30 maio 2024

CANUDOS: GUERRA INTERMINÁVEL– 11

 

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(Essa ruína, seria da escola onde Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, lecionou por um tempo como professor, alfabetizando crianças pobres, um trabalho altamente meritório, mas de pouco valor social, até hoje, no Brasil. Ela ficava na fazenda Tigre, próxima a Quixeramobim, CE, e a foto foi batida em 1939)

Eduardo Simões (a Margarida Maria)

O pior momento de José Calasans?

Um dos maiores estudiosos de Canudos, José Calasans, escrevendo sobre a família dos Macambira – família de agricultores estabelecidos em Canudos – lembra que antes do Conselheiro chegar havia na fazenda Canudos um par de famílias que se destacavam das outras: os Macambira e os Mota, esta mais ligada ao comércio e ao transporte de mercadorias, as tropas, bem assentados e vivendo pacificamente de seu trabalho. Outro comerciante era Jesuíno Correia Lima.

Sabemos também que, graças a atração que a mensagem e a personalidade do Conselheiro, houve um grande afluxo de gente para o lugar, uma região pobre a abandonada, sob a influência da família do Barão de Jeremoabo, notório monarquista, que nem assim quis conversa com o Conselheiro.

É claro que o afluxo de gente ajudou no fornecimento de mão-de-obra, no aumento da circulação de dinheiro e mercadorias, enfim um fator de prosperidade geral, embora não devamos nos iludir quanto ao montante dessa prosperidade, pois Canudos continuou sendo uma comunidade muito pobre, carreando recursos para a construção de Igrejas e o cemitério, mais ou menos como acontecia com grande parte do ouro do Brasil que foi para Portugal, ao longo do século XVII e XVIII.

A medida que a comunidade crescia, acabava acolhendo todo tipo de gente, tanto para o bem como para o mal, e entre estes se encontrava Antônio Vilanova, que chegou a Canudos depois e logo tornou-se próximo do Conselheiro, ainda mais porque era originário do Ceará, a terra do Conselheiro – será que já se conheciam? Vilanova também era comerciante e também sabia farejar boas oportunidades. Aparentemente, pelo testemunho de alguns. O comércio de peles começou a dar um bom lucro, para engrandecimento dos Mota, que estavam mais bem situados para isso.

Com muito tato e jogo nas sombras, Antônio Vilanova e seu irmão Honório conseguiram galgar postos junto ao Conselheiro e autoridades civis do lugar, ocupando cargos no arremedo de “burocracia” de Belo Monte, enquanto mantinham um bom ponto comercial, até que um dia, aconteceu uma tragédia bem conhecida, mas pouco falada dentro de Canudos: o massacre dos Mota.

As versões divergem. Manuel Benício afirma que isso aconteceu depois de Uauá, e se deveu a uma suspeita de que o velho Mota estaria mancomunado com os militares, sem explicar se essa suspeita tinha fundamento ou era fruto de intriga. O senhor Paulo Monteiro em testemunho à professora Luitgarde, se disse neto de uma mulher que viveu nessa época, e que era cliente de Jesuíno Lima, diz que a causa do massacre foi outra:

Totonho Vilanova queria só ele ser o compradô de peles daqui do Canudos... Dentro de Canudos mataram Antoin da Mota, seu filho de apelido Rola e o outro filho Pedro de Rola. O Pedro ainda caminhou assim para as armas [aparentemente foi pegar uma arma para se defender, o que indica um massacre inesperado, à traição], mas já tava na agonia, caiu morreu... quando mataram os Mota, dos mais antigos de Canudos, o povo ficou assombrado, mas somente Jesuíno reclamou: “É uma injustiça matar uns homens assim, sem culpa nenhuma” ... [Quando a autora indaga sobre quem matou os Mota, seu Paulo responde] Foi os jagunços, perfídia de Totonho Vilanova. Essa questão foi tangida [provocada] por Totonho Vilanova [mas em seguida seu Paulo dispensa o Conselheiro de responsabilidade, afirmando que ele não teve nada a ver, embora fique difícil explicar a posição privilegiada que Vilanova sempre gozou em Canudos, afirmando que o Conselheiro apenas não queria a polícia no arraial, essa hipótese (de chamar a polícia) fora levantada por Jesuíno. A única alternativa, para não entrar em choque direto com a sua guarda pessoal, era “por uma pedra em cima” o “varrer para baixo do tapete”] (Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros; Um fuzil na Guerra de Canudos - memória de violência na paz do Conselheiro; Anais do XVII Simpósio Nacional de História – ANPUH - São Paulo, julho 1993; p 381-382)

Francamente. Seja qual for a razão que levou ao extermínio repentino dos Mota – fosse por essa razão, fosse pela fiscalização opressiva da Guarda Católica sob os suspeitos, já apontada no relatório de frei João Evangelista – podemos afirmar clara e insofismavelmente, que estamos diante de um SISTEMA PRÉ-TOTALITÁRIO, uma espécie de TIRANIA (no sentido moderno do termo), com um poderoso centro de poder pessoal, com culto à personalidade, em torno do qual se criam estruturas e instituições que aparentemente ampliam o poder daquele, mas que, na pratica, atendem aos interesses particulares dos “amigos do rei”, com autonomia inclusive para decretar e executar, à revelia do centro, um grande massacre dentro da própria comunidade, que desmoraliza e manipula esse centro de poder, em sua ilusão de uniformidade e obediência geral, até arrastar todo o sistema para o colapso final.

O que José Calasan tem a ver com tudo isso?

Em um artigo, chamado Joaquim Macambira e sua gente, já no primeiro parágrafo! Calasans falando da comunidade pré-Conselheiro de Canudos, fala de “duas famílias de importância: os Mota e os Macambira”, e que “na fase conselheirista surgiu um terceiro grupo familiar, os chamados Vilanova, procedentes do Ceará”. A terra do Conselheiro.

Aqui vemos que a suposta igualdade social entre os moradores de Canudos, tão cara ao discurso dos marxistas e do revisionismo canudista, é pura balela. Havia famílias mais ricas, morando em casas melhores e mais próximas do Conselheiro, que a média das moradores, decidindo com ele a administração do arraial, partilhando do poder. O único grupo realmente pobre, que podia se equivaler a essa elite, era o dos jagunços, gente, pobre sem raiz, alguns com crimes graves nas costas, mas úteis à segurança física do Conselheiro, afora se prestarem ao uso em prol dos interesses mercantis do grupo mais poderoso, a ponto do contrariar a diretriz ideológica do centro de poder: a busca da pureza da mensagem cristã, em troca de vantagens “não espirituais”.

José Calasans, depois de explicar que os Mota eram comerciantes e donos de terra, e que também eram amigos dos Macambira diz que, “tendo Macambira acolhido menores da família Mota, por ocasião da chacina dos membros, num momento difícil da vida local. A atitude de Macambira foi muito digna, merecedora de encômios”. E rápido muda de assunto para falar só dos Macambira, que continuaram... vivos e leais ao Conselheiro.

Colocando as letras no papel....

1º - A gente sabe que os elementos masculinos da família Mota, que moravam em Canudos, foram repentinamente atacados e mortos, sem direito de defesa.

2º - Os menores ficaram com os Macambira, e as mulheres? Que fim levaram? Foram estupradas, pelos menos uma, como diz Manuel Benício? Foram expulsas da cidade? Foram mortas também depois? Foram distribuídas entre os jagunços executores, como costuma acontecer na lei da guerra entre os primitivos?

