos que somou um contingente de 15 mil homens trazidos de todas as partes do país. O Arraial de Canudos sofreu intensivos bombardeios, sitiados sem suprimentos ou água, seu destino estava selado, com uma população de 30 mil habitantes. Em 5 de outubro de 1897, o arraial foi derrotado, com os últimos defensores sendo mortos e degolados pelas tropas.

Velhos, crianças cidadãos comuns também foram degolados, mulheres estupradas, antes de encontrarem o mesmo fim, uma covardia que se configura até hoje como o maior massacre em território nacional atribuída a um governo e ao exército brasileiro.

Para quem se interessa por essa história em todas suas controvérsias não pode deixar de ler “Os Sertões” de Euclides da Cunha que interpretou a guerra de Canudos a partir de fontes orais, como os poemas populares e as profecias religiosas, encontrados em papéis e cadernos nas ruínas da comunidade. Baseou-se em profecias apocalípticas, que julgou serem de autoria de Antônio Conselheiro, para criar, em Os sertões, um retrato sombrio do líder da comunidade. Estes poemas e profecias foram o ponto de partida de sua visão de Canudos como movimento sebastianista e messiânico, vinculado a religiosidade da Igreja Católica do século XIX.

Logo, toda deferência ao governo Prudente de Moraes precisa de uma análise histórica mais profunda com pesquisas em novas fontes para sanarem dúvidas que na literatura posterior conta ouvindo-se apenas os vitoriosos sem que os derrotados contassem as suas verdades.

José Osmir Bertazzoni, jornalista, advogado.


Minha resposta:

Afinal o que pretendeu o Sr. Bertazzoni com esse artigo? Ele se propõe a falar sobre Prudente de Morais e a chacinha do Arraial de Canudos, e é justo isso que não faz, ou o faz de forma desnecessária, por meio de generalidades triviais.

1º - Ignora por acaso que Canudos nunca se rendeu nem ensejou qualquer negociação? – a rendição do Beatinho, com velhos mulheres e crianças foi algo absolutamente privado, e só depois da morte do Conselheiro.

2º - Ignora que os canudense resistiram de armas nas mãos, até à morte, ao cerco do exército. Em vista disso eu pergunto: quando um membro do PCC mata um policial ele está cumprindo a lei e habilitando para ser posteriormente declarado herói? Os policiais que, num confronto legítimo, matam membros do PCC, estão praticando uma chacina, são criminosos, e merecem a reprovação da sociedade?

3º - Ignora que quem começou e tocou fogo na guerra com Canudos, foi o vice de Prudente, Manoel Vitorino, que se bandeou para o lado dos militares radicais, aproveitando-se do momento em que Prudente tirou licença saúde, em 10.11.1896, só voltando justo no dia anterior à chacina de prisioneiros, doentes e feridos da Expedição Moreira Cesar, pelos canudenses, a pauladas, golpes de facão, machadadas e coronhadas, como disse uma jagunça num interrogatório posterior, “para economizar balas”.

4º - Ignora que além de massacrar prisioneiros, doentes e feridos do Exército Brasileiro e da Polícia da Bahia, o Conselheiro, numa decisão de selvageria rara, ordenou que se tripudiasse de seus cadáveres, deixando-os expostos ao tempo, “enfeitando” a estrada, além de mandar uma ameaça de morte para as autoridades, que se atrevessem a dar ‘palpites’ ali. Esse foi o tratamento mais desumano e brutal já recebido por soldados do Exército Brasileiro em ação, por parte de um inimigo, em toda a sua história.

5º - Ignora que a indissolubilidade e a incolumilidade do território nacional, e a expressa proibição de secessão deste território, presente em todas as Constituições, que era o que o Conselheiro fazia, quando proibia as leis, o dinheiro e a jurisdição das autoridades republicanas no território sob sua influência, que ia além da área do arraial? Não se faz guerra a um estrangeiro que queira tomar território nacional? Se o estado devia deixar aquela área para o Conselheiro, então vale deixar em paz a traficantes, milicianos e criminosos em geral que se apropriam de bairros inteiros em nossas cidades? Se um pode, todos podem

6º - Ignora que as operações de guerra do Exército ficavam a cargo de generais que conspiravam contra ele, Prudente, nomeados por Vitorino, e que tentaram matá-lo, em 5 de novembro?

7º - Ignora que nem todos os oficiais de alta patente executaram prisioneiros. Segundo o soldado gaúcho Isidoro Virginio, o comadante do 12º BI, o General Carlos Maria Silva Teles, soltou seus prisioneiros, apesar da ordem de degola do comandante Arthur Oscar. O General Savaget, segundo Frank McCann, também se opunha aos métodos de Oscar, O General Girard e mais dois outros tiraram licença para não participar daquilo. A frase de Machado Bittencourt, nomeado por Prudente, de que em Monte Santo, não havia lugar para prisioneiros, pode ser perfeitamente entendida como: “para que a gente quer prisioneiro? “Decida como quiser, libera esse povo!” Como Carlos Telles fez, e não foi repreendido. A degola não era uma política de governo, sequer do Exército, mas de alguns militares que precisam ser nomeados. Nunca foi da tradição do Exército Brasileiro, desde as Invasões Holandesas, massacrar prisioneiros. Pode-se acusar o exército de leniência com Arthur Oscar e seus cúmplices, mas a situação era muito confusa na época e as instituições periclitavam.

