26 junho 2024

GUERRA DA COREIA: A HISTÓRIA É UMA FANTASIA (início)

 

https://www.telegraph.co.uk/multimedia/archive/01948/north-korea-3_1948182c.jpg?imwidth=960

https://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/asia/northkorea/8641946/North-Korea-faces-famine-Tell-the-world-we-are-starving.html
(Uma pobre camponesa norte-coreana vende produtos à beira da estrada, numa perto de Pyongyang para se virar, e enfrentar as da pobreza, em 2011, resultante de uma crise de fome ocorrida dez anos antes(!) Num dos poucos momentos em que foi autorizada a entrada de jornalistas do Ocidente no país. Será que a mitologia e a doutrinação do vídeo de Castanhari é capaz de mudar realidades como essa ou impedir que acabemos assim, se aplicarmos aqui a mesma fórmula que foi aplicada lá? A lei da gravidade funciona diferente lá?)

Eduardo Simões (a Margarida Maria)

Infelizmente vejo-me obrigado a interromper minhas pesquisas para reagir a um vídeo, supostamente histórico, de um canal chamado “Nostalgia”, com o pomposo nome de A Guerra da Coreia – A História não Contada, ao qual me dedicarei, e indo direto ao assunto chamo atenção da abertura que diz:

A Coreia era um paraíso

A península coreana apresentada como um paraíso terrenal, com todo mundo feliz, e vivendo como Adão e Eva, que faz parte da mitologia coreana do norte que smepre apresenta seu líder Kim Il Sung com traços de “deus encarnado”, como Jesus Cristo.

O que a história, entretanto, diz: a península coreana era uma região estratégica, disputada historicamente por Japão e China, dois impérios poderosos, e quem vive uma situação dessas não pode ter uma vida de paz, alegria e, principalmente, uma construção identitária que não seja resistir e continuamente àqueles que lhe querem dominar.

Fatos:

* Entre 1592 e 1598 os coreanos travaram guerras dramáticas e altamente mortíferas contra os japoneses, até vencê-los definitivamente.

* De 1627 a 1637 os coreanos sofreram a dominação chinesa, sob a direção dos manchus, o que também gerou longas guerras de resistência.

* Mesmo sob o domínio da família real coreana de Joseon, ele ainda tiveram que amargar as bizarrices de tiranos como Yeonsangun, sem falar nos massacres em massa de intelectuais, lutas pelo poder e um forte levante camponês.

Era uma vida difícil de muitas batalhas, muito antes da 2ª Guerra Mundial, mas que foi muito agravada pelo domíno japonês após 1910.

A mitologia é exaltada!

b) A apresentação mitológica da vida de Kim Il-sung é simplesmente bizarra e oscila entre o ridículo e o infantil. O apresentador quer nos fazer crer que um menino de 14 anos rompe com a escola, em 1926, cria e lidera movimento de guerrilhas antijaponês....

Para quem não acredita em Papai Noel recomendo a leitura de KIM IL SUNG The North Korean Leader (Columbia Press; New York; 1988), do historiador sul-coreano Dae-Sook Suh, onde, já na introdução, ele fala da dificuldade de abordar a biografia de Kim Il-Sung, simplesmente porque a única fonte biográfica original é ele próprio, que começou a escrever a sua biografia oficial quando já era octagenário. Não existe uma única fonte fora dele próprio, e outras, obras mitológicas e desinformadoras repetem isso mecanicamente.

Por exemplo o avô de Kim, na história oficial, mudou-se para próximo a Pyongyang para trabalhar no cemitério de uma família nobre, mas nenhum sinal desse cemitério aparece hoje no local, e ninguém é louco apontar esse “furo” dentro da Coreia do Norte.

Na casa em que ele nasceu. Cuidada como se fora um lugar sagrado, tem uma árvore onde se diz Kim il-Sung brincou e subiu nela. Entretanto pela idade da árvore seria impossível Kim ter subido nela. Exceto na imaginação.

Diários de militares chineses e japoneses, sobre as operações na Manchúria, onde Kim atuou, desmentem muitas histórias contadas por ele em sua biografia, sobre esse período – mais tarde ele fugirá da Manchúria para a URSS, em 1940, e de lá só voltará à Coreia para assumir o poder. 

Os dados acima são de um autor que considera, apesar de tudo isso, Kim Il-Sung um líder capaz, competente o bastante para por uma nação ao seus pés e os de seus descendentes, e lidar com as disputas entre China e União Soviética. Noutro extremo temos:

a) Relatos do governo militar americano da Coreia dizendo que o líder coreano era na verdade o sobrinho do verdadeiro Kim Il-sung, e que se fez passar por este. Portanto um impostor.

b) A jornalista americana Annie Jacobsen, conceituadíssima, ganhadora do prêmio Pulitzer de 2016, pesquisando os documentos da CIA, e publicando-os três anos depois, revela que, para a CIA, Kim Il-Sung é um falsário, preparado pelo serviço secreto soviético, para garantir na Coreia um governo absolutamente leal a Moscou (Surprise, kill, vanish, the secret history of CIA paramilitar armies, operators, and assassins; Little Brown; London-Boston-New York; 2019; pgs 47-49 contador pdf)

c) Um oficial russo, Grigory Mekler (1909-2005), que fazia a ligação entre Kim Il-Sung e o Kremlin, e o conheceu intimamente, no final da URSS foi entrevistado sobre o líder coreano para um programa de televisão, russo em duas partes, lançado em 1994. Logo após o lançamento do 1º programa o jornalista produtor do programa, Leonid Mechlin, começou a receber telefonemas ameaçadores, de uma voz que noutro contexto havia se identificado como funcionário da embaixada da Coreia do Norte, ameaçando-o, se exibisse o segundo programa. Foi necessário o governo russo intervir junto a Pyongyang para as ameaças cessarem e o programa ser liberado (a esse respeito recomendo o verbete Grigory Mekler na Wikipedia em inglês, e o artigo: Kim Il Sung's Soviet Image-Maker, no site do Moscou Times, no endereço https://www.themoscowtimes.com/archive/kim-il-sungs-soviet-image-maker)

O culto doentio à personalidade, que se instalou nesse país, e o caráter dinástico do mecanismo de ascensão ao poder parece apontar na direção de que algo muito sério, além do que é habitualmente escondido por razões político-militares, está sendo oculto da nação e do mundo. De resto você não precisa saber muita coisa de socialismo, marxismo para ver logo que o que existe na Coreia do Norte é tudo, menos qualquer coisa que sequer cheire a socialismo e menos ainda a democracia.

Enfim citar acriticamente, como se fosse verdade, a versão oficial da vida de Kim, é um testemunho cabal de infantilidade emocional e muita ignorância. Ou as duas coisas juntas.

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