3º - A comunidade, pega de surpresa, não faz nenhum movimento no sentido de pedir justiça para as vítimas, mas elogia quem teve a coragem de cuidar das crianças – não seria uma prova que o governo do Conselheiro estava se encaminhando para um sistema totalitário, onde o medo é um fator importante de controle social?

4º - Calasans diz que isso foi um “momento difícil da vida local” – Deus me ajude para não perder as estribeiras. Ou seja: ele chama a atenção para o sofrimento da “comunidade local”, coitadinha, desviando a atenção de um crime coletivo, em tudo hediondo, retirando o foco do sofrimento das crianças órfãs, das mulheres abusadas, da morte violenta e imprevista dos homens e da motivação absolutamente torpe do crime. Acrescento que outro comerciante, além de Jesuíno, foi expulso ou fugiu nesse momento de Canudos, deixando o comércio de peles exclusivamente nas mãos de Vilanova, enquanto Conselheiro se ocupava procurando tempestades no coração de Maria...

Eu fico imaginando alguém chegando para um mulher que perdeu violentamente de uma só vez o pai, o irmão e o marido, e que sofreu estupro, e que daqui para frente não terá mais a vida abastada e o prestígio que tinha até então, para viver de favor na casa de outros ou ser abusada sistematicamente por quem lhe destruiu a família. Será que Calasans, em situação idêntica diria a essa mulher: “eu entendo o momento difícil que seus amigos devem estar passando com o que lhe aconteceu”.

Nesse momento, a paixão cega, ideológica, de um projeto condenado: transformar Antônio Conselheiro em herói nacional, faz com que um homem culto, honrado desça à mais profunda insensibilidade, ao usar essas palavras para descrever um acontecimento tão bárbaro, só para salvar o seu herói.

Um herói, que precisa da cumplicidade de seus devotos para parecer herói!

(Abaixo, dois paus de aroeira, os únicos ainda de pé da escola fotografada acima. Ao fundo um velho Land Rover 1949, apontando que a foto foi feita no início dos anos 1950 ou final dos 1940. Fantasias que se transformaram em pó) 


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28 maio 2024

CANUDOS: GUERRA INTERMINÁVEL - 10

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Eduardo Simões (a Margarida Maria)

O papel do Conselheiro no conflito (final)

Podemos dizer que os detalhes jamais irão “bater”, mas o fato sabido por todos é que a família do comerciante Mota, foi massacrada a pedido da gente nova que chegou com Antônio Conselheiro, em especial Antônio Vilanova, que era comerciante, o que causou a fuga de Jesuíno Lima, que, também era comerciante, e isso joga por terra qualquer pretensão de querer apresentar Canudos como um lugar de paz e harmonia, como se lá não vivessem os seres humanos capazes de perpetrar o massacre horripilante da 3ª expedição.... E nesse sentido não está muito longe da verdade, a crença de alguns que Canudos estava se transformando em valhacouto de bandidos, talvez até a revelia do Conselheiro, mas decerto se aproveitando do seu alheamento da realidade.

Portanto, o Conselheiro, ao se recusar a cumprir toda e qualquer lei que emanasse dos legítimos Poderes da República, além do dinheiro, de “curso forçado” – segundo Benício, lá só era aceito o dinheiro do império – criando um vazio de lei e ordem, que não se definia nem como uma república, coisa do demônio, nem como uma monarquia, pois o herdeiro legítimo, segundo Conselheiro, Pedro III, jamais tomou conhecimento da existência deles, onde se decretava pena de morte contra toda a linhagem masculina de uma família, sem qualquer julgamento público, como acontecia no Antigo Testamento. Canudos reintroduz no Brasil a pena de morte, banida no Império, que dizia representar.

Agora levanta-se uma questão: o Conselheiro estava longe dos combates que vitimariam o grosso de sua gente, estava ele longe do clima de violência que se erguia em Canudos?

Na visita do frei João Evangelista, em 1895, ele mostra claramente que está consciente de confrontar o sistema reinante, ou seja: ele está certo e o resto do Brasil errado, e que as suas atividades são vistas pelo menos como uma provocação pelas autoridades. E o que faz o “santo” penitente? Cerca-se de uma guarda armada, composta de valentões afamados, alguns com assassinatos pendentes. Mas como a lei que vige fora de Canudos é a da república, então eles não só estão perdoados como podem fazer parte da elite canudense: a Guarda Católica, pronta para matar e morrer pelo Conselheiro. 

Esses criminosos afamados, que abusaram de tanta gente fora de Canudos, não abusarão das pessoas aí?

Frei João Evangelista detectou corretamente avaliou o seu perigo para o conjunto do país: “é aquilo estado no Estado [ou: um estado dentro do estado]: ali não são aceitas as leis, não são reconhecidas as autoridades, não é admitido a circulação o próprio dinheiro da Republica”. E ainda: “Quem foi alistado na Companhia dificilmente poderá libertar-se e vem a sofrer violências, se fizer qualquer reclamação”. “A milícia fanática só dá entrada no povoado a quem bem lhe apraz; aos amigos do governo ou republicanos conhecidos ou suspeitos, ela faz logo retroceder ou tolera que entrem, mas trazendo-os em vista”. Neste caso o que nós temos é uma guarda de fronteira e um clima interno que lembra o dos estados totalitários, na sua violência difusa, mal disfarçada nas gentes desfilando ostensivamente armadas, indagando de tudo e constrangendo com palavras e gestos aos padres e supostos adversários do líder, semelhante a que fascistas, nazistas e comunistas farão em seus respectivos regimes.

Já que Conselheiro é o grande conhecedor da vida e da mensagem de Jesus Cristo, tanto que permite as pessoas o chamarem de Bom Jesus ou Bom Jesus Conselheiro, com autoridade suficiente para escorraçar padres vindo a mando de um Arcebispo, porque ele não fez como o verdadeiro Jesus Cristo, que, em situação análoga, preferiu entregar-se e dar a vida pelo povo, ao invés de sacrificar o povo por sua segurança pessoal, expondo-o a uma guerra? Alguém duvida que se ele houvesse se entregado não haveria guerra ou ela seria bem menos do que foi? Como um autêntico anticristo ele ficou até o fim, vendo o massacre paulatino de sua gente, dentro da sua toca, até morrer de inanição ou doença, enquanto os seus experimentavam a navalha da degola, apesar da crença de que, por causa isso, não entrariam no céu, que o seu “Bom Jesus” experimentou naturalmente, de morte morrida. Até na sua morte Antônio Conselheiro abusou daquele povo.

Outra coisa também: o massacre dos Mota aconteceu dentro de Canudos. Ora, o Conselheiro certamente que estava a par de tudo o que acontecia ali, e se é verdade a versão que os Mota foram mortos por causa da intriga de Vilanova, os assassinos certamente receberam a autorização do Conselheiro, e se não houve a autorização, ele com certeza ficou sabendo do massacre, afinal tudo indica que houve um grande tiroteio dentro de Canudos, com homens mortos, mulheres enviuvadas e crianças órfãs. Como ele não ficou sabendo? E se soube, por que não tomou nenhuma providência?

Antônio Conselheiro está envolvido até suas abundantes barbas no massacre do Motas e em toda e qualquer violência que ocorria na cidade. Das quais nós só ouvimos falar de longe, semelhante ao que acontece nos nossos subúrbios, atuais onde facínoras fazem imperar a lei do silêncio, sob pena de morte. Ainda mais em Canudos.

