03 setembro 2024

O MAL DO PRATIOTISMO

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Eduardo Simões

Isidoro Virgínio (1877-1956), nascido em 1877, foi um veterano maragato da Revolta Federalista, que, entretanto, por força da convocação forçada e da obediência militar, acabou lutou do lado contrário, também por forças de várias circunstâncias pessoais e sociais da época, acabou sendo mandado junto com o seu batalhão, o 12º BI, vulgo “Treme-Terra”, fama essa adquirida ainda na Grande Guerra Platina, ou do Paraguai (1865-1870), para a incandescente Guerra de Canudos, no não menos incandescente sertão baiano.

Tendo participado da 4ª Expedição, deixou um testemunho pessoal pungente, embora também confuso, sobre o conflito, mostrando o quanto aquele acontecimento escapava, pela sua natural complexidade, gigantismo e pelas paixões que despertou, à compreensão do homem comum do povo, mesmo os que tiveram a infeliz oportunidade de vive-lo pessoalmente. A impressão é que ele não entendia, nem jamais entendeu, o que estava acontecendo, a ponto de ter uma opinião coerente sobre o assunto.

Um dos episódios mais marcantes que constam do seus cadernos manuscritos, intitulados curiosamente de A vida mal vivida – provavelmente a sua própria, pois morreu velho pobre e desprezado pelos mais jovens, que não queriam mais ouvir suas histórias – foi durante o desembarque dos soldados de tão inclemente campanha, no Rio de Janeiro. Eis alguns apontamentos dos cadernos de Virgínio, sobre esse episódio:

“[Os soldados eram] um grupo de maltrapilhos, que mais se pareciam espectros do que homens, cabeludos e barbudos, sujos, rotos, esfarrapados e descalços, quase mendigos, que mais se pareciam com jagunços ou flagelados

“Foi uma recepção decepcionante. Marchando ao som de alegres dobrados, seguia aquele grupo de vencidos... A população assistia a tudo adormecida e indiferente. O memorialista se questionava quanto a importância que eles tinham para o populacho alegre e indiferente, com a destruição de soldados Brasileiros. E ainda mais quando estes soldados estão, por seu lado, defendendo o governo da República, a quem detesta e odeia por ser republicano. Uma população estranha que ria da desgraça, e lamenta a felicidade do Brasil, e dos Brasileiros. É que o Brasil foi e continua a ser, uma colônia ligada à coroa de Portugal."’

(o texto entre aspas é de Carlos Perrone Jobim Junior; ''A VIDA MAL VIVIDA'' DIÁRIO DE UM MARAGUNÇO: MEMÓRIAS DE UM SOLDADO NA REVOLUÇÃO FEDERALISTA E NA GUERRA DE CANUDOS (1893-1897)(dissertação de mestrado – orientador: José Rivair Macedo); Porto Alegre; 2002. Já a letra itálica marca os trechos dos cadernos do soldado Isidoro Virgínio. Eu corrigi alguns erros de ortografia, que se achavam no original reproduzidos por Jobim Junior)

Isso provavelmente aconteceu no início de outubro. No início de março, daquele ano, havia grupos furiosos varejando a cidade, atrás de monarquistas declarados ou suspeitos para linchar, convencidos que em Canudos se organizava uma guerra de restauração monarquista, como na Vendeia. Com os jornais vociferando os maiores boatos ou Fake News absolutamente assustadores.

Aqueles que foram para o sertão para fazer o trabalho sujo, mas necessário, de fazer valer as leis da república, conforme estipulado na Constituição, enfrentando rebeldes armados e dispostos antes a morrer que a se entregar. Homens pobres, para lá foram para que os filhos da classe média não precisassem ir, como na Grande Guerra Platina, ou do Paraguai, 30 anos antes. E ninguém se interessou, sequer se condoeu pelo estado miserável daqueles homens que pagaram tão caro o cumprimento de seu dever constitucional.

Infelizmente as coisas que dizem respeito ao conjunto da sociedade brasileira não interessa aos brasileiros, e isso desde muito tempo atrás. Apenas uma minoria foi às ruas a preocupar-se se Canudos era um movimento restaurador. Não era, mas era secessionista, tão grave quanto, embora não na gravidade que se supunha naquele momento, mas podia se tornar com o passar do tempo, embora a insanidade do Conselheiro nos indique, hoje, que mais cedo ou mais tarde Canudos colapsaria. Mas quem sabia disso daquela época?

Da mesma forma, hoje, pouquíssimas pessoas estão interessadas e se mobilizam, por exemplo em relação ao crime organizado, que da mesma forma que Conselheiro, entre 1893-1897, capturou um território no interior da Bahia e lá implantou a sua lei, nos subúrbios de nossas grandes cidades o crime organizado isola comunidades gigantescas, muito maiores e mais poderosas que a de Canudos e afirmam altaneiros: aqui não vale a lei da república a Constituição do Brasil. Enquanto a sociedade, amalucada, se divide em duas correntes: a que não está nem aí, e procura tirar partido da situação: “se me beneficia”, ou, pior ainda, como fazem os socialistas-marxistas: transformam Conselheiro em herói e Canudos num exemplo a seguir.

O mesmo comportamento de olímpica indiferença, nós vemos agora em relação aos abusos insofismáveis cometidos pelo juiz Alexandre de Moraes, que por conta própria expulsou do país uma das mais importantes plataformas de comunicação do Mundo. “Não está atingindo o meu interesse”. Canudos é logo ali.

Bem observou o velho Virginio, apesar de tanto tempo já passado, de termos chegado na nossa terra prometida, continuamos sonhando com o tempo em que éramos colônia de Portugal ou vivíamos nas florestas desse continente ou da África, completamente idealizadas.

(Abaixo vemos o célebre Visconde de Taunay, homem de convicção tão firme que após o fim da monarquia abandonou a política onde começava a fazer boa figura, gerando lamento até nos republicanos. Conta ele no seu Memórias, que certa vez se encontrou num bonde com o igualmente célebre, republicano roxo, Benjamin Constant, já desanimado e triste com a República que acabara de fundar. Eles se conheciam e se falavam, pois ainda não haviam inventado a intolerância de hoje. Constant, criticando o mal rumo que a República ia tomando – ele e o Marechal Deodoro quase se pegaram num duelo – disse cabisbaixo para o Visconde: “O problema do nosso país é o excesso de pratiotismo”, ante a admiração do outro acrescentou: “Cada um só pensa no seu prato”. Se despediu e desceu. Com certeza somos muito fieis...)

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