30 maio 2024

CANUDOS: GUERRA INTERMINÁVEL– 11

 

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https://cangaconabahia.blogspot.com/2011/10/canudos.html
(Essa ruína, seria da escola onde Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, lecionou por um tempo como professor, alfabetizando crianças pobres, um trabalho altamente meritório, mas de pouco valor social, até hoje, no Brasil. Ela ficava na fazenda Tigre, próxima a Quixeramobim, CE, e a foto foi batida em 1939)

Eduardo Simões (a Margarida Maria)

O pior momento de José Calasans?

Um dos maiores estudiosos de Canudos, José Calasans, escrevendo sobre a família dos Macambira – família de agricultores estabelecidos em Canudos – lembra que antes do Conselheiro chegar havia na fazenda Canudos um par de famílias que se destacavam das outras: os Macambira e os Mota, esta mais ligada ao comércio e ao transporte de mercadorias, as tropas, bem assentados e vivendo pacificamente de seu trabalho. Outro comerciante era Jesuíno Correia Lima.

Sabemos também que, graças a atração que a mensagem e a personalidade do Conselheiro, houve um grande afluxo de gente para o lugar, uma região pobre a abandonada, sob a influência da família do Barão de Jeremoabo, notório monarquista, que nem assim quis conversa com o Conselheiro.

É claro que o afluxo de gente ajudou no fornecimento de mão-de-obra, no aumento da circulação de dinheiro e mercadorias, enfim um fator de prosperidade geral, embora não devamos nos iludir quanto ao montante dessa prosperidade, pois Canudos continuou sendo uma comunidade muito pobre, carreando recursos para a construção de Igrejas e o cemitério, mais ou menos como acontecia com grande parte do ouro do Brasil que foi para Portugal, ao longo do século XVII e XVIII.

A medida que a comunidade crescia, acabava acolhendo todo tipo de gente, tanto para o bem como para o mal, e entre estes se encontrava Antônio Vilanova, que chegou a Canudos depois e logo tornou-se próximo do Conselheiro, ainda mais porque era originário do Ceará, a terra do Conselheiro – será que já se conheciam? Vilanova também era comerciante e também sabia farejar boas oportunidades. Aparentemente, pelo testemunho de alguns. O comércio de peles começou a dar um bom lucro, para engrandecimento dos Mota, que estavam mais bem situados para isso.

Com muito tato e jogo nas sombras, Antônio Vilanova e seu irmão Honório conseguiram galgar postos junto ao Conselheiro e autoridades civis do lugar, ocupando cargos no arremedo de “burocracia” de Belo Monte, enquanto mantinham um bom ponto comercial, até que um dia, aconteceu uma tragédia bem conhecida, mas pouco falada dentro de Canudos: o massacre dos Mota.

As versões divergem. Manuel Benício afirma que isso aconteceu depois de Uauá, e se deveu a uma suspeita de que o velho Mota estaria mancomunado com os militares, sem explicar se essa suspeita tinha fundamento ou era fruto de intriga. O senhor Paulo Monteiro em testemunho à professora Luitgarde, se disse neto de uma mulher que viveu nessa época, e que era cliente de Jesuíno Lima, diz que a causa do massacre foi outra:

Totonho Vilanova queria só ele ser o compradô de peles daqui do Canudos... Dentro de Canudos mataram Antoin da Mota, seu filho de apelido Rola e o outro filho Pedro de Rola. O Pedro ainda caminhou assim para as armas [aparentemente foi pegar uma arma para se defender, o que indica um massacre inesperado, à traição], mas já tava na agonia, caiu morreu... quando mataram os Mota, dos mais antigos de Canudos, o povo ficou assombrado, mas somente Jesuíno reclamou: “É uma injustiça matar uns homens assim, sem culpa nenhuma” ... [Quando a autora indaga sobre quem matou os Mota, seu Paulo responde] Foi os jagunços, perfídia de Totonho Vilanova. Essa questão foi tangida [provocada] por Totonho Vilanova [mas em seguida seu Paulo dispensa o Conselheiro de responsabilidade, afirmando que ele não teve nada a ver, embora fique difícil explicar a posição privilegiada que Vilanova sempre gozou em Canudos, afirmando que o Conselheiro apenas não queria a polícia no arraial, essa hipótese (de chamar a polícia) fora levantada por Jesuíno. A única alternativa, para não entrar em choque direto com a sua guarda pessoal, era “por uma pedra em cima” o “varrer para baixo do tapete”] (Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros; Um fuzil na Guerra de Canudos - memória de violência na paz do Conselheiro; Anais do XVII Simpósio Nacional de História – ANPUH - São Paulo, julho 1993; p 381-382)

Francamente. Seja qual for a razão que levou ao extermínio repentino dos Mota – fosse por essa razão, fosse pela fiscalização opressiva da Guarda Católica sob os suspeitos, já apontada no relatório de frei João Evangelista – podemos afirmar clara e insofismavelmente, que estamos diante de um SISTEMA PRÉ-TOTALITÁRIO, uma espécie de TIRANIA (no sentido moderno do termo), com um poderoso centro de poder pessoal, com culto à personalidade, em torno do qual se criam estruturas e instituições que aparentemente ampliam o poder daquele, mas que, na pratica, atendem aos interesses particulares dos “amigos do rei”, com autonomia inclusive para decretar e executar, à revelia do centro, um grande massacre dentro da própria comunidade, que desmoraliza e manipula esse centro de poder, em sua ilusão de uniformidade e obediência geral, até arrastar todo o sistema para o colapso final.

