23 maio 2024

CANUDOS: A GUERRA INTERMINÁVEL – 8


 


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Eduardo Simões (a Margarida Guimarães)

A pior jornada do Exército Brasileiro e o pior dia da Campanha de Canudos (final)

 As baixas ainda não eram muitas, mas não havia mantimentos para o prosseguimento de uma operação de cerco e as tropas estavam exauridas pelo cansaço da marcha e a corrida de volta ao ponto de partida. O moral estava no chão. Em seu leito, Moreira César juntava as suas últimas forças para cobrar aos oficiais a continuação do ataque, quando lá pelas 4:45 h da madrugada do dia, 4 expirou, dando sossego a si mesmo e aos outros.

Sob o comando de Tamarindo, em acordo com o conjunto da oficialidade, tratou-se a disposição das tropas e começou-se a retirada, uma ação banal, quando comparada a outras feitas com sucesso, em condições muito piores: como a retirada do Cabo de São Roque, nas Invasões Holandesas, e a Retirada de Laguna, na Grande Guerra Platina ou Guerra do Paraguai. À vanguarda seguia a tropa sob o comando do major Cunha Mattos. Cuidados especiais eram dedicados ao transporte do corpo do comandante, dos feridos e à preservação da artilharia. Antes do alvorecer começou a retirada...

O peso da artilharia que travava uma retirada mais rápida. A custo de muito grito e muito toque de clarim, buscava-se impedir que a infantaria, mais leve, se desgarrasse e largasse a artilharia à sua sorte, mas quando os canudenses, concluídas as suas orações, saíram de seus esconderijos aos berros, e se atiraram de facão, foice, machado e porrete contra o que restou da tropa, não houve grito ou clarim que impedisse a debandada.

O primeiro a ser abandonado foi o corpo do coronel Moreira César, largado por sua guarda de honra, à beira da estrada! O coronel Tamarindo tentou aos gritos, de arma na mão, acalmar os soldados e dar um mínimo de organização à retirada: em vão – alguns aventam a possibilidade de ele, ao tentar ser mais convincente em parar aquela correria, ter sido alvejado por um de seus próprios soldados.

Todos os quadrados que foram precipitadamente formados pelos oficiais, tentando esboçar alguma reação, ao primeiro tiro se desfizeram com gente correndo em todas as direções.  Alguém ainda viu Tamarindo vivo, agonizante, pedindo para transferirem o comando da Coluna para Cunha Mattos. Mas cadê Cunha Mattos? Sumiu da vanguarda da coluna, levantando poeira... oficiais e soldados, à medida que corriam, iam jogando fora tudo que lhes estorvasse os movimentos: armas, quepes, adereços militares. Os gritos de guerra dos jagunços eram complementados pelos gritos de pânico dos soldados, clamando, pelos céus, pelos santos, pelas mães. Corriam desabalados, enquanto iam tropeçando nas pedras, caindo sobre espinheiros. Numa das mais genuínas e extravagantes expressões de pânico já registrada na história das guerras.

Mas o dia não foi todo perdido. Na retaguarda, um sergipano e capitão de artilharia José Agostinho Salomão da Rocha, montado a cavalo, deixa o grupo de artilharia, prestes a ser cercado, e vai buscar ajuda da infantaria. Percebendo a inutilidade do seu gesto, volta para junto de seus artilheiros para defender os canhões, que, junto com as insígnias simbolizam a honra de uma tropa. Ele cai junto com o cavalo varado por uma bala, e o sargento da artilharia Marcos Evangelista o vê ensanguentado e cambaleante, com um revólver na mão, praguejando, a se dirigir a uma das peças, enquanto lhe diz: “Eu já estou morto, e aonde fica a bateria aí fica o seu comandante, trata de salvar-se se puder”. O sargento Evangelista ainda o viu, junto a um pequeno grupo, sendo envolvido e retalhado pelos conselheiristas. Cobriu-se de honra num mar de desonra.

Todo mundo correu. Até o comandante do ponto de apoio da expedição em Monte Santo, coronel Agostinho Melo Sousa Menezes, ao ter notícia, pelos primeiros fugitivos que apareceram por lá, do que havia acontecido. Fez as malas e partiu, direto para Salvador, deixando a praça para ser defendida pelos doentes, que aí jaziam e pelos civis, que fazendo uso das armas e munição de reserva da expedição, preparam-se para a defesa. Mas a cidade nunca foi assaltada.

Quase tudo foi hediondo nesse dia, porém, o episódio mais infame de todos foi o massacre dos feridos, tantos os que estavam deitados em padiolas, como os que a custo caminhavam ou não podiam correr por causa de ferimento ou algum mal estar, todos eles, após alcançados pelos conselheiristas, foram bárbara e selvagemente mortos, a golpes de coronhadas, machado, facão e foices, talvez cegas, ou a golpes de pauladas. Moídos até a morte. Esse comportamento desumano, selvagem (no sentido pejorativo desse termo) e brutal foi motivo até de estrofes poéticas de gozação, como a constante no livro de Frederico Pernambucano, Guerra total de Canudos.

