08 setembro 2024

CANUDOS, GUERRA INTERMINÁVEL - 18

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Sempre sobra pro Prudente...

Um certo senhor, veja abaixo, resolveu escrever um artigo confuso ao jornal Tribuna Piracicabana, que eu copiei abaixo, com um espaventoso título que procura ligar Prudente de Morais aos crimes cometidos em Canudos, de forma um tanto indireta, típico de quem emite uma opinião sobre algo que ignora, talvez para parecer mais politicamente correto. Decidi, portanto escrever-lhe uma resposta


Prudente de Moraes e a chacina do Arraial de Canudos

24 de setembro de 2021 

No Governo Prudente José de Moraes Barros, 1894 a 1898, havia grande influência política dos florianistas que buscavam o retorno dos militares ao governo – atente-se que os militares brasileiros são protagonistas de uma história de golpes e busca pelo poder — nada diferente do momento que vivemos hoje .

As forças armadas, segundo nossa Constituição, são organizadas como forças permanentes, organizações constituídas por militares profissionais que não dispõem de outra profissão que não seja de se prepararem e de se empenharem em operações de guerra na defesa do território ou dos patrimônios nacionais. Todavia os florianistas estavam próximos ao poder com possibilidade real de um retorno dos militares ao governo.

A Revolução Federalista encontrava-se em pleno andamento, o que aumentava a intranquilidade ao novo governo.

Para estudiosos, “a principal obra de Prudente de Moraes deveria ser, portanto, fazer o país retornar à normalidade, dentro do projeto político liberal da oligarquia cafeeira. Entre suas primeiras realizações, esteve o fim da Revolução Federalista, em agosto do ano de 1895, que na realidade, já havia perdido muito do seu vigor quando da substituição de Floriano Peixoto. Assim, a habilidade política de Prudente, anistiando os principais líderes maragatos, foi importante para o encerramento relativamente pacífico das hostilidades no Rio Grande do Sul”.

O Governo de Prudente de Moraes buscou também resolver questões diplomáticas pendentes ao período imperial. Em sintonia com o momento político que vivia reatou relações diplomáticas com Portugal, rompidas por Floriano em 1893. Desta forma, com a intermediação de Portugal, Prudente tomou posse da ilha de Trindade, tomada do Brasil pela Inglaterra. Em seu governo, também Prudente resolveu as questões das fronteiras com a Argentina, na região das Missões.

Prudente implementou políticas econômicas em protecionismo aos cafeicultores, contrariando as tendências nacionalistas e até modernizadoras dos primeiros governos republicanos. As taxas alfandegarias protecionistas, que de algum modo, se mantinham desde o período de Rui Barbosa, foram alteradas com elevação dos valores em dezembro do ano de 1897.

Diferente do que se ensinava nas histórias contadas aos alunos do ensino fundamental no Estado de São Paulo a grande mancha do governo Prudente de Moraes surgiu com o conflito de Canudos.

A Guerra de Canudos foi um conflito que envolveu a população sertaneja do Nordeste, principalmente da Bahia. Suas causas aludem a situação fundiária do país e ao total abandono em que se encontravam as populações mais humildes.

Nossa estrutura agrária, acontecia com um total descaso das elites conservadoras e do governo com uma população sertaneja. A tensão social explodia com frequência.

Historicamente as alternativas disponíveis à população do sertão eram mínimas. Uma era de banditismo social com moldagem do cangaço. Consequentemente, havia muito misticismo religioso: uma população condenada à miséria material passava a acolher apoio no imaginário espiritual, devoção religiosa com forte exaltação mística: de salvação eterna em troca das misérias terrenas.

Antônio Conselheiro percorria por longas jornadas o interior do Nordeste a pé, realizando discursos e profecias, dando conselhos, proclamando a fé no Reino de Deus. Nos seus limites prestava assistências à população mais severina, como líder comunitário em uma sociedade abusada.

Longas batalhas surgiram desde 1896 com expedições do exército brasileiro para destruir a força motivadora da adoração espiritual e a resistência de um povo que não tinha nada e reivindicavam vida digna. Primeira expedição com cerca de 100 homens do exército foi massacrada pelos moradores de Canudos.

Na segunda expedição foram 500 soldados, além de metralhadoras e canhões, fracassou a caminho do arraial. Nova expedição vem na sequência com 1300 homens trazidos do sul do país, também fracassou.

Definitivamente veio o massacre do Arraial de Canudos que somou um contingente de 15 mil homens trazidos de todas as partes do país. O Arraial de Canudos sofreu intensivos bombardeios, sitiados sem suprimentos ou água, seu destino estava selado, com uma população de 30 mil habitantes. Em 5 de outubro de 1897, o arraial foi derrotado, com os últimos defensores sendo mortos e degolados pelas tropas.

Velhos, crianças cidadãos comuns também foram degolados, mulheres estupradas, antes de encontrarem o mesmo fim, uma covardia que se configura até hoje como o maior massacre em território nacional atribuída a um governo e ao exército brasileiro.

