Eduardo Simões (a Margarida Maria)
O pior momento de José Calasans?
Um dos maiores estudiosos de Canudos, José Calasans, escrevendo sobre
a família dos Macambira – família de agricultores estabelecidos em Canudos –
lembra que antes do Conselheiro chegar havia na fazenda Canudos um par de
famílias que se destacavam das outras: os Macambira e os Mota, esta mais ligada
ao comércio e ao transporte de mercadorias, as tropas, bem assentados e vivendo
pacificamente de seu trabalho. Outro comerciante era Jesuíno Correia Lima.
Sabemos também que, graças a atração que a mensagem e a
personalidade do Conselheiro, houve um grande afluxo de gente para o lugar, uma
região pobre a abandonada, sob a influência da família do Barão de Jeremoabo, notório
monarquista, que nem assim quis conversa com o Conselheiro.
É claro que o afluxo de gente ajudou no fornecimento de
mão-de-obra, no aumento da circulação de dinheiro e mercadorias, enfim um fator
de prosperidade geral, embora não devamos nos iludir quanto ao montante dessa
prosperidade, pois Canudos continuou sendo uma comunidade muito pobre, carreando recursos para a construção de Igrejas e o cemitério,
mais ou menos como acontecia com grande parte do ouro do Brasil que foi para
Portugal, ao longo do século XVII e XVIII.
A medida que a comunidade crescia, acabava acolhendo todo
tipo de gente, tanto para o bem como para o mal, e entre estes se encontrava
Antônio Vilanova, que chegou a Canudos depois e logo tornou-se próximo do
Conselheiro, ainda mais porque era originário do Ceará, a terra do Conselheiro
– será que já se conheciam? Vilanova também era comerciante e também sabia
farejar boas oportunidades. Aparentemente, pelo testemunho de alguns. O
comércio de peles começou a dar um bom lucro, para engrandecimento dos Mota, que estavam mais bem situados para isso.
Com muito tato e jogo nas sombras, Antônio Vilanova e seu
irmão Honório conseguiram galgar postos junto ao Conselheiro e autoridades
civis do lugar, ocupando cargos no arremedo de “burocracia” de Belo Monte, enquanto
mantinham um bom ponto comercial, até que um dia, aconteceu uma tragédia bem
conhecida, mas pouco falada dentro de Canudos: o massacre dos Mota.
As versões divergem. Manuel Benício afirma que isso aconteceu
depois de Uauá, e se deveu a uma suspeita de que o velho Mota estaria
mancomunado com os militares, sem explicar se essa suspeita tinha fundamento ou
era fruto de intriga. O senhor Paulo Monteiro em testemunho à professora Luitgarde,
se disse neto de uma mulher que viveu nessa época, e que era cliente de Jesuíno
Lima, diz que a causa do massacre foi outra:
“Totonho Vilanova
queria só ele ser o compradô de peles daqui do Canudos... Dentro de Canudos
mataram Antoin da Mota, seu filho de apelido Rola e o outro filho Pedro de
Rola. O Pedro ainda caminhou assim para as armas [aparentemente foi pegar
uma arma para se defender, o que indica um massacre inesperado, à traição], mas já tava na agonia, caiu morreu... quando
mataram os Mota, dos mais antigos de Canudos, o povo ficou assombrado, mas
somente Jesuíno reclamou: “É uma injustiça matar uns homens assim, sem culpa
nenhuma” ... [Quando a autora indaga sobre quem matou os Mota, seu Paulo
responde] Foi os jagunços, perfídia de
Totonho Vilanova. Essa questão foi tangida [provocada] por Totonho Vilanova [mas em seguida seu Paulo dispensa o
Conselheiro de responsabilidade, afirmando que ele não teve nada a ver, embora
fique difícil explicar a posição privilegiada que Vilanova sempre gozou em
Canudos, afirmando que o Conselheiro apenas não queria a polícia no arraial, essa
hipótese (de chamar a polícia) fora levantada por Jesuíno. A única alternativa, para não entrar em
choque direto com a sua guarda pessoal, era “por uma pedra em cima” o “varrer
para baixo do tapete”] (Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros; Um fuzil na Guerra de Canudos - memória de
violência na paz do Conselheiro; Anais do XVII Simpósio Nacional de
História – ANPUH - São Paulo, julho 1993; p 381-382)
Francamente. Seja qual for a razão que levou ao extermínio
repentino dos Mota – fosse por essa razão, fosse pela fiscalização opressiva da Guarda Católica sob os suspeitos, já apontada no relatório de frei João Evangelista – podemos afirmar clara e insofismavelmente, que estamos diante de um SISTEMA PRÉ-TOTALITÁRIO, uma espécie de TIRANIA
(no sentido moderno do termo), com um poderoso centro de poder pessoal, com
culto à personalidade, em torno do qual se criam estruturas e instituições que
aparentemente ampliam o poder daquele, mas que, na pratica, atendem aos
interesses particulares dos “amigos do rei”, com autonomia inclusive para
decretar e executar, à revelia do centro, um grande massacre dentro da própria
comunidade, que desmoraliza e manipula esse centro de poder, em sua ilusão de
uniformidade e obediência geral, até arrastar todo o sistema para o colapso
final.
