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1893-1896 - I
Após o entrevero em Masseté, Conselheiro abandona uma
comunidade que fundara numa fazenda próxima a vila de Bom Jesus, em 1886 (1), e se
interna com sua gente no curso médio do rio Vaza-Barris, uma região muito seca
e isolada do nordeste da Bahia. Aí se apropria, em junho de 1893, de um
casario, conhecido como Canudos, nas terras de um tal Dr. Fiel, que, segundo
Benicio (1899) possuía várias fazendas no local e que, segundo outros autores
era de gente submetida à influência ao Barão de Jeremoabo. No local havia umas 50
casas de taipa, e uma pequena capelinha, dedicada a Nossa Senhora da Conceição.
O lugarejo é rebatizado pelo Conselheiro como Belo Monte.
O local realmente era muito pobre, exceto pela presença da família
de Antônio Mota, próspero comerciante de couro e proprietário rural e da
família dos Macambira, de agricultores, que possuíam mais terras e viviam em casas
melhores. Outro personagem importante do lugar era o também comerciante e pequeno
proprietário Jesuíno Lima, que mais tarde se tornará inimigo incondicional, no
estilo do velho semiárido, dos conselheiristas
A presença do Conselheiro provoca um movimento de imigração para
o local, de gente interessada em usufruir da fama de santidade do Conselheiro e
de quebra algum milagres que ele pudesse realizar, pois a sua fama nesse
sentido já corria os sertões, como é comum nesses casos, além da ideia de
prosperidade e até riqueza associadas à proximidade com gente “santa”, como é
próprio do Antigo Testamento (José do Egito, Salomão etc.) e da religiosidade popular.
O tamanho de Canudos e
sua população
A fantasia mais delirante surgida em torno do Belo Monte é
que o arraial chegou a possuir mais de 20 mil habitantes, a cifra mais comum,
até chegar ao superabsurdo de mais de 30 mil! Defendida esntre outros por
Frederico Pernambucano em a Guerra total
de Canudos – se isso não parar, talvez em breve descubramos que havia uma
Londres ou uma Paris, no sertão da Bahia, no final do século XIX.
A primeira questão que se coloca é: como sustentar uma
população dessa envergadura?
Primeiro: a área onde estava localizado o Belo Monte é uma
das pobres em termos de pluviosidade – enquanto a média anual de chuvas é de
uns 380mm/ano, a média de evaporação por mês é de 110mm, em virtude das altas temperaturas
e das características do solo. Não há excedente pluviométrico em mês algum.
Segundo: o fornecimento de água não é garantido. O rio
Vaza-Barris só corria no seu leito por uns três meses ao ano. No resto do ano o
povo ia pegar água, por meio de baldes, em cacimbas escavadas no leito do rio.
Terceiro: a qualidade do solo, majoritariamente raso,
arenoso, pouco permeável, muito acido, muito pedregoso e facilmente erodível,
não era propício a uma agricultura ou pecuária de alto rendimento. Mesmo nos
poucos lugares onde era possível uma agricultura de excedente, havia, e ainda
há, a necessidade de química para a correção do solo e cuidados com a erosão.
Quarto: Belo Monte ficava na região do polígono das secas,
logo dominada pela instabilidade do clima semiárido, o que dificultava ainda
mais a vida de uma comunidade, que fugia de contatos regulares com o entorno
mais desenvolvido, para transferência de mercadorias e tecnologia, além da possibilidade de onipresentes
contaminações espirituais.
Sem o concurso da agricultura, pela qualidade do solo e a
estabilidade do clima, só restavam quatro alternativas: grandes obras de
engenharia (diques, canais, aquedutos) e adubação intensiva do solo, posição
favorável em grandes rotas comerciais, como em Juazeiro e Petrolina, uma
indústria poderosa, a extração de bens minerais ou alguma coisa muito cobiçada sob
controle do arraial. Não se achou nada disso em Belo Monte.
Simplesmente não havia produção de alimento para sustentar
uma aglomeração desse porte, e a divisão dos bens se impunha muito mais por
causa da pobreza extrema do que por uma presunta prosperidade, e menos ainda
como causa dessa ‘prosperidade’, como querem socialistas/marxistas, a revelia da
história, das condições objetivas do lugar e da mentalidade pré-capitalista do
Conselheiro e sua gente. Até hoje, mesmo com o açude de Cocorobó, Nova Canudos não
consegue sustentar 20 mil habitantes, quanto mais naquela época.