A verdadeira história, a história científica, baseada em documentos e análises descontaminadas de ideologia maniqueísta, análise crítica, não moralista, sobre Canudos, ainda não foi contada – precisamos muito do material do exército.

Ou seja, a guerra ainda nem começou; e já tem gente entregando as armas.

 

07 setembro 2024

ROTEIRO DA CAMPANHA DE CANUDOS - 2

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1893-1896 - I

Após o entrevero em Masseté, Conselheiro abandona uma comunidade que fundara numa fazenda próxima a vila de Bom Jesus, em 1886 (1), e se interna com sua gente no curso médio do rio Vaza-Barris, uma região muito seca e isolada do nordeste da Bahia. Aí se apropria, em junho de 1893, de um casario, conhecido como Canudos, nas terras de um tal Dr. Fiel, que, segundo Benicio (1899) possuía várias fazendas no local e que, segundo outros autores era de gente submetida à influência ao Barão de Jeremoabo. No local havia umas 50 casas de taipa, e uma pequena capelinha, dedicada a Nossa Senhora da Conceição. O lugarejo é rebatizado pelo Conselheiro como Belo Monte.

O local realmente era muito pobre, exceto pela presença da família de Antônio Mota, próspero comerciante de couro e proprietário rural e da família dos Macambira, de agricultores, que possuíam mais terras e viviam em casas melhores. Outro personagem importante do lugar era o também comerciante e pequeno proprietário Jesuíno Lima, que mais tarde se tornará inimigo incondicional, no estilo do velho semiárido, dos conselheiristas

A presença do Conselheiro provoca um movimento de imigração para o local, de gente interessada em usufruir da fama de santidade do Conselheiro e de quebra algum milagres que ele pudesse realizar, pois a sua fama nesse sentido já corria os sertões, como é comum nesses casos, além da ideia de prosperidade e até riqueza associadas à proximidade com gente “santa”, como é próprio do Antigo Testamento (José do Egito, Salomão etc.) e da religiosidade popular.

O tamanho de Canudos e sua população

A fantasia mais delirante surgida em torno do Belo Monte é que o arraial chegou a possuir mais de 20 mil habitantes, a cifra mais comum, até chegar ao superabsurdo de mais de 30 mil! Defendida esntre outros por Frederico Pernambucano em a Guerra total de Canudos – se isso não parar, talvez em breve descubramos que havia uma Londres ou uma Paris, no sertão da Bahia, no final do século XIX.

A primeira questão que se coloca é: como sustentar uma população dessa envergadura?

Primeiro: a área onde estava localizado o Belo Monte é uma das pobres em termos de pluviosidade – enquanto a média anual de chuvas é de uns 380mm/ano, a média de evaporação por mês é de 110mm, em virtude das altas temperaturas e das características do solo. Não há excedente pluviométrico em mês algum.

Segundo: o fornecimento de água não é garantido. O rio Vaza-Barris só corria no seu leito por uns três meses ao ano. No resto do ano o povo ia pegar água, por meio de baldes, em cacimbas escavadas no leito do rio.

Terceiro: a qualidade do solo, majoritariamente raso, arenoso, pouco permeável, muito acido, muito pedregoso e facilmente erodível, não era propício a uma agricultura ou pecuária de alto rendimento. Mesmo nos poucos lugares onde era possível uma agricultura de excedente, havia, e ainda há, a necessidade de química para a correção do solo e cuidados com a erosão.

Quarto: Belo Monte ficava na região do polígono das secas, logo dominada pela instabilidade do clima semiárido, o que dificultava ainda mais a vida de uma comunidade, que fugia de contatos regulares com o entorno mais desenvolvido, para transferência de mercadorias e tecnologia, além da possibilidade de onipresentes contaminações espirituais.

Sem o concurso da agricultura, pela qualidade do solo e a estabilidade do clima, só restavam quatro alternativas: grandes obras de engenharia (diques, canais, aquedutos) e adubação intensiva do solo, posição favorável em grandes rotas comerciais, como em Juazeiro e Petrolina, uma indústria poderosa, a extração de bens minerais ou alguma coisa muito cobiçada sob controle do arraial. Não se achou nada disso em Belo Monte.

