https://media-cldnry.s-nbcnews.com/image/upload/t_fit-1240w,f_auto,q_auto:best/MSNBC/Components/Photo/_new/111006-northkorea-food-3p.jpg
https://www.nbcnews.com/id/wbna44808274
(Não se impressione com a coloração roxa das crianças. Há 50 anos atrás, eu também ficava assim quando mamãe passava iodo nas minhas feridas, antes da vulgarização do uso do mertiolate, e outros produtos para assepsia de ferimentos. As duas estão "bem" cuidadas no hospital de Hwanghae do Sul, na Coreia do Norte, após se ferirem na passagem de um tufão em outubro de 2011. As duas apresentam também sinais de desnutrição, que, na Coreia do Norte, acontecia com certa frequência, antes da China ficar milionária. Essa imagem é um dos raríssimos momentos em que o governo permitiu que a imprensa internacional, no caso a empresa americana NBCNews, mostrar a situação real da população. Fora isso só há os desenhos e ilustrações permitidas pelo governo, e fotos ensaiadas)
Eduardo Simões (a Margarida Guimarães)
Mas a história científica é deturpada,
ignorada, falsificada
1º) Não cabe apenas
aos americanos a responsabilidade pela divisão da Coreia: ela foi pactuada.
Dois oficiais americanos, de fato, fizeram um estudo determinando o paralelo, 38º,
para a divisão das zonas de influência. Mas essa divisão que já havia sido
discutida, 42 anos antes, entre a Rússia Czarista e o Japão. Isso explica
porque a proposta americana, telegrafada aos russos no dia 15 de agosto,
recebeu aprovação já no dia seguinte – ver o verbete Division of Korea na wikipedia, e o paper, Russia’s Policy Towards Korea during the Russo-Japanese war, em https://ijkh.khistory.org/upload/pdf/7_02.pdf.
Os americanos ficaram com Seul, mas Pyongyang era a segunda maior cidade do
país, e a parte norte era a mais rica em recursos minerais e mais
industrializada (https://en.wikipedia.org/wiki/Charles_H._Bonesteel_III).
2º) A declaração de
guerra da URSS ao Japão foi em 8 de agosto: e não 7. Logo dois dias depois
da primeira bomba em Hiroshima (https://en.wikipedia.org/wiki/Division_of_Korea). Essa data é corroborada pelos
arquivos nacionais do Reino Unido (https://blog.nationalarchives.gov.uk/soviet-japan-and-the-termination-of-the-second-world-war/#:~:text=However%2C%20on%208%20August%201945,Union%20declared%20war%20on%20Japan), embora desmentida pela
Encyclopaedia Britannica de 1966; Vol 23; p 792-793, que a faz mais tardia, em
9 de agosto – provavelmente a declaração de guerra tenha sido no dia 8 e o
começo das operações no dia 9.
3º) De fato,
americanos se surpreenderam com o desmoronamento repentino da resistência
japonesa aos soviéticos: a resistência aos americanos foi gigantesca, pois
uma vez vencido o mar eles estariam pisando o solo japonês, já o avanço ou
perda de solo chinês não motivava muito o soldado japonês, muito desgastado
pela guerra, enfrentando tropas frescas.
4º) Os americanos
tiveram de enfrentar um grande obstáculo, e estavam desorganizados: por
causa da morte repentina de Franklin Roosevelt em 12 de abril de 1945, no meio
de uma guerra mundial, e o novo presidente ainda estava aprendendo o ofício
mais difícil do mundo, o quê, além do isolamento secular autoimposto, explicam
as trapalhadas iniciais.
5º) Os americanos não
tinham “pesadelos” por medo do poderio russo, mas por causa dos acordos já
pactuados: quem faz história científica, logo lê fontes factuais, sabe
perfeitamente que os alemães, ao invadirem a Rússia destruíram inúmeras
fábricas e equipamentos russos, e os americanos foram FUNDAMENTAIS para suprir
a Rússia de equipamento militar e munição, enquanto os russos reconstruiam suas
fábricas, longe da linha de frente, com máquinas modernas cedidas pelos
americanos. Os americanos abasteciam os russos, os ingleses e eles ainda eram,
de longe, a maior força aeronaval do mundo. Tinham 38 porta-aviões. Sem contar
a arma mais poderosa do mundo na época (Naval
history of World War II, Wikipedia em inglês).
