13 maio 2024

CANUDOS: GUERRA INTERMINÁVEL – 3 (acrescido em 14.05.2024)


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(O ex-juiz Arlindo Batista Leoni (1869-1936), o homem que desatou o inferno em Canudos, é o primeiro sentado à esquerda (mãos abertas sobre a coxa) durante a fundação do Partido Social Democrático da Bahia, no ano de 1933, no chiquérrimo Jóquei Club do Rio de Janeiro – esse partido durou até 1937. Ele tirou a sorte grande na loteria da vida: foi juiz aos 21 anos, até 1904, e depois Deputado Federal pela Bahia em 6 mandatos, de 1912 a 1936, constituinte em 1934, e ninguém nunca pensou em cobrar dele a conta de Canudos. Quem diria que tanta gente teve que morrer para ele chegar aí?!).

Eduardo Simões (a Margarida Maria)

Esse morticínio teve um responsável

Muito se tem falado da responsabilidade de Antônio Conselheiro sobre o início da falsamente chamada Guerra de Canudos, mas a verdade é que ele não teve culpa nela, nem seus adeptos fizeram qualquer coisa que se possa considerar “crime” passível de pena capital (que não existia no país), e justificar a intervenção da polícia e muito menos do exército, na sua cidadezinha, embora vivessem no limite do crime, por não aceitar as leis da República.

Seu aspecto extravagante e seu carisma, capaz de arrastar milhares de pessoas, certamente que chamava a atenção das autoridades, em especial das autoridades eclesiásticas, incomodadas com os efeitos de sua moral muito rigorosa e de sua falta de conhecimento teológico necessário para pregar em nome da instituição, e embora alguns padres e bispos resistissem à sua presença, nada disso era crime.

Um evento traumático para ele foi a Proclamação da República, e a expulsão do Imperador, que causou-lhe um grande impacto emocional, porque ele de alguma forma ligava inarredavelmente a existência de sua santa religião católica ao Império, como o faziam os cristãos conservadores da Europa, desconsiderando que, foi justo durante a monarquia que a Igreja Católica sofreu os maiores constrangimentos, como a expulsão do jesuítas, pelo rei José I, no período colonial, e a prisão dos bispos durante a questão Religiosa, de 1872-1875. A Igreja jamais passou por isso no período republicano – isso era fruto de sua cultura intelectual, que podia ser superior à média do sertão, mas que ainda assim bem rasa.

Seja ainda porque o processo de transição da monarquia para a república foi muito turbulento e dispendioso no Brasil, e mais ainda na Bahia, onde os grupos políticos, os poderosos clãs familiares, passaram a disputar o controle da antiga província, agora estado autônomo de uma federação, com seus exércitos de jagunços, em prejuízo da estabilidade social, dos cofres públicos e da tranquilidade de seus moradores.

Para custear tantos desatinos era preciso aumentar os impostos, sem falar dos excessos na cobrança. Como esses impostos iriam reverter para a República, Conselheiro resolveu tomar partido e se posicionar politicamente, concitando o povo de várias cidadezinhas e povoados a não paga-los, quebrando publicamente as tabuletas que discriminavam os produtos e as taxas a serem cobradas, para desgosto e ressentimento do juiz da freguesia de Bom Conselho, Arlindo Leoni, que concitou ao governador a prendê-lo. Duas pequenas forças policiais foram mandadas, em vão, até que uma mais nutrida, surpreendeu-o em maio de 1893 em Maceté, mas foi desbaratada.

O que aconteceu em Maceté é um mistério. Uns, inclusive Conselheiro, dizem que houve um grande confronto, com vítimas de ambos os lados, enquanto outros, afirmam que mal os devotos mostraram decisão de existir à ordem de prisão, os soldados se dispersaram com tal espalhafato e correria, que um deles caiu acidentalmente num rio e morreu afogado por não saber nadar. A única vítima dessa “batalha”. Sou mais propenso a acreditar nesta versão porque se fosse um combate sério, com várias vítimas, o governo certamente não teria deixado o Conselheiro criar sua comunidade em paz. Não havia, no início da campanha, nenhuma ordem de prisão por assassinato, obstrução de justiça ou rebelião contra ele.

Após essa escaramuça,  o Conselheiro e seus devotos se internam no sertão, para aí viver sua ilusão espiritual, fazendo com que a antiga fazenda de Canudos, abandonada dois anos antes por gente do Barão de Geremoabo, à margem do rio Vaza-Barris, se tornasse um foco de atração de gente das redondezas, até se tornar um povoado de tamanho considerável, certamente uma dos maiores aglomerações do Estado da Bahia, embora nem de longe com as 5.200 casas, de que fala Cunha, ou mais de 6.000, como diz Frederico Pernambucano, contando com mais de 20 mil moradores – o solo pobre da região, muito pedregoso, o rio intermitente, as altas temperaturas, o isolamento, não permitiriam o assentamento de tanta gente em condições razoáveis. Os que aí habitavam, viviam no limiar da sobrevivência.

O mais razoável para a população de Canudos seria em torno de 10 mil, para menos, vivendo da agricultura de subsistência, da exploração de recursos naturais (caça e coleta) e da criação de cabras, prestação de serviços, etc. o que rendeu a espertalhões como Antônio Vilanova, uma boa grana e uma saída estratégica, mentirosa e covarde de Canudos, antes que tudo fosse à breca, com a benção do Conselheiro, naquele espírito de que “é melhor escapar fedendo do que morrer cheiroso”.

