https://www.telegraph.co.uk/multimedia/archive/01948/north-korea-3_1948182c.jpg?imwidth=960
https://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/asia/northkorea/8641946/North-Korea-faces-famine-Tell-the-world-we-are-starving.htmlEduardo Simões (a Margarida Maria)
Infelizmente vejo-me obrigado a interromper minhas pesquisas
para reagir a um vídeo, supostamente histórico, de um canal chamado “Nostalgia”,
com o pomposo nome de A Guerra da Coreia
– A História não Contada, ao qual me dedicarei, e indo direto ao assunto
chamo atenção da abertura que diz:
A Coreia era um paraíso
A península coreana apresentada como um paraíso terrenal, com
todo mundo feliz, e vivendo como Adão e Eva, que faz parte da mitologia coreana
do norte que smepre apresenta seu líder Kim Il Sung com traços de “deus
encarnado”, como Jesus Cristo.
O que a história, entretanto, diz: a península coreana era
uma região estratégica, disputada historicamente por Japão e China, dois
impérios poderosos, e quem vive uma situação dessas não pode ter uma vida de
paz, alegria e, principalmente, uma construção identitária que não seja resistir e continuamente àqueles que lhe querem dominar.
Fatos:
* Entre 1592 e 1598 os coreanos travaram guerras dramáticas e
altamente mortíferas contra os japoneses, até vencê-los definitivamente.
* De 1627 a 1637 os coreanos sofreram a dominação chinesa,
sob a direção dos manchus, o que também gerou longas guerras de resistência.
* Mesmo sob o domínio da família real coreana de Joseon, ele
ainda tiveram que amargar as bizarrices de tiranos como Yeonsangun, sem falar
nos massacres em massa de intelectuais, lutas pelo poder e um forte levante
camponês.
Era uma vida difícil de muitas batalhas, muito antes da 2ª
Guerra Mundial, mas que foi muito agravada pelo domíno japonês após 1910.
A mitologia é exaltada!
b) A apresentação mitológica da vida de Kim Il-sung é simplesmente bizarra e oscila entre o ridículo e o infantil. O apresentador quer nos fazer crer que um menino de 14 anos rompe com a escola, em 1926, cria e lidera movimento de guerrilhas antijaponês....
Para quem não acredita em Papai Noel recomendo a leitura de KIM IL SUNG The North Korean Leader
(Columbia Press; New York; 1988), do historiador sul-coreano Dae-Sook Suh,
onde, já na introdução, ele fala da dificuldade de abordar a biografia de Kim
Il-Sung, simplesmente porque a única fonte biográfica original é ele próprio,
que começou a escrever a sua biografia oficial quando já era octagenário. Não
existe uma única fonte fora dele próprio, e outras, obras mitológicas e desinformadoras repetem isso mecanicamente.
Por exemplo o avô de Kim, na história oficial, mudou-se para
próximo a Pyongyang para trabalhar no cemitério de uma família nobre, mas nenhum
sinal desse cemitério aparece hoje no local, e ninguém é louco apontar esse “furo” dentro da Coreia do Norte.
Na casa em que ele nasceu. Cuidada como se fora um lugar sagrado, tem uma árvore onde se diz Kim
il-Sung brincou e subiu nela. Entretanto pela idade da árvore seria impossível
Kim ter subido nela. Exceto na imaginação.
Diários de militares chineses e japoneses, sobre as operações
na Manchúria, onde Kim atuou, desmentem muitas histórias contadas por ele em
sua biografia, sobre esse período – mais tarde ele fugirá da Manchúria para a
URSS, em 1940, e de lá só voltará à Coreia para assumir o poder.
Os dados acima são de um autor que considera, apesar de
tudo isso, Kim Il-Sung um líder capaz, competente o bastante para por uma nação
ao seus pés e os de seus descendentes, e lidar com as disputas entre China e
União Soviética. Noutro extremo temos:
a) Relatos do governo militar americano da Coreia dizendo que
o líder coreano era na verdade o sobrinho do verdadeiro Kim Il-sung, e que se fez
passar por este. Portanto um impostor.
b) A jornalista americana Annie Jacobsen, conceituadíssima,
ganhadora do prêmio Pulitzer de 2016, pesquisando os documentos da CIA, e
publicando-os três anos depois, revela que, para a CIA, Kim Il-Sung é um
falsário, preparado pelo serviço secreto soviético, para garantir na Coreia um
governo absolutamente leal a Moscou (Surprise, kill, vanish, the secret history
of CIA paramilitar armies, operators, and assassins; Little Brown;
London-Boston-New York; 2019; pgs 47-49 contador pdf)
c) Um oficial russo, Grigory Mekler (1909-2005), que fazia a
ligação entre Kim Il-Sung e o Kremlin, e o conheceu intimamente, no final da
URSS foi entrevistado sobre o líder coreano para um programa de televisão, russo
em duas partes, lançado em 1994. Logo após o lançamento do 1º programa o
jornalista produtor do programa, Leonid Mechlin, começou a receber telefonemas
ameaçadores, de uma voz que noutro contexto havia se identificado como
funcionário da embaixada da Coreia do Norte, ameaçando-o, se exibisse o segundo
programa. Foi necessário o governo russo intervir junto a Pyongyang para as
ameaças cessarem e o programa ser liberado (a esse respeito recomendo o verbete
Grigory Mekler na Wikipedia em
inglês, e o artigo: Kim Il Sung's Soviet
Image-Maker, no site do Moscou Times, no endereço https://www.themoscowtimes.com/archive/kim-il-sungs-soviet-image-maker)
O culto doentio à personalidade, que se instalou nesse país,
e o caráter dinástico do mecanismo de ascensão ao poder parece apontar na direção
de que algo muito sério, além do que é habitualmente escondido por razões
político-militares, está sendo oculto da nação e do mundo. De resto você não
precisa saber muita coisa de socialismo, marxismo para ver logo que o que
existe na Coreia do Norte é tudo, menos qualquer coisa que sequer cheire a
socialismo e menos ainda a democracia.
Enfim citar acriticamente, como se fosse verdade, a versão
oficial da vida de Kim, é um testemunho cabal de infantilidade emocional e
muita ignorância. Ou as duas coisas juntas.

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