Simplesmente não havia produção de alimento para sustentar uma aglomeração desse porte, e a divisão dos bens se impunha muito mais por causa da pobreza extrema do que por uma presunta prosperidade, e menos ainda como causa dessa ‘prosperidade’, como querem socialistas/marxistas, a revelia da história, das condições objetivas do lugar e da mentalidade pré-capitalista do Conselheiro e sua gente. Até hoje, mesmo com o açude de Cocorobó, Nova Canudos não consegue sustentar 20 mil habitantes, quanto mais naquela época.

Por fim resta o testemunho de Honório Vilanova, irmão de Antônio Vilanova, a Nertan Macedo (1983, p 129), quanto, ele recordou uma declaração do Conselheiro, logo após a saída dos frades capuchinhos: “Conheço os padres falsos. Os que eu quero abraço. Aceito quem credita no Bom Jesus. Ando nesse mundo imitando a Deus Nosso Senhor. Quando ele andava na terra seguiam-no 5 mil pessoas: e as boas andam em companhia das más, porque assim ganham a salvação”, que repetia outra que ele já ouvira do mesmo Conselheiro:  Quando Jesus Nosso Senhor andou pela terra foi acompanhado de cinco mil pessoas. No meio delas havia mais gente detestada do que boa. Ao lado do Bom Jesus [que supostamente seria ele mesmo] já tem o mesmo número de pessoas” (idem p 70) (2). 

Portanto algo em torno de cinco mil pessoas, espalhados em centenas de casas, seria o número mais razoável para população de Canudos, que durante a campanha recebeu ajuda material e voluntários das fazendas no entorno.

Outro testemunho fundamental quanto a isso é o do próprio Honório Vilanova a Macedo (idem, p 133). “Pensavam os soldados [e muito mestre e doutor hoje] que o peregrino tinha gente demais, quando éramos poucos, bem distribuídos e melhor entrincheirados”.

A questão agora é com você leitor, se vai acreditar numa testemunha ocular ou no seu mestre ideológico.

 

Nota

1 – Nessa época, novembro de 1886, o delegado de Itapicuru, oficiou ao Chefe de Polícia da Bahia a sua preocupação com a presença de homens armados, entre os conselheiristas ((Macedo - Maestri. 2004), um detalhe que será muito mencionado nas correspondências ao Barão de Jeremoabo, posteriormente. Isso pode ter acontecido como uma cautela pelo fato de ele ter sido preso em 1876, sob falsa acusação de assassinato, além das tratativas das autoridades, naquele momento, e posteriormente, de interna-lo num asilo de alienados no Rio de Janeiro. Há um indícios de que após este acontecimento, ele começa a chamar a atenção por, além das atividades espirituais e obras de piedade habituais, se fazer acompanhar por gente armada, sem ele nem o seu entorno, verem contradição no fato de um penitente, que busca na imitação de Jesus Cristo a remissão de seus pecados, se fazer proteger por um grupo armado.

2 - isso remete ao texto de Mt 14,21; Mc 6,44; Lc 9,14 fala em “quase cinco mil homens”; Jo 6,10 fala em “homens em número de cinco mil aproximadamente”. Essa gente não o seguia, mas se reuniu-se fortuitamente numa ocasião ou duas, interessadas em ouvir o seu sermão e fazer refeição grátis. Jesus, por sinal, os escorraça ainda nesse mesmo capítulo: 6,66. Acho que é por aí, em torno de 5 mil, uma grande parte crianças, que se deve contar os moradores de Belo Monte.  Conselheiro por seu lado, cercou-se de gente armada pra evitar uma melhor da imitação de seu Deus, que rendeu-se aos seus inimigos e por eles foi morto, o que no caso dele poderia acabar em prisão ou hospital psiquiátrico. O destino mais cruel, sofreu-o aquela pobre gente: os seus seguidores.

Bibliografia 

Macedo, José R – Maestri, Mario; Belo Monte um história da Guerra de Canudos; Expressão Popular; São Paulo; 2004

Benicio, Manoel; O rei dos jagunçosCrônica histórica e de costumes sertanejos sobre os acontecimento de Canudos; Jornal do Commercio; Rio de Janeiro, 1899

Macedo, Nertan; Memorial de Vilanova; Renes; Ri de Janeiro; 1983

Junior, Israel de Oliveira; Da mata branca ao estado de degradação: a desertificação em Canudos (BA); UFBA (Instituto de Geociências); dissertação de Doutorado em Geografia; Salvador; 2019

https://entreasecaeacerca.wordpress.com/2013/10/19/geografia-canudense/

http://solosne.cnps.embrapa.br/index.php?link=ba

(Abaixo: Honório Vilanova (esquerda) e outro sobrevivente de última hora do cerco de Belo Monte, Chiquinhão, se encontram inesperadamente em 1949, Vilanova morava no Ceará e foi a Canudos a convite do advogado e pesquisador cearense Pedro Wilson Mendes, e prestam uma homenagem no local onde supostamente foi enterrado o peregrino Antônio Conselheiro. Ambos com chapéu na mão, ricos e pobres tinham a mesma educação)

