05 setembro 2024

FLORENCE BAKER VENCEU

 


https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/8b/Lady-Florence-Baker.jpg

https://en.wikipedia.org/wiki/Florence_Baker

No confuso contexto da Revolução Húngara de 1848, contra a dominação austríaca associada a porções da elite húngara, um grupo de guerrilheiros romenos, que aproveitaram para também cobrar aos austro-húngaros o reconhecimento de sua nacionalidade, atacaram a cidade de Nagenyed, hoje Aiud, em território romeno, e massacraram boa parte da população húngara residente, entre estes a família de um militar húngaro de origem nobre, da qual só escapou Bárbara Maria Sáscz, com apenas oito anos, depois de assistir ao massacre de toda a sua família. Os romenos, chefiados por Ioan Axente Sever – hoje herói nacional na Romênia – levaram Bárbara e se livraram dela. Talvez a tenham vendido para algum mercador de escravos.

Em janeiro de 1859, o oficial do exército, explorador e escritor inglês Samuel White Baker, e seu amigo, o príncipe sihk Dunleep Singh, estão em Vidin, na Bulgária, entabulando amizade com o Paxá do lugar, quando, por insistência do Paxá, acompanhou-o a um mercado de escravos, pois Baker era abolicionista convicto. Lá ele viu se apaixonou por uma jovem e bela escrava branca que estava a venda: era Bárbara – com quase 18 anos – mas havia um problema: o Paxá também a quis para o seu harém, e logicamente ela acabou nas mãos deste.

Mas Baker, junto com o amigo, chutando para longe os objetivos da viagem, raridade em um inglês vitoriano, tramaram um plano, e arriscando tudo, talvez até a vida, subornaram os guardas, pegaram a jovem e fugiram do país. O Paxá foi chorar suas pitangas com as outras.

A intuição, a inspiração, seja o que for de Baker foi incrível. A jovem, que mudou seu nome para Florence, foi um “achado”, sabia falar várias línguas (inglês, turco e árabe), era cheia de sabedoria de vida e expedientes, e topou na hora a vida de aventuras em que Baker vivia, tornando-se sua companheira nas suas incríveis aventuras – uma vez salvou-o numa enrascada, porque Baker, que se irritara com o comportamento dos carregadores africanos, e ameaçava por a expedição a perder, a intervenção dela levou a um acordo, que agradou as partes, e a expedição prosseguiu.

Numa dessas expedições, para descobrir as nascentes do Rio Nilo, os dois foram os primeiros europeus a ver o Lago Alberto, em 14.03.1864 (imagem abaixo). Os relatos de suas aventuras foram parar em livros que correu o mundo e os tornaram famosos e financeiramente ricos, e nesse ínterim ela e o marido viajaram o mundo, conheceram grandes personalidades, reis, rainhas, e paisagens naturais deslumbrantes, que hoje não existem mais.

O casal continuou unido até 1893, quando Samuel Baker morreu. Ela morrerá em 1901, e nesse meio tempo Samuel receberá da rainha o grau de cavaleiro, tornando-se ‘Sir’, de sorte que a órfã húngara traumatizada, raptada, escrava vendida em praça pública, morrerá com o título de ‘Lady Baker’, membro do grupo social mais seleto e importante do mundo de sua época. O nome disso é fé, esperança e proatividade, buscar aprimorar-se mesmo nas condições mais adversas. A alternativa é ficar bancando o coitadinho, lamentando a sorte e viver implorando aos outros, ou ao estado, para resolverem seus problemas para você.

Outra coisa é que não devemos menosprezar alguém que está numa condição social precária, inclusive na condição de escrava. Precisamos aprender a ler o caráter das pessoas, para além de sua fama ou etiqueta social, e isso só se aprende cultivando em nós mesmos nossas melhores qualidades. Quantas pedras de diamante já não foram confundidas com pedaços de vidro e vice-versa? 

A rainha Vitória recusou-se a recebê-la, e não fez muita questão de proximidade com Samuel, pois não via com bons olhos aquela relação, afinal ele roubou-a de outro, após tentar compra-la – ‘algo, deveras, muito inapropriado’ – e também porque soubera que o casal teve momentos de íntimos, antes de se casar regularmente – certamente que ele já tinha visto muito mais que o calcanhar dela.

Para sorte da Inglaterra, com políticos, militares, homens de negócio, administradores e até aventureiros tão competentes, como os que haviam, a rainha nem precisava ser muito inteligente.


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