Noutras palavras ignorar esses fatos nos dias de hoje, para justificar a apresentação de Canudos como um exemplo, um modelo de conduta social para a juventude, em especial em idade escolar. É o mesmo que justificar e até recomendar o modelos das comunidades dominadas pelo tráfico, pela milícia, por aqueles que ainda praticam a escravidão, etc., pois se o Conselheiro podia, e até devia, afrontar impunemente as leis e as autoridades na sua época, porque esses outros não podem afrontar a lei e as autoridades hoje?

Adendo: Uma observação da professora Luitgarde Cavalcanti nos remete a algumas reflexões na compreensão do que aconteceu em Canudos:

"A lealdade ao Conselheiro não impede o surgimento de facções no interior da sociedade organizada segundo o sonho do beato. Parcelas da comunidade, de forma velada ou mais ou menos expressa, apoiando Jesuíno, traduzem sua repulsa à tragédia gerada pela disputa do comércio de peles [um segmentação inevitável em função do crescimento da população].

No desdobramento dessa linha de raciocínio, pode-se afirmar que: recusando a presença  do Estado na sua comunidade, Antônio Vicente Mendes Maciel não teria conseguido manter a paz entre seu povo. No mundo que construíra, começara a cair prisioneiro dos limites de sua utopia. Em quase três anos de existência a cidade crescera além de suas possibilidades de controle apenas pelas palavras e pelo exemplo de sua vida de trabalho, caridade e humildade. Já havia na sociedade de Canudos gente rica se matando pelo monopólio do comércio [ele não conseguiu criar, como seria de esperar, uma estrutura que compensasse a ausência do estado, na sua comunidade, complexa o bastante para lidar com o crescente do cruzamento de tantos interesses divergentes].

O pecado maculava a santidade do mundo do Peregrino! A fuga de Jesuíno, propiciada pelos que não aceitaram a violência dentro de Canudos demonstra, mais do que insegurança individual do fugitivo, a descrença de um grupo na capacidade do Conselheiro de impedir a repetição da violência criminosa."

A sua conclusão é primorosa, considerando o massacre dos Mota e o testemunho de sobreviventes é que ocorre assim... 

"quebra outro mito que se vai construindo nas Ciências Sociais no Brasil, que seria a existência de uma sociedade homogênea, sem contradições, sob a direção pacífica e o controle absoluto de Antônio Vicente Mendes Maciel, o santo Conselheiro".

Recomendo demais a leitura do texto da professora: Um fuzil na guerra de Canudos - memória de violência na paz do Conselheiro; Anais do XVII Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 1993

https://anpuh.org.br/uploads/anais-simposios/pdf/2018-12/1545849488_dc10eb2b774043499532a2ada558bed2.pdf

27 maio 2024

CANUDOS: GUERRA INTERMINÁVEL - 9

 

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Eduardo Simões (a Margarida Maria)

O papel do Conselheiro no conflito (início)

Uma coisa intriga: qual foi o papel do Conselheiro durante a guerra? Numa coisa todos são unânimes: ninguém jamais o viu durantes os terríveis batalhas que houve. Ele era a figura mais importante, mas sempre oculta nos combates, exceto em uma ocasião, segundo Cunha, em que ele apareceu na praça defronte às igrejas, olhou para as tropas que cercavam o arraial e voltou para dentro do casario, em que pese os gritos e a fuzilaria dos que tentavam atingi-lo.

Alguns autores defendem a tese de que, após o início dos combates, a sua figura refluiu, abrindo espaço para os entendidos nessa matéria: chefes, valentões e jagunços que viviam em Canudos, em especial Pajeú, João Abade, os Macambira, etc. que, em função das frequentes brigas de famílias nos sertões, haviam adquirido uma invejável experiência no assunto, muito acima dos chefes militares do litoral, que certamente liam César, Alexandre, Clausewitz, Moltke ... e até Moreira César...

A primeira questão é: precisava uma intervenção do poder público em Canudos? E a resposta é um sonoro SIM, mas NÃO pelos motivos que a motivaram. Os telegramas forçados e falsos, do juiz Arlindo Leoni. Negar isso é cair numa tremenda contradição, senão vejamos:

O Conselheiro não permitia que as leis da república, referentes aos impostos, às eleições e até a atuação da polícia, etc. vigorassem no seu arraial. A suposição de certos pesquisadores mais à esquerda, como Aquino e seus amigos (Sociedade Brasileira: uma história; vol 2; p 146) de que “quase não havia crimes na comunidade. As bebidas alcoólicas eram proibidas. Não existiam prostíbulos nem tabernas”, são no mínimo ridículas:

Só há crimes onde há bebidas alcoólicas e mulheres “disponíveis”? Muita gente há que bebe e não comete crimes, da mesma forma é muito mais fácil haver crimes e tragédias, por homens se meterem com mulheres “indisponíveis” que com as “disponíveis”. Como eles sabem que quase não havia crimes se não há documentos escritos sobre o que se passava? Será que dava para todos os 25 mil habitantes de Canudos, ou mesmo que fossem menos de 10 mil, número muito mais verossímil, saberem todos o que se passava no arraial? Havia em Canudos um “reino” de anjos? E, supondo que “quase” não havia crimes, o que acontecia quando havia?

Seria bom lembrar aos digníssimos historiadores, amigo do senhor Aquino, que: quando vigorou a lei Seca nos Estados Unidos, a criminalidade cresceu de forma exponencial no país. Por que em Canudos seria diferente? Esse excesso de proibições não explicaria a violência com feridos e prisioneiros da 3ª expedição? E quando não havia Moreira César por perto o que acontecia?

O massacre da família Mota: a caixa preta de Canudos

Antônio Mota era um comerciante antigo na comunidade e amigo pessoal de Conselheiro, porém, à medida que o comércio de pele de cabra crescia, inclusive por exportação, por meio de um representante em Juazeiro, “olhos cresceram”, como acontece em todas as comunidades do planeta terra, e logo a posição privilegiada de Antônio Mota e outros passou a ser invejada por outro comerciante, Antônio Vilanova, vindo do mesmo Ceará de Conselheiro, e a este aproximou-se o suficiente para fazê-lo crer, assim como a sua guarda pessoal, de que Mota estava em conluio com as forças republicanas.

Em ambos os casos a sentença foi terrível: extermínio sem julgamento, da linhagem masculina dos Motas – para evitar vingança? Não seria isso a sobrevivência de uma justiça neolítica, tribal, que responsabilizava toda a família pelo crime de um de seus membros? Segundo Benício, os motas foram cercados em casa e mortos a tiros, após o que colocaram fogo na casa, dando a entender que toda família pereceu

Eis o texto:

0s sectários do Conselheiro retornaram a Canudos, indignados contra a família do velho octogenário Antônio da Motta, negociante, composta de Joaquim da Motta, mais outro filho, o genro Pedro Rola e mulher, e mais dois filhos, a quem se atribuíam falsidades... e a qualidade de espionagem. Assegurava-se até que fora o velho Motta o causador ela conflagração de Uáuá... Em consequência disto a casa elo velho Motta foi assaltada uma noite. A família resistiu, porém teve de morrer toda, salvo um filho moço, fuzilada por entre as chamas do fogo que atacaram à casa. Desse tempo datam outras violências cometidas pelos sectários do Conselheiro contra os que eles sabiam ser espiões ou contra os seus hábitos e religião” (O rei dos jagunços – Chronica Historica e de Costumes Sertanejos sobre os acontecimentos de Canudos; Jornal do Commercio; Rio de Janeiro; 1899; p 176)

Essa afirmação não bate com o testemunho de José Calasans, que assegura terem sobrevivido as mulheres da família Mota, acolhidas na casa de Joaquim Macambira, Deus lá sabe em que condição. Mas como vemos aqui havia uma violência difusa, usada inclusive por razões religiosas, e decerto de “moral”, semelhante a que justificou a surra na amante do juiz, na cidade onde o juiz morava! Nada da comunidade pacífica que nos querem vender.