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgGlvOsrVY2iKgRjdC59ht0ks6Dmven7oE1nScATRoefXCTGSABvO-0y3QNfjsYezBzuWyyDecnKQYWBhzcXrSHvARfzexp2IqKOr65Rq-np-Zza0kZAMAZKYLeys0TA1nR4Te-Iy6xvv0P/s1600/Vila+Nova+e+Chiquinh%25C3%25A3o+de+chap%25C3%25A9u+na+m%25C3%25A3o.jpg

https://cangaconabahia.blogspot.com/2011/10/



GLADIADOR, O FIM DA LINHA


 https://eclecticlight.co/wp-content/uploads/2016/02/geromepolliceverso.jpg

https://eclecticlight.co/2018/07/26/too-real-the-narrative-paintings-of-jean-leon-gerome-4/

Eduardo Simões

Essa tela de Jean-Leon Gerôme (1824-1904), representa um momento crucial para de um gladiador. Depois de uma vida de duros combates, lutando por sua vida ou integridade física, é, afinal, derrotado por outro, mais hábil, e para ele não está adiantando entender os três dedos da mão direita ao público, pedindo clemência, porque a parte mais nobre da plateia, aquela cuja opinião realmente importa, ou importava mais, ao imperador, sentado entre as duas colunas róseas, já decidiu, com o polegar para baixo, que quer ver o 'golpe de misericórdia'. Talvez nos seus áureos tempos esse gladiador fosse um tanto arrogante e pretensioso, como muitos quando 'estão por cima', não tenha conquistado um grande fã clube, talvez as pessoas estejam aborrecidas com algo: um imposto novo, alguém famoso que foi executado recentemente, um desastre, etc. e resolveu descontar nele que, em vão, pede clemência. 

Sobre o jogo de gladiadores é bom saber que, a grande maioria não acabava com a morte do vencido (isso era combinado antes com o empresário, e espetáculos que terminavam em morte eram muito mais caros, em geral só a elite e os imperadores podiam pagar - ganância e ambição também salvam vidas). Ele deveria ter piedade? Há o túmulo de um gladiador em Roma que, contando a história do seu 'proprietário', diz que este se apiedou de um companheiro, apesar do pedido de morte do público, mas, posteriormente, teve outra luta com esse mesmo e perdeu, e o vencedor não desapontou ao público. O texto, decerto escrito por seus amigos, termina dizendo que espera que a sua história sirva de exemplo àqueles que nesse mundo, ainda se deixam levar pela misericórdia.

Esse quadro de Gerôme é tão genial, que ele pintou até os raios de luz do sol, passando pela lona que cobria o coliseu nos dias de sol muito forte, manualmente estendidas e depois recolhidas em enormes rolos, por numerosos escravos.

A tecnologia parece não ser suficiente para melhorar os instintos cruéis do s homens, bastando que apareçam as ocasiões propícias. A brutalidade pré-histórica está sempre dentro de nós, seja nas planícies da Rússia e da Ucrânia, seja no sertão do semiárido brasileiro, em Canudos e alhures

05 setembro 2024

FLORENCE BAKER VENCEU

 


https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/8b/Lady-Florence-Baker.jpg

https://en.wikipedia.org/wiki/Florence_Baker

No confuso contexto da Revolução Húngara de 1848, contra a dominação austríaca associada a porções da elite húngara, um grupo de guerrilheiros romenos, que aproveitaram para também cobrar aos austro-húngaros o reconhecimento de sua nacionalidade, atacaram a cidade de Nagenyed, hoje Aiud, em território romeno, e massacraram boa parte da população húngara residente, entre estes a família de um militar húngaro de origem nobre, da qual só escapou Bárbara Maria Sáscz, com apenas oito anos, depois de assistir ao massacre de toda a sua família. Os romenos, chefiados por Ioan Axente Sever – hoje herói nacional na Romênia – levaram Bárbara e se livraram dela. Talvez a tenham vendido para algum mercador de escravos.

Em janeiro de 1859, o oficial do exército, explorador e escritor inglês Samuel White Baker, e seu amigo, o príncipe sihk Dunleep Singh, estão em Vidin, na Bulgária, entabulando amizade com o Paxá do lugar, quando, por insistência do Paxá, acompanhou-o a um mercado de escravos, pois Baker era abolicionista convicto. Lá ele viu se apaixonou por uma jovem e bela escrava branca que estava a venda: era Bárbara – com quase 18 anos – mas havia um problema: o Paxá também a quis para o seu harém, e logicamente ela acabou nas mãos deste.

Mas Baker, junto com o amigo, chutando para longe os objetivos da viagem, raridade em um inglês vitoriano, tramaram um plano, e arriscando tudo, talvez até a vida, subornaram os guardas, pegaram a jovem e fugiram do país. O Paxá foi chorar suas pitangas com as outras.

