https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/2b/Coronel_Moreira_Cesar.jpg
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(Baixinho, de compleição estreita e frágil, musculatura flácida e pouco desenvolvida, um olhar de tristeza interminável como o de um homem aparentemente desfibrado - um "peixe morto" como dizem alguns - porém capaz da mais fria e planejada crueldade, além de explosões de ira desconcertantes, assim foi o Coronel Moreira César, que, junto com Antônio Conselheiro, disputa o título de personagem mais esquisito desse estranho e trágico momento de nossa história)
Eduardo Simões (a Margarida Guimarães)
A pior jornada do
Exército Brasileiro e o pior dia da Campanha de Canudos (início)
No dia 3 de março de 1897, o coronel Antônio Moreira César
(1850-1897), um militar aclamado nos meios militares e cultos, da nossa pequena
elite republicana nas grandes cidades, assume posição de ataque em frente ao
povoado de Canudos. Ele era famoso sim, tanto pelo sucesso de suas intervenções
como pelos métodos controvertidos que usava para alcançar seus objetivos.
Como interventor em Desterro, atual Florianópolis, SC,
secundou a ação do general Ewerton Prado em Curitiba, PR, quando ambos afogaram em
sangue as pretensões dos federalistas nesses dois Estados, entretanto é preciso
ter cuidado pois alguns desavisados, Como um certo Roberto Mansilla, o “Che”, do
esquerdaonline.com.br porque associam o apelido sertanejo de Moreira Cesar, o “Corta-cabeças”,
às degolas havidas na Revolta Federalista no Rio Grande do Sul. ATENÇÃO:
Moreira César não participará dos combates no RS, mas antes se notabilizará
pelo fuzilamento indiscriminado de culpados, suspeitos e inocentes sob a sua
guarda, uns 185, na Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, em Desterro, atual
Florianópolis.
Mas é bom que se saiba, que antes dessas atrocidades ele escrevera,
em 1892, um manual para atualizar a formação dos militares brasileiros: Instruções para a infantaria do exército
brasileiro, que ele não seguiu no ataque a Canudos, e um outro sobre o uso
correto da moderna artilharia, se não me engano. Ele, portanto, não era apenas
uma mente doentia e psicótica, embora também o fosse, mas um especialista reconhecido
na sua área, que por alguma razão, não usou no campo de batalha as técnicas de
combate, que aconselhava em seu livro.
Portanto, dizer que ele foi designado a Canudos por causa de
sua invulgar brutalidade ou por seu prestígio na ala jacobinistas, republicanos
radicais, do exército, não é fazer justiça aos fatos, embora ainda seja um
mistério o porquê de ele ter cometido tão clamorosos nessa campanha,
sendo o maior deles: subestimar grosseiramente a capacidade de combate dos
sertanejos de Canudos – ficou famosa a bazófia que ele disparou ao chegar a
Salvador: “a única coisa que me preocupa é o Conselheiro já ter fugido com a
sua gente”. ERRO CRASSO. Mas também ainda há muita coisa que não sabemos sobre
ele, e essa expedição em documentos reservados
do exército.
Entre os erros públicos e notórios podemos ressaltar:
1º - Ele, aparentemente, não se preocupou em azeitar a sua
forma de comando com os outros chefes de unidades, para torna-los mais próximos
de seu estilo, ou talvez o seu temperamento autoritário e instável não
suportasse qualquer questionamento. “Obedeça
e não me aborreça”, bem poderia ser o seu lema. A impressão que se tem ao ler
Cunha, que lhe foi contemporâneo, é que ele era um vulcão de autoritarismo,
sempre pronto a entrar em erupção à menor contrariedade.
2º - Sua saúde física e mental apresentava sinais
preocupantes de fragilidade, que ninguém quis perceber, e tomar cuidados
adequados, como garantir uma força de reserva para qualquer eventualidade.
Ele também estava obcecado por temores conspiratórios, pois recusara a ajuda de
mais tropas, uma vez que acreditava que Canudos era apenas uma manobra
diversionista dos monarquistas, que esperavam o exército concentrar forças em
Canudos, para então deflagrar uma revolta nas capitais – O governador da Bahia
na época, Luiz Vianna, afirma isso, confirmado, posteriormente por seu filho.
Isso põe por terra uma tese cara à esquerda, de que a alusão a uma conspiração
monarquista pela imprensa, era apenas um estratagema para encobrir a
incompetência de Moreira César e justificar o massacre de Canudos. Ela já havia antes disso.
3º - Não procurou se informar com ninguém, sobre as
dificuldades da empreitada, embora já houvesse a experiência de duas expedições
anteriores – uma delas muito bem montada e comandada: a do major Febrônio de
Brito – sobre o adversário e as características do terreno da luta. As
prospecções feitas por seu grupo de engenharia, eram sempre no momento, às pressas.