Uma pesquisadora da UFRJ, Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros; Um fuzil na Guerra de Canudos, (texto apresentado no XVII Simpósio Nacional de História da AHPUH) colheu o testemunho do filho de uma senhora, que ocultou Jesuíno Correia Lima, fugido de Canudos, onde ele diz que os Mota, na verdade, foram mortos por causa de intrigas forjadas por Antônio Vilanova, interessado no monopólio do comércio de peles, e no seu depoimento dá a entender que a sentença de morte só atingiu aos membros varões da família, como diz Calasans. E que Jesuíno Lima fugirá de Canudos, porque não se conformou com o massacre sem motivo dos Mota e por achar necessário o concurso da polícia do estado.

Após a fuga Jesuíno é tomado por um desejo irrefreável de vingança, porque após a sua saída, a sua família será morta pelo facínora-apóstolo da Guarda Católica Pajeú. Ele é citado por Cunha, como o “Capitão Jagunço”. Ele participará da 3ª e 4ª expedição, até que, finalmente, sua peixeira lambeu o sangue do criminoso, segundo uma testemunha.

(continua)

OPINIÃO: O QUE É A ESQUERDA? (expandido 13.06.2024)

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Eduardo Simões (a Margarida Maria)

O apresentador do canal Meteoro Brasil, Álvaro Borba, do youtube, num debate recente com Mamãe Falei, do MBL, idem, fez uma das perguntas mais difíceis e intrigantes, para quem quer que acompanha política no Brasil, sem falar que é impossível você encontrar pelo menos dois esquerdistas que concordem entre si sobre a resposta de “o que é a esquerda”, tanto quanto é difícil, senão impossível, a gente saber, que raios, para eles, afinal, é a extrema-direita. E isso não acontece por acaso.

Tentando ajudar aos que militam nessa política cristalina que predomina no nosso país, tanto que todos, ou quase todos, têm telhado de vidro, dou algumas sugestões de respostas a essa pergunta dispostas abaixo:

É o extremo oposto da extrema direita, da qual é extremamente idêntica.

É a maior apreciadora de muros e mares, que são o meio mais eficiente para conter a fuga de minorias, traidoras, vermes, reacionárias, etc. para um país capitalista, inviabilizando o país socialista

É a melhor amiga da extrema-direita.

É aquela que tenta fazer a sociedade humana progredir até a Pré-história

Um solipsismo coletivo

A maior esperança da extrema-direita

Um distúrbio intelectual, que faz a pessoa imaginar que só ela sabe o que é a “esquerda”

A quinta-essência de essência alguma

Uma forma exacerbada de egocentrismo infantil, que faz um adulto cogitar a morte de quem pensa diferente dele ou não vê o que ele está vendo.

Uma congregação de velhos senis e jovens imaturos contaminando-se mutuamente

A bandeira dos sem bandeira

Um distúrbio autoimune de fazer um indivíduo ver miragens e alucinações estando aparentemente sóbrio

É uma síndrome que faz a pessoa se embriagar com as próprios desejos e palavras.

Uma incapacidade de enxergar sem a fantasia

A capacidade de só enxergar a realidade quando fantasiada.

Um guia para a liberdade de ser permanentemente guiado.

É um indivíduo que se comporta como um míssil teleguiado, com a diferença que o míssil, ao menos, pode explodir

É a exaustão da racionalidade e do pensamento.

Uma espécie de contrafação mental que transforma a filosofia e a ciência em símbolos de fé.

Acreditar em Papai Noel, porque ele se veste de vermelho e dá presentes que não adquiriu com seu próprio dinheiro.

É quem jura que valoriza o trabalho, falando e pensando só no capital.

É quem se dá ao trabalho de viver do trabalho alheio sem precisar trabalhar.

É a habilidade de transformar literatura de ficção e teorias da conspiração em ciência e programa político.

É você viver com uma mente quadrada num mundo redondo.

É fazer ciência e filosofia citando “autoridades”, e não fatos, como faziam os teólogos medievais, quando justificavam a religião.

São os antinazistas, pois matam milhões de pessoas pela sua causa, como aqueles, e ainda aparecem de bonzinhos.

É uma disenteria mental persistente que consegue transformar genocídio em ação meritória.

São os que dizem que nunca disseram aquilo que estão dizendo.

São os que tentam nos convencer que é chapeuzinho vermelho é o lobo mau, e o lobo mau é o chapeuzinho vermelho, e que no final eles são o lobo mau e seus oponentes chapeuzinho vermelho, e caso contrário é justo o contrário 

É aquele que quer mudar o mundo vivendo da mesada do pai ou de seu melhor amigo

É o que quer destruir o parasita burguês-capitalista, para se tornar um parasita do capitalismo de estado.

É aquele que se enforca sozinho com a corda fornecida por Marx e Lenin.

É o que sente saudades do que nunca foi

É um tipo de sebastianismo sem Sebastião.

São os fiéis mais fervorosos do poder das massas, desesperados por um salvador da pátria.

São os que usam do culto das massas, para exacerbar o culto de um indivíduo.

São os que vivem amolecendo diante de uma ditadura

É o cara que sempre tem algo para não dizer

É um jovem de classe-média-alta arranjando com pretexto para não trabalhar

É alguém que parte para resolver os problemas do mundo, já que não consegue resolver os seus próprios

É um tipo de atrofia mental por falta de uso

São velhos gagás querendo parecer jovens e jovens falando como velhos gagás.

São jovens e muito competentes doutores universitários, cultuando fanaticamente um velho, que se gaba da sua ignorância, na esperança de parecerem mais espertos.

É a capacidade de tornar a mente incapaz de um raciocínio objetivo.

É u tumulto mental que transforma a fantasia de um substituto da realidade na própria realidade

É o processo de transformar fracassos pessoais em material político-sociológico

É uma tipo de complexo de Édipo mal resolvido

É a incapacidade de trocar ideias, porque a troca lembra comércio e comércio lembra burguesia

É o desejo de transformar conflitos pessoais em pretexto para numa guerra mundial nuclear.

É um pequeno burguês com ódio aos grandes burgueses.

Um belo outdoor de uma realidade medonha.

É não crer em nada nem em ninguém e dar sua vida por isso.

É ter visão de águia para supostos problemas da realidade e de toupeira cega para as insuficiências de sua teoria

É o cientista social materialista e hiper-realista que acredita ter descoberto o abre-te sésamo da história.

É a crença de que é pior imaginar-se levando uma tijolada na cabeça do que leva-la de fato.

É ter um coração de mãe, a ponto de acomodar dentro da sua teoria as maiores contradições.

É a capacidade de alguns em encher o seu vazio existencial e a paciência dos outros ao mesmo tempo.

É acreditar que o buraco negro fica mais embaixo.

É viver tentando revogar a lei da gravidade, acreditando que algo que não deu certo em lugar algum do mundo, vai dar certo aqui.

É crer na força de atração do vazio.

É ter os pés e a cabeça na Terra e jurar que está na Lua.

É ter mania por sonho repetitivo

É enaltecer ao mesmo tempo Che Guevara e as pautas identitárias

É ignorar sistematicamente que Engels e Marx consideravam as comunidades LGBTetc. como uma “perversão”.