A intuição, a inspiração, seja o que for de Baker foi incrível. A jovem, que mudou seu nome para Florence, foi um “achado”, sabia falar várias línguas (inglês, turco e árabe), era cheia de sabedoria de vida e expedientes, e topou na hora a vida de aventuras em que Baker vivia, tornando-se sua companheira nas suas incríveis aventuras – uma vez salvou-o numa enrascada, porque Baker, que se irritara com o comportamento dos carregadores africanos, e ameaçava por a expedição a perder, a intervenção dela levou a um acordo, que agradou as partes, e a expedição prosseguiu.

Numa dessas expedições, para descobrir as nascentes do Rio Nilo, os dois foram os primeiros europeus a ver o Lago Alberto, em 14.03.1864 (imagem abaixo). Os relatos de suas aventuras foram parar em livros que correu o mundo e os tornaram famosos e financeiramente ricos, e nesse ínterim ela e o marido viajaram o mundo, conheceram grandes personalidades, reis, rainhas, e paisagens naturais deslumbrantes, que hoje não existem mais.

O casal continuou unido até 1893, quando Samuel Baker morreu. Ela morrerá em 1901, e nesse meio tempo Samuel receberá da rainha o grau de cavaleiro, tornando-se ‘Sir’, de sorte que a órfã húngara traumatizada, raptada, escrava vendida em praça pública, morrerá com o título de ‘Lady Baker’, membro do grupo social mais seleto e importante do mundo de sua época. O nome disso é fé, esperança e proatividade, buscar aprimorar-se mesmo nas condições mais adversas. A alternativa é ficar bancando o coitadinho, lamentando a sorte e viver implorando aos outros, ou ao estado, para resolverem seus problemas para você.

Outra coisa é que não devemos menosprezar alguém que está numa condição social precária, inclusive na condição de escrava. Precisamos aprender a ler o caráter das pessoas, para além de sua fama ou etiqueta social, e isso só se aprende cultivando em nós mesmos nossas melhores qualidades. Quantas pedras de diamante já não foram confundidas com pedaços de vidro e vice-versa? 

A rainha Vitória recusou-se a recebê-la, e não fez muita questão de proximidade com Samuel, pois não via com bons olhos aquela relação, afinal ele roubou-a de outro, após tentar compra-la – ‘algo, deveras, muito inapropriado’ – e também porque soubera que o casal teve momentos de íntimos, antes de se casar regularmente – certamente que ele já tinha visto muito mais que o calcanhar dela.

Para sorte da Inglaterra, com políticos, militares, homens de negócio, administradores e até aventureiros tão competentes, como os que haviam, a rainha nem precisava ser muito inteligente.


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04 setembro 2024

ROTEIRO DA CAMPANHA DE CANUDOS - 1


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1893

Episodio das tabuletas

Entre 1890 e 1891, a política do estado indutor do desenvolvimento, de Rui Barbosa, feita com o intuito de industrializar o Brasil, acabou em um enorme fracasso econômico, com uma forte desvalorização da moeda e uma carestia generalizada. O caos político gerado pela derrubada da monarquia, agravada pela crise de autoridade púlbica, em especial no recém-criado Estado da Bahia, além dos tradicionais desvios de verbas públicas nas prefeituras, ocasionou um aumento dos impostos municipais na área da comarca de Itapicuru, no nordeste da Bahia, sede de um dos mais poderosos clãs do estado: o do Barão de Jeremoabo.

No dia 10 de abril de 1893: umas 20 pessoas, comandadas por um comerciante local, José Honorato Souza Neto, em grande agitação, quebrou as tabuletas onde estavam afixados os novos impostos para quem quisesse negociar na feira de Soure. José Honorato fazia oposição ao intendente (prefeito) local, o senhor Francisco Dantas, politicamente ligado a Jeremoabo, que por sua vez pertencia à corrente política gonçalvista, naquele momento na oposição estadual.

No dia 17 de abril houve nova manifestação, dessa vez com mais gente, mas também apareceram as autoridades municipais (intendente, comissário de polícia, juiz e promotor), para acalmar as cosias e possibilitar o funcionamento norma da feira.

No dia 24 de abril, já são umas 500 pessoas com armas de fogo, facão e cacetes, mais os índios Kiriris de Mirandela, com arcos e flechas, fazendo agitação, berrando provocações e o não pagamento dos impostos, até a chegada de uma tropa da polícia, quando há uma debandada geral.

No levantamento das responsabilidades, é apurado que, Conselheiro e os seus não participaram da desordem, e que no dia 17 ele teria, inclusive, atuado no sentido de evitar violências contra as autoridades, sendo liberado do processo. Mas também é dito que ele em suas andanças estimulava o não pagamento dos impostos, juntos com os políticos da corrente nascente de Luis Viana (1), ligado à situação estadual, que queriam ver essa região em dificuldades, pois era área de influência de seu grande adversário político: o Barão de Jeremoabo. Surge uma questão: essa ação contra os impostos, tão ligada ao Conselheiro e sua gente, nasceu dele mesmo ou foi contágio dos vianistas?