Por fim resta o testemunho de Honório Vilanova, irmão de
Antônio Vilanova, a Nertan Macedo (1983, p 129), quanto, ele recordou uma declaração
do Conselheiro, logo após a saída dos frades capuchinhos: “Conheço os padres
falsos. Os que eu quero abraço. Aceito quem credita no Bom Jesus. Ando nesse
mundo imitando a Deus Nosso Senhor. Quando ele andava na terra seguiam-no 5 mil
pessoas: e as boas andam em companhia das más, porque assim ganham a salvação”,
que repetia outra que ele já ouvira do mesmo Conselheiro: Quando Jesus Nosso Senhor andou pela terra foi
acompanhado de cinco mil pessoas. No meio delas havia mais gente detestada do
que boa. Ao lado do Bom Jesus [que supostamente seria ele mesmo] já tem o mesmo
número de pessoas” (idem p 70) (2).
Portanto algo em torno de cinco mil pessoas, espalhados em centenas de casas, seria o número mais razoável para população de Canudos, que durante a campanha recebeu ajuda material e voluntários das fazendas no entorno.
Outro testemunho fundamental quanto a isso é o do próprio
Honório Vilanova a Macedo (idem, p 133). “Pensavam os soldados [e muito mestre
e doutor hoje] que o peregrino tinha gente demais, quando éramos poucos, bem
distribuídos e melhor entrincheirados”.
A questão agora é com você leitor, se vai acreditar numa
testemunha ocular ou no seu mestre ideológico.
Nota
1 – Nessa época, novembro
de 1886, o delegado de Itapicuru, oficiou ao Chefe de Polícia da Bahia a sua
preocupação com a presença de homens armados, entre os conselheiristas ((Macedo
- Maestri. 2004), um detalhe que será muito mencionado nas correspondências ao
Barão de Jeremoabo, posteriormente. Isso pode ter acontecido como uma cautela
pelo fato de ele ter sido preso em 1876, sob falsa acusação de assassinato,
além das tratativas das autoridades, naquele momento, e posteriormente, de
interna-lo num asilo de alienados no Rio de Janeiro. Há um indícios de que após
este acontecimento, ele começa a chamar a atenção por, além das atividades
espirituais e obras de piedade habituais, se fazer acompanhar por gente armada,
sem ele nem o seu entorno, verem contradição no fato de um penitente, que busca
na imitação de Jesus Cristo a remissão de seus pecados, se fazer proteger por
um grupo armado.
2 - isso remete ao texto de Mt 14,21; Mc 6,44; Lc 9,14 fala em “quase cinco mil homens”; Jo 6,10 fala em “homens em número de cinco mil aproximadamente”. Essa gente não o seguia, mas se reuniu-se fortuitamente numa ocasião ou duas, interessadas em ouvir o seu sermão e fazer refeição grátis. Jesus, por sinal, os escorraça ainda nesse mesmo capítulo: 6,66. Acho que é por aí, em torno de 5 mil, uma grande parte crianças, que se deve contar os moradores de Belo Monte. Conselheiro por seu lado, cercou-se de gente armada pra evitar uma melhor da imitação de seu Deus, que rendeu-se aos seus inimigos e por eles foi morto, o que no caso dele poderia acabar em prisão ou hospital psiquiátrico. O destino mais cruel, sofreu-o aquela pobre gente: os seus seguidores.
Bibliografia
Macedo, José R – Maestri, Mario; Belo Monte um
história da Guerra de Canudos; Expressão Popular; São Paulo; 2004
Benicio, Manoel; O rei dos jagunços – Crônica
histórica e de costumes sertanejos sobre os acontecimento de Canudos;
Jornal do Commercio; Rio de Janeiro, 1899
Macedo, Nertan; Memorial de Vilanova; Renes; Ri de Janeiro; 1983
Junior, Israel de Oliveira; Da mata branca
ao estado de degradação: a desertificação em Canudos (BA); UFBA (Instituto de
Geociências); dissertação de Doutorado em Geografia; Salvador; 2019
https://entreasecaeacerca.wordpress.com/2013/10/19/geografia-canudense/
http://solosne.cnps.embrapa.br/index.php?link=ba
(Abaixo: Honório Vilanova (esquerda) e outro sobrevivente de
última hora do cerco de Belo Monte, Chiquinhão, se encontram inesperadamente em
1949, Vilanova morava no Ceará e foi a Canudos a convite do advogado e pesquisador
cearense Pedro Wilson Mendes, e prestam uma homenagem no local onde supostamente
foi enterrado o peregrino Antônio Conselheiro. Ambos com chapéu na mão, ricos e pobres tinham a mesma educação)
https://cangaconabahia.blogspot.com/2011/10/


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