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1893
Episodio das tabuletas
Entre 1890 e 1891, a política do estado indutor do desenvolvimento, de Rui Barbosa, feita com o intuito de industrializar o Brasil, acabou em um enorme fracasso econômico, com uma forte desvalorização da moeda e uma carestia generalizada. O caos político gerado pela derrubada da monarquia, agravada pela crise de autoridade púlbica, em especial no recém-criado Estado da Bahia, além dos tradicionais desvios de verbas públicas nas prefeituras, ocasionou um aumento dos impostos municipais na área da comarca de Itapicuru, no nordeste da Bahia, sede de um dos mais poderosos clãs do estado: o do Barão de Jeremoabo.
No dia 10 de abril de
1893: umas 20 pessoas, comandadas por um comerciante local, José Honorato Souza Neto, em grande
agitação, quebrou as tabuletas onde estavam afixados os novos impostos para
quem quisesse negociar na feira de Soure.
José Honorato fazia oposição ao intendente (prefeito) local, o senhor Francisco Dantas, politicamente
ligado a Jeremoabo, que por sua vez pertencia à corrente política gonçalvista, naquele momento na
oposição estadual.
No dia 17 de abril
houve nova manifestação, dessa vez com mais gente, mas também apareceram as
autoridades municipais (intendente, comissário de polícia, juiz e promotor), para
acalmar as cosias e possibilitar o funcionamento norma da feira.
No dia 24 de abril,
já são umas 500 pessoas com armas de fogo, facão e cacetes, mais os índios Kiriris
de Mirandela, com arcos e flechas, fazendo agitação, berrando provocações e o
não pagamento dos impostos, até a chegada de uma tropa da polícia, quando há
uma debandada geral.
No levantamento das responsabilidades, é apurado que, Conselheiro
e os seus não participaram da desordem, e que no dia 17 ele teria, inclusive, atuado
no sentido de evitar violências contra as autoridades, sendo liberado do
processo. Mas também é dito que ele em suas andanças estimulava o não pagamento
dos impostos, juntos com os políticos da corrente nascente de Luis Viana (1), ligado à situação estadual, que queriam ver essa região em
dificuldades, pois era área de influência de seu grande adversário político: o
Barão de Jeremoabo. Surge uma questão: essa ação contra os impostos, tão ligada
ao Conselheiro e sua gente, nasceu dele mesmo ou foi contágio dos vianistas?
Como a debandada foi geral, quando a polícia chegou,
conselheiristas e vianistas se misturaram, isso deve ter sido visto, na hora,
como um sinal de “culpa no cartório”, afinal “quem não deve não teme”. E a
força policial botou-lhe atrás, sem contar que Conselheiro de fato proclamava contra
os impostos, até aí só ‘crime de opinião’, além de sua gente mais pobre
despertar um certo sentimento de ofensa e crueldade na força policial: “quem
esses mortos de fome pensam que são?”
Em 26 de maio, na
localidade de Masseté, ocorre um
entrevero entre conselheiristas e uma força de policial, em torno de 30-35
homens, comandados pelo Tenente Virgílio de Almeida, por aqueles andarem muito
ativos na propaganda contra os impostos municipais em vários municípios – por
causa de Soure não foi, pois esta quebradeira já distava um mês, e Conselheiro nem
foi citado. Fuga vergonhosa dos policiais.
Embora, mais tarde, Conselheiro diga ao frei João Evangelista
Marciano que em Masseté houve “morte de um lado e do outro”, isso não deve ter acontecido,
pois Conselheiro foi deixado em paz por mais 3 anos, e as autoridades e jornais
da época não citam esse confronto, como tendo alguma gravidade. Os dados sobre Masseté
são escassos e confusos.
Obs: José Honorato S Neto, foi preso, processado e condenado
por sedição, num tribunal de primeira instância, pelo juiz Reginaldo Alves
Melo, de Itapicuru, ligado a Jeremoabo. Seu advogado, porém, era um vianista, o
Sr. Francisco do Passo, que apelou para o Tribunal Superior de Justiça, que era
presidido justamente por Luis Viana. Esse tribunal não só concedeu o habeas
corpus pedido, como anulou a pena e extinguiu o processo.
Não parece o atual STF?
Não dá para entender Canudos desvinculado da política que se
praticava no Brasil, e principalmente na Bahia, durante esse período, que não é
muito diferente da atual. É aí que está a melhor compreensão desse fenômeno ou
dessa tragédia.
Nota:
1 – As correntes de José
Gonçalves da Silva e de Luis Viana, nasceram de um desentendimento entre
esses dois chefes políticos dentro do Partido Republicano Federalista. Gonçalves
defendia o golpe de Deodoro, enquanto Viana era contra.
Fontes:
Canudos: cartas para o
barão; 2ª edição; Org.
Consuelo Novais Sampaio; EDUSP; São Paulo; 2001
A importância dos
acervos judiciais para a pesquisa histórica: um percurso, Monica D Dantas – Filipe N Ribeiro; LexCult;
vol 4, nº2, mai./ago. 2020, Rio de Janeiro, p 47-87.

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