Como a debandada foi geral, quando a polícia chegou, conselheiristas e vianistas se misturaram, isso deve ter sido visto, na hora, como um sinal de “culpa no cartório”, afinal “quem não deve não teme”. E a força policial botou-lhe atrás, sem contar que Conselheiro de fato proclamava contra os impostos, até aí só ‘crime de opinião’, além de sua gente mais pobre despertar um certo sentimento de ofensa e crueldade na força policial: “quem esses mortos de fome pensam que são?”

Em 26 de maio, na localidade de Masseté, ocorre um entrevero entre conselheiristas e uma força de policial, em torno de 30-35 homens, comandados pelo Tenente Virgílio de Almeida, por aqueles andarem muito ativos na propaganda contra os impostos municipais em vários municípios – por causa de Soure não foi, pois esta quebradeira já distava um mês, e Conselheiro nem foi citado. Fuga vergonhosa dos policiais.

Embora, mais tarde, Conselheiro diga ao frei João Evangelista Marciano que em Masseté houve “morte de um lado e do outro”, isso não deve ter acontecido, pois Conselheiro foi deixado em paz por mais 3 anos, e as autoridades e jornais da época não citam esse confronto, como tendo alguma gravidade. Os dados sobre Masseté são escassos e confusos.

Obs: José Honorato S Neto, foi preso, processado e condenado por sedição, num tribunal de primeira instância, pelo juiz Reginaldo Alves Melo, de Itapicuru, ligado a Jeremoabo. Seu advogado, porém, era um vianista, o Sr. Francisco do Passo, que apelou para o Tribunal Superior de Justiça, que era presidido justamente por Luis Viana. Esse tribunal não só concedeu o habeas corpus pedido, como anulou a pena e extinguiu o processo.

Não parece o atual STF?

Não dá para entender Canudos desvinculado da política que se praticava no Brasil, e principalmente na Bahia, durante esse período, que não é muito diferente da atual. É aí que está a melhor compreensão desse fenômeno ou dessa tragédia.

Nota:

1 – As correntes de José Gonçalves da Silva e de Luis Viana, nasceram de um desentendimento entre esses dois chefes políticos dentro do Partido Republicano Federalista. Gonçalves defendia o golpe de Deodoro, enquanto Viana era contra.

Fontes:

Canudos: cartas para o barão; 2ª edição; Org. Consuelo Novais Sampaio; EDUSP; São Paulo; 2001

A importância dos acervos judiciais para a pesquisa histórica: um percurso, Monica D Dantas – Filipe N Ribeiro; LexCult; vol 4, nº2, mai./ago. 2020, Rio de Janeiro, p 47-87.

03 setembro 2024

O MAL DO PRATIOTISMO

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Eduardo Simões

Isidoro Virgínio (1877-1956), nascido em 1877, foi um veterano maragato da Revolta Federalista, que, entretanto, por força da convocação forçada e da obediência militar, acabou lutou do lado contrário, também por forças de várias circunstâncias pessoais e sociais da época, acabou sendo mandado junto com o seu batalhão, o 12º BI, vulgo “Treme-Terra”, fama essa adquirida ainda na Grande Guerra Platina, ou do Paraguai (1865-1870), para a incandescente Guerra de Canudos, no não menos incandescente sertão baiano.

Tendo participado da 4ª Expedição, deixou um testemunho pessoal pungente, embora também confuso, sobre o conflito, mostrando o quanto aquele acontecimento escapava, pela sua natural complexidade, gigantismo e pelas paixões que despertou, à compreensão do homem comum do povo, mesmo os que tiveram a infeliz oportunidade de vive-lo pessoalmente. A impressão é que ele não entendia, nem jamais entendeu, o que estava acontecendo, a ponto de ter uma opinião coerente sobre o assunto.

Um dos episódios mais marcantes que constam do seus cadernos manuscritos, intitulados curiosamente de A vida mal vivida – provavelmente a sua própria, pois morreu velho pobre e desprezado pelos mais jovens, que não queriam mais ouvir suas histórias – foi durante o desembarque dos soldados de tão inclemente campanha, no Rio de Janeiro. Eis alguns apontamentos dos cadernos de Virgínio, sobre esse episódio:

“[Os soldados eram] um grupo de maltrapilhos, que mais se pareciam espectros do que homens, cabeludos e barbudos, sujos, rotos, esfarrapados e descalços, quase mendigos, que mais se pareciam com jagunços ou flagelados

“Foi uma recepção decepcionante. Marchando ao som de alegres dobrados, seguia aquele grupo de vencidos... A população assistia a tudo adormecida e indiferente. O memorialista se questionava quanto a importância que eles tinham para o populacho alegre e indiferente, com a destruição de soldados Brasileiros. E ainda mais quando estes soldados estão, por seu lado, defendendo o governo da República, a quem detesta e odeia por ser republicano. Uma população estranha que ria da desgraça, e lamenta a felicidade do Brasil, e dos Brasileiros. É que o Brasil foi e continua a ser, uma colônia ligada à coroa de Portugal."’

