17 junho 2024

CANUDOS: GUERRA INTERMINÁVEL - 14


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(O segundo, a partir da esquerda, com um lenço claro, é o general Arthur Oscar de Andrade Guimarães, o vingador de Moreira Cesar e da "honra" do Exército da República)

Eduardo Simões (a Margarida Guimarães)

Na atmosfera de segredos que envolveu o massacre da 3ª Expedição, boatos alarmantes começaram a se espalhar pela sociedade civil, como o de uma reação monárquica, inclusive com ajuda estrangeira, brotando no interior da Bahia – um estado que foi muito beneficiado, politicamente, no Império – multidões de linchadores começaram a se congregar, e partir para o empastelamento de jornais e até assassinato de monarquistas, e embora o exército tenha feito o possível para não vazar os detalhes da derrota ao grande público, internamente se cristalizou entre oficiais e soldados a ideia de que Canudos, merecia um tipo de vingança exemplar, e que ninguém se interpusesse a isso.

O General Arthur Oscar (1850-1903), escolhido para comandar a 4ª Expedição, tinha um histórico controvertido, feito nas lutas contra os federalistas no Rio Grande do Sul, onde se destacou como um disciplinador brutal e oficial impiedoso com os prisioneiros. Talvez ele, mais do que Moreira Cesar, merecesse o apelido de “Corta-cabeças” – consegui essa informação de desvão num livro sobre a Revolta Federalista cujo título não recordo. Que fique sob suspeita, embora explique muito do que aconteceu (não consegui mais dados biográficos sobre ele na rede).

A convicção dos militares de exercer em Canudos uma vingança exemplar foi reforçada após o breve combate, em 27 de junho de 1897, que uns situam em Angicos e outros na fazenda Pitombeiras ou Pitombas, que podem indicar o mesmo lugar só que com referenciais diferentes, quando a vanguarda da 1ª Coluna, alcançou os restos da 3ª Expedição. O que viram deixou a todos atônitos:

Assim o descreveu Euclides da Cunha, que ouviu o relato de terceiros...

E continuou [o 25º de Infantaria] avançando em ordem, a passo ordinário, até ao sítio memorável de Pitombas, onde houvera o primeiro encontro de Moreira César com os fanáticos...

Despontavam em toda a banda recordações cruéis; molambos já incolores, de fardas, oscilando à ponta dos esgalhos secos; velhos selins, pedaços de mantas e trapos de capotes esparsos pelo chão, de envolta com fragmentos de ossadas. À margem esquerda do caminho, erguido num tronco — feito um cabide em que estivesse dependurado um fardamento velho — o arcabouço do coronel Tamarindo, decapitado, braços pendidos, mãos esqueléticas calçando luvas pretas…

Jaziam-lhe aos pés o crânio e as botas

E do correr da borda do caminho ao mais profundo das macegas, outros companheiros de infortúnio: esqueletos vestidos de fardas poentas e rotas, estirados no chão, de supino, num alinhamento de formatura trágica; ou desequilibradamente arrimados aos arbustos flexíveis, que, oscilando à feição do vento, lhes davam singulares movimentos de espectros — delatavam demoníaca encenação adrede engenhada pelos jagunços. Nada lhes haviam tirado, excluídas as munições e as armas.”

Euclides da Cunha; Os sertões – Campanha de Canudos; Companhia das Letras; São Paulo; 2019; p s/n

Mas também consegui o relato de duas testemunhas...

Não tínhamos avançado duzentos metros quando, de repente, deparamos, á margem esquerda da estrada, junto a um monte de pedras, com o esqueleto do inditoso coronel Tamarindo, ex-comandante do 9° batalhão de infantaria, vitimado na retirada da expedição Moreira Cesar, no dia 4 de março. Tinham degolado [creio que ele quis dizer “decapitado”] o velho oficial e pendurado seu corpo com os braços abertos, como em geral figuram o Cristo. De um lado estava o crânio ainda inteiro e á frente viam-se as botas que o infeliz comandante calçava nesse dia fatal.

Os jagunços divertiam-se com esses quadros de horror!

