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Eduardo Simões (a Margarida Guimarães)
A pior jornada do
Exército Brasileiro e o pior dia da Campanha de Canudos (final)
Sob o comando de Tamarindo, em acordo com o conjunto da
oficialidade, tratou-se a disposição das tropas e começou-se a retirada, uma
ação banal, quando comparada a outras feitas com sucesso, em condições muito
piores: como a retirada do Cabo de São Roque, nas Invasões Holandesas, e a
Retirada de Laguna, na Grande Guerra Platina ou Guerra do Paraguai. À vanguarda
seguia a tropa sob o comando do major Cunha Mattos. Cuidados especiais eram
dedicados ao transporte do corpo do comandante, dos feridos e à preservação da
artilharia. Antes do alvorecer começou a retirada...
O peso da artilharia que travava uma retirada mais rápida. A
custo de muito grito e muito toque de clarim, buscava-se impedir que a
infantaria, mais leve, se desgarrasse e largasse a artilharia à sua sorte, mas
quando os canudenses, concluídas as suas orações, saíram de seus esconderijos
aos berros, e se atiraram de facão, foice, machado e porrete contra o que
restou da tropa, não houve grito ou clarim que impedisse a debandada.
O primeiro a ser abandonado foi o corpo do coronel Moreira
César, largado por sua guarda de honra, à beira da estrada! O coronel Tamarindo tentou aos gritos, de arma na mão, acalmar os
soldados e dar um mínimo de organização à retirada: em vão – alguns aventam a
possibilidade de ele, ao tentar ser mais convincente em parar aquela
correria, ter sido alvejado por um de seus próprios soldados.
Todos os quadrados que foram precipitadamente formados pelos
oficiais, tentando esboçar alguma reação, ao primeiro tiro se desfizeram com gente correndo em
todas as direções. Alguém ainda viu
Tamarindo vivo, agonizante, pedindo para transferirem o comando da Coluna para Cunha
Mattos. Mas cadê Cunha Mattos? Sumiu da vanguarda da coluna, levantando
poeira... oficiais e soldados, à medida que corriam, iam jogando fora tudo que
lhes estorvasse os movimentos: armas, quepes, adereços
militares. Os gritos de guerra dos
jagunços eram complementados pelos gritos de pânico dos soldados, clamando, pelos
céus, pelos santos, pelas mães. Corriam desabalados, enquanto iam tropeçando
nas pedras, caindo sobre espinheiros. Numa das mais genuínas e extravagantes
expressões de pânico já registrada na história das guerras.
Mas o dia não foi todo perdido. Na retaguarda, um sergipano e
capitão de artilharia José Agostinho Salomão da Rocha, montado a cavalo, deixa
o grupo de artilharia, prestes a ser cercado, e vai buscar ajuda da infantaria.
Percebendo a inutilidade do seu gesto, volta para junto de seus artilheiros
para defender os canhões, que, junto com as insígnias simbolizam a honra de uma
tropa. Ele cai junto com o cavalo varado por uma bala, e o sargento da
artilharia Marcos Evangelista o vê ensanguentado e cambaleante, com um revólver
na mão, praguejando, a se dirigir a uma das peças, enquanto lhe diz: “Eu já estou
morto, e aonde fica a bateria aí fica o seu comandante, trata de salvar-se se
puder”. O sargento Evangelista ainda o viu, junto a um pequeno grupo, sendo
envolvido e retalhado pelos conselheiristas. Cobriu-se de honra num mar de
desonra.
Todo mundo correu. Até o comandante do ponto de apoio da
expedição em Monte Santo, coronel Agostinho Melo Sousa Menezes, ao ter notícia,
pelos primeiros fugitivos que apareceram por lá, do que havia acontecido. Fez
as malas e partiu, direto para Salvador, deixando a praça para ser defendida
pelos doentes, que aí jaziam e pelos civis, que fazendo uso das armas e munição
de reserva da expedição, preparam-se para a defesa. Mas a cidade nunca foi
assaltada.
Quase tudo foi hediondo nesse dia, porém, o episódio mais infame
de todos foi o massacre dos feridos, tantos os que estavam deitados em padiolas,
como os que a custo caminhavam ou não podiam correr por causa de ferimento ou
algum mal estar, todos eles, após alcançados pelos conselheiristas, foram
bárbara e selvagemente mortos, a golpes de coronhadas, machado, facão e foices, talvez cegas, ou a golpes de pauladas. Moídos até a morte. Esse
comportamento desumano, selvagem (no sentido pejorativo desse termo) e brutal foi
motivo até de estrofes poéticas de gozação, como a constante no livro de
Frederico Pernambucano, Guerra total de
Canudos.
“Quando seu César pendeu/ E Tamarindo caiu:/ Só não fugiu
quem morreu,/ Só não morreu quem fugiu” (sem página)
O desafio que Canudos fez para os militares brasileiros, com o
massacre da 3ª expedição, foi a seguinte: “Aqui não se faz prisioneiros”.
