Eduardo Simões (a Margarida Maria)
O papel do Conselheiro no conflito (final)
Podemos dizer que os detalhes jamais irão “bater”, mas o
fato sabido por todos é que a família do comerciante Mota, foi massacrada a
pedido da gente nova que chegou com Antônio Conselheiro, em especial Antônio
Vilanova, que era comerciante, o que causou a fuga de Jesuíno Lima, que, também era comerciante, e isso joga por terra qualquer pretensão de querer
apresentar Canudos como um lugar de paz e harmonia, como se lá não vivessem os
seres humanos capazes de perpetrar o massacre horripilante da 3ª expedição....
E nesse sentido não está muito longe da verdade, a crença de alguns que Canudos
estava se transformando em valhacouto de bandidos, talvez até a revelia do
Conselheiro, mas decerto se aproveitando do seu alheamento da realidade.
Portanto, o Conselheiro, ao se recusar a cumprir toda e
qualquer lei que emanasse dos legítimos Poderes da República, além do dinheiro,
de “curso forçado” – segundo Benício, lá só era aceito o dinheiro do império – criando um vazio de
lei e ordem, que não se definia nem como uma república, coisa do demônio, nem
como uma monarquia, pois o herdeiro legítimo, segundo Conselheiro, Pedro III, jamais
tomou conhecimento da existência deles, onde se decretava pena de morte contra
toda a linhagem masculina de uma família, sem qualquer julgamento público, como acontecia no Antigo Testamento. Canudos reintroduz no
Brasil a pena de morte, banida no Império, que dizia representar.
Agora levanta-se uma questão: o Conselheiro estava
longe dos combates que vitimariam o grosso de sua gente, estava ele longe do
clima de violência que se erguia em Canudos?
Na visita do frei João Evangelista, em 1895, ele mostra claramente que está consciente de confrontar o sistema reinante, ou seja: ele está certo e o resto do Brasil errado, e que as suas atividades são vistas pelo menos como uma provocação pelas autoridades. E o que faz o “santo” penitente? Cerca-se de uma guarda armada, composta de valentões afamados, alguns com assassinatos pendentes. Mas como a lei que vige fora de Canudos é a da república, então eles não só estão perdoados como podem fazer parte da elite canudense: a Guarda Católica, pronta para matar e morrer pelo Conselheiro.
Esses criminosos afamados, que abusaram de tanta gente fora de Canudos, não abusarão das pessoas aí?
Frei João Evangelista detectou corretamente avaliou o seu
perigo para o conjunto do país: “é aquilo
estado no Estado [ou: um estado dentro do estado]: ali não são aceitas as leis, não são reconhecidas as autoridades, não é
admitido a circulação o próprio dinheiro da Republica”. E ainda: “Quem foi alistado na Companhia dificilmente
poderá libertar-se e vem a sofrer violências, se fizer qualquer reclamação”.
“A milícia fanática só dá entrada no povoado a quem bem lhe apraz; aos amigos do governo ou republicanos conhecidos
ou suspeitos, ela faz logo retroceder ou tolera que entrem, mas trazendo-os em
vista”. Neste caso o que nós temos é uma guarda de fronteira e um clima
interno que lembra o dos estados totalitários, na sua violência difusa, mal disfarçada nas gentes desfilando ostensivamente armadas,
indagando de tudo e constrangendo com palavras e gestos aos padres e supostos
adversários do líder, semelhante a que fascistas, nazistas e comunistas farão
em seus respectivos regimes.
Já que Conselheiro é o grande conhecedor da vida e da
mensagem de Jesus Cristo, tanto que permite as pessoas o chamarem de Bom Jesus
ou Bom Jesus Conselheiro, com autoridade suficiente para escorraçar padres
vindo a mando de um Arcebispo, porque ele não fez como o verdadeiro Jesus
Cristo, que, em situação análoga, preferiu entregar-se e dar a vida pelo povo,
ao invés de sacrificar o povo por sua segurança pessoal, expondo-o a uma guerra?
