(Momento em que a bateria de artilharia, defendida por Salomão da
Rocha, é envolvida pelos conselheiristas, em 4 de março de 1897, durante a retirada da 3ª expedição a Canudos)
Eduardo Simões (a Margarida Maria)
Qual não foi meu espanto, quando fazia minhas pesquisas sobre
Canudos, deparar-me com o texto Herói
sem causa, assinado por Antônio Augusto Brito, no site
curtabotafogo.com.br, onde a despudorada missiva levantando a bandeira flácida do “povo
organizado”, e outros chavões repetidos ad nauseam por uma intelectualidade,
que nem percebe que já virou massa de manobras de inventores de palavras de
ordens semianalfabetos, às vezes travestidos de historiadores, para investir
contra uma homenagem da cidade do Rio de Janeiro, a um capitão do exército
brasileiro: o alagoano Salomão da Rocha. Participante da malfada 3ª expedição
contra Canudos.
O número que o dito missivista coloca ao efetivo da expedição Febrônio
de Brito, mostra que ele não pesquisou sobre o assunto ou o que leu não era
sério, sem falar que o degolador era o general Arthur Oscar, por sinal carioca “da
gema”, como se dizia, enquanto Moreira César, paulista, destacou-se pelos
julgamentos sumários e fuzilamentos, numa fortaleza em Desterro, atual Florianópolis.
Mas concentremo-nos ao principal alvo desse infeliz artigo,
que é a pessoa do ilustre capitão Salomão da Rocha, do 2º Regimento de Artilharia,
da expedição Moreira César, ao qual pretendo fazer justiça, e mostrar a brutal contradição
do artigo, usando das palavras do próprio senhor Brito, que, de tão obcecado pela
sua ideologia ou o afã de parecer politicamente correto ou na moda, não
percebeu que justificou plenamente a homenagem que a Prefeitura do Rio de
Janeiro prestou ao militar.
Ele, O sr Brito, usa, para “expor” a “maldade” de Salomão, o
texto de Euclides da Cunha que descreve a retirada um tanto desorganizada dos
sobreviventes, da 3ª expedição, quando o capitão Salomão da Rocha ficou na
retaguarda, provavelmente por causa do peso dos canhões, retardando com um
tiro, de quando em quando o avanço dos jagunços contra a tropa em retirada, até
que um dos canhões emperra, e ao invés de aproveitar o ensejo, para sair
correndo, como os outros já faziam, ele, e meia dúzia de outros bravos, ficaram
para defender as peças, e serem mortos a golpes de machado, facão, foices, etc., de
trabalho, que não são as faquinhas delicadas e afiadas, com que os intelectuais
brasileiros, de esquerda ou de outras patologias, costumam trinchar seus tira-gostos
nos agradáveis barzinhos do Rio de Janeiro, enquanto fazem julgamentos à
revelia ou contra a história.
Proponho, portanto, os seguintes pontos de reflexão
Primeira: a decisão sobre o que fazer com Canudos passaram
pelas mais altas instâncias civis e militares, muito acima da patente do
capitão Salomão da Rocha, nem existe na sua biografia a mancha de qualquer
excesso praticado nessa expedição. Apenas cumpriu o seu dever; logo foi um bom profissional.
Segundo: como comandante do grupo de artilharia em Canudos,
era missão dele tomar conta daquelas armas, patrimônio da República, logo do
povo brasileiros, que com seus impostos as pagou para a sua defesa. Ou seja,
ele foi um bom cidadão. Não esquecer que multidões, nas principais cidades do
Brasil, nas universidades e na imprensa, pediu extremo rigor com Canudos. Ele
assumiu um compromisso com o povo brasileiro, e o cumpriu ao preço de sua vida.
Quem faz isso hoje?
Terceiro: É ponto de honra, antiquíssimo, não deixar nunca o
trem da artilharia, numa batalha, cair nas mãos da força adversária. Agindo
dessa forma ele mostrou-se ser um bom ser humano. Alguém profundamente HONRADO.
Quarto: ao fazer o que fez, ele deu um tempo precioso aos
seus camaradas e por causa disso muitos salvaram a vida, embora ele e seus
companheiros tenham perdido a sua. Não foi Jesus Cristo, de quem Antônio Conselheiro
se fazia único porta-voz crível, recusando até os ensinamentos da Igreja
Católica, que disse: “não há maior prova de amor do que dar a vida por seus
amigos” (Jo 15,13)? E não foi isso que o capitão Salomão fez? Isso não o torna
um gigante moral, numa terra de pigmeus, que só pensam em salvar a própria pele.
Logo ele foi um bom cristão.
Quinto: quando a sua peça emperrou não restava ao capitão
Salomão morrer lutando, abatendo o máximo de conselheiristas, porque já estava
claro para os militares, e assim foi até o fim do conflito, que aqueles não
faziam prisioneiros, e de fato nunca houve troca de prisioneiros ou se falou
sobre o assunto, porque NENHUM DOS DOIS LADOS FEZ PRISIONEIROS, e segundo o
depoimento de uma jagunça, constante num telegrama recentemente decodificado (1), o
Conselheiro proibiu até o sepultamento dos soldados, que eram tratados como
animais brutos ou “demônios”, como dizia o “herói com causa” da esquerda, bom
para fazer parte do panteão do sr Brito.
Que diferença, no contexto da 3ª expedição, entre a atitude
de Salomão da Rocha e a do coronel Tamarindo, inexplicavelmente relatada no “infame”
artigo “sem causa”. Sentado a um lado, dizendo aleatoriamente: “é tempo de
murici, cada um cuide de si”. Francamente eu não consegui entender porque o sr.
Brito, coloca essa passagem, que ajuda a desmoralizar o seu intento, merecendo até
às alturas, aquele que o sr. Brito queria desmerecer!? Salomão da rocha morreu
cuidando de seus companheiros .... É bizarro, além de ser algo bom para não ser
citado, num artigo com tal intenção!?
A verdade mais próxima dos fatos que aconteceram, em vista de
um projeto moral elevado para o Brasil, é que, considerando o conjunto da obra,
NENHUM DOS DOIS LADOS, E SEUS PRINCIPAIS COMANDANTES, são dignos de figurar
como exemplo para os brasileiros. Já o CAPITÃO SALOMÃO DA ROCHA, E SEUS
COMPANHEIROS, DERAM A VIDA PARA SALVAR A DE SEUS AMIGOS, LOGO SÃO HERÓIS NA
MAIS VASTA E PROFUNDA EXPRESSÃO DO TERMO, num grau que o sr Brito não consegue
nem imaginar...
A considerar o grau de mesquinhez do artigo que escreveu. Que
pena!
Nota
1 – ver o espetacular artigo de Cristiane Costa e José Antônio
M Xexéo: SEGREDOS DA GUERRA DE CANUDOS
(1896-1897): TELEGRAMAS CRIPTOGRAFADOS SOBRE O FRACASSO DA EXPEDIÇÃO MOREIRA
CESAR SÃO FINALMENTE DECIFRADOS; na Revista de História; nº 183; DH-FFLCH-USP;
2024. https://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/214617
(Abaixo o capitão Salomão da Rocha, segundo de Ângelo
Agostini, na revista Dom Quixote, de 1897)
https://curtabotafogo.com.br/heroi-sem-causa/

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