Ele não conseguia conter a sua ansiedade. Mas enquanto ele desdenhava o
adversário, este fazia infiltrar olheiros entre os seus
homens.
4º - Na sua ansiedade atropelava os planos, sobrecarregava a
tropa. Quando alcançou Canudos em 3 de março, após marchar 19 km sob o sol
inclemente do sertão, deixando a tropa cansada, faminta e
sedenta, uma vez que ele não tomara qualquer providência séria, quanto ao
abastecimento dos soldados, dependendo da ajuda fortuita de um ou outro
fazendeiro local. Apesar do combinado prévio, de atacar Canudos no alvorecer do
dia seguinte, 4 de março, às 11 horas da manhã, do dia 3, tomado pela autoconfiança,
diz: “quero almoçar hoje em Canudos” e ordena um ataque, muito mal planejado e
contrário às regras mais básicas de uma operação dessa natureza – ele também
esperava que os soldados se abastecessem de comida e água com o saque de
Canudos. Os que tentaram fazer isso, pagaram com a vida.
5º - Ordenou uma carga de baioneta pela infantaria, que por
causa disso levou pouca munição nas cartucheiras, que, por não terem os
jagunços se apavorado ante a muralha de aço que avançava, logo se viram
engolidos pelas casas, em posição desvantajosa, levando tiros a rodo e sem
munição. A debandada era inevitável.
6º - Todos os soldados partiram. Ele não deixou nenhuma reserva para a eventualidade de um contratempo.
7º - Contra o que recomenda a milenar ciência da guerra básica,
e suas próprias Instruções, ele ordena uma carga de cavalaria contra o casario. Foi um desastre!
8º - Vendo a tropa recuar ele só pensou numa coisa: “os
soldados estão se assustando por nada”, e dizendo para seus oficiais, “vou dar
brios a essa gente”, disparou a cavalo na direção do front, numa área que era
batida ao mesmo tempo pelas balas dos jagunços e das duas pinças da infantaria
dele, que nesse momento, junto às igrejas, estavam acertando aos jagunços e se acertando
mutuamente. Um caos completo.
9º - O preço de sua temeridade foi ser alcançado por uma bala,
na altura do baixo ventre, que o fez recuar, semimorto, na direção dos canhões.
Sem condições, passa imediatamente o comando ao coronel baiano Pedro Nunes
Batista Ferreira Tamarindo (1837-1897), do 9º Btl de Infantaria.
A partir daqui o relato “oficial” da expedição, que chegou a
nós, passa a ser feito pelo controvertido major Raphael Augusto da Cunha Mattos
(1850-1907), do 7º Btl de Infantaria. Segundo ele, quando Tamarindo ouviu a
notícia de sua nomeação a comandante da tropa, soltou uma palavrão, pois não
esperava aquela responsabilidade, embora alguns desconfiem que, de fato, quem
pronunciou o palavrão, se comportou “mal” e disse famosa frase, posta na boca de
Tamarindo, “é tempo de murici, cada um cuide de si”, na verdade teria sido o
próprio Cunha Mattos.
Outra coisa misteriosa é sobre o tiro que matou Moreira
César. Segundo o Major Emídio Dantas Barreto, que esteve na 3ª expedição, à
frente do 25º Btl de Infantaria, o ferimento foi de uma bala de um “fuzil moderno”
(Acidentes da guerra – operações de
Canudos; Rio-grandense; 1905; p 128), o que aponta para um acidente, ou “fogo
amigo”, no extremo para a vingança pessoal de algum soldado, ressentido pela
disciplina férrea e humilhante do coronel, embora Costa e Xexéo, em pesquisa mais
recente (2024) afirmem que esta é “uma tese nunca comprovada”, sem falar que
também sabemos que os canudenses tivessem alguns desses fuzis, abandonados
pelas expedições anteriores ou adquiridos ilegalmente da polícia. Como era o
estilo de comando de Moreira? Seus soldados o odiariam a ponto de atentar
contra ele? (1)
Nota
1 – Há um episódio que marca bem como era esse tipo de
relação, e a partir dele diga a si mesmo, caro leitor, se os soldados tinham ou
não pretextos para odiar Moreira César. À véspera de marchar contra Canudos,
não sei se em Queimadas ou Monte Santo, vários soldados começaram a reclamar de
doenças e sintomas que os impediria de marchar com a tropa. Furioso, César esperou
o momento certo, e mandou o clarim tocar “formar”. Quando todos estavam
formados nas fileiras habituais, ele, falando lentamente, contendo-se, disse
mais ou menos o seguinte: “Aqueles que estiverem se sentindo mal deem um passo
à frente, e depois vão ao médico para fazer um consulta. Agora aquele que o
médico não detectar moléstia alguma, seguirá direto para o fuzilamento”.
Conhecendo o apego do coronel por esse tipo de execução, ninguém deu um passo à
frente. “Tão vendo, disse exultante, todos estão prontos pra marchar. Toque
marche”. E foram embora.

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