Alguém duvida que se ele houvesse se entregado não haveria guerra ou ela seria
bem menos do que foi? Como um autêntico anticristo ele ficou até o fim, vendo o
massacre paulatino de sua gente, dentro da sua toca, até morrer de inanição ou
doença, enquanto os seus experimentavam a navalha da degola, apesar da crença
de que, por causa isso, não entrariam no céu, que o seu “Bom Jesus” experimentou
naturalmente, de morte morrida. Até na sua morte Antônio Conselheiro abusou daquele povo.
Outra coisa também: o massacre dos Mota aconteceu dentro de Canudos. Ora, o Conselheiro certamente que estava a par de tudo o que acontecia ali, e se é verdade a versão que os Mota foram mortos por causa da intriga de Vilanova, os assassinos certamente receberam a autorização do Conselheiro, e se não houve a autorização, ele com certeza ficou sabendo do massacre, afinal tudo indica que houve um grande tiroteio dentro de Canudos, com homens mortos, mulheres enviuvadas e crianças órfãs. Como ele não ficou sabendo? E se soube, por que não tomou nenhuma providência?
Antônio Conselheiro está envolvido até suas abundantes barbas no massacre do Motas e em toda e qualquer violência que ocorria na cidade. Das quais nós só ouvimos falar de longe, semelhante ao que acontece nos nossos subúrbios, atuais onde facínoras fazem imperar a lei do silêncio, sob pena de morte. Ainda mais em Canudos.
Noutras palavras ignorar esses fatos nos dias de hoje, para justificar a apresentação de Canudos como um exemplo, um modelo de conduta social para a juventude, em especial em idade escolar. É o mesmo que justificar e até recomendar o modelos das comunidades dominadas pelo tráfico, pela milícia, por aqueles que ainda praticam a escravidão, etc., pois se o Conselheiro podia, e até devia, afrontar impunemente as leis e as autoridades na sua época, porque esses outros não podem afrontar a lei e as autoridades hoje?
"A lealdade ao Conselheiro não impede o surgimento de facções
no interior da sociedade organizada segundo o sonho do beato. Parcelas da
comunidade, de forma velada ou mais ou menos expressa, apoiando Jesuíno,
traduzem sua repulsa à tragédia gerada pela disputa do comércio de peles [um segmentação inevitável em função do crescimento da população].
No desdobramento dessa linha de raciocínio, pode-se afirmar que: recusando a presença do Estado na sua comunidade, Antônio Vicente Mendes Maciel não teria conseguido manter
a paz entre seu povo. No mundo que construíra, começara a cair prisioneiro dos
limites de sua utopia. Em quase três anos de existência a cidade crescera além
de suas possibilidades de controle apenas pelas palavras e pelo exemplo de sua
vida de trabalho, caridade e humildade. Já havia na sociedade de
Canudos gente rica se matando pelo monopólio do comércio
O pecado maculava a santidade do mundo do Peregrino! A fuga de Jesuíno, propiciada pelos que não aceitaram a violência dentro de Canudos demonstra, mais do que insegurança individual do fugitivo, a descrença de um grupo na capacidade do Conselheiro de impedir a repetição da violência criminosa."
A sua conclusão é primorosa, considerando o massacre dos Mota e o testemunho de sobreviventes é que ocorre assim...
"quebra outro mito que se vai construindo nas Ciências Sociais no Brasil, que seria a existência de uma sociedade homogênea, sem contradições, sob a direção pacífica e o controle absoluto de Antônio Vicente Mendes Maciel, o santo Conselheiro".
Recomendo demais a leitura do texto da professora: Um fuzil na guerra de Canudos - memória de violência na paz do Conselheiro; Anais do XVII Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 1993
https://anpuh.org.br/uploads/anais-simposios/pdf/2018-12/1545849488_dc10eb2b774043499532a2ada558bed2.pdf

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