07 setembro 2024

ROTEIRO DA CAMPANHA DE CANUDOS - 2

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1893-1896 - I

Após o entrevero em Masseté, Conselheiro abandona uma comunidade que fundara numa fazenda próxima a vila de Bom Jesus, em 1886 (1), e se interna com sua gente no curso médio do rio Vaza-Barris, uma região muito seca e isolada do nordeste da Bahia. Aí se apropria, em junho de 1893, de um casario, conhecido como Canudos, nas terras de um tal Dr. Fiel, que, segundo Benicio (1899) possuía várias fazendas no local e que, segundo outros autores era de gente submetida à influência ao Barão de Jeremoabo. No local havia umas 50 casas de taipa, e uma pequena capelinha, dedicada a Nossa Senhora da Conceição. O lugarejo é rebatizado pelo Conselheiro como Belo Monte.

O local realmente era muito pobre, exceto pela presença da família de Antônio Mota, próspero comerciante de couro e proprietário rural e da família dos Macambira, de agricultores, que possuíam mais terras e viviam em casas melhores. Outro personagem importante do lugar era o também comerciante e pequeno proprietário Jesuíno Lima, que mais tarde se tornará inimigo incondicional, no estilo do velho semiárido, dos conselheiristas

A presença do Conselheiro provoca um movimento de imigração para o local, de gente interessada em usufruir da fama de santidade do Conselheiro e de quebra algum milagres que ele pudesse realizar, pois a sua fama nesse sentido já corria os sertões, como é comum nesses casos, além da ideia de prosperidade e até riqueza associadas à proximidade com gente “santa”, como é próprio do Antigo Testamento (José do Egito, Salomão etc.) e da religiosidade popular.

O tamanho de Canudos e sua população

A fantasia mais delirante surgida em torno do Belo Monte é que o arraial chegou a possuir mais de 20 mil habitantes, a cifra mais comum, até chegar ao superabsurdo de mais de 30 mil! Defendida esntre outros por Frederico Pernambucano em a Guerra total de Canudos – se isso não parar, talvez em breve descubramos que havia uma Londres ou uma Paris, no sertão da Bahia, no final do século XIX.

A primeira questão que se coloca é: como sustentar uma população dessa envergadura?

Primeiro: a área onde estava localizado o Belo Monte é uma das pobres em termos de pluviosidade – enquanto a média anual de chuvas é de uns 380mm/ano, a média de evaporação por mês é de 110mm, em virtude das altas temperaturas e das características do solo. Não há excedente pluviométrico em mês algum.

Segundo: o fornecimento de água não é garantido. O rio Vaza-Barris só corria no seu leito por uns três meses ao ano. No resto do ano o povo ia pegar água, por meio de baldes, em cacimbas escavadas no leito do rio.

Terceiro: a qualidade do solo, majoritariamente raso, arenoso, pouco permeável, muito acido, muito pedregoso e facilmente erodível, não era propício a uma agricultura ou pecuária de alto rendimento. Mesmo nos poucos lugares onde era possível uma agricultura de excedente, havia, e ainda há, a necessidade de química para a correção do solo e cuidados com a erosão.

Quarto: Belo Monte ficava na região do polígono das secas, logo dominada pela instabilidade do clima semiárido, o que dificultava ainda mais a vida de uma comunidade, que fugia de contatos regulares com o entorno mais desenvolvido, para transferência de mercadorias e tecnologia, além da possibilidade de onipresentes contaminações espirituais.

Sem o concurso da agricultura, pela qualidade do solo e a estabilidade do clima, só restavam quatro alternativas: grandes obras de engenharia (diques, canais, aquedutos) e adubação intensiva do solo, posição favorável em grandes rotas comerciais, como em Juazeiro e Petrolina, uma indústria poderosa, a extração de bens minerais ou alguma coisa muito cobiçada sob controle do arraial. Não se achou nada disso em Belo Monte.

Simplesmente não havia produção de alimento para sustentar uma aglomeração desse porte, e a divisão dos bens se impunha muito mais por causa da pobreza extrema do que por uma presunta prosperidade, e menos ainda como causa dessa ‘prosperidade’, como querem socialistas/marxistas, a revelia da história, das condições objetivas do lugar e da mentalidade pré-capitalista do Conselheiro e sua gente. Até hoje, mesmo com o açude de Cocorobó, Nova Canudos não consegue sustentar 20 mil habitantes, quanto mais naquela época.