O que José Calasan tem
a ver com tudo isso?
Em um artigo, chamado Joaquim
Macambira e sua gente, já no primeiro parágrafo! Calasans falando da
comunidade pré-Conselheiro de Canudos, fala de “duas famílias de importância:
os Mota e os Macambira”, e que “na fase conselheirista surgiu um terceiro grupo
familiar, os chamados Vilanova, procedentes do Ceará”. A terra do Conselheiro.
Aqui vemos que a suposta igualdade social
entre os moradores de Canudos, tão cara ao discurso dos marxistas e do
revisionismo canudista, é pura balela. Havia famílias mais ricas, morando em
casas melhores e mais próximas do Conselheiro, que a média das moradores,
decidindo com ele a administração do arraial, partilhando do poder. O único
grupo realmente pobre, que podia se equivaler a essa elite, era o dos jagunços,
gente, pobre sem raiz, alguns com crimes graves nas costas, mas úteis à
segurança física do Conselheiro, afora se prestarem ao uso em prol dos
interesses mercantis do grupo mais poderoso, a ponto do
contrariar a diretriz ideológica do centro de poder: a busca da pureza da mensagem
cristã, em troca de vantagens “não espirituais”.
José Calasans, depois de explicar que os Mota eram
comerciantes e donos de terra, e que também eram amigos dos Macambira diz que, “tendo Macambira acolhido menores da família
Mota, por ocasião da chacina dos membros, num momento difícil da vida local. A
atitude de Macambira foi muito digna, merecedora de encômios”. E rápido
muda de assunto para falar só dos Macambira, que continuaram... vivos e leais
ao Conselheiro.
Colocando as letras no
papel....
1º - A gente sabe que os elementos masculinos da família Mota, que moravam em Canudos, foram repentinamente atacados e mortos, sem direito de defesa.
2º - Os menores ficaram com os Macambira, e as mulheres? Que
fim levaram? Foram estupradas, pelos menos uma, como diz Manuel Benício? Foram
expulsas da cidade? Foram mortas também depois? Foram distribuídas entre os
jagunços executores, como costuma acontecer na lei da guerra entre os
primitivos?
3º - A comunidade, pega de surpresa, não faz nenhum movimento
no sentido de pedir justiça para as vítimas, mas elogia quem teve a coragem de
cuidar das crianças – não seria uma prova que o governo do Conselheiro estava
se encaminhando para um sistema totalitário, onde o medo é um fator importante
de controle social?
4º - Calasans diz que isso foi um “momento difícil da vida
local” – Deus me ajude para não perder as estribeiras. Ou seja: ele chama a
atenção para o sofrimento da “comunidade local”, coitadinha, desviando a
atenção de um crime coletivo, em tudo hediondo, retirando o foco do sofrimento
das crianças órfãs, das mulheres abusadas, da morte violenta e imprevista dos
homens e da motivação absolutamente torpe do crime. Acrescento que outro
comerciante, além de Jesuíno, foi expulso ou fugiu nesse
momento de Canudos, deixando o comércio de peles exclusivamente nas mãos de
Vilanova, enquanto Conselheiro se ocupava procurando tempestades no coração de Maria...
Eu fico imaginando alguém chegando para um mulher que perdeu
violentamente de uma só vez o pai, o irmão e o marido, e que sofreu estupro, e
que daqui para frente não terá mais a vida abastada e o prestígio que tinha até
então, para viver de favor na casa de outros ou ser abusada sistematicamente
por quem lhe destruiu a família. Será que Calasans, em situação idêntica diria
a essa mulher: “eu entendo o momento difícil que seus amigos devem estar passando
com o que lhe aconteceu”.
Nesse momento, a paixão cega, ideológica, de um projeto
condenado: transformar Antônio Conselheiro em herói nacional, faz com que um
homem culto, honrado desça à mais profunda insensibilidade, ao usar
essas palavras para descrever um acontecimento tão bárbaro, só para salvar o
seu herói.
Um herói, que precisa da cumplicidade de seus devotos para
parecer herói!
(Abaixo, dois paus de aroeira, os únicos ainda de pé da escola fotografada acima. Ao fundo um velho Land Rover 1949, apontando que a foto foi feita no início dos anos 1950 ou final dos 1940. Fantasias que se transformaram em pó)








