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Eduardo Simões (a Margarida Maria)
A missão dos
capuchinhos (final)
Outro detalhe alarmante é que na praça, em frente às casas
“apinhavam-se perto de mil homens armados de bacamarte, garrucha, facão, etc., dando
aos Canudos a semelhança de uma praça d'armas”. Canudos aparentemente vivia um
clima de guerra permanente, ou suspicácia, que a mensagem “evangélica” do
Conselheiro não conseguia amainar, se não era ele o responsável por aquilo. Ele
a estimulava? Havia outra fonte de poder em Canudos contrastando com a sua suposta
mensagem de paz?
Ao chegar na casa paroquial, outro avistamento chamou
atenção: “Logo, após a nossa chegada, no decurso apenas de duas horas pude ver
o seguinte .... [Séquitos funerários] passaram a enterrar oito cadáveres, conduzidos
por homens armados, sem o mínimo sinal religioso. Ouvi também que isso é um espetáculo
de todos os dias”. Isso reforça a impressão de uma comunidade muito pobre e
carente, o que é apresentado de uma forma um tanto mascarada nesse
trecho de Edmundo Moniz: “Não havia miséria nem abastança, a vida era igual
para todos” (citado por Rubim de Aquino e outros; Sociedade Brasileira: uma história; vol 2; 4ª edição; Record; Rio
de Janeiro – São Paulo; 2005). O relatório do frade, que esteve lá, o desmente: havia miséria, desigualdade e um espírito nada pacífico.
A sua impressão do Conselheiro foi um pouco melhor que a do
jornal O rabudo. Disse o frei: “Vestia túnica de azulão, tinha a cabeça descoberta,
empunhava um bordão: os cabelos crescidos, sem nenhum trato, a caírem sobre os
ombros: as hirsutas barbas grisalhas, mais para brancas; os olhos fundos, raras
vezes levantados para fitar alguém, o rosto comprido, e de uma palidez quase
cadavérica; o porte grave e ar penitente”. Mas quando os circundantes
perceberam que o frade estava tentando convencer Conselheiro a dispersar as pessoas
e a se retirar dali, eles imediatamente entraram na conversa e gritando
uníssonos; “Nós queremos acompanhar o nosso Conselheiro”. Este, após os fazer
calar, justificou a guarda armada porque, segundo ele, “a polícia atacou-me e
quis matar-me” – não seria mais correto “prender”? Além do que, omite a razão
dessa ação policial, que em sua mente obsessiva, se devia ao fato de a polícia ser da república. Haveria um conflito pessoal e mortal entre ele e a República,
nascido sabe-se lá por que razão, em que contexto, e para esse conflito ele
arrastaria milhares de pessoas que nada tinham a ver com isso.
Trava-se uma conversa tensa, onde o frei procura, com
exemplos estrangeiro, a França católica, mostrar que não havia
incompatibilidade entre o catolicismo e a república, mas o Conselheiro encerra
a conversa dizendo: “eu não desarmo a minha gente – nesse momento ele fala
assumidamente como um “coronel”; o pobre comerciante falido, traído e
humilhado, estava tendo a sua desforra? – mas também não estorvo a missão”.
Noutras palavras: “Eu lhe autorizo a pregar aqui!”
Eis alguns detalhes percebidos pelo frade:
a) “Ninguém pode falar-lhe a sós, porque seus pretorianos [a
Guarda Católica] não deixam”
b) “Antônio Conselheiro [apesar de se apresentar católico]
contesta o ensino [doutrina], transgride as leis [do país] e desconhece as autoridades
eclesiásticas, sempre que de algum modo lhe contrariam as ideias.
c) “Os aliciadores da seita se ocupam em persuadir o povo de
que todo aquele que quiser se salvar precisa vir para Canudos, pois nos outros
lugares tudo está contaminado... pela República”
d) Quem quiser vir morar em Canudos, deve vender os bens e
entrega-los ao Conselheiro, ficando com uma pequena parte. E terá direito a
vestuário e ração, fazendo parte de um grupo seleto de seguidores. Frei calcula
em uns mil homens e duzentas mulheres nessa situação.
e) As mulheres preparam a comida, a roupa dos homens e são
mais presentes às orações e os homens, desse grupo, por seu lado, se dedicam 24
horas do dia a proteger o Conselheiro e montar guarda em Canudos e nas áreas
adjacentes, numa bem marcada divisão
sexual do trabalho?
f) Conselheiro não estimula a prática dos sacramentos, como
estava sendo, há muito, encarecido por Roma, embora ignorado no Brasil Imperial.
Contentando-se com as práticas devocionais, orações e penitências típicas da
religiosidade popular.
g) Os devotos beijavam as imagens e se prostravam
profundamente diante delas, independentemente do santo que representam.
A missão começou no dia 14 de maio. Conselheiro veio assistir
à pregação, com sua tropa armada e em pé de guerra, além de uma multidão de
umas 4 mil pessoas, Conselheiro ficou calado, mas quando discordava do que o
padre dizia fazia umas caretas, que imediatamente repercutiam na sua guarda
pessoal, que começava a desfazer, em voz alta do ensino do frei, como quando
este recomendou o abrandamento dos jejuns.