É falar com o opositor com ares de doutor e chuta-lo com a eficiência de um asno

É errar continuamente o seu próprio nome, se autodenominando “povo”.

É ser uma zebra mental, se questionando continuamente se é um proletário de mentira querendo ser um burguês de fato ou um burguês de fato, querendo parecer proletário de mentira.

É ser ingênuo o bastante para acreditar que o socialismo é possível sem Stalin, a Revolução Cultural e o Khmer Vermelho.

É acreditar, ainda hoje que, o programa quase centenário do Getúlio Vargas, em 1930, “o estado indutor do desenvolvimento”, tenha alguma chance de dar certo.

É negar continuamente a história em benefício de suas próprias e confusas elucubrações mentais.

E ter uma moral absoluta no discurso e uma moral relativa nas ações.

É acreditar-se no futuro, estando mais de 170 anos atrasado (lançamento do Manifesto Comunista)

É ter uma fé descomunal para defender a inutilidade da fé

É todo dia levar uma surra da história e todo dia provoca-la a um confronto.

É não aprender nem com os acertos

É o fim do que não devia nem ter começado.

É usar um computador com uma tecla só: “reset”

É alguém fazer todos os esforços possíveis para não sair do lugar.

É uma paródia do Scooby-doo, com um monte de adolescentes trapalhões e velhinhos transviados, numa máquina de fantasias.

É a máxima negação possível da realidade

É chamar seus próprios medos e desejos de “verdade”.

É uma forma de castração, com um desejo intenso, mas nenhuma realização.

É uma picada para o fim.

É o nome que o fascismo toma, quando quer parecer generoso.

É onde vão acabar os que não aprendem com o brejo das vacas.

É acreditar que a melhor forma de aprender com os próprios erros é multiplicá-los.

É uma grande roubada, no sentido metafísico e literal do termo.

É acreditar que a burguesia não tem outra coisa a fazer além de conspirar para ferrar todo mundo a cada momento. Só falta explicar onde ela arranja tempo para ganhar dinheiro.

É acreditar em luta de classes, Marx, vanguarda do operariado, revolução mundial etc. O resto é realidade.

É evoluir de quase nada para todo nada.

Uma tipo de neurose persecutória.

É Peter Pan com inveja do Capitão Gancho.

É evoluir do vazio existencial para o vácuo absoluto.

A forma mais antiga de não entregar o que prometeu.

É ficar surpreso com algo que está sempre acontecendo: “Fracassamos, ohhh!”

É perder o que nunca teve: senso da realidade.

É viver entre o sonambulismo e a perda de sentido.

É ser afetado pela doença da mosca do mal tsé tsé Tung.

Exceto os esquerdistas que não são nada disso

Aquele abraço!

25 maio 2024

OPINIÃO: O LIVRE MERCADO É O MELHOR PARA TODOS

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https://www.passeidireto.com/arquivo/70547802/oferta-e-demanda-no-mercado

Eduardo Simões (a Margarida Maria)

É impressionante o quanto os economistas estão desligados da realidade! Falo dos liberais, porque os marxistas, parece-me, vivem noutro planeta.

Recentemente um jovem economista, Josué Aragão, disse em um vídeo sobre a lei da oferta e da procura, “que você vai ver [no vídeo] exatamente como funciona essa lei, e nunca mais você vai ter dúvida com isso”, a propósito da ideia do Lula de comprar um milhão de toneladas de arroz, por causa das enchentes no RS. E aí ele me vem com um gráfico de eixos ortogonais, e retas que ele, num purismo conceitual, chamas de “curvas”, fazendo-o parecer um maluco, semelhante ao monte deles estampado nas páginas do manual de economia do Gregory Mankyw.

Ou seja, naqueles gráficos xexelentos, que devem levar ao êxtase muito estatístico, matemático, almoxarife, e até economistas, está a chave do entendimento definitivo da dinâmica do mercado, expresso em letras isoladas, em geral consoantes e números, dando graças a Deus, nesse caso, ele não ter metido letras gregas no gráfico para parecer mais erudito. Você para, pensa um pouco, e não se contém....

Por que os economistas, não usam simplesmente a lógica das ações humanas, pelo menos na abertura dos temas de seus manuais, ou quando se propõe a explicar os conceitos básicos de sua ciência ao grande público.

Como eu penso isso

Sendo um organismo vivente, o impulso mais básico para um ser humano é garantir a sua preservação física, biológica, protegendo-se dos azares da natureza e do convívio humano. Uns fazem isso com uma Ferrari, enquanto outro o fazem com os farrapos que lhe cobrem, e que nesse momento é a única coisa, naturalmente falando, que o separa de um animal da selva ou das ruas.

Muitos animais selvagens, quando têm comida em excesso, costumam escondê-la em algum lugar, para comer depois, quanto mais os seres humanos, que costumam fazer projetos de longo prazo, estocarão ou pouparão, na abundância, porque tanto os humanos como os animais de outras espécies não sabem o que lhes aguarda no futuro, exceto os ativistas da trupe de Greta Thunberg.

Mercado e preço

O mercado – somatório de todos os organismos vivos, humanos, que vivem num determinado espaço, é a expressão econômica daquilo que os socialistas, anticapitalistas, etc. chamam “povo” – é o melhor mecanismo natural, espontâneo para controlar a oferta de um produto nesse espaço, garantindo que o máximo de pessoas possa consumir desse produto e que ninguém, ou só menor número possível de pessoas em condições de comprar o produto, fique sem ele.

Isso é feito, principalmente, pela determinação do preço médio, que relaciona as quantidade de um produto demandada pelos consumidores pela capacidade dos produtores de ofertar a quantidade demandada pelos consumidores, a um preço que seja vantajoso para aqueles (cubrir custos e dê lucros compensatórios, o que varia de setor a setor, e de produtor a produtor, etc.).

Sempre haverá um certo grau de imponderabilidade, assim como uma quantidade de pessoas que não poderão comprar o produto, por não ter uma renda mínima que o permita, situação gerada por inúmeras causas, nem sempre claras, exceto para os ignorantes e esquerdistas que dizem, maliciosamente, que eles foram roubados, explorados pelos mais ricos ou por uma abstração chamada “sistema”.

Preço médio portanto é aquele que atende às necessidades do produtor e que o motiva a continuar produzindo um bem, e ao mesmo tempo permite ao maior número possível de pessoas o acesso a esse bem, o que varia de um bem para outro – uma Ferrari será acessível a bem poucas pessoas, diferente de um quilo de picanha ou de arroz; o número de pessoas que não pode comprar uma Ferrari é gigantescamente maior que o das pessoas que eventualmente não possam comprar um quilo de arroz ou quiçá de picanha, sem que por isso as pessoas precisem acreditar que alguém as lesou, até que algum presidente brasileiro ou latino-americano diga que possuir uma Ferrari é um direito humano.

Redução artificial do preço

O que acontece, portanto, quando um “chefe”, determina a redução do preço de um produto de primeira necessidade, arroz, por exemplo, sem que haja um respectivo aumento da produção: lembre-se que as pessoas, e não só as empresas, tendem a temer as incertezas do futuro, e esse temor é maior quanto menor é a renda.

Num ambiente “normal”, as pessoas das classes A e B não se importarão muito com a queda do preço do arroz, porque possuem recursos suficientes para encarar a dificuldade, consumir produtos importados e até sair do país, se a coisa evoluir para um colapso, já as pessoas da classe C e D, a pequena classe média, diante da incerteza do futuro pensará: “já que o preço do arroz está baixo, e o meu salário ainda dá sobra, vou comprar mais”. E compra, começando a estocar arroz, que é essencial e está muito barato – no caso de picanha, se alguém faz churrasco com picanha no aniversário e na passagem de ano, agora vai fazer todo mês ou todo fim de semana. E vamos estocar picanha!!!

