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Eduardo Simões
Isidoro Virgínio (1877-1956), nascido em 1877, foi um
veterano maragato da Revolta Federalista, que, entretanto, por força da convocação
forçada e da obediência militar, acabou lutou do lado contrário, também por
forças de várias circunstâncias pessoais e sociais da época, acabou sendo
mandado junto com o seu batalhão, o 12º BI, vulgo “Treme-Terra”, fama essa
adquirida ainda na Grande Guerra Platina, ou do Paraguai (1865-1870), para a
incandescente Guerra de Canudos, no não menos incandescente sertão baiano.
Tendo participado da 4ª Expedição, deixou um testemunho
pessoal pungente, embora também confuso, sobre o conflito, mostrando o quanto
aquele acontecimento escapava, pela sua natural complexidade, gigantismo e
pelas paixões que despertou, à compreensão do homem comum do povo, mesmo os que
tiveram a infeliz oportunidade de vive-lo pessoalmente. A impressão é que ele
não entendia, nem jamais entendeu, o que estava acontecendo, a ponto de ter uma
opinião coerente sobre o assunto.
Um dos episódios mais marcantes que constam do seus cadernos
manuscritos, intitulados curiosamente de A
vida mal vivida – provavelmente a sua própria, pois morreu velho pobre e
desprezado pelos mais jovens, que não queriam mais ouvir suas histórias – foi
durante o desembarque dos soldados de tão inclemente campanha, no Rio de
Janeiro. Eis alguns apontamentos dos cadernos de Virgínio, sobre esse episódio:
“[Os soldados eram] um
grupo de maltrapilhos, que mais se pareciam espectros do que homens, cabeludos
e barbudos, sujos, rotos, esfarrapados e descalços, quase mendigos, que mais se
pareciam com jagunços ou flagelados”
“Foi uma recepção decepcionante. Marchando ao som de alegres
dobrados, seguia aquele grupo de
vencidos... A população assistia a tudo adormecida
e indiferente. O memorialista se questionava quanto a importância que eles
tinham para o populacho alegre e
indiferente, com a destruição de soldados Brasileiros. E ainda mais quando
estes soldados estão, por seu lado, defendendo o governo da República, a quem
detesta e odeia por ser republicano. Uma
população estranha que ria da desgraça, e lamenta a felicidade do Brasil, e dos
Brasileiros. É que o Brasil foi e continua a ser, uma colônia ligada à coroa de
Portugal."’
(o texto entre aspas é de Carlos Perrone Jobim Junior; ''A VIDA MAL VIVIDA'' DIÁRIO DE UM
MARAGUNÇO: MEMÓRIAS DE UM SOLDADO NA REVOLUÇÃO FEDERALISTA E NA GUERRA DE
CANUDOS (1893-1897)(dissertação de mestrado – orientador: José Rivair Macedo);
Porto Alegre; 2002. Já a letra itálica marca os trechos dos cadernos do soldado
Isidoro Virgínio. Eu corrigi alguns erros de ortografia, que se achavam no
original reproduzidos por Jobim Junior)
Isso provavelmente aconteceu no início de outubro. No início
de março, daquele ano, havia grupos furiosos varejando a cidade, atrás de
monarquistas declarados ou suspeitos para linchar, convencidos que em Canudos
se organizava uma guerra de restauração monarquista, como na Vendeia. Com os
jornais vociferando os maiores boatos ou Fake News absolutamente assustadores.
Aqueles que foram para o sertão para fazer o trabalho sujo,
mas necessário, de fazer valer as leis da república, conforme estipulado na
Constituição, enfrentando rebeldes armados e dispostos antes a morrer que a se
entregar. Homens pobres, para lá foram para que os filhos da classe média não
precisassem ir, como na Grande Guerra Platina, ou do Paraguai, 30 anos antes. E
ninguém se interessou, sequer se condoeu pelo estado miserável daqueles homens
que pagaram tão caro o cumprimento de seu dever constitucional.
Infelizmente as coisas que dizem respeito ao conjunto da
sociedade brasileira não interessa aos brasileiros, e isso desde muito tempo
atrás. Apenas uma minoria foi às ruas a preocupar-se se Canudos era um
movimento restaurador. Não era, mas era secessionista, tão grave quanto, embora
não na gravidade que se supunha naquele momento, mas podia se tornar com o
passar do tempo, embora a insanidade do Conselheiro nos indique, hoje, que mais
cedo ou mais tarde Canudos colapsaria. Mas quem sabia disso daquela época?
Da mesma forma, hoje, pouquíssimas pessoas estão interessadas
e se mobilizam, por exemplo em relação ao crime organizado, que da mesma forma
que Conselheiro, entre 1893-1897, capturou um território no interior da Bahia e
lá implantou a sua lei, nos subúrbios de nossas grandes cidades o crime
organizado isola comunidades gigantescas, muito maiores e mais poderosas que a de
Canudos e afirmam altaneiros: aqui não vale a lei da república a Constituição
do Brasil. Enquanto a sociedade, amalucada, se divide em duas correntes: a que
não está nem aí, e procura tirar partido da situação: “se me beneficia”, ou,
pior ainda, como fazem os socialistas-marxistas: transformam Conselheiro em
herói e Canudos num exemplo a seguir.
O mesmo comportamento de olímpica indiferença, nós vemos
agora em relação aos abusos insofismáveis cometidos pelo juiz Alexandre de
Moraes, que por conta própria expulsou do país uma das mais importantes
plataformas de comunicação do Mundo. “Não está atingindo o meu interesse”. Canudos
é logo ali.
Bem observou o velho Virginio, apesar de tanto tempo já passado,
de termos chegado na nossa terra prometida, continuamos sonhando com o tempo em
que éramos colônia de Portugal ou vivíamos nas florestas desse continente ou da
África, completamente idealizadas.
(Abaixo vemos o célebre Visconde de Taunay, homem de
convicção tão firme que após o fim da monarquia abandonou a política onde começava
a fazer boa figura, gerando lamento até nos republicanos. Conta ele no seu Memórias, que certa vez se encontrou num
bonde com o igualmente célebre, republicano roxo, Benjamin Constant, já
desanimado e triste com a República que acabara de fundar. Eles se conheciam e
se falavam, pois ainda não haviam inventado a intolerância de hoje. Constant,
criticando o mal rumo que a República ia tomando – ele e o Marechal Deodoro
quase se pegaram num duelo – disse cabisbaixo para o Visconde: “O problema do
nosso país é o excesso de pratiotismo”, ante a admiração do outro acrescentou: “Cada
um só pensa no seu prato”. Se despediu e desceu. Com certeza somos muito fieis...)
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