No dia 17 a coisa engrossou, porque o frade resolveu falar
sobre o dever de obediência à autoridade, conforme já pregava Paulo de Tarso na
Carta aos Romanos 13,1-5, e então a assembleia entrou em polvorosa, puxada pela
guarda do Conselheiro, que começou a espalhar que a missão era inútil, pregada
que era por um padre 'maçom' e 'republicano', que vinha preparar o terreno para a
guerra. As guardas em lugares estratégicos, como aquele grupo perto de Cumbe,
foram reforçadas.
No dia 20 houve algo inusitados. Homens, mulheres e crianças,
armados, soltando rojões e gritando vivas ao Bom Jesus, ao Conselheiro, ao
divino Espírito Santo, avançaram para a casa dos padres gritando “fora” com os
padres “maçons”, “republicanos” e “protestantes”, “que não precisavam de
padres, porque tinham o seu Conselheiro”. E por umas “duas horas” ficaram nessa
agitação até se dispersarem. Ante essa demonstração frei João encerra a missão
e se propõe a sair dali. Diz ele que em virtude do que ocorrera, uma gente que
vivia em Canudos, mas não fazia parte do séquito do Conselheiro, começou a abandonar em grande número o vilarejo.
No dia da partida foi chamado para confessar um agonizante,
mas ao chegar no leito do moribundo, a guarda armada que o acompanhava não quis
sair de perto, impossibilitando o sacramento. O frei se desculpou com o
moribundo, tranquilizou-o pois num caso desses a intenção é de grande valor, e
saiu batendo boca com os conselheiristas, que com isso cometiam um pecado gravíssimo. Isso acontecia à
revelia do Conselheiro?
No alto de um monte, à vista do arraial, frei João Evangelista
pronunciou-lhe uma maldição que lembra a passagem do evangelho de Lucas 19,41-44.
Ele acrescenta ainda: “Quem foi alistado na Companhia
dificilmente poderá libertar-se e vem a sofrer violências se fizer reclamação”;
depois cita o exemplo de um deles que pediu suas imagens de volta, talvez para
ir embora, após o incidente com o padre, e foi logo mandado à prisão. “Quanto
aos indiferentes, e que não se decidem a entrar na seita, eles podem viver ali,
e têm liberdade para se ocupar de seus interesses, mas correndo grandes riscos,
entre eles o de serem algum dia inesperadamente saqueados de seus bens em
proveito da Santa Companhia” – e aí frei João fala que tal sorte fora sofrida
recentemente por um comerciante vindo do Bonfim.
Somados esses
episódios ao do massacre da família Mota, vemos que afirmações como essa, que
apareceu, em um livro, é pura fantasia: “Havia ainda a poeira, como era popularmente chamada a
cadeia. Contudo, quase não havia crimes na comunidade. As bebidas alcoólicas
eram proibidas. Não existiam prostíbulos, nem tabernas” (Aquino e outros;
Sociedade Brasileira: uma história, vol 2, p 146).
O frei termina seu relatório recomendando uma ação enérgica
por parte das autoridades contra o arraial visto que “o desagravo da religião,
o bem social e a dignidade do poder civil pedem uma providência, que
restabeleça no povoado de Canudos o prestigio da lei, as garantias do culto
católico... Aquela situação deplorável de
fanatismo e anarquia deve cessar”. E, após escusas, dá por concluído o relatório.
Algumas pessoas quiseram, e ainda querem ver, nessa missiva
do frei João Evangelista o estopim para a Guerra de Canudos, porém, nada foi
feito motivado por esse relatório, uma vez que as autoridades, assoberbadas com
inúmeros problemas advindos da proclamação da república, preferiram deixar esse
problema maturar em banho-maria, ou como se diz hoje, empurrar o abacaxi com a
barriga, para que o sucessor descascasse.
Também não se justifica e é muito sintomático da indigência
intelectual esquerdizante ou xenófoba que grassa em nossa Academia,
simplesmente apelar para o fato de que o frei João Evangelista, por ser
italiano, não “entendeu” o que se passou, mas sobre isso podemos dizer:
a) O relatório é bem descritivo, narra acontecimentos,
reações acontecidas, histórias que ele ouviu, e para descrever o que você vê
basta não ser cego. Ele é única pessoa de fora, que podia guardar uma certa
distância e maior imparcialidade, que esteve no arraial antes da guerra e viu
como as coisas funcionavam.
b) No final quem tomou a iniciativa de atacar Canudos, sem qualquer razão aparente foram soldados e comandantes de tropas da polícia e do exército cem por cento nacionais, da mesma forma que partiu deles a ordem de não fazer prisioneiros e a degola em massa destes.
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RUÍNAS da Igreja de Canudos - Açude de Cocorobó, Canudos BA.
In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú
Cultural, 2024. Disponível em:
http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra28766/ruinas-da-igreja-de-canudos-acude-de-cocorobo-canudos-ba.
Acesso em: 16 de maio de 2024. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7


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