Por fim resta o testemunho de Honório Vilanova, irmão de Antônio Vilanova, a Nertan Macedo (1983, p 129), quanto, ele recordou uma declaração do Conselheiro, logo após a saída dos frades capuchinhos: “Conheço os padres falsos. Os que eu quero abraço. Aceito quem credita no Bom Jesus. Ando nesse mundo imitando a Deus Nosso Senhor. Quando ele andava na terra seguiam-no 5 mil pessoas: e as boas andam em companhia das más, porque assim ganham a salvação”, que repetia outra que ele já ouvira do mesmo Conselheiro:  Quando Jesus Nosso Senhor andou pela terra foi acompanhado de cinco mil pessoas. No meio delas havia mais gente detestada do que boa. Ao lado do Bom Jesus [que supostamente seria ele mesmo] já tem o mesmo número de pessoas” (idem p 70) (2). 

Portanto algo em torno de cinco mil pessoas, espalhados em centenas de casas, seria o número mais razoável para população de Canudos, que durante a campanha recebeu ajuda material e voluntários das fazendas no entorno.

Outro testemunho fundamental quanto a isso é o do próprio Honório Vilanova a Macedo (idem, p 133). “Pensavam os soldados [e muito mestre e doutor hoje] que o peregrino tinha gente demais, quando éramos poucos, bem distribuídos e melhor entrincheirados”.

A questão agora é com você leitor, se vai acreditar numa testemunha ocular ou no seu mestre ideológico.

 

Nota

1 – Nessa época, novembro de 1886, o delegado de Itapicuru, oficiou ao Chefe de Polícia da Bahia a sua preocupação com a presença de homens armados, entre os conselheiristas ((Macedo - Maestri. 2004), um detalhe que será muito mencionado nas correspondências ao Barão de Jeremoabo, posteriormente. Isso pode ter acontecido como uma cautela pelo fato de ele ter sido preso em 1876, sob falsa acusação de assassinato, além das tratativas das autoridades, naquele momento, e posteriormente, de interna-lo num asilo de alienados no Rio de Janeiro. Há um indícios de que após este acontecimento, ele começa a chamar a atenção por, além das atividades espirituais e obras de piedade habituais, se fazer acompanhar por gente armada, sem ele nem o seu entorno, verem contradição no fato de um penitente, que busca na imitação de Jesus Cristo a remissão de seus pecados, se fazer proteger por um grupo armado.

2 - isso remete ao texto de Mt 14,21; Mc 6,44; Lc 9,14 fala em “quase cinco mil homens”; Jo 6,10 fala em “homens em número de cinco mil aproximadamente”. Essa gente não o seguia, mas se reuniu-se fortuitamente numa ocasião ou duas, interessadas em ouvir o seu sermão e fazer refeição grátis. Jesus, por sinal, os escorraça ainda nesse mesmo capítulo: 6,66. Acho que é por aí, em torno de 5 mil, uma grande parte crianças, que se deve contar os moradores de Belo Monte.  Conselheiro por seu lado, cercou-se de gente armada pra evitar uma melhor da imitação de seu Deus, que rendeu-se aos seus inimigos e por eles foi morto, o que no caso dele poderia acabar em prisão ou hospital psiquiátrico. O destino mais cruel, sofreu-o aquela pobre gente: os seus seguidores.

Bibliografia 

Macedo, José R – Maestri, Mario; Belo Monte um história da Guerra de Canudos; Expressão Popular; São Paulo; 2004

Benicio, Manoel; O rei dos jagunçosCrônica histórica e de costumes sertanejos sobre os acontecimento de Canudos; Jornal do Commercio; Rio de Janeiro, 1899

Macedo, Nertan; Memorial de Vilanova; Renes; Ri de Janeiro; 1983

Junior, Israel de Oliveira; Da mata branca ao estado de degradação: a desertificação em Canudos (BA); UFBA (Instituto de Geociências); dissertação de Doutorado em Geografia; Salvador; 2019

https://entreasecaeacerca.wordpress.com/2013/10/19/geografia-canudense/

http://solosne.cnps.embrapa.br/index.php?link=ba

(Abaixo: Honório Vilanova (esquerda) e outro sobrevivente de última hora do cerco de Belo Monte, Chiquinhão, se encontram inesperadamente em 1949, Vilanova morava no Ceará e foi a Canudos a convite do advogado e pesquisador cearense Pedro Wilson Mendes, e prestam uma homenagem no local onde supostamente foi enterrado o peregrino Antônio Conselheiro. Ambos com chapéu na mão, ricos e pobres tinham a mesma educação)

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