https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/0b/Gogol_by_Repin.jpg
https://en.wikipedia.org/wiki/Nikolai_Gogol#/media/File:Gogol_by_Repin.jpg
(Uma interpretação sensacional da fatídica noite de 20 para 21 de fevereiro, feita pelo incrível pintor russo, Ilya Repin (1844-1930))
Eduardo Simões (a Margarida Maria)
Na madrugada de 20 para 21 de fevereiro de 1852, o escritor Nilkolai
Vasilievich Gogol, a tempos atormentado pela decadência física, pela depressão,
agravada por um obsessivo sentimento de culpa, turbinado, talvez, pelas orientações
excessivamente rigoristas de seu mestre espiritual, o padre ortodoxo Matiev Konstantinovich, que lhe escrevera recentemente uma carta recomendando-lhe se
livrar de algumas de suas obras, além de se renegar definitivamente de seu
grande ídolo, o poeta russo Alexander Pushkin (1799-1837), acorda o seu servo
Symeon e pede que lhe acenda o fogo da lareira, e ali põe-se a queimar seus
escritos, inclusive a continuação do primeiro volume de sua última trilogia: Almas mortas, em que pretendia fazer uma
releitura da Divina comédia de Dante.
Depois disso o escritor entra numa fase de autopunição e misticismo delirante,
e, aproveitando que estava na quaresma, acentuou o jejum, que o padre lhe
recomendava para salvar sua alma atormentada – tendo mergulhado tão fundo no
ethos sombrio da sociedade russa, como mostra naquele romance, é possível
também que o pobre escritor tenha também adquirido uma espécie de estresse pós
traumático – que resultou na sua morte por autoinanição, semelhante aos que perecem
por anorexia, como aconteceu com a
cantora Karen Carpenter, em 4 de abril daquele ano.
Muito se questiona sobre o papel do padre Konstantinovich por essa que
foi uma das maiores tragédias da literatura, uma vez que o livro ficou reduzido
apenas à sua primeira parte, que, ainda assim, pelo seu impacto, pode muito bem
rivalizar-se com as maiores obras da literatura mundial. As questões são
colocadas da seguinte maneira.
a) O padre Konstantinovich, que alcançou um alto grau na Igreja
Ortodoxa Russa, é descrito como um homem muito severo na sua doutrina moral e
na sua teologia, mas coerente com os seus ensinamentos: vivia humildemente,
tinha fama de ajudar muito aos pobres, praticava rigorosos jejuns.
b) A relação do padre com Gogol, era muito ambígua, segundo aqueles que
conviveram com os dois, ora o repreendia e ameaçava com os castigos eternos,
ora o afagava e elogiava, dando sinais de grande ternura para com o escritor.
Não raro eles brigavam fortemente para depois se reconciliarem, cheios de promessas
mútuas de respeito recíproco. A personalidade frágil e a sensibilidade exacerbada
do escritor, pode ter entrado num processo de indecisão, semelhante ao do Burro
de Buridan, com o final a propósito.
c) Mas o padre também, segundo a Wikipedia russa, usou da influência de
Gogol para melhorar a situação de um filho e uma filha seus.
d) Estranhamente os padre pediu que as cartas que ele escrevera a
Gogol, nos cinco anos que privaram um do outro, e que estavam na casa de um
amigo comum, o conde Alexander Tolstoi, fossem queimadas, de tal sorte que hoje
é impossível saber exatamente o que o padre Matiev recomendava a Gogol, como
remédio para salvar a sua alma, e até que ponto ele contribuiu para a morte do
escritor. Sabemos que ele pediu a Gogol para não publicar a segunda parte de
Almas mortas, que Gogol lhe dera para uma leitura crítica, e sugeriu a queima
de alguns escritos, mas ele queimou tudo, de sorte que o padre foi o único ser
humano que leu a segunda parte dessa obra, mas também levou-a consigo para o
túmulo.
e) O padre sempre se preocupou com o fato de acharem que ele fora o
responsável pela morte de Gogol, mas ele disse também que não se arrependia de
nada, e que deviam lhe agradecer por ele ter conseguido “salvar a alma” de
Gogol, embora a morte deste tenha se dado no limite entre uma doença mental e
um suicídio proposital – as últimas palavras de Gogol mostraram-no consciente
de sua morte próxima, ao mesmo tempo em que ele recusou terminantemente a
quebrar o jejum estapafúrdio ou receber qualquer auxílio médico.
Grande artista, descanse em paz...
Um selo da Rússia atual dedicado a Gogol (abaixo). Embora os russos
façam por merecer sobre si todas as armas e munições, que o Ocidente está mandando para a Ucrânia,
é um absurdo querer punir o ditador sanguinário Vladimir Putin, pelo boicote aos autores mais representativos da cultura e da civilização russa. É impossível viver sem a arte e a cultura russas, e se considerar culto ou
civilizado.
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/ac/Russia-Stamp-2009-NGogol.jpg
https://en.wikipedia.org/wiki/Nikolai_Gogol#/media/File:Russia-Stamp-2009-NGogol.jpg
Fontes:
Wikipedia em russo: Константиновский, Матвей Александрович; Гоголь,
Николай Васильевич.
“ em inglês: Nikolai Gogol


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