5º) Os russos, além de
não terem uma marinha respeitável não sabiam fazer desembarques: eles bem o
tentaram em 18 de agosto, na ilha de Shumshu, no arquipélago das Kurilas. O
encaminhamento da operação foi tão desastrado que nos 5 dias que durou a
batalha eles perderam um quarto de sua força. O plano de um desembarque anfíbio
em Hokaido foi logo abandonado (https://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Shumshu)
6º) Roosevelt foi
muito tolo em confiar em Stalin, e ter cedido tanto: De fato, no Oriente a
guerra foi quase toda travada pelos EUA, e pelos aliados que ele sustentava,
inclusive a China. Stalin não pôs um prego no caixão do Japão, mas quis ficar
com as posses do defunto. Os americanos não tinham porque concordar isso, afinal
foram eles que, além de destruir os japoneses, sustentaram a União Soviética no
pior da guerra.
6.1. Stalin recusou-se a declarar guerra ao Japão até 8 de
agosto de 1945, quando o Japão já estava totalmente estropiado pelos americaos
a um preço altíssimo, em vidas e recursos.
6.2. Quando um piloto americano pousava na Rússia após ataque
ao Japão ele era internado (uma espécie de prisão domiciliar), e só muito
depois, por subterfúgio era devolvido aos Estados Unidos (https://en.wikipedia.org/wiki/Doolittle_Raid)
7º) A primeira
força russa a tocar em solo coreano foi num desembarque anfíbio entre 11 e 17
de agosto de 1945: quando já não havia
mais resistência apreciável. O segundo desembarque aconteceu em 16 de agosto (https://en.wikipedia.org/wiki/Division_of_Korea). Segundo a Wikipedia em inglês,
foram primeiro tomados os portos de Yuki (Sombong) e Racine (Rason), mas só no
dia 13 começou o desembarque de forças propriamente dito, em Shongjin, com
menos de 600 baixas entre russos e japoneses. No dia 17 chegou mensagem do
Imperador determinando o fim da resistência. (https://en.wikipedia.org/wiki/Seishin_Operation). Essa informação bate com a do
verbete 청진 상륙 작전 (Desembarque em Shongjin) da Wikipedia coreana.
8º) A entrada de
forças russas em Pyongyang aconteceu em 24 ou 25 de agosto: e não como diz
no vídeo. Confere o verbete 한반도 분단 na Wikipedia
coreana e Division of Korea, em inglês e na Britannica de 1966.
9º)
O texto se engana frontalmente, quando
tenta forçar um conluio entre japoneses e americanos – imperialistas
“malvados”, contra socialistas bonzinhos – e que por isso houve mais
resistência no sul que no norte à ocupação estrangeira:
9.1. Como vimos quem acabou com os japoneses foram os
americanos, ingleses e australianos. Os soviéticos se limitaram a olhar e depois
querer a melhor parte do botim.
9.2. No verbete Division
of Korea é dito que os soldados japoneses, ressentidos pela esmagadora
derrota infligida ao Japão, estavam espalhando notícias alarmantes entre os sul-coreanos,
contra os americanos, obrigando o comando japonês a intervir para que cessasse
essa ação.
9. 3. Muito ilustrativo do tratamento dado pelos sociéticos e
socialistas norte-coreanos aos opositores do regime foi o desaparecimento do
líder anticomunista e herói local Cho
Man-sik, que sempre viveu na Coreia, em Pyongyang, e era admirador de
Gandhi, Tolstoi e Jesus Cristo. Ele sofreu uma vida de horrores na luta contra
os japoneses, e no final, por não querer ser comunista, foi sabotado por Kim Il
Sung e seus tutores russos, sendo preso e depois “desaparecido”, deixando o
caminho livre para o delírio dinástico de Kim. Copie o nome dele e pesquise.
