https://pt.wikipedia.org/wiki/Jagun%C3%A7o#/media/Ficheiro:Jagun%C3%A7os_da_Bahia_em_1910,_Jagun%C3%A7os_baianos.png
Eduardo Simões (a Margarida Maria)
O papel do
Conselheiro no conflito (início)
Uma coisa intriga: qual foi o papel do Conselheiro durante a guerra? Numa coisa todos são unânimes: ninguém jamais o viu durantes os terríveis batalhas que houve. Ele era a figura mais importante, mas sempre oculta nos combates, exceto em uma ocasião, segundo Cunha, em que ele apareceu na praça defronte às igrejas, olhou para as tropas que cercavam o arraial e voltou para dentro do casario, em que pese os gritos e a fuzilaria dos que tentavam atingi-lo.
Alguns autores defendem a tese de que, após o início dos
combates, a sua figura refluiu, abrindo espaço para os entendidos nessa
matéria: chefes, valentões e jagunços que viviam em Canudos, em especial Pajeú,
João Abade, os Macambira, etc. que, em função das frequentes brigas de famílias
nos sertões, haviam adquirido uma invejável experiência no assunto, muito acima
dos chefes militares do litoral, que certamente liam César, Alexandre,
Clausewitz, Moltke ... e até Moreira César...
A primeira questão é: precisava uma intervenção do poder
público em Canudos? E a resposta é um sonoro SIM, mas NÃO pelos motivos que a
motivaram. Os telegramas forçados e falsos, do juiz Arlindo Leoni. Negar isso
é cair numa tremenda contradição, senão vejamos:
O Conselheiro não permitia que as leis da república,
referentes aos impostos, às eleições e até a atuação da polícia, etc. vigorassem
no seu arraial. A suposição de certos pesquisadores mais à esquerda, como
Aquino e seus amigos (Sociedade Brasileira: uma história; vol 2; p 146) de que “quase
não havia crimes na comunidade. As bebidas alcoólicas eram proibidas. Não
existiam prostíbulos nem tabernas”, são no mínimo ridículas:
Só há crimes onde há bebidas alcoólicas e mulheres
“disponíveis”? Muita gente há que bebe e não comete crimes, da mesma forma é
muito mais fácil haver crimes e tragédias, por homens se meterem com mulheres
“indisponíveis” que com as “disponíveis”. Como eles sabem que quase não havia
crimes se não há documentos escritos sobre o que se passava? Será que dava para
todos os 25 mil habitantes de Canudos, ou mesmo que fossem menos de 10 mil,
número muito mais verossímil, saberem todos o que se passava no arraial? Havia
em Canudos um “reino” de anjos? E, supondo que “quase” não havia crimes, o que
acontecia quando havia?
Seria bom lembrar aos digníssimos historiadores, amigo do
senhor Aquino, que: quando vigorou a lei Seca nos Estados Unidos, a
criminalidade cresceu de forma exponencial no país. Por que em Canudos seria diferente?
Esse excesso de proibições não explicaria a violência com feridos e
prisioneiros da 3ª expedição? E quando não havia Moreira César por perto o que
acontecia?
O massacre da
família Mota: a caixa preta de Canudos
Antônio Mota era um comerciante antigo na comunidade e
amigo pessoal de Conselheiro, porém, à medida que o comércio de pele de cabra
crescia, inclusive por exportação, por meio de um representante em Juazeiro,
“olhos cresceram”, como acontece em todas as comunidades do planeta terra, e
logo a posição privilegiada de Antônio Mota e outros passou a ser invejada por
outro comerciante, Antônio Vilanova, vindo do mesmo Ceará de Conselheiro, e a
este aproximou-se o suficiente para fazê-lo crer, assim como a sua guarda
pessoal, de que Mota estava em conluio com as forças republicanas.
Em ambos os casos a sentença foi terrível: extermínio sem
julgamento, da linhagem masculina dos Motas – para evitar vingança? Não seria
isso a sobrevivência de uma justiça neolítica, tribal, que responsabilizava
toda a família pelo crime de um de seus membros? Segundo Benício, os motas
foram cercados em casa e mortos a tiros, após o que colocaram fogo na casa, dando
a entender que toda família pereceu
Eis o texto:
“0s sectários do
Conselheiro retornaram a Canudos, indignados contra a família do velho octogenário
Antônio da Motta, negociante, composta de Joaquim da Motta, mais outro filho, o
genro Pedro Rola e mulher, e mais dois filhos, a quem se atribuíam
falsidades... e a qualidade de espionagem. Assegurava-se até que fora o velho
Motta o causador ela conflagração de Uáuá... Em consequência disto a casa elo
velho Motta foi assaltada uma noite. A família resistiu, porém teve de morrer
toda, salvo um filho moço, fuzilada por entre as chamas do fogo que atacaram à
casa. Desse tempo datam outras violências cometidas pelos sectários do
Conselheiro contra os que eles sabiam ser espiões ou contra os seus hábitos e religião”
(O rei dos jagunços – Chronica
Historica e de Costumes Sertanejos sobre os acontecimentos de Canudos; Jornal
do Commercio; Rio de Janeiro; 1899; p 176)
Essa afirmação não bate com o testemunho de José Calasans,
que assegura terem sobrevivido as mulheres da família Mota, acolhidas na casa
de Joaquim Macambira, Deus lá sabe em que condição. Mas como vemos aqui havia
uma violência difusa, usada inclusive por razões religiosas, e decerto de “moral”,
semelhante a que justificou a surra na amante do juiz, na cidade onde o juiz
morava! Nada da comunidade pacífica que nos querem vender.
Uma pesquisadora da UFRJ, Luitgarde Oliveira Cavalcanti
Barros; Um fuzil na Guerra de Canudos,
(texto apresentado no XVII Simpósio Nacional de História da AHPUH) colheu o
testemunho do filho de uma senhora, que ocultou Jesuíno Correia Lima, fugido de
Canudos, onde ele diz que os Mota, na verdade, foram mortos por causa de
intrigas forjadas por Antônio Vilanova, interessado no monopólio do comércio de
peles, e no seu depoimento dá a entender que a sentença de morte só atingiu aos
membros varões da família, como diz Calasans. E que Jesuíno Lima fugirá de
Canudos, porque não se conformou com o massacre sem motivo dos Mota e por achar
necessário o concurso da polícia do estado.
Após a fuga Jesuíno é tomado por um desejo irrefreável de vingança, porque após a sua saída, a sua família será morta pelo facínora-apóstolo da Guarda Católica Pajeú. Ele é citado por Cunha, como o “Capitão Jagunço”. Ele participará da 3ª e 4ª expedição, até que, finalmente, sua peixeira lambeu o sangue do criminoso, segundo uma testemunha.
(continua)
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