Mas como não houve aumento de produção, o que vai acontecer com o produto. Os que chegarem aos supermercados primeiro ficarão com o congelador e a dispensa abarrotados e os que chegarem depois, em geral os mais pobres, como sempre, ficarão sem poder comprar o produto, mesmo tendo dinheiro para isso. Ou seja: com o mercado ele consumia pouco, sem o mercado, graças ao governo, ele agora não consome nada....

Isso é claramente visível nas grandes promoções das lojas, as “queimas de saldo”. Os que chegam primeiro, empurrando, chutando e atropelando os outros pegam o que tem, enquanto os mais fracos e retardatários ficam sem nada, mesmo tendo recursos para comprar a mercadoria em promoção.

Na antiga União Soviética também era assim. As pessoas tinham recursos mas não havia mercadoria para adquirir, pois embora os preços fossem baixos a produção era mais baixa ainda. Aqueles que eram do Partido Comunista, que controlava a produção, ou conheciam alguém de dentro, se apropriavam dessas mercadorias, inclusive as básicas, como manteiga, açúcar, sabonete, - às vezes em grande quantidade para vender no mercado negro, produzindo as máfias e os oligarcas do fim da União Soviética, enquanto a grande massa da população mofava nas filas, perdendo um tempo precioso que podia ser gasto na produção de mais mercadorias.

Para reduzir esses inconvenientes o governo decretava o racionamento, mas sem o estímulo à produção, pois não havia o lucro, isso era um paliativo de fôlego curto. No final a melhor coisa que podia acontecer a um regimes desses era o que aconteceu na Europa do século XIV, com uma população em expansão e uma produção estagnada: a Peste Negra. Quando esta veio e matou milhões, o padrão de vida dos sobreviventes subiu, havia menos gente para partilhar uma produção que não crescia. Talvez isso explique a fome dos russos pela guerra: só assim não passam fome.

É por isso que quando há tabelamento ou congelamento de preços as produtos desaparecem das prateleiras, seja porque os produtores não conseguem dar conta do aumento da demanda, seja porque o preço não cobre os custos de produção, e então é melhor parar de produzi-los.

O aumento artificial do preço

O preço colocado acima da média, compatível com o mercado também não é bom. Pois muitas pessoas que comprariam o produto se o preço tivesse na média, deixarão de fazê-lo, reduzindo, na melhor das hipóteses, no primeiro momento, o lucro bruto do fabricante, e no segundo momento o seu próprio lucro relativo por unidade vendida, uma vez que ele terá que pagar os custos de produção, além de financiar a estocagem, das unidades não vendidas. O sistema de concorrência, típico dos mercados abertos, acelera ou desestimula, esse tipo de aventura, acabando de uma só vez com a carestia e o monopólio, onde pode haver concorrência.

O mercado inviabiliza de chofre aquela fantasmagoria marxista que diz que no futuro tudo se encaminharia para o monopólio, onde as empresas, cobrando preços exorbitantes, simplesmente viveriam de estocar sua produção, pois os consumidores, seus operários, simplesmente não poderiam comprar as mercadorias, por ganharem muito pouco. Aliás a grande contribuição dos marxistas nessa área foi mostrar que a livre iniciativa é de fato o melhor caminho para a economia, pois os monopólios só se sustentam e prosperam, em prejuízo da sociedade, quando sustentados pelo estado, que eles, em seguida, destroem.

Portanto o mercado, estimulando a concorrência, impede que alguém que, sistematicamente procura aumentar os preços acima do poder de compra médio dos consumidores, prospere, ao mesmo tempo que inviabiliza o monopólio, renova o capitalismo, com indivíduos trazendo novas mercadorias a um preço mais competitivo, promove o desenvolvimento tecnológico e propicia o único tipo progresso, ou progressismo, que para de pé.

Voltando ao caso do arroz e as enchentes no RS, o alarde do presidente Lula, que anunciou, que nem cabra macho, que compraria de um milhão de toneladas, fez com que os preços do arroz do Mercosul subissem em 30%, determinando a desistência da operação. Uma apresentadora militante de uma TV, tão ignorante de economia como o fundador do socialismo moderno, queixou-se publicamente dessa reação do Mercosul, afinal, segundo ela, a entidade fora criada para primar “pela cooperação”, e não para cair no dito popular “farinha pouca meu pirão primeiro”.

 Por que esses capitalistas malvadões do Mercosul fizeram isso? Só para sacanear o Lulinha? Pura ganância como diz este? Não. É porque eles têm outros problemas domésticos e também não têm certeza quanto ao seu futuro, e pode ser que no ano que vem sejam eles a ter seus campos inundados, com boletos de empréstimos a pagar. Se esse ano pode ser muito bom, obter uma renda maior, porque não aproveitar e ter recursos extras para pagar empréstimos já combinados, investir noutras coisas, etc.?  Ninguém nunca ouviu falar da história de José do Egito?

É uma pena que o nosso jornalismo televisivo esteja num nível tão baixo, que nossos profissionais insistam numa teoria falida, para explicar ou desentender os fenômenos econômicos básicos, e que os economistas os compliquem tanto na hora de explica-los que não os explicam de forma alguma.

Precisamos de mais realidade no nosso dia-a-dia.

24 maio 2024

OPINIÃO: ESTÁ DANDO A LÓGICA (AFINAL)?


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https://www.cnnbrasil.com.br/politica/milei-envia-segunda-carta-a-lula-e-reforca-centralidade-de-relacoes-bilaterais/

Eduardo Simões (a Margarida Maria)

Nós todos, brasileiros, que acreditamos na superioridade de uma sociedade culta sobre uma inculta, na resolução de problemas organizacionais práticos, sempre tivemos um contraponto de perplexidade no comportamento dos argentinos, que, apesar de serem tradicionalmente mais alfabetizados e cultos do que nós, vêm, nos últimos cem anos, “marcando passo”, em termos de estado nacional, até mergulharem na crise que tornou o seu país permanentemente insolvível.

Nós também mergulhamos numa crise análoga, e por tempo semelhante, embora nunca tenhamos ido tão fundo a ponto de nossas patuscadas político-econômicas nos deixaram tão prostrados, como aos portenhos, o que nos fazia, a nós, os que amamos o conhecimento e a cultura, perguntarmo-nos, porque eles, apesar de terem mais recursos intelectuais, inclusive vários Prêmio Nobel, se encalacraram muito mais que nós.

A resposta chegou agora, pois diante de uma crise terminal para o Estado Argentino, onde diante de uma proposta que repetia o passado recente de fracassos e uma novidade estonteante, que lembra vagamente um passado remoto de sucessos, muito mais radicalizado em alguns detalhes, os argentinos preferiram a novidade.

Enquanto isso os brasileiros, embora não em queda livre, como os argentinos, mas acumulando 40 anos de estagnação, optam pela proposta antiga, por manter o modelo que há quarenta anos dá respostas inadequadas e até catastróficas, como foi a recessão do Governo Dilma, na pessoa do seu criador: o presidente Lula.

Diante de um impasse, que pode um dia nos levar à derrocada que a Argentina ora enfrenta, os brasileiros optaram pela certeza de uma solução velha, um governo que só na aparência deu certo e que preparou a governo seguinte, Dilma, que arrastou o país para um fracasso. Isso é típico de um povo que não lê, que não se informa sobre o que acontece com o país, ou quando o faz não se aprofunda.

