23 maio 2024

CANUDOS: GUERRA INTERMINÁVEL – 7


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(Baixinho, de compleição estreita e frágil, musculatura flácida e pouco desenvolvida, um olhar de tristeza interminável como o de um homem aparentemente desfibrado - um "peixe morto" como dizem alguns - porém capaz da mais fria e planejada crueldade, além de explosões de ira desconcertantes, assim foi o Coronel Moreira César, que, junto com Antônio Conselheiro, disputa o título de personagem mais esquisito desse estranho e trágico momento de nossa história)

Eduardo Simões (a Margarida Guimarães)

A pior jornada do Exército Brasileiro e o pior dia da Campanha de Canudos (início)

No dia 3 de março de 1897, o coronel Antônio Moreira César (1850-1897), um militar aclamado nos meios militares e cultos, da nossa pequena elite republicana nas grandes cidades, assume posição de ataque em frente ao povoado de Canudos. Ele era famoso sim, tanto pelo sucesso de suas intervenções como pelos métodos controvertidos que usava para alcançar seus objetivos.

Como interventor em Desterro, atual Florianópolis, SC, secundou a ação do general Ewerton Prado em Curitiba, PR, quando ambos afogaram em sangue as pretensões dos federalistas nesses dois Estados, entretanto é preciso ter cuidado pois alguns desavisados, Como um certo Roberto Mansilla, o “Che”, do esquerdaonline.com.br porque associam o apelido sertanejo de Moreira Cesar, o “Corta-cabeças”, às degolas havidas na Revolta Federalista no Rio Grande do Sul. ATENÇÃO: Moreira César não participará dos combates no RS, mas antes se notabilizará pelo fuzilamento indiscriminado de culpados, suspeitos e inocentes sob a sua guarda, uns 185, na Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim, em Desterro, atual Florianópolis.

Mas é bom que se saiba, que antes dessas atrocidades ele escrevera, em 1892, um manual para atualizar a formação dos militares brasileiros: Instruções para a infantaria do exército brasileiro, que ele não seguiu no ataque a Canudos, e um outro sobre o uso correto da moderna artilharia, se não me engano. Ele, portanto, não era apenas uma mente doentia e psicótica, embora também o fosse, mas um especialista reconhecido na sua área, que por alguma razão, não usou no campo de batalha as técnicas de combate, que aconselhava em seu livro.

Portanto, dizer que ele foi designado a Canudos por causa de sua invulgar brutalidade ou por seu prestígio na ala jacobinistas, republicanos radicais, do exército, não é fazer justiça aos fatos, embora ainda seja um mistério o porquê de ele ter cometido tão clamorosos nessa campanha, sendo o maior deles: subestimar grosseiramente a capacidade de combate dos sertanejos de Canudos – ficou famosa a bazófia que ele disparou ao chegar a Salvador: “a única coisa que me preocupa é o Conselheiro já ter fugido com a sua gente”. ERRO CRASSO. Mas também ainda há muita coisa que não sabemos sobre ele, e essa expedição em documentos reservados do exército.

Entre os erros públicos e notórios podemos ressaltar:

1º - Ele, aparentemente, não se preocupou em azeitar a sua forma de comando com os outros chefes de unidades, para torna-los mais próximos de seu estilo, ou talvez o seu temperamento autoritário e instável não suportasse qualquer questionamento. “Obedeça e não me aborreça”, bem poderia ser o seu lema. A impressão que se tem ao ler Cunha, que lhe foi contemporâneo, é que ele era um vulcão de autoritarismo, sempre pronto a entrar em erupção à menor contrariedade.

2º - Sua saúde física e mental apresentava sinais preocupantes de fragilidade, que ninguém quis perceber, e tomar cuidados adequados, como garantir uma força de reserva para qualquer eventualidade. Ele também estava obcecado por temores conspiratórios, pois recusara a ajuda de mais tropas, uma vez que acreditava que Canudos era apenas uma manobra diversionista dos monarquistas, que esperavam o exército concentrar forças em Canudos, para então deflagrar uma revolta nas capitais – O governador da Bahia na época, Luiz Vianna, afirma isso, confirmado, posteriormente por seu filho. Isso põe por terra uma tese cara à esquerda, de que a alusão a uma conspiração monarquista pela imprensa, era apenas um estratagema para encobrir a incompetência de Moreira César e justificar o massacre de Canudos. Ela já havia antes disso.

3º - Não procurou se informar com ninguém, sobre as dificuldades da empreitada, embora já houvesse a experiência de duas expedições anteriores – uma delas muito bem montada e comandada: a do major Febrônio de Brito – sobre o adversário e as características do terreno da luta. As prospecções feitas por seu grupo de engenharia, eram sempre no momento, às pressas. Ele não conseguia conter a sua ansiedade. Mas enquanto ele desdenhava o adversário, este fazia infiltrar olheiros entre os seus homens.

4º - Na sua ansiedade atropelava os planos, sobrecarregava a tropa. Quando alcançou Canudos em 3 de março, após marchar 19 km sob o sol inclemente do sertão, deixando a tropa cansada, faminta e sedenta, uma vez que ele não tomara qualquer providência séria, quanto ao abastecimento dos soldados, dependendo da ajuda fortuita de um ou outro fazendeiro local. Apesar do combinado prévio, de atacar Canudos no alvorecer do dia seguinte, 4 de março, às 11 horas da manhã, do dia 3, tomado pela autoconfiança, diz: “quero almoçar hoje em Canudos” e ordena um ataque, muito mal planejado e contrário às regras mais básicas de uma operação dessa natureza – ele também esperava que os soldados se abastecessem de comida e água com o saque de Canudos. Os que tentaram fazer isso, pagaram com a vida.