O que José Calasan tem a ver com tudo isso?

Em um artigo, chamado Joaquim Macambira e sua gente, já no primeiro parágrafo! Calasans falando da comunidade pré-Conselheiro de Canudos, fala de “duas famílias de importância: os Mota e os Macambira”, e que “na fase conselheirista surgiu um terceiro grupo familiar, os chamados Vilanova, procedentes do Ceará”. A terra do Conselheiro.

Aqui vemos que a suposta igualdade social entre os moradores de Canudos, tão cara ao discurso dos marxistas e do revisionismo canudista, é pura balela. Havia famílias mais ricas, morando em casas melhores e mais próximas do Conselheiro, que a média das moradores, decidindo com ele a administração do arraial, partilhando do poder. O único grupo realmente pobre, que podia se equivaler a essa elite, era o dos jagunços, gente, pobre sem raiz, alguns com crimes graves nas costas, mas úteis à segurança física do Conselheiro, afora se prestarem ao uso em prol dos interesses mercantis do grupo mais poderoso, a ponto do contrariar a diretriz ideológica do centro de poder: a busca da pureza da mensagem cristã, em troca de vantagens “não espirituais”.

José Calasans, depois de explicar que os Mota eram comerciantes e donos de terra, e que também eram amigos dos Macambira diz que, “tendo Macambira acolhido menores da família Mota, por ocasião da chacina dos membros, num momento difícil da vida local. A atitude de Macambira foi muito digna, merecedora de encômios”. E rápido muda de assunto para falar só dos Macambira, que continuaram... vivos e leais ao Conselheiro.

Colocando as letras no papel....

1º - A gente sabe que os elementos masculinos da família Mota, que moravam em Canudos, foram repentinamente atacados e mortos, sem direito de defesa.

2º - Os menores ficaram com os Macambira, e as mulheres? Que fim levaram? Foram estupradas, pelos menos uma, como diz Manuel Benício? Foram expulsas da cidade? Foram mortas também depois? Foram distribuídas entre os jagunços executores, como costuma acontecer na lei da guerra entre os primitivos?

3º - A comunidade, pega de surpresa, não faz nenhum movimento no sentido de pedir justiça para as vítimas, mas elogia quem teve a coragem de cuidar das crianças – não seria uma prova que o governo do Conselheiro estava se encaminhando para um sistema totalitário, onde o medo é um fator importante de controle social?

4º - Calasans diz que isso foi um “momento difícil da vida local” – Deus me ajude para não perder as estribeiras. Ou seja: ele chama a atenção para o sofrimento da “comunidade local”, coitadinha, desviando a atenção de um crime coletivo, em tudo hediondo, retirando o foco do sofrimento das crianças órfãs, das mulheres abusadas, da morte violenta e imprevista dos homens e da motivação absolutamente torpe do crime. Acrescento que outro comerciante, além de Jesuíno, foi expulso ou fugiu nesse momento de Canudos, deixando o comércio de peles exclusivamente nas mãos de Vilanova, enquanto Conselheiro se ocupava procurando tempestades no coração de Maria...

Eu fico imaginando alguém chegando para um mulher que perdeu violentamente de uma só vez o pai, o irmão e o marido, e que sofreu estupro, e que daqui para frente não terá mais a vida abastada e o prestígio que tinha até então, para viver de favor na casa de outros ou ser abusada sistematicamente por quem lhe destruiu a família. Será que Calasans, em situação idêntica diria a essa mulher: “eu entendo o momento difícil que seus amigos devem estar passando com o que lhe aconteceu”.

Nesse momento, a paixão cega, ideológica, de um projeto condenado: transformar Antônio Conselheiro em herói nacional, faz com que um homem culto, honrado desça à mais profunda insensibilidade, ao usar essas palavras para descrever um acontecimento tão bárbaro, só para salvar o seu herói.

Um herói, que precisa da cumplicidade de seus devotos para parecer herói!

(Abaixo, dois paus de aroeira, os únicos ainda de pé da escola fotografada acima. Ao fundo um velho Land Rover 1949, apontando que a foto foi feita no início dos anos 1950 ou final dos 1940. Fantasias que se transformaram em pó) 


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