“Quando seu César pendeu/ E Tamarindo caiu:/ Só não fugiu quem morreu,/ Só não morreu quem fugiu” (sem página)

O desafio que Canudos fez para os militares brasileiros, com o massacre da 3ª expedição, foi a seguinte: “Aqui não se faz prisioneiros”. Restava saber se o Exército Brasileiro teria aprendido a lição, se sabia fazer uma guerra assim também ou se, apesar de tudo, se manteria dentro da lei....

O cômputo das baixas não foi tão alto assim: uns 253 mortos e 17 desaparecidos e uns 100 feridos em 1300 homens, exceto pela perda de equipamento que praticamente lotou Canudos da mais moderna munição e de armamento de infantaria de primeira, Quanto aos canhões, os conselheiristas não sabiam como os usar.

A notícia do desastre abalou o país e levou multidões furiosas, mas sem dúvidas diminutas, de uma classe média microscópica, e mais ainda elementos conscientes eivados de sentimento jacobinista, fantasiando vivenciar em nosso país os mesmos trâmites da República Francesa no auge de sua revolução. Não dirá Euclides da Cunha, no Sertões, entre irônico e convicto que “Canudos é a nossa Vendeia”?

Mas o principal, para os que ficaram fora, ou seja: todos os brasileiros que não participaram dessa expedição, mas que tinham algum interesse nela, em especial os pagadores de impostos, que financiavam os repetidos desastres, foi o que realmente acontecera em lá; qual fora de fato o tamanho da derrota, e até que ponto os donos do poder sabiam o que estavam fazendo, uma vez que Moreira César foi vendido à nação como o melhor comandante de tropas do exército. 

Fora isso havia muitos interesses precisando atenuar a gravidade da derrota.

Em primeiro lugar o grupo jacobinista, em especial os elementos ligados à oficialidade militar, que sonhavam com uma republica autoritária, no modelo do caudilhismo hispano americano. Os oficiais militares se consideravam, a elite intelectual do país, gente unida, organizada. Só eles tinham conhecimento e disciplina suficiente para determinar o rumo da república. Numa paródia do governo dos sábios prevista por Platão.

Em segundo lugar ao presidente-interino, Manoel Vitorino, ansioso por aplicar um golpe em Prudente de Morais, e que precisava dar boas notícias para que a sua presidência provisória evoluísse para permanente.

Em terceiro lugar o próprio Prudente de Morais, que já não gozava de boa reputação entre os militares jacobinistas, e ia pegar um rabo de foguete gerado e agravado pelo seu substituto, Manuel Vitorino, que não escondia mais sua predileção pelo cargo e pelos jacobinistas. Enquanto assistia as ruas entrarem em ebulição, e a violência dos sertões assomando as capitais de um país economicamente quebrado e politicamente polarizado.

Em quarto lugar o próprio exército tinha interesse em que essa derrota não fosse tão fragorosa, para evitar desmoralização para a instituição, o que, junto com as despesas das últimas revoltas, fazia reduzir a parte do orçamento que lhe cabia. “Pobre” e “desmoralizado”, era isso que aguardava ao exército. Os próximos grandes investimentos em defesa se darão na Marinha, a queridinha das elites até a Revolta dos Marinheiros, de 1910. O buraco era mais embaixo.

É claro que os sobreviventes foram imediatamente levados para uma unidade militar próxima, e lá interrogados em detalhes sobre o que realmente acontecera, afinal, se fossem preparar uma 4ª expedição esta não podia repetir os erros das anteriores, e é claro que eles contaram muitos detalhes que ofendiam vigorosamente os interesses acima citados, e embora alguma coisa sempre vazasse para o público, que apontava para uma vergonhosa derrota, muitos detalhes não foram revelados na época – Segundo um autor americano Robert M. Levine, em seu livro Vale of Tears Revisiting the Canudos Massacre in Northeastern Brazil, 1893—1897; University of California Press; London; 1992, os relatos dos sobreviventes da expedição só foram disponibilizados em 1990. Avisem aos pesquisadores brasileiros, se é que isso lhes importa...

É claro que o quadro de horror que eles presenciaram, fizeram o alto-comando do exército, e comandantes de todas as unidades do exército nacional, em todo território nacional, empalidecerem e engolirem um seco, afinal uma coisa ficara muito claro: o exército fora gravemente humilhado, e, além disso e muito pior do que isso, fora cruel e selvagem e ignobilmente massacrado. E uma convicção majoritária alevantou-se da mais profunda e ardente ira dos que souberam os detalhes do massacre, e aquleles que pleiteavam um solução dentro da lei, dentro e fora do exército, foram levados de roldão a partir de duas decisões inarredáveis: esses fatos tão escandalosos e desmoralizantes não podem chegar ao grande público e, pela honra do Exército Brasileiro, A EXPEDIÇÃO MOREIRA CÉSAR PRECISA SER EXEMPLARMENTE VINGADA

Para mim a terrível sorte de Canudos foi decidida nesse momento.

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