Nesse meio tempo, por instigação de grupos políticos, dirigidos pelos poderoso clãs familiares e políticos da região, que sentiam seus interesses econômicos e/ou políticos ameaçados, espalhava-se pelos jornais as mais absurdas acusações contra Conselheiro e sua gente, embora seja difícil acreditar que tanta maldade, seja em número seja em gravidade moral, não tenha gerado um único boletim de ocorrência ou processo criminal, por parte dos supostos atingidos. O próprio Barão de Geremoabo, um crítico do Conselheiro, não moveu uma única palha em prol do ataque e da intervenção federal em Canudos. Fora dos jornais, nenhuma denúncia foi feita ao judiciário ou à polícia.

O trabalho daquela gente e as doações diversas e generosas de uma vizinhança, que nada tinha a reclamar daquela gente, foi o lastro que Conselheiro usou para dar vazão à sua mania compulsiva: construir igrejas. Construiu uma capela menor, a de Santo Antônio, que logo ficou pequena, e em seguida começou um projeto maior: a Igreja do Bom Jesus, de paredes grossas imponentes, futuro baluarte durante o cerco de Canudos. Foi justamente nisso, que ele e sua comunidade encontraram a sua perda, após ele contratar a compra de um lote de madeira, para a igreja nova, com um comerciante amigo em Juazeiro, com quem já fazia negócios a tempo.

O que aconteceu é incerto. Uns dizem que ele pagou e não recebeu a madeira, e por isso, furioso, iria até Juazeiro, pegar a madeira na marra. Outros dizem que ele apenas combinou com o contratado de subir com sua gente até a comunidade de Jacaré, para lá pegarem a madeira e seguirem para Canudos. Seja como for, espalhou-se em Juazeiro um boato de que o Conselheiro viria para atacar Juazeiro.

Quem mais espalhou e encareceu medidas drásticas contra os canudenses foi o juiz de direito de Juazeiro: Arlindo Leoni, então com apenas 24 anos, que já havia sido desautorizado no caso da queima das tabuletas de impostos, em Bom Conselho e adjacências, e tinha o Conselheiro atravessado na garganta, sem falar que Leoni também tinha ambições políticas, e talvez estivesse associado a algum grupo, em oposição ao governador Luiz Viana, e por isso quisesse se vingar do antigo desafeto, além de ver o “circo do governador pegar fogo”.

Leoni começa a mandar telegramas alarmantes para Salvador, dando ciência de um ataque iminente de Conselheiro a Juazeiro, aos quais o governador responde com cautela e pedido de moderação, até por motivos práticos: estava sem tropas. O efetivo disponível da Brigada Policial do estado da Bahia (a antiga PM) tinha sido deslocado a diversas outras comunidades, para conter a violência das disputas políticas locais. Sem alternativa, diante da insistência do juiz (1), ele entra em tratativas com o comandante da 3º Distrito Militar de Salvador, o General Frederico Solon de Sampaio Ribeiro, o sogro de Euclides da Cunha, que manda o tenente Manuel da Silva Pires Ferreira, à frente de 113 homens, para decidir, junto com o juiz Leoni, a melhor forma de defender a cidade.

Que acordo Ferreira fez com Leoni? Não o sabemos, exceto que tendo chegado a Juazeiro e passado vários dias sem que nada acontecesse resolveu (ou resolveram) atacar os devotos dentro de seu próprio reduto, sendo a tropa completamente desbaratada no combate do Uauá (2). A partir daí o conflito se tornaria inevitável e inevitável também a participação de força federal.

Arlindo Leoni conseguiu o que queria, mas não imaginou o preço que seria pago pela satisfação da sua vingança pessoal, tudo posto na conta da população pobre do interior e da capital, jagunços e soldados, pois para ele mesmo restava um longa e venturosa vida na política baiana e brasileira, como convém a um povo ignorante que desconhece a sua história.

Notas

1- Há uma curiosa história a respeito, que ora aparece ora desaparece dos relatos, e essa história fala de um devoto do Conselheiro, que por alguma razão açoitou publicamente uma mulher, aparentemente por mal comportamento. Mas surgiu uma pequena 'dificuldade técnica': a mulher seria amante do juiz Arlindo Leoni, que, por isso, mandou prender o agressor. Ao saber disso, Conselheiro mobilizou sua gente e não só impediu a prisão do homem, como pôs o juiz para correr – baseado em um relato (A Guerra de Canudos, a ideologia e o papel da imprensa no episódio; Roberto C. L. Moreira; Relatório Final de Projeto de Iniciação Científica (PIBIC); FGV-CNPq; 4/6/96; São Paulo; p 17). Esse episódio pode bem ser uma fantasia, mas é profundamente lógico e explicativo. 

2 - Embora Marco Antônio Villa diga que Ferreira morreu na 3ª expedição, conforme um boato da época, o certo é que ele, embora ferido, sobreviveu e se tornou Comandante da brigada Policial.

(Abaixo o Tenente Ferreira, já comandante da Polícia Baiana, cheio de moral, embora sua participação em Canudos oscile entre catastrófica e irresponsável. Dizem que após que logo após Uauá, ele teria dito: “se eu tivesse mais uns cem homens eu tomava Canudos!” Ele não tinha absolutamente nada que ir fazer em Canudos, mas ainda assim foi, e por causa dessa sua iniciativa, ele nunca alegou qualquer ordem ou sugestão do juiz Leoni no tresloucado ataque a Canudos, que tornou a guerra praticamente inevitável. Esses eram os homens no comando, dá para ficar admirado?)


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