22 junho 2024

MAORI PROGRESSISTA X INTELECTUAL REACIONÁRIO (final)

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/62/Maori_Girl_Learning_the_Haka%2C_by_Gottfried_Lindauer.jpg/800px-Maori_Girl_Learning_the_Haka%2C_by_Gottfried_Lindauer.jpg

https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Haka#/media/File:Maori_Girl_Learning_the_Haka,_by_Gottfried_Lindauer.jpg

(Menina maori, exercitando a haka, uma dança guerreira ritual típica dos maoris, numa ilustração de Gottfried Lindauer, do início do século XX)

Eduardo Simões (a Margarida Maria)

O caso dos moriori

Segundo pesquisas mais recentes, os maoris são um povo originário de Taiwan, que lá por volta de 1320 - 1350, aportaram no arquipélago da Nova Zelândia. Os maoris eram uma gente selvagem na plena acepção do termo, ou seja: vivia de acordo com as leis da natureza, onde o que vigora é a luta pela sobrevivência, manifesta no predomínio ou na sobrevivência do mais forte, sem que isso os torne melhores ou piores que os outros homens. Qualquer povo submetido às condições em que eles viviam nos século XIV, com a cultura que traziam de sua terra natal, certamente agiria do mesmo modo. É a humanidade se “descobrindo”.

Os maoris, como outros povos primários de Taiwan, são extremamente belicosos e cheios de iniciativa, e logo os clãs começaram, em sangrentas guerras, a disputar os melhores quinhões das ilhas principais, até chegarem ao extremo na chamada Guerra dos Mosquetes de 1807 a 1837 (1) – essa guerra tem esse nome porque, nesse período, eles começaram a entrar em contato com pescadores europeus, dispostos a trocar produtos da terra por mosquetes, um tipo de espingarda, e logo começou um corrida entre os clãs em busca de mosquetes para usá-los contra seus adversários, e encerrar vitoriosamente antigas disputas. Uma corrida armamentista, feita à custa deles próprios.

Entre os maoris, um grupo destacou-se da principal corrente e, por volta de 1500, estabeleceu-se na ilha Chatham. Ora, os maoris já eram produtores de alimentos, praticavam a agricultura de subsistência e criavam porcos e cabras, porém, como a geografia da ilha Chatham era muito inóspita, e ela própria não era muito grande, essa gente, por questão de sobrevivência, retornou ao estágio de caçador-coletor exclusivo, ocorrendo então uma simplificação (ou um retrocesso) tecnológica, passando a chamar-se morioris. 

A vida nessa ilha era tão precária, que em determinado momento eles começaram a castrar meninos recém-nascidos para evitar o aumento populacional, e, o que é incomum em termos de comunidade caçadora-coletora, desenvolveram uma mitologia radicalmente pacifista, a partir dos ensinamentos de um tal Nunuku-Whenua, que proibia em absoluto a guerra, o canibalismo e o assassinato – de fato, uma guerra como as que havia nas ilhas maiores, poderia levar facilmente a comunidade à extinção. E assim criaram uma comunidade muito diferente dos maoris das outras ilhas que eram agricultores-coletores, com uma tecnologia mais complexa e canibais convictos.

Porém, em 1835, em meio a matança generalizada da Guerra dos Mosquetes, um grupo de maoris, gente de dois clãs poderosos e combativos, tomaram um navio pesqueiro inglês, o apetrecharam, e, em número de uns 500, desembarcaram na ilha Chatham. Eles foram bem recebidos pelos moriori, mas já deixaram o seu cartão de apresentação: canibalizaram uma adolescente moriori de 12 anos, cujos ossos ficaram expostos, como aviso – costume semelhante, exposição de ossos de canibalizados, também era visível entre os índios tupis no Brasil cabralino. Os morioris, entretanto, continuaram com acenos de paz, prontos para fazer um acordo.