(o texto entre aspas é de Carlos Perrone Jobim Junior; ''A VIDA MAL VIVIDA'' DIÁRIO DE UM MARAGUNÇO: MEMÓRIAS DE UM SOLDADO NA REVOLUÇÃO FEDERALISTA E NA GUERRA DE CANUDOS (1893-1897)(dissertação de mestrado – orientador: José Rivair Macedo); Porto Alegre; 2002. Já a letra itálica marca os trechos dos cadernos do soldado Isidoro Virgínio. Eu corrigi alguns erros de ortografia, que se achavam no original reproduzidos por Jobim Junior)

Isso provavelmente aconteceu no início de outubro. No início de março, daquele ano, havia grupos furiosos varejando a cidade, atrás de monarquistas declarados ou suspeitos para linchar, convencidos que em Canudos se organizava uma guerra de restauração monarquista, como na Vendeia. Com os jornais vociferando os maiores boatos ou Fake News absolutamente assustadores.

Aqueles que foram para o sertão para fazer o trabalho sujo, mas necessário, de fazer valer as leis da república, conforme estipulado na Constituição, enfrentando rebeldes armados e dispostos antes a morrer que a se entregar. Homens pobres, para lá foram para que os filhos da classe média não precisassem ir, como na Grande Guerra Platina, ou do Paraguai, 30 anos antes. E ninguém se interessou, sequer se condoeu pelo estado miserável daqueles homens que pagaram tão caro o cumprimento de seu dever constitucional.

Infelizmente as coisas que dizem respeito ao conjunto da sociedade brasileira não interessa aos brasileiros, e isso desde muito tempo atrás. Apenas uma minoria foi às ruas a preocupar-se se Canudos era um movimento restaurador. Não era, mas era secessionista, tão grave quanto, embora não na gravidade que se supunha naquele momento, mas podia se tornar com o passar do tempo, embora a insanidade do Conselheiro nos indique, hoje, que mais cedo ou mais tarde Canudos colapsaria. Mas quem sabia disso daquela época?

Da mesma forma, hoje, pouquíssimas pessoas estão interessadas e se mobilizam, por exemplo em relação ao crime organizado, que da mesma forma que Conselheiro, entre 1893-1897, capturou um território no interior da Bahia e lá implantou a sua lei, nos subúrbios de nossas grandes cidades o crime organizado isola comunidades gigantescas, muito maiores e mais poderosas que a de Canudos e afirmam altaneiros: aqui não vale a lei da república a Constituição do Brasil. Enquanto a sociedade, amalucada, se divide em duas correntes: a que não está nem aí, e procura tirar partido da situação: “se me beneficia”, ou, pior ainda, como fazem os socialistas-marxistas: transformam Conselheiro em herói e Canudos num exemplo a seguir.

O mesmo comportamento de olímpica indiferença, nós vemos agora em relação aos abusos insofismáveis cometidos pelo juiz Alexandre de Moraes, que por conta própria expulsou do país uma das mais importantes plataformas de comunicação do Mundo. “Não está atingindo o meu interesse”. Canudos é logo ali.

Bem observou o velho Virginio, apesar de tanto tempo já passado, de termos chegado na nossa terra prometida, continuamos sonhando com o tempo em que éramos colônia de Portugal ou vivíamos nas florestas desse continente ou da África, completamente idealizadas.

(Abaixo vemos o célebre Visconde de Taunay, homem de convicção tão firme que após o fim da monarquia abandonou a política onde começava a fazer boa figura, gerando lamento até nos republicanos. Conta ele no seu Memórias, que certa vez se encontrou num bonde com o igualmente célebre, republicano roxo, Benjamin Constant, já desanimado e triste com a República que acabara de fundar. Eles se conheciam e se falavam, pois ainda não haviam inventado a intolerância de hoje. Constant, criticando o mal rumo que a República ia tomando – ele e o Marechal Deodoro quase se pegaram num duelo – disse cabisbaixo para o Visconde: “O problema do nosso país é o excesso de pratiotismo”, ante a admiração do outro acrescentou: “Cada um só pensa no seu prato”. Se despediu e desceu. Com certeza somos muito fieis...)

