16 maio 2024

CANUDOS: UM HERÓI BRASILEIRO EM MEIO A UMA INTELECTUALIDADE VAZIA E MENTALMENTE MUMIFICADA

 

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(Momento em que a bateria de artilharia, defendida por Salomão da Rocha, é envolvida pelos conselheiristas, em 4 de março de 1897, durante a retirada da 3ª expedição a Canudos)

Eduardo Simões (a Margarida Maria)

Qual não foi meu espanto, quando fazia minhas pesquisas sobre Canudos, deparar-me com o texto Herói sem causa, assinado por Antônio Augusto Brito, no site curtabotafogo.com.br, onde a despudorada missiva levantando a bandeira flácida do “povo organizado”, e outros chavões repetidos ad nauseam por uma intelectualidade, que nem percebe que já virou massa de manobras de inventores de palavras de ordens semianalfabetos, às vezes travestidos de historiadores, para investir contra uma homenagem da cidade do Rio de Janeiro, a um capitão do exército brasileiro: o alagoano Salomão da Rocha. Participante da malfada 3ª expedição contra Canudos.

O número que o dito missivista coloca ao efetivo da expedição Febrônio de Brito, mostra que ele não pesquisou sobre o assunto ou o que leu não era sério, sem falar que o degolador era o general Arthur Oscar, por sinal carioca “da gema”, como se dizia, enquanto Moreira César, paulista, destacou-se pelos julgamentos sumários e fuzilamentos, numa fortaleza em Desterro, atual Florianópolis.

Mas concentremo-nos ao principal alvo desse infeliz artigo, que é a pessoa do ilustre capitão Salomão da Rocha, do 2º Regimento de Artilharia, da expedição Moreira César, ao qual pretendo fazer justiça, e mostrar a brutal contradição do artigo, usando das palavras do próprio senhor Brito, que, de tão obcecado pela sua ideologia ou o afã de parecer politicamente correto ou na moda, não percebeu que justificou plenamente a homenagem que a Prefeitura do Rio de Janeiro prestou ao militar.

Ele, O sr Brito, usa, para “expor” a “maldade” de Salomão, o texto de Euclides da Cunha que descreve a retirada um tanto desorganizada dos sobreviventes, da 3ª expedição, quando o capitão Salomão da Rocha ficou na retaguarda, provavelmente por causa do peso dos canhões, retardando com um tiro, de quando em quando o avanço dos jagunços contra a tropa em retirada, até que um dos canhões emperra, e ao invés de aproveitar o ensejo, para sair correndo, como os outros já faziam, ele, e meia dúzia de outros bravos, ficaram para defender as peças, e serem mortos a golpes de machado, facão, foices, etc., de trabalho, que não são as faquinhas delicadas e afiadas, com que os intelectuais brasileiros, de esquerda ou de outras patologias, costumam trinchar seus tira-gostos nos agradáveis barzinhos do Rio de Janeiro, enquanto fazem julgamentos à revelia ou contra a história.

Proponho, portanto, os seguintes pontos de reflexão

Primeira: a decisão sobre o que fazer com Canudos passaram pelas mais altas instâncias civis e militares, muito acima da patente do capitão Salomão da Rocha, nem existe na sua biografia a mancha de qualquer excesso praticado nessa expedição. Apenas cumpriu o seu dever; logo foi um bom profissional.

Segundo: como comandante do grupo de artilharia em Canudos, era missão dele tomar conta daquelas armas, patrimônio da República, logo do povo brasileiros, que com seus impostos as pagou para a sua defesa. Ou seja, ele foi um bom cidadão. Não esquecer que multidões, nas principais cidades do Brasil, nas universidades e na imprensa, pediu extremo rigor com Canudos. Ele assumiu um compromisso com o povo brasileiro, e o cumpriu ao preço de sua vida. Quem faz isso hoje?

Terceiro: É ponto de honra, antiquíssimo, não deixar nunca o trem da artilharia, numa batalha, cair nas mãos da força adversária. Agindo dessa forma ele mostrou-se ser um bom ser humano. Alguém profundamente HONRADO.

Quarto: ao fazer o que fez, ele deu um tempo precioso aos seus camaradas e por causa disso muitos salvaram a vida, embora ele e seus companheiros tenham perdido a sua. Não foi Jesus Cristo, de quem Antônio Conselheiro se fazia único porta-voz crível, recusando até os ensinamentos da Igreja Católica, que disse: “não há maior prova de amor do que dar a vida por seus amigos” (Jo 15,13)? E não foi isso que o capitão Salomão fez? Isso não o torna um gigante moral, numa terra de pigmeus, que só pensam em salvar a própria pele. Logo ele foi um bom cristão.

Quinto: quando a sua peça emperrou não restava ao capitão Salomão morrer lutando, abatendo o máximo de conselheiristas, porque já estava claro para os militares, e assim foi até o fim do conflito, que aqueles não faziam prisioneiros, e de fato nunca houve troca de prisioneiros ou se falou sobre o assunto, porque NENHUM DOS DOIS LADOS FEZ PRISIONEIROS, e segundo o depoimento de uma jagunça, constante num telegrama recentemente decodificado (1), o Conselheiro proibiu até o sepultamento dos soldados, que eram tratados como animais brutos ou “demônios”, como dizia o “herói com causa” da esquerda, bom para fazer parte do panteão do sr Brito.

Que diferença, no contexto da 3ª expedição, entre a atitude de Salomão da Rocha e a do coronel Tamarindo, inexplicavelmente relatada no “infame” artigo “sem causa”. Sentado a um lado, dizendo aleatoriamente: “é tempo de murici, cada um cuide de si”. Francamente eu não consegui entender porque o sr. Brito, coloca essa passagem, que ajuda a desmoralizar o seu intento, merecendo até às alturas, aquele que o sr. Brito queria desmerecer!? Salomão da rocha morreu cuidando de seus companheiros .... É bizarro, além de ser algo bom para não ser citado, num artigo com tal intenção!?  

A verdade mais próxima dos fatos que aconteceram, em vista de um projeto moral elevado para o Brasil, é que, considerando o conjunto da obra, NENHUM DOS DOIS LADOS, E SEUS PRINCIPAIS COMANDANTES, são dignos de figurar como exemplo para os brasileiros. Já o CAPITÃO SALOMÃO DA ROCHA, E SEUS COMPANHEIROS, DERAM A VIDA PARA SALVAR A DE SEUS AMIGOS, LOGO SÃO HERÓIS NA MAIS VASTA E PROFUNDA EXPRESSÃO DO TERMO, num grau que o sr Brito não consegue nem imaginar...

A considerar o grau de mesquinhez do artigo que escreveu. Que pena!

 Nota

1 – ver o espetacular artigo de Cristiane Costa e José Antônio M Xexéo:  SEGREDOS DA GUERRA DE CANUDOS (1896-1897): TELEGRAMAS CRIPTOGRAFADOS SOBRE O FRACASSO DA EXPEDIÇÃO MOREIRA CESAR SÃO FINALMENTE DECIFRADOS; na Revista de História; nº 183; DH-FFLCH-USP; 2024. https://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/214617

(Abaixo o capitão Salomão da Rocha, segundo de Ângelo Agostini, na revista Dom Quixote, de 1897)

https://curtabotafogo.com.br/wp-content/uploads/2022/01/Cap._Salomao_da_Rocha_do_2o_regimento_de_artilharia-Angelo-Agostini-1897.jpg

https://curtabotafogo.com.br/heroi-sem-causa/



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