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Eduardo Simões (a Margarida Maria)
Os africanos nadaram, nadaram, sofreram horrores nos
processos de descolonização, para se ajustarem definitivamente à realidade de
país independente e estado nacional, mas infelizmente estão fazendo o caminho
de retorno à descolonização e até ao imperialismo.
Em primeiro lugar vários países africanos estão apoiando a
política agressiva e expansionista da Rússia e da China. Enquanto esta procura,
por meio da “política do Yuan”, semelhante à “política do Dólar” do final da
Segunda Guerra, cooptar os países africanos para a sua área de influência, a
Rússia tenta, por meio de golpes militares que instituir ditaduras fechadas com
Moscou, mas que transferem a estabilização do continente africano, por meios de
estruturas onde prevaleça o estado de direito, para um futuro incerto, em meio ao
caos crescente, que só produzirá mais pobreza e a emigração. Os russos precisam
dos dois.
O problema da China é que, por estar financiando
indiferentemente ditaduras e democracias, corruptas ou não, pacíficas ou
beligerantes, para recriar a mina de ouro do Caminho da Seda, ela terá sempre
os seus custos crescendo exponencialmente, enquanto os resultados tendem a
ficar sempre abaixo das expectativas. Os dois maiores fracassos são: o Ceilão e
a África do Sul, o país dos apagões elétricos e morais, seguidos de Egito e
Paquistão. Isso sem antes resolver o eterno problema de fronteiras com a
segunda maior potência da Ásia: a Índia, que está prontinha para passar para o
lado do Ocidente.
A Rússia é o touro na loja de cristais, o “espalha brasas” do
mundo. Cresce na África explorando o divisionismo tribal e a imaturidade
psicológica de jovens oficiais. A Invasão da Ucrânia encareceu o petróleo e os
alimentos, que a Rússia precisa para financiar a invasão, mas ao fazer isso
inviabilizou economicamente muitos países africanos, que já estavam comprometidos
com a Rota da Seda, e que pararam de pagar os empréstimos China, ao mesmo tempo
que abriu os olhos dos países do Ocidente para o projeto russo-chinês e a
necessidade de se proteger contra ambos.
Mas o conflito russo-ucraniano não fez apenas a Europa
regredir, mas principalmente escangalhou a África, principalmente pelo aumento
do preço dos produtos básicos para a população, alimentos e energia,
necessariamente importados, enquanto garante aos russos acesso a minérios militares
estratégicos – inclusive minas administradas pelos líderes do famigerado Grupo
Wagner – e joga a população na miséria.
Na miséria, sem opções de melhoria de vida em seus países, os
jovens ficam mais tentados a, em troca de salários baixos, mas que em seus
países são uma fortuna, além possibilidade de cidadania russa para eles e para
os seus (Putin cumprirá “esta” promessa? E se cumprir, o russo médio abrirá mão
de seu tradicional isolamento racial, recebendo de braços abertos os seus novos
vizinhos de pele mais escura e hábitos estranhos, acercando-se de uma maneira “acintosa”,
aos seus olhos, mas não da exuberante cultura africana média, às suas filhas e
parentas mais próximas? Quando entrar num restaurante, poderão pedir comida
grátis, como acontece a veteranos brancos hoje, serão atendidos?), a se engajar
como mercenários no exército russo – assim Putin poupa a sua gente branca. A
pobreza, portanto, ajudará a reduzir as pretensões financeiras dos voluntários
africanos, e a emigração pode trazer ondas desses jovens tanto para a Europa
Ocidental, constrangendo o inimigo, como para a Rússia, aumentando o plantel de
voluntários. O que sobrará para a África?
Mas o pior de tudo isso, a meu ver, é olhar para uma foto da
guerra atual e me reportar, por meio dela, às fotos da Primeira Guerra Mundial,
a mais de cem anos, quando pela primeira vez, por conta de obrigações
colônia-metrópole, se viu uma infinidade de jovens africanos se ferindo ou
morrendo por uma guerra que não lhe dizia respeito: “coisa de branco”. Pois
bem, eles estão de volta, lutando pelo país de um ditador famoso por faltar às
suas promessas.
O mais irônico disso tudo é que, por mais de 70 anos, a União
Soviética, a Rússia, denunciou furiosamente, com dedos em riste e uma
propaganda encarniçada e visceral, os crimes do chamado Imperialismo
capitalista, inclusive o de envolver outros povos, “periféricos”,
“marginalizados”, em suas contendas espúrias, de países que não conseguem
conter a sua gula imperial, e hoje é a Rússia, quem traz de volta o que havia
de pior nesse período.
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