26 abril 2024

A MORTE DA ALMA DE GOGOL

 

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/0b/Gogol_by_Repin.jpg

 https://en.wikipedia.org/wiki/Nikolai_Gogol#/media/File:Gogol_by_Repin.jpg

(Uma interpretação sensacional da fatídica noite de 20 para 21 de fevereiro, feita pelo incrível pintor russo, Ilya Repin (1844-1930))

Eduardo Simões (a Margarida Maria)

Na madrugada de 20 para 21 de fevereiro de 1852, o escritor Nilkolai Vasilievich Gogol, a tempos atormentado pela decadência física, pela depressão, agravada por um obsessivo sentimento de culpa, turbinado, talvez, pelas orientações excessivamente rigoristas de seu mestre espiritual, o padre ortodoxo Matiev Konstantinovich, que lhe escrevera recentemente uma carta recomendando-lhe se livrar de algumas de suas obras, além de se renegar definitivamente de seu grande ídolo, o poeta russo Alexander Pushkin (1799-1837), acorda o seu servo Symeon e pede que lhe acenda o fogo da lareira, e ali põe-se a queimar seus escritos, inclusive a continuação do primeiro volume de sua última trilogia: Almas mortas, em que pretendia fazer uma releitura da Divina comédia de Dante. Depois disso o escritor entra numa fase de autopunição e misticismo delirante, e, aproveitando que estava na quaresma, acentuou o jejum, que o padre lhe recomendava para salvar sua alma atormentada – tendo mergulhado tão fundo no ethos sombrio da sociedade russa, como mostra naquele romance, é possível também que o pobre escritor tenha também adquirido uma espécie de estresse pós traumático – que resultou na sua morte por autoinanição, semelhante aos que perecem por anorexia, como  aconteceu com a cantora Karen Carpenter, em 4 de abril daquele ano.

Muito se questiona sobre o papel do padre Konstantinovich por essa que foi uma das maiores tragédias da literatura, uma vez que o livro ficou reduzido apenas à sua primeira parte, que, ainda assim, pelo seu impacto, pode muito bem rivalizar-se com as maiores obras da literatura mundial. As questões são colocadas da seguinte maneira.

a) O padre Konstantinovich, que alcançou um alto grau na Igreja Ortodoxa Russa, é descrito como um homem muito severo na sua doutrina moral e na sua teologia, mas coerente com os seus ensinamentos: vivia humildemente, tinha fama de ajudar muito aos pobres, praticava rigorosos jejuns.

b) A relação do padre com Gogol, era muito ambígua, segundo aqueles que conviveram com os dois, ora o repreendia e ameaçava com os castigos eternos, ora o afagava e elogiava, dando sinais de grande ternura para com o escritor. Não raro eles brigavam fortemente para depois se reconciliarem, cheios de promessas mútuas de respeito recíproco. A personalidade frágil e a sensibilidade exacerbada do escritor, pode ter entrado num processo de indecisão, semelhante ao do Burro de Buridan, com o final a propósito.

c) Mas o padre também, segundo a Wikipedia russa, usou da influência de Gogol para melhorar a situação de um filho e uma filha seus.

d) Estranhamente os padre pediu que as cartas que ele escrevera a Gogol, nos cinco anos que privaram um do outro, e que estavam na casa de um amigo comum, o conde Alexander Tolstoi, fossem queimadas, de tal sorte que hoje é impossível saber exatamente o que o padre Matiev recomendava a Gogol, como remédio para salvar a sua alma, e até que ponto ele contribuiu para a morte do escritor. Sabemos que ele pediu a Gogol para não publicar a segunda parte de Almas mortas, que Gogol lhe dera para uma leitura crítica, e sugeriu a queima de alguns escritos, mas ele queimou tudo, de sorte que o padre foi o único ser humano que leu a segunda parte dessa obra, mas também levou-a consigo para o túmulo.

e) O padre sempre se preocupou com o fato de acharem que ele fora o responsável pela morte de Gogol, mas ele disse também que não se arrependia de nada, e que deviam lhe agradecer por ele ter conseguido “salvar a alma” de Gogol, embora a morte deste tenha se dado no limite entre uma doença mental e um suicídio proposital – as últimas palavras de Gogol mostraram-no consciente de sua morte próxima, ao mesmo tempo em que ele recusou terminantemente a quebrar o jejum estapafúrdio ou receber qualquer auxílio médico.

Grande artista, descanse em paz...

Um selo da Rússia atual dedicado a Gogol (abaixo). Embora os russos façam por merecer sobre si todas as armas e munições, que o Ocidente está mandando para a Ucrânia, é um absurdo querer punir o ditador sanguinário Vladimir Putin, pelo boicote aos autores mais representativos da cultura e da civilização russa. É impossível viver sem a arte e a cultura russas, e se considerar culto ou civilizado.


https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/ac/Russia-Stamp-2009-NGogol.jpg

https://en.wikipedia.org/wiki/Nikolai_Gogol#/media/File:Russia-Stamp-2009-NGogol.jpg

Fontes:

Wikipedia em russo: Константиновский, Матвей Александрович; Гоголь, Николай Васильевич.

       “           em inglês: Nikolai Gogol


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