5º - Ordenou uma carga de baioneta pela infantaria, que por causa disso levou pouca munição nas cartucheiras, que, por não terem os jagunços se apavorado ante a muralha de aço que avançava, logo se viram engolidos pelas casas, em posição desvantajosa, levando tiros a rodo e sem munição. A debandada era inevitável.

6º - Todos os soldados partiram. Ele não deixou nenhuma reserva para a eventualidade de um contratempo. 

7º - Contra o que recomenda a milenar ciência da guerra básica, e suas próprias Instruções, ele ordena uma carga de cavalaria contra o casario. Foi um desastre!

8º - Vendo a tropa recuar ele só pensou numa coisa: “os soldados estão se assustando por nada”, e dizendo para seus oficiais, “vou dar brios a essa gente”, disparou a cavalo na direção do front, numa área que era batida ao mesmo tempo pelas balas dos jagunços e das duas pinças da infantaria dele, que nesse momento, junto às igrejas, estavam acertando aos jagunços e se acertando mutuamente. Um caos completo.

9º - O preço de sua temeridade foi ser alcançado por uma bala, na altura do baixo ventre, que o fez recuar, semimorto, na direção dos canhões. Sem condições, passa imediatamente o comando ao coronel baiano Pedro Nunes Batista Ferreira Tamarindo (1837-1897), do 9º Btl de Infantaria.

A partir daqui o relato “oficial” da expedição, que chegou a nós, passa a ser feito pelo controvertido major Raphael Augusto da Cunha Mattos (1850-1907), do 7º Btl de Infantaria. Segundo ele, quando Tamarindo ouviu a notícia de sua nomeação a comandante da tropa, soltou uma palavrão, pois não esperava aquela responsabilidade, embora alguns desconfiem que, de fato, quem pronunciou o palavrão, se comportou “mal” e disse famosa frase, posta na boca de Tamarindo, “é tempo de murici, cada um cuide de si”, na verdade teria sido o próprio Cunha Mattos.

Outra coisa misteriosa é sobre o tiro que matou Moreira César. Segundo o Major Emídio Dantas Barreto, que esteve na 3ª expedição, à frente do 25º Btl de Infantaria, o ferimento foi de uma bala de um “fuzil moderno” (Acidentes da guerra – operações de Canudos; Rio-grandense; 1905; p 128), o que aponta para um acidente, ou “fogo amigo”, no extremo para a vingança pessoal de algum soldado, ressentido pela disciplina férrea e humilhante do coronel, embora Costa e Xexéo, em pesquisa mais recente (2024) afirmem que esta é “uma tese nunca comprovada”, sem falar que também sabemos que os canudenses tivessem alguns desses fuzis, abandonados pelas expedições anteriores ou adquiridos ilegalmente da polícia. Como era o estilo de comando de Moreira? Seus soldados o odiariam a ponto de atentar contra ele? (1)

Nota

1 – Há um episódio que marca bem como era esse tipo de relação, e a partir dele diga a si mesmo, caro leitor, se os soldados tinham ou não pretextos para odiar Moreira César. À véspera de marchar contra Canudos, não sei se em Queimadas ou Monte Santo, vários soldados começaram a reclamar de doenças e sintomas que os impediria de marchar com a tropa. Furioso, César esperou o momento certo, e mandou o clarim tocar “formar”. Quando todos estavam formados nas fileiras habituais, ele, falando lentamente, contendo-se, disse mais ou menos o seguinte: “Aqueles que estiverem se sentindo mal deem um passo à frente, e depois vão ao médico para fazer um consulta. Agora aquele que o médico não detectar moléstia alguma, seguirá direto para o fuzilamento”. Conhecendo o apego do coronel por esse tipo de execução, ninguém deu um passo à frente. “Tão vendo, disse exultante, todos estão prontos pra marchar. Toque marche”. E foram embora.

A principal fonte desse artigo foi o artigo de Cristiane Costa e José Antônio Xexéo; Segredos da Guerra de Canudos (1896-1897) telegramas criptografados sobre o fracasso da expedição Moreira César são finalmente decifrados; Revista de História; USP; nº 183 (  https://www.revistas.usp.br/revhistoria/issue/view/13229

(Desequilibrado mental e assassino. A litogravura mostra o momento em que um grupo de militares, entre os quais o capitão Moreira César matando a facadas o jornalista Apulcro de Castro, dono do jornal Corsário, no dia 26 de outubro de 1883, em virtude de algumas matérias difamatórias contra alguns personalidades das forças armadas. O assassinato foi perpetrado quase defronte a Delegacia de Polícia, aonde o jornalista foi pedir proteção, e ao lado deste, na carruagem, estava um oficial superior, o Capitão Ávila, que lá fora como para reforçar essa garantia. Nada disso valeu, e Castro foi morto ali mesmo – segundo Euclides da Cunha a primeira facada (foram 7 nas costas, 1 na boca e outra do lado) foi a do próprio Moreira César. Sua punição, após o crime, foi apenas a transferência para o Mato Grosso, pois o crime gozou de uma certa simpatia de Pedro II, que, junto com a Família Imperial, fora também alcançado pelas injúrias do Corsário, ele, portanto, manteve a patente e a carreira militar. De lá Moreira César veio ao Rio para ajudar a colocar a última pá de cal na monarquia - ontem assassinava-se jornalistas, hoje cria-se Ministério da Verdade para determinar o que é verdade ou não, PELA ÓTICA DO GOVERNO LULA)

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