Para quem se interessa por essa história em todas suas controvérsias não pode deixar de ler “Os Sertões” de Euclides da Cunha que interpretou a guerra de Canudos a partir de fontes orais, como os poemas populares e as profecias religiosas, encontrados em papéis e cadernos nas ruínas da comunidade. Baseou-se em profecias apocalípticas, que julgou serem de autoria de Antônio Conselheiro, para criar, em Os sertões, um retrato sombrio do líder da comunidade. Estes poemas e profecias foram o ponto de partida de sua visão de Canudos como movimento sebastianista e messiânico, vinculado a religiosidade da Igreja Católica do século XIX.

Logo, toda deferência ao governo Prudente de Moraes precisa de uma análise histórica mais profunda com pesquisas em novas fontes para sanarem dúvidas que na literatura posterior conta ouvindo-se apenas os vitoriosos sem que os derrotados contassem as suas verdades.

José Osmir Bertazzoni, jornalista, advogado.


Minha resposta:

Afinal o que pretendeu o Sr. Bertazzoni com esse artigo? Ele se propõe a falar sobre Prudente de Morais e a chacinha do Arraial de Canudos, e é justo isso que não faz, ou o faz de forma desnecessária, por meio de generalidades triviais.

1º - Ignora por acaso que Canudos nunca se rendeu nem ensejou qualquer negociação? – a rendição do Beatinho, com velhos mulheres e crianças foi algo absolutamente privado, e só depois da morte do Conselheiro.

2º - Ignora que os canudense resistiram de armas nas mãos, até à morte, ao cerco do exército. Em vista disso eu pergunto: quando um membro do PCC mata um policial ele está cumprindo a lei e habilitando para ser posteriormente declarado herói? Os policiais que, num confronto legítimo, matam membros do PCC, estão praticando uma chacina, são criminosos, e merecem a reprovação da sociedade?

3º - Ignora que quem começou e tocou fogo na guerra com Canudos, foi o vice de Prudente, Manoel Vitorino, que se bandeou para o lado dos militares radicais, aproveitando-se do momento em que Prudente tirou licença saúde, em 10.11.1896, só voltando justo no dia anterior à chacina de prisioneiros, doentes e feridos da Expedição Moreira Cesar, pelos canudenses, a pauladas, golpes de facão, machadadas e coronhadas, como disse uma jagunça num interrogatório posterior, “para economizar balas”.

4º - Ignora que além de massacrar prisioneiros, doentes e feridos do Exército Brasileiro e da Polícia da Bahia, o Conselheiro, numa decisão de selvageria rara, ordenou que se tripudiasse de seus cadáveres, deixando-os expostos ao tempo, “enfeitando” a estrada, além de mandar uma ameaça de morte para as autoridades, que se atrevessem a dar ‘palpites’ ali. Esse foi o tratamento mais desumano e brutal já recebido por soldados do Exército Brasileiro em ação, por parte de um inimigo, em toda a sua história.

5º - Ignora que a indissolubilidade e a incolumilidade do território nacional, e a expressa proibição de secessão deste território, presente em todas as Constituições, que era o que o Conselheiro fazia, quando proibia as leis, o dinheiro e a jurisdição das autoridades republicanas no território sob sua influência, que ia além da área do arraial? Não se faz guerra a um estrangeiro que queira tomar território nacional? Se o estado devia deixar aquela área para o Conselheiro, então vale deixar em paz a traficantes, milicianos e criminosos em geral que se apropriam de bairros inteiros em nossas cidades? Se um pode, todos podem

6º - Ignora que as operações de guerra do Exército ficavam a cargo de generais que conspiravam contra ele, Prudente, nomeados por Vitorino, e que tentaram matá-lo, em 5 de novembro?

7º - Ignora que nem todos os oficiais de alta patente executaram prisioneiros. Segundo o soldado gaúcho Isidoro Virginio, o comadante do 12º BI, o General Carlos Maria Silva Teles, soltou seus prisioneiros, apesar da ordem de degola do comandante Arthur Oscar. O General Savaget, segundo Frank McCann, também se opunha aos métodos de Oscar, O General Girard e mais dois outros tiraram licença para não participar daquilo. A frase de Machado Bittencourt, nomeado por Prudente, de que em Monte Santo, não havia lugar para prisioneiros, pode ser perfeitamente entendida como: “para que a gente quer prisioneiro? “Decida como quiser, libera esse povo!” Como Carlos Telles fez, e não foi repreendido. A degola não era uma política de governo, sequer do Exército, mas de alguns militares que precisam ser nomeados. Nunca foi da tradição do Exército Brasileiro, desde as Invasões Holandesas, massacrar prisioneiros. Pode-se acusar o exército de leniência com Arthur Oscar e seus cúmplices, mas a situação era muito confusa na época e as instituições periclitavam.

A verdadeira história, a história científica, baseada em documentos e análises descontaminadas de ideologia maniqueísta, análise crítica, não moralista, sobre Canudos, ainda não foi contada – precisamos muito do material do exército.

Ou seja, a guerra ainda nem começou; e já tem gente entregando as armas.

 

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