10º) Castanhari
desinforma ao querer sugerir que a ONU, em 1948, vistoriou apenas as eleições
do sul de propósito ou por ter ligação com os EUA:
10.1. As eleições na Coreia foram decididas pela Assembleia
Geral, e não por uma comissão guiada pelos americanos. Logo tinha toda
legitimidade, mas a Rússia só aceitava eleições que validassem previamente os seus interesses?
10.2. A União Soviética não apenas falou, mas se opôs a que
fossem realizadas eleições no norte – pesquise a Wikipedia em inglês, francês,
alemão, chinês, russo, coreano, que você terá, gratuitamente, a confirmação
disso (a wikipedia em italiano apenas cita as desconfianças do russos)
10.3. Se é verdade que o domínio dos socialistas no norte era
mais tranquilo e que os americanos estavam às turras com os coreanos do sul,
matando e prendendo milhares, porque a União Soviética e os socialistas iriam
fugir de uma eleição que lhes traria vtória certa?
11º) As eleições
gerais no Sul aconteceram em 10 de maio de 1948, como pois o texto,
referindo-se à criação da República da Coreia do Norte, acontecida a 9 de
setembro de 1948, diz que foi feita um mês depois? Onde foram parar os
meses entre maio e setembro? NÃO PESQUISARAM NEM O BÁSICO!!!!
Isso foi o que levantei apenas em 20 minutos de um vídeo de
58 minutos, e não vou mais perder meu tempo com uma peça de doutrinação tão
barata. Alguém pode até dizer que centenas de milhares, talvez milhões, tenham
visto esse vídeo; e eu respondo: se milhares, talvez milhões, de pessoas
adultas resolverem ser enganadas, se atirar de um despenhadeiro, etc. O que
você pode fazer?
Esse vídeo é só mais um dos sintomas, entre muitos, da
falência intelecto-cultural dos brasileiros, depois que a esquerda conseguiu
impor sua hegemonia nas universidades. O país está politica, econômica e culturalmente
falido, e as pessoas parecem estar gostando disso. Mas, há duas coisas que eles
não estão considerando e que podem mudar tudo.
Primeira: o Brasil não é o único país do mundo. Outros países
podem preferir outro caminho, como por exemplo: ter uma educação séria;
aprofundar um conhecimento científico de si mesmo e do mundo, ao invés de se seguir
a falcatruas doutrinárias; optar por soluções político-econômicas que deram certo
nos últimos séculos; etc. e passar à nossa frente e nos desafiar e vencer em
nosso próprio terreno – vários países da América do Sul já perceberam isso e
estão se atualizando, enquanto dobramos a aposta em fórmulas fracassadas, ultrapassadas.
Segunda, e mais importante: a realidade sempre dá a última
palavra. Eu posso tomar o poder envolto em um mundo de fantasia, como num conto
de fadas, como é nesse vídeo, mas a realidade sempre se impõe, e no final eu colherei
o resultado das estratégias inadequadas usadas para a realidade do momento.
Essa e sem dúvida a maior e mais gigantesca lição para a história, deixada pelo
fim da União Soviética: não adianta você convocar as maiores mentes, os
melhores marqueteiros, controlar todos recursos e meios de comunicação, as
pessoas vão olhar sempre, em primeiro lugar, para o prato na sua mesa, para a
sua situação concreta do momento atual. Se não tiver bom pulam fora...
A disputa não é entre os teóricos do capitalismo e os do socialismo, entre filósofo ‘X’ e filósofo ‘Y’, mas sobre qual dos dois foi capaz de perceber melhor a realidade, dar a sua solução, e ela, a realidade, responder positivamente. É pelos frutos que se conhece a árvore, e é pelos sucessos e pelos fracassos reais, históricos, que sabemos se um dado regime funciona ou não, o resto é fanatismo religioso, que, se curado a tempo, nos permitirá retomar ao bom caminho. Agora se o fanatismo, com a sua arma mais comum: a ocultação de fatos, vencer, isso nos levará de volta à formas mais graves de pobreza, em meio à formidável quantidade de recursos naturais, artificiais e sociais, à nossa disposição.
Mirem a Venezuela.

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