O resultado disso é a repetição eterna das mesmas pessoas, nas mesmas disputas eleitorais. Não esqueçamos que desde 1989 que Lula disputa eleições para presidente no Brasil –alguém duvida que as eleições de 2026 girarão em torno de Lula e Bolsonaro, pela terceira vez? – um recorde paleontológico. O Brasil disputa com Cuba de Fidel, e o Zimbabwe de Mugabe o título de Jurassic Park da política mundial. Estamos tão obcecados por velhas formas e fórmulas, ainda que fracassadas, que não damos nenhuma chance a que se criem novas lideranças. Somo uma vaca convicta indo pro brejo dos ignorantes.

Até o final do ano nós saberemos se os cultos argentinos, apostando na novidade, do candidato e da proposta de Milei, fizeram melhor que os incultos brasileiros, donos de um dos piores sistemas escolares do mundo, entre as médias potências, que apostamos num velho com velhas propostas. A única coisa nova no Lula é o seu discurso cada vez mais agressivo contra a escolarização e aqueles que leem livros. Com arrogância típica do mais canhestro dos ignorantes ou do inquisidor compulsivo ele chegou a anatemizar todos os livros de economia. Um recorde de ignorância.  

Dependendo do resultado das coisas esse ano, no ano que vem nós até podemos ter um presidente que comece a respeitar o conhecimento e a cultura, não apenas como um pretexto para pedir voto, mas pelo que elas têm de mais positivo, aposentar políticos e fórmulas políticas fracassadas, e quem sabe, no futuro, um presidente que não se gabe publicamente da sua ignorância.

Por enquanto, Deus tenha piedade de nós...

JOHN TALBOT: ENTRE A GRANDEZA E O DESPERDÍCIO


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https://www.britishbattles.com/one-hundred-years-war/battle-of-castillon/

(Essa ilustração mostra o fim de Sir John Talbot, mas erra num detalhe: ele foi morto com um golpe de machado na cabeça, após tentar, inutilmente, livrar o filho de sorte parecida, em Castillon)

Sir John Talbot (1387-1453), 1º Conde (Earl) de Shrewsbury, era um homem grande, rude, brigão e um nobre, mas acima de tudo um guerreiro consumado. Um cavaleiro no melhor estilo medieval, ansioso por demonstrar, no campo de batalha, lealdade ao seu rei, e o motivo de seu grande prestígio. Ele tinha a gana dos antigos povos germânicos por uma boa briga. Coube a ele chefiar tropas inglesas no interminável conflito da Guerra dos Cem Anos, onde se destacou por ser um comandante agressivo e audacioso, qualidade que lhe valeram a vitória em várias batalhas, numa época em que o poderio inglês na França estava refluindo, por causa de uma garotinha de 17 anos, cujo exército o venceu em Patay, embora preservasse a fama, entre os franceses, de ser um inimigo muito perigoso. Era conhecido como o “Aquiles inglês”. Era cavalheiresco. Após ser feito prisioneiro prometeu nunca mais pegar em armas contra o rei francês, por isso, daí por diante, passou a comandar as batalhas da retaguarda, sem se envolver pessoalmente, ou o fazia de armadura incompleta, como se fora um homem comum. Sua temeridade, porém, arrastou-o a morte. Na batalha de Castillon, em 17 de julho de 1453, ele arremeteu desnecessária e temerariamente contra um poderoso parque de artilharia francesa, com centenas de peças, com suas tropas em inferioridade, e o seu cavalo foi atingido por um projétil, caindo em cima de sua perna, imobilizando-o. Seu filho, também John Talbot, Lorde de L’Isle se aproxima para protegê-lo, sem escutar os gritos do pai para que fuja, e é morto no ato, ao mesmo tempo que um soldado francês, aproveitando-se da imobilidade de Talbot, mata-o com um machado. Os franceses ergueram um monumento a Talbot, no lugar onde ele caiu, que existe até hoje. Talbot é um herói ou apenas um homem que desperdiçou a sua energia e talento, que não eram poucos, matando outros homens que ele nem conhecia, em benefício de terceiros? É possível viver nesse mundo sem guerras? Ele faria melhor se tivesse usado de sua força e energia para atuar em profissões pacíficas, preservando a sua vida e a de seu filho? A Inglaterra teria ganho mais com isso? Qual é a função dos heróis militares?

(Nesse pungente quadro de Sir John Gilbert RA (Royal Academy of Arts) (1817-1897), aparece de forma dramática, e talvez artificial, a não ser que os franceses tenham montado essa disposição dos corpos no final da batalha, embora o fato em si seja verdadeiro: pai e filho morreram juntos, no mesmo momento e local, aparecem os corpos de John Talbot e seu filho de mesmo nome. Era uma época guerreira, belicosa, violenta, em contraste com a nossa, mas que nos faz pensar um pouco, nesse momento em que ouvimos falar, na nossa sociedade, de tantos pais matando filhos e vice-versa.)


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23 maio 2024

CANUDOS: A GUERRA INTERMINÁVEL – 8


 


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Eduardo Simões (a Margarida Guimarães)

A pior jornada do Exército Brasileiro e o pior dia da Campanha de Canudos (final)

 As baixas ainda não eram muitas, mas não havia mantimentos para o prosseguimento de uma operação de cerco e as tropas estavam exauridas pelo cansaço da marcha e a corrida de volta ao ponto de partida. O moral estava no chão. Em seu leito, Moreira César juntava as suas últimas forças para cobrar aos oficiais a continuação do ataque, quando lá pelas 4:45 h da madrugada do dia, 4 expirou, dando sossego a si mesmo e aos outros.

Sob o comando de Tamarindo, em acordo com o conjunto da oficialidade, tratou-se a disposição das tropas e começou-se a retirada, uma ação banal, quando comparada a outras feitas com sucesso, em condições muito piores: como a retirada do Cabo de São Roque, nas Invasões Holandesas, e a Retirada de Laguna, na Grande Guerra Platina ou Guerra do Paraguai. À vanguarda seguia a tropa sob o comando do major Cunha Mattos. Cuidados especiais eram dedicados ao transporte do corpo do comandante, dos feridos e à preservação da artilharia. Antes do alvorecer começou a retirada...

O peso da artilharia que travava uma retirada mais rápida. A custo de muito grito e muito toque de clarim, buscava-se impedir que a infantaria, mais leve, se desgarrasse e largasse a artilharia à sua sorte, mas quando os canudenses, concluídas as suas orações, saíram de seus esconderijos aos berros, e se atiraram de facão, foice, machado e porrete contra o que restou da tropa, não houve grito ou clarim que impedisse a debandada.

O primeiro a ser abandonado foi o corpo do coronel Moreira César, largado por sua guarda de honra, à beira da estrada! O coronel Tamarindo tentou aos gritos, de arma na mão, acalmar os soldados e dar um mínimo de organização à retirada: em vão – alguns aventam a possibilidade de ele, ao tentar ser mais convincente em parar aquela correria, ter sido alvejado por um de seus próprios soldados.

