Eduardo Simões (a Margarida Maria)
Dias atrás, tivemos a versão bem brasileira da novela do escritor russo
Nikolai Gogol (1809-1852), almas mortas, quando um espertalhão de nome Pavel
Tchitchikov, resolve comprar para si, por uma fração do preço, o registro de
servos já mortos, ainda em posse de seus amos, antes do fim da servidão na
Rússia, em 1861.
Explicando: antes de 61, uma grande quantidade de servos nos domínios
de um nobre enchia-lhe de honra e de garantias, caso quisesse, por exemplo,
contrair um empréstimo ou adquirir mais terras. O lado negativo era que também
isso aumentava a quantia de imposto per capita a ser paga ao estado. Para um
camarada esperto e empreendedor, isso não era problema, e dava para enriquecer
com os lucros do trabalho dessa gente, os servos, que vivia numa situação
miserável.
Tchitchikov um espertalhão da cidade, descobriu um jeito de se dar bem
nesse contexto tão cruel e desigual: juntando algum dinheiro ele começou a
visitar as herdades dos nobres, no interior mais remoto da Rússia, propondo comprar
os registros daqueles servos que já tinham morrido, e pelos quais o
proprietário ainda poderia ter que pagar imposto, por causa da morosidade dos
serviços burocráticos do estado russo (a gente nem sabe o que é isso!). Num bom
negócio para ambos. Ele então usava dos registros desses mortos, para
apresentar-se como um rico proprietários entre a gente rica, mas simplória do
interior, e conseguir no banco local, polpudos empréstimos, dando como garantia
justo os registros desses mortos. Aqui entra a ironia máxima dessa obra: na
linguagem da nobreza servo-feudal russa, os servos eram tratados como “almas”. Eles
se expressavam assim: “tenho cem almas de servos”. O sonho de Tchtchikov era
terminar seus dias como um abastado proprietário rural no interior da Rússia,
devendo tudo o que tinha aos mortos que ele comprara.
No caso brasileiro, uma pobre moça, talvez um pouco desastrada ou
imatura, como milhões de outras vivendo nos subúrbios das grandes cidades brasileiras,
marcada e morta o suficiente para tentar tirar partido de uma situação que lhe
seria prejudicial: a morte do “Tio Paulo”, de quem cuidava, e de quem recebia
os poucos cascaminguás que usava para se sustentar e a seus filhos, e então resolveu
levá-lo desse jeito mesmo; morto, embora elegante e bem vestido, para um banco e
aí contrair um empréstimo de uns 17 mil reais, pouco mais que 12 salários
mínimos, certamente para se safar no curtíssimo prazo, em função da exiguidade
do empréstimo.
Pega em flagrante. A gerente desconfiou da imobilidade, do mutismo e da
aparência pouco fagueira do morto. Erica enfrentou a execração de seu bizarro
plano, difícil de entender por quem não conhece ainda bem natureza humana ou
não vivenciou a brutalidade, de nosso subúrbios, tão ativos como os antigos
campos russos, em produzir almas e corpos; todos mortos.
Mas aí vem a questão, uma vez que o horror ao gesto de Erica tem
sobretudo um forte aspecto moral, estarão os bairros centrais ou suburbanos,
onde mora por vezes uma abastada burguesia, completamente indiferente à sorte
de nossos subúrbios pobres e do povo em geral, a ponto de reagir violentamente
ou com deboche à notícia das centenas de milhares de vítimas da covid, da
pandemia, e da pobreza nossa de cada dia, enquanto lesam irmãos e parentes
próximos em divisões de herança, buscam por vantagens exclusivas, senão lesivas,
junto a amigos bem situados; e o que dizer dos políticos, daqueles que se elegem
à custa de mentiras e vãs promessas e vivem a votar vantagens para si mesmos; estará
essa gente menos morta do que Erica, inclusive as suas companheiras de desdita,
as presas, que lhe ministraram uma surra tremenda dentro da prisão?
No fundo o doentio e o neurótico da novela de Gogol não era tanto o
personagem central, mas o ambiente de falsidade e aparência em que todos
viviam, ou fingiam viver, criando inclusive a possibilidade de os servos, após criarem
tanta riqueza para os seus mestres, sem um pagamento justo, de continuarem a gerar
renda e vantagem para estes, mesmo depois de mortos.
Talvez o melhor nome para a novela, e o caso de Erica, fosse sociedade morta, e se assim é, onde estamos que não vejo Deus?

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