Restava saber se o Exército Brasileiro teria aprendido a lição, se sabia fazer
uma guerra assim também ou se, apesar de tudo, se manteria dentro da lei....
O cômputo das baixas não foi tão alto assim: uns 253 mortos e 17
desaparecidos e uns 100 feridos em 1300 homens, exceto pela perda de
equipamento que praticamente lotou Canudos da mais moderna munição e de
armamento de infantaria de primeira, Quanto aos canhões, os conselheiristas não sabiam como os usar.
A notícia do desastre abalou o país e levou multidões
furiosas, mas sem dúvidas diminutas, de uma classe média microscópica, e mais
ainda elementos conscientes eivados de sentimento jacobinista, fantasiando
vivenciar em nosso país os mesmos trâmites da República Francesa no auge de sua
revolução. Não dirá Euclides da Cunha, no Sertões,
entre irônico e convicto que “Canudos é a nossa Vendeia”?
Mas o principal, para os que ficaram fora, ou seja: todos os brasileiros que não participaram dessa expedição, mas que tinham algum interesse nela, em especial os pagadores de impostos, que financiavam os repetidos desastres, foi o que realmente acontecera em lá; qual fora de fato o tamanho da derrota, e até que ponto os donos do poder sabiam o que estavam fazendo, uma vez que Moreira César foi vendido à nação como o melhor comandante de tropas do exército.
Fora isso havia muitos interesses
precisando atenuar a gravidade da derrota.
Em primeiro lugar o grupo jacobinista, em especial os
elementos ligados à oficialidade militar, que sonhavam com uma republica
autoritária, no modelo do caudilhismo hispano americano. Os oficiais militares se consideravam, a elite intelectual do país, gente unida,
organizada. Só eles tinham conhecimento e disciplina suficiente para
determinar o rumo da república. Numa paródia do governo dos sábios prevista por
Platão.
Em segundo lugar ao presidente-interino, Manoel Vitorino,
ansioso por aplicar um golpe em Prudente de Morais, e que precisava dar boas
notícias para que a sua presidência provisória evoluísse para permanente.
Em terceiro lugar o próprio Prudente de Morais, que já não
gozava de boa reputação entre os militares jacobinistas, e ia pegar um rabo de
foguete gerado e agravado pelo seu substituto, Manuel Vitorino, que não
escondia mais sua predileção pelo cargo e pelos jacobinistas. Enquanto assistia
as ruas entrarem em ebulição, e a violência dos sertões assomando as capitais
de um país economicamente quebrado e politicamente polarizado.
Em quarto lugar o próprio exército tinha interesse em que
essa derrota não fosse tão fragorosa, para evitar desmoralização para a
instituição, o que, junto com as despesas das últimas revoltas,
fazia reduzir a parte do orçamento que lhe cabia. “Pobre” e “desmoralizado”,
era isso que aguardava ao exército. Os próximos grandes
investimentos em defesa se darão na Marinha, a queridinha das elites até a
Revolta dos Marinheiros, de 1910. O buraco era mais embaixo.
É claro que os sobreviventes foram imediatamente levados para
uma unidade militar próxima, e lá interrogados em detalhes sobre o que
realmente acontecera, afinal, se fossem preparar uma 4ª expedição esta não
podia repetir os erros das anteriores, e é claro que eles contaram muitos
detalhes que ofendiam vigorosamente os interesses acima citados, e embora
alguma coisa sempre vazasse para o público, que apontava para uma vergonhosa
derrota, muitos detalhes não foram revelados na época – Segundo um autor
americano Robert M. Levine, em seu livro Vale of Tears Revisiting the Canudos
Massacre in Northeastern Brazil, 1893—1897; University of California Press;
London; 1992, os relatos dos sobreviventes da expedição só foram
disponibilizados em 1990. Avisem aos pesquisadores brasileiros, se é que isso lhes
importa...
É claro que o quadro de horror que eles presenciaram, fizeram
o alto-comando do exército, e comandantes de todas as unidades do exército
nacional, em todo território nacional, empalidecerem e engolirem um seco,
afinal uma coisa ficara muito claro: o exército fora gravemente humilhado, e,
além disso e muito pior do que isso, fora cruel e selvagem e ignobilmente massacrado.
E uma convicção majoritária alevantou-se da mais profunda e ardente ira dos que
souberam os detalhes do massacre, e aquleles que pleiteavam um solução dentro da lei, dentro e fora do exército, foram levados de roldão a partir de duas decisões inarredáveis: esses fatos tão
escandalosos e desmoralizantes não podem chegar ao grande público e, pela honra
do Exército Brasileiro, A EXPEDIÇÃO MOREIRA CÉSAR PRECISA SER EXEMPLARMENTE
VINGADA
Para mim a terrível sorte de Canudos foi decidida nesse
momento.

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