Todos os quadrados que foram precipitadamente formados pelos oficiais, tentando esboçar alguma reação, ao primeiro tiro se desfizeram com gente correndo em todas as direções.  Alguém ainda viu Tamarindo vivo, agonizante, pedindo para transferirem o comando da Coluna para Cunha Mattos. Mas cadê Cunha Mattos? Sumiu da vanguarda da coluna, levantando poeira... oficiais e soldados, à medida que corriam, iam jogando fora tudo que lhes estorvasse os movimentos: armas, quepes, adereços militares. Os gritos de guerra dos jagunços eram complementados pelos gritos de pânico dos soldados, clamando, pelos céus, pelos santos, pelas mães. Corriam desabalados, enquanto iam tropeçando nas pedras, caindo sobre espinheiros. Numa das mais genuínas e extravagantes expressões de pânico já registrada na história das guerras.

Mas o dia não foi todo perdido. Na retaguarda, um sergipano e capitão de artilharia José Agostinho Salomão da Rocha, montado a cavalo, deixa o grupo de artilharia, prestes a ser cercado, e vai buscar ajuda da infantaria. Percebendo a inutilidade do seu gesto, volta para junto de seus artilheiros para defender os canhões, que, junto com as insígnias simbolizam a honra de uma tropa. Ele cai junto com o cavalo varado por uma bala, e o sargento da artilharia Marcos Evangelista o vê ensanguentado e cambaleante, com um revólver na mão, praguejando, a se dirigir a uma das peças, enquanto lhe diz: “Eu já estou morto, e aonde fica a bateria aí fica o seu comandante, trata de salvar-se se puder”. O sargento Evangelista ainda o viu, junto a um pequeno grupo, sendo envolvido e retalhado pelos conselheiristas. Cobriu-se de honra num mar de desonra.

Todo mundo correu. Até o comandante do ponto de apoio da expedição em Monte Santo, coronel Agostinho Melo Sousa Menezes, ao ter notícia, pelos primeiros fugitivos que apareceram por lá, do que havia acontecido. Fez as malas e partiu, direto para Salvador, deixando a praça para ser defendida pelos doentes, que aí jaziam e pelos civis, que fazendo uso das armas e munição de reserva da expedição, preparam-se para a defesa. Mas a cidade nunca foi assaltada.

Quase tudo foi hediondo nesse dia, porém, o episódio mais infame de todos foi o massacre dos feridos, tantos os que estavam deitados em padiolas, como os que a custo caminhavam ou não podiam correr por causa de ferimento ou algum mal estar, todos eles, após alcançados pelos conselheiristas, foram bárbara e selvagemente mortos, a golpes de coronhadas, machado, facão e foices, talvez cegas, ou a golpes de pauladas. Moídos até a morte. Esse comportamento desumano, selvagem (no sentido pejorativo desse termo) e brutal foi motivo até de estrofes poéticas de gozação, como a constante no livro de Frederico Pernambucano, Guerra total de Canudos.

“Quando seu César pendeu/ E Tamarindo caiu:/ Só não fugiu quem morreu,/ Só não morreu quem fugiu” (sem página)

O desafio que Canudos fez para os militares brasileiros, com o massacre da 3ª expedição, foi a seguinte: “Aqui não se faz prisioneiros”. Restava saber se o Exército Brasileiro teria aprendido a lição, se sabia fazer uma guerra assim também ou se, apesar de tudo, se manteria dentro da lei....

O cômputo das baixas não foi tão alto assim: uns 253 mortos e 17 desaparecidos e uns 100 feridos em 1300 homens, exceto pela perda de equipamento que praticamente lotou Canudos da mais moderna munição e de armamento de infantaria de primeira, Quanto aos canhões, os conselheiristas não sabiam como os usar.

A notícia do desastre abalou o país e levou multidões furiosas, mas sem dúvidas diminutas, de uma classe média microscópica, e mais ainda elementos conscientes eivados de sentimento jacobinista, fantasiando vivenciar em nosso país os mesmos trâmites da República Francesa no auge de sua revolução. Não dirá Euclides da Cunha, no Sertões, entre irônico e convicto que “Canudos é a nossa Vendeia”?

Mas o principal, para os que ficaram fora, ou seja: todos os brasileiros que não participaram dessa expedição, mas que tinham algum interesse nela, em especial os pagadores de impostos, que financiavam os repetidos desastres, foi o que realmente acontecera em lá; qual fora de fato o tamanho da derrota, e até que ponto os donos do poder sabiam o que estavam fazendo, uma vez que Moreira César foi vendido à nação como o melhor comandante de tropas do exército. 

Fora isso havia muitos interesses precisando atenuar a gravidade da derrota.

Em primeiro lugar o grupo jacobinista, em especial os elementos ligados à oficialidade militar, que sonhavam com uma republica autoritária, no modelo do caudilhismo hispano americano. Os oficiais militares se consideravam, a elite intelectual do país, gente unida, organizada. Só eles tinham conhecimento e disciplina suficiente para determinar o rumo da república. Numa paródia do governo dos sábios prevista por Platão.

Em segundo lugar ao presidente-interino, Manoel Vitorino, ansioso por aplicar um golpe em Prudente de Morais, e que precisava dar boas notícias para que a sua presidência provisória evoluísse para permanente.

Em terceiro lugar o próprio Prudente de Morais, que já não gozava de boa reputação entre os militares jacobinistas, e ia pegar um rabo de foguete gerado e agravado pelo seu substituto, Manuel Vitorino, que não escondia mais sua predileção pelo cargo e pelos jacobinistas. Enquanto assistia as ruas entrarem em ebulição, e a violência dos sertões assomando as capitais de um país economicamente quebrado e politicamente polarizado.

Em quarto lugar o próprio exército tinha interesse em que essa derrota não fosse tão fragorosa, para evitar desmoralização para a instituição, o que, junto com as despesas das últimas revoltas, fazia reduzir a parte do orçamento que lhe cabia. “Pobre” e “desmoralizado”, era isso que aguardava ao exército. Os próximos grandes investimentos em defesa se darão na Marinha, a queridinha das elites até a Revolta dos Marinheiros, de 1910. O buraco era mais embaixo.

É claro que os sobreviventes foram imediatamente levados para uma unidade militar próxima, e lá interrogados em detalhes sobre o que realmente acontecera, afinal, se fossem preparar uma 4ª expedição esta não podia repetir os erros das anteriores, e é claro que eles contaram muitos detalhes que ofendiam vigorosamente os interesses acima citados, e embora alguma coisa sempre vazasse para o público, que apontava para uma vergonhosa derrota, muitos detalhes não foram revelados na época – Segundo um autor americano Robert M. Levine, em seu livro Vale of Tears Revisiting the Canudos Massacre in Northeastern Brazil, 1893—1897; University of California Press; London; 1992, os relatos dos sobreviventes da expedição só foram disponibilizados em 1990. Avisem aos pesquisadores brasileiros, se é que isso lhes importa...

É claro que o quadro de horror que eles presenciaram, fizeram o alto-comando do exército, e comandantes de todas as unidades do exército nacional, em todo território nacional, empalidecerem e engolirem um seco, afinal uma coisa ficara muito claro: o exército fora gravemente humilhado, e, além disso e muito pior do que isso, fora cruel e selvagem e ignobilmente massacrado. E uma convicção majoritária alevantou-se da mais profunda e ardente ira dos que souberam os detalhes do massacre, e aquleles que pleiteavam um solução dentro da lei, dentro e fora do exército, foram levados de roldão a partir de duas decisões inarredáveis: esses fatos tão escandalosos e desmoralizantes não podem chegar ao grande público e, pela honra do Exército Brasileiro, A EXPEDIÇÃO MOREIRA CÉSAR PRECISA SER EXEMPLARMENTE VINGADA

Para mim a terrível sorte de Canudos foi decidida nesse momento.

  TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 1 Por que estudar a história do pensamento econômico? Em primeiro lugar, professo...