A situação se agravará com a chegada de mais uns 400 maoris, aliados ao primeiro grupo, o que fez os invasores partirem de vez "para cima". Dizem as crônicas orais que, ante a resistência dos mais velhos de se desviar dos antigos ensinamentos, eles decidiram fugir e se esconder na zona mais montanhosa da ilha. Entretanto eles ainda estariam vivos, disputando com os maoris os poucos recursos alimentares da ilha, e isso estes não iriam aceitar, O que se seguiu pode ser descrito da seguinte maneira nas palavras de um moriori: 

"[Os maoris] começaram a nos matar como ovelhas... [Nós] ficamos apavorados, fugimos para o mato, nos escondemos em buracos... e em qualquer lugar para escapar de nossos inimigos... fomos descobertos e mortos – homens, mulheres e crianças indiscriminadamente." Um conquistador maori explicou: "Tomamos posse... de acordo com nossos costumes e capturamos todas as pessoas. Ninguém escapou..." Os invasores mataram ritualmente cerca de 10% da população, o que incluiu isolar mulheres e crianças nas praias e deixá-las morrer lentamente após vários dias de exposição ao sol, à fome e à sede. Durante a escravização massiva que se seguiu, os maoris proibiram a fala da língua moriori, forçaram os morioris a profanar seus locais sagrados... foram proibidos de se casar com gente de outros grupos ou de ter filhos entre si... Apenas 101 morioris, de uma população de cerca de 2.000, foram deixados vivos em 1862, tornando o genocídio moriori um dos mais mortíferos da história, pela percentagem de vítimas” (texto da Wikipedia em inglês, tradução livre). Eu faço ressalvas ao uso do termo genocídio, para um fenômeno acontecido pelo menos 80 anos antes da invenção do conceito, isso não é muito científico, sendo necessário, nesse caso, usar um termo mais geral, como massacre, carnificina, o que não deixa um sonoro tapa naqueles que defendem o caráter pacífico e cooperativo dessas comunidades pré-estatais.

Conclusão

O que mais me chama a atenção nesse relato é a declaração do maori a respeito do trágico destino que seu povo deu aos seus gentis e pacíficos hospedeiros, coisa que absolutamente não aconteceria nos dias de hoje, na atual civilização britânica-maori, onde tal atitude seria considerada criminosa, genocida. E ele a diz com absoluta  naturalidade, sem peso na consciência ou indignação, fabricada: “era o nosso costume”, noutras palavras: nossa ideologia, nossa crença, no momento dos acontecimentos. Simples assim.

Esse homem, de uma cultura tribal, primitiva, ágrafa, expressou-se, sem o saber de uma forma absolutamente moderna, e ouso dizer até científica, por reconhecer o caráter específico, ditado pelos costumes de seu tempo, das ações de seus antepassados, pelas quais não há porque guardar qualquer tipo de mágoa ou vergonha.  É inaceitável hoje, mas não o era na época dos acontecimentos, e o nome disso é: CONSCIÊNCIA HISTÓRICA, EVOLUTIVA. Os costumes antigos podem ser descritos, mas estão para além de nossa compreensão, porque não existe mais o contexto social que lhes autorizava e até impunha. Aqueles que nos EUA na Inglaterra ou no Brasil ou em qualquer parte saem destruindo monumentos históricos a pretexto de valores morais, mostram-se mais primitivos que o 'primitivo' maori, na pior acepção desse termo.

(Abaixo um monumento a Lincoln, chamando atenção para a sua origem humilde, um exemplo para garotos pobres de hoje nos EUA, é selvagemente pichado - não é apenas aqui, que existem idiotas - por conta de revisões históricas completamente a-históricas, cobrando de um homem do século XIX uma consciência moral avançada mesmo para o século XXI, dentro da cultura americana


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https://www.foxnews.com/us/abraham-lincoln-statue-vandalized-chicago

Nota

1 – Um colossal banho de sangue, uma guerra de extermínio generalizada. Nesse período, calcula-se, morreram umas 40 mil pessoas, todas maoris, lutando uns contra os outros. Como termo de comparação, as Guerras Neozelandesas, travadas contra os britânicos, de 1845 a 1872, causaram a morte de quase 800 britânicos e uns 2.100 maoris.

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