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https://contobrasileiro.com.br/o-encilhamento-conto-de-visconde-de-taunay/

02 setembro 2024

CANÇÃO MAIS ANTIGA DO EXÉRCITO BRASILEIRO

 

https://www.youtube.com/watch?v=5OBgpOqrJns

Era costume no Exército Imperial Brasileiro rezar diariamente o terço e cantar uma música a Nossa Senhora da Conceição, inclusive antes de partir para o combate. Esse hábito, segundo uma página do Exército Brasileiro começou numa das Batalhas dos Guararapes, em 1649, quando os soldados brasileiros foram ao encontro dos holandeses cantando esse hino, que também foi muito cantando durante a Guerra do Paraguai. Essa tradição foi profundamente esvaziado com a Proclamação da República, a contaminação positivista do Exército, e o positivismo, como sabemos, tem um deus próprio, e a laicização do estado. Nessa época os brasileiros podiam até desconfiar que poderiam morrer se fossem em frente, mas nem assim não deixavam de ir, pois era a coisa certa a fazer, e também por acreditar em algo mais, além do seu prato.  

 https://http2.mlstatic.com/D_NQ_NP_901927-MLU75912363210_042024-O.webp 



01 setembro 2024

UM SOCIALISTA DANDO-NOS LIÇÕES DE LIBERDADE

 ABORTO, SÓ PARA SALVAR A VIDA DA MÃE

https://www.youtube.com/watch?v=wAXVKJmSvoQ

Eduardo Simões

Não é possível! É covardia! Até os socialistas deles são melhores! Assim não dá para competir!!!

No vídeo acima, postado há 4 meses atrás, e se você o assistir do minuto 35 até 1h23m, verá uma lição de tolerância e liberdade de expressão dada pelo jornalista socialista americano Glenn Greenwald a notórios jornalistas socialistas brasileiros, a saber: Josias de Souza e Leonardo Sakamoto, sem falar que se adequa como uma luva ao momento presente - somos um país absolutamente estagnado.

Dois pontos, a meu ver não foram bem explorados: o primeiro é por que Elon Musk pega tão leve com a China, e duro com o Brasil? É claro que em termos econômicos a China, que anos atrás não chegava aos nossos pés, hoje é várias vezes maior, o que chama a atenção de qualquer empreendedor. É a comparação entro um país permanentemente estagnado e uma locomotiva vibrante. Mas não é só. 

Todos os que vão empreender na China já sabem que lá existe uma ditadura, que lá não existe oposição, e que isto, isto, isto e aquilo são proibidos. Ponto. Você se adaptando a isso prospera sem muita dificuldades. 

É claro que Elon Musk veio para cá com uma expectativa muito diferente. O Brasil se apresenta como uma democracia e um estado de direito pleno, logo deve ter investido muito na perspectiva de ampliar o campo de liberdade de expressão em que o X atua. O problema é que as determinações de Alexandre de Morais, descumprindo preceitos básicos de liberdade de expressão previstos na Constituição e procedimentos do Código de Processo Penal, criam uma situação anômala, à qual Elon Musk está sendo praticamente forçado a se associar. 

Se colocarmos isso em termos de uma proposta, a proposta de Morais a Musk seria a seguinte: ou você se associa a mim, para perseguir inimigos políticos do atual governo, por meio inclusive não previstos na Constituição ou no Código de Processo Penal, ou eu puno suas empresas, inclusive aquelas que não têm nada a ver com o objeto em discussão.

Ou seja a China é uma ditadura clara, aberta e até certo ponto "honesta" na sua apresentação ao mundo, enquanto no Brasil o que existe é uma fachada de democracia, de estado de direito, e por trás da fachada toda sorte de falcatrua, de desrespeito à Constituição e aos rituais de um Estado de Direito são cometidos, enquanto exigimos, nessa farsa, a presença do mais bem-sucedido, dinâmico e notável empreendedor de todos os tempos, na condição de sócio menor ou bichinho de apresentação. 

Quais são as chances de Musk topar essa parada?  

Outra questão é levantada por Josias de Souza sobre a necessidade de censurar as redes sociais, porque, segundo ele espalham desinformação, e até cita a campanha de bosonero contra a vacinação na covid19, como sendo responsável pela queda nos índices de vacinação no Brasil. Nada mais longe da verdade... Veja o gráfico abaixo


https://jornal.unesp.br/wp-content/uploads/2022/02/Info_Cobertura_Vacinal-900x900.jpg

https://jornal.unesp.br/2022/02/22/pandemia-acentuou-queda-de-vacinacao-no-brasil/

Esses dados são do SUS, e foram reproduzidos pelo site jornal da UNESP, cujo endereço vem logo acima. 

Tenha-se agora em mente o seguinte: o alerta de epidemia aconteceu em 11 de março de 2020. Observe que os indicadores de vacinação já vinham caindo acentuadamente bem antes da pandemia, logo antes das idiotices do bosonero. Jogar a culpa da queda do índice de vacinação apenas nas idiotices de bosonero é deformar a verdade, no intuito de justificar a censura às redes sociais. 

Esse índice pode estar muito mais ligado;

a) À baixa qualidade do ensino do país, que há décadas nos envergonha em exames internacionais.

b) À presença e a expansão de grupos religiosos fundamentalistas cristãos, o que também explicaria a baixíssima taxa de vacinação igualmente observada nos Estados Unidos, berço desses grupos fundamentalistas.


  TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 1 Por que estudar a história do pensamento econômico? Em primeiro lugar, professo...