Desde o Rosário que os tínhamos a cada momento, não com tanta selvageria grosseira, não com essa brutalidade de instinto perverso, que irrita o espirito mais calmo, porém de outra forma que os deleitava muito, certamente [ou seja eles fustigavam, atirando e provocando ou “irritando”, com gracejos e insultos, os soldados que marchavam. Aqui, Dantas Barreto deixa escapar uma expressão reveladora: aquilo foi algo que “irritou”, talvez para não dizer “encheu de ódio”, “mesmo o espírito mais calmo”. Aquilo gerou um enorme desejo de desforra].

Todos os sacrificados de março [4 de março, o dia da derrocada da 3ª Expedição] estavam á margem da estrada, em posições diferentes [decerto ridículas], para escarnio da sua gente que por ali transitava e terror dos que ainda tentassem inquieta-los na zona dos seus domínios [mais ou menos como um aviso, da mesma forma dos restos humanos que Hans Staden viu pendurados num poste, à entrada de uma taba dos tupinambás, em 1550, como um aviso de “olhe o que acontece com quem se mete conosco”]. Nada tiravam dos mortos. Roupas, calçados, dinheiro, tudo ainda ali se encontrava, nesses corpos ressequidos dos infelizes companheiros do bravo coronel Moreira Cesar. Em um dos esqueletos de oficiais havia quatro contos de réis em cédulas de duzentos mil réis [uma quantia grande!], que um soldado do 25° achou muito enroladas num lenço de chita, preso ao osso da canela e cujo dono não se pôde reconhecer. Só as armas e as munições os fanáticos tinham recolhido para defesa das suas posições”.

Dantas Barreto; Ultima expedição a Canudos; Porto Alegre; 1898; p 88-90

Pouco depois atingimos Pau-ferro, lugar onde o bravo coronel Tamarindo teve como túmulo uma estaca de favela, pois os jagunços, cortando o pau na altura da cintura de um homem, o despontaram [estranho sinônimo de “apontar”, que é o que ele quer dizer] e enfiaram no corpo do coronel fardado e calçado de botas, com o boné na cabeça foi assim que o encontramos e eu vi o esqueleto com os trapos do fardamento.

Nesse ponto foi a coluna atacada, pois aí existia uma guarda de jagunços para que não bulissem com a amostra com que eles pretendiam nos presentear (o cadáver empalado do coronel).”

Marcos Evangelista Vilela Junior; Canudos: memórias de um combatente; 1ª edição; MarcoZero; Brasilia-DF; 1988; p 62.

Estava confirmado! Foi uma derrota arrasadora e desmoralizante para o exército, que, por meio do tripúdio grotesco dos cadáveres de seus companheiros, tornou-se espetáculo permanente para a gente da região. É uma pena que ninguém tenha descrito com mais detalhe sobre como esse espetáculo tocou nos oficiais e soldados, exceto a breve menção de Dantas Barretos, mesmo porque assim ficaria feio para os militares assumirem que em Canudos eles apenas exerceram um ato de vingança típica, e lavaram a honra da instituição descumprindo a lei, o que não é nada honroso.

As piores expectativas se confirmaram. A desonra era muito mais grave e continuada. Alguém disse que escutou, certa feita, o General Arthur Oscar dizer que “não ficará um único pau em pé dentro de Canudos”, ou seja, um ser humano adulto masculino, além de mulheres que pegarem em armas, vivos, e da mesma forma como os jagunços não gastaram balas para matar os soldados aprisionados, eles também não gastariam balas matando jagunços aprisionados .

E quem se interpusesse a isso podia temer até pela própria vida. O que quase aconteceu com o jornalista e escritor Manuel Benício, correspondente do Jornal do Commercio de Pernambuco, que teve que abandonar o local antes de terminar o conflito.

(uma representação um tanto exagerada, mas no geral correta, de uma revista em quadrinhos, do que aconteceu na jornada de 27 de junho, da 4a Expedição, quando o 25o de Infantaria topou com os restos da expedição anterior. O corpo de Moreira Cesar nunca foi encontrado)

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