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Eduardo Simões (a Margarida Maria)
A responsabilidade do
Conselheiro no massacre da 3ª Expedição (final)
Seria falta de inteligência, no mínimo, alguém sentir misericórdia por um demônio, que é por definição o “pai da mentira”, “inimigo de Deus”, fonte de uma maldade visceral, incapaz de conversão. E é por isso que as guerras religiosas são tão violentas, porque o inimigo é desumanizado, e sobre ele é projetado tanto o mal do mundo como o mal daqueles que se julgam “santos”, justificando toda brutalidade e o máximo de maldade da parte de quem o combate. Nesse caso fazer o mal ao mal “santifica”.
Isso talvez explique a brutalidade com que os
canudenses trataram aos prisioneiros da Expedição Moreira César, principalmente
os feridos. O que hoje seria considerado “crime de guerra”, foi, naquela época,
um desafio intolerável a uma força muito maior e mais poderosa que a “Guarda
Católica” do Conselheiro: o Exército Brasileiro. Que, passado o susto inicial, preparou
a 4ª Expedição, para dar o troco na mesma moeda, e tudo indica que houve nesse massacre,
de forma privilegiada, o dedo do Antônio Conselheiro.
Como eu disse antes, o testemunho de vários fugitivos da
Expedição Moreira César, chegaram à junta organizada pelo alto-comando do
Exército, para fazer o levantamento do desastre e ter uma ideia precisa do que
aconteceu, revelou coisas absolutamente horrorosas, que calaram fundo na emoção
daqueles, que aí perderam amigos, parentes, esposos e pais, sem falar no
conceito de honra, tão caro e tão mal compreendida aos militares.
E nesse caso houvera uma derrota vergonhosa. E o
pior ainda estava por vir: o abandono dos corpo dos soldados ao tempo, para
serem devorados pelos animais selvagens, como se aqueles homens fossem apenas sobras
da natureza, despojos desumanizados, sem direito a um sepultamento
cristão, ordenado por um homem que se apresentava como “beato”, e corrigia até
padres e bispos.
Não deixa de ser notável o retrato pungente que ele faz da
expulsão da Família Real do Brasil pelos militares, para ele causado pela
bondosa ação e sua generosa filha, em libertar os escravos. Não deixa de ser
curioso também, porque a sua família, e a sua sanidade mental foi
desfeita pela ação de um homem fardado, um soldado da polícia, de onde talvez, uma rejeição neurótica a todos os que
se apresentam de farda. Ele também não colaborou com a polícia do Império
quando foi preso na década de 1870.
Dá para entender a comoção que gerou esses acontecimentos,
mesmo sabendo que muita coisa degradante, para as vítimas (militares) e
agressores (jagunços), ficou oculta aos brasileiros que, pelos jornais,
acompanhava esse conflito. Mas também muita coisa foi relatada sem chancela
oficial. Foi uma grande desonra até hoje não totalmente esclarecida, uma vez
quem muitos telegramas e documentos não foram ainda liberados ao público,
embora possamos ter uma parca ideia de seu conteúdo na listagem que deles fazem
Sampaio Neto, Maia Serrão, Ludolf de Melo, Bravo Uruhari, em Canudos, subsídios para a sua reavaliação
histórica, da Fundação Casa Rui Barbosa, de 1986.
Porém, o mais revelador do papel do Conselheiro no massacre
da 3ª Expedição, que não pode ser jogado exclusivamente na iniciativa pessoal
dos membros da Guarda Católica, é o relato de duas jagunças, capturadas pelo
exército, na 4ª Expedição. Há uma síntese dos depoimentos, datilografados pelo
2º tenente José de Macedo Braga, que diz o seguinte:
“DIRETORIA DO ARQUIVO DO EXÉRCITO
(DOCUMENTO NUMERO 4)
INTERROGATORIO DO PADRE MARTINEZ, DE DUAS JAGUNÇAS E UM
JAGUNÇO.
(OFFICIO REMETTIDO PELO COMISSARIO PAES BARRETO, AO COMMANDO
EM CHEFE DAS FORÇAS DE OPERAÇÕES .
D.A.E.
Documento examinado
Depoimento da jagunça Maria Lina – folha nº 5 do presente
interrogatório
“Perguntada se... sabe responder
alguma coisa com relação aquele desastre, inclusive a morte do Coronel Moreira
César.
“Respondeo que assistiu todo o
combate... sendo enterrados somente os adeptos de ANTONIO CONSELHEIRO [conforme
original], ficando insepultos no meio do campo os soldados das forças legaes em
cujo número achava-se o cadáver do Coronel MOREIRA
CESAR [idem] e de outros oficiaes.......
Depoimento da jagunça Maria do Carmo.
(folha 8) do presente depoimento
Perguntada... se pode contar alguma
coisa com relação a morte do Coronel Moreira Cesar e outros oficiaes seus
companheiros?
“Respondeo, ter assistido de longe
todo combate... ficando no campo grande numero de mortos e feridos de ambas as
partes. Disse mais que Antonio Conselheiro so mandava enterrar os seus adeptos, deixando no campo
insepultos todos os militares, que f o r a
m d e v o r a d o s p e l o s
u r u b ú s [mais ou menos conforme original] em cujo numero
se achava o cadáver do CORONEL MOREIRA CESAR
[idem] que ela interrogado reconheceu por lhe ter sido mostrado
[conforme original] por pessôas que lhe afirmaram [mais ou menos conforme original] ser
aquele”
Em 1º de março de 1941 [quase 44 anos
após o infeliz combate]
2º tenente José de Macedo Braga
Auxiliar de Secção
(do Arquivo do Exército)”
No massacre de 4 de março, Antônio Conselheiro, aparentemente, experimentou sua vingança pessoal, mas desrespeitou às mais elementares leis da guerra civilizada e, principalmente, da religião cristã, mas quem mais sofreu as consequências desse gesto bárbaro, no sentido mais pejorativo do termo, foi justamente quem menos tinha a ver com a pendência: o povo pobre e humilde de Canudos.

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