29 junho 2024

GUERRA DA COREIA: A ELEIÇÃO DA ONU

https://www.terra.com.br/byte/ciencia/coreia-do-norte-aparece-sob-total-escuridao-em-foto-da-nasa,98c7c37789564410VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html

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https://noticias.r7.com/tecnologia-e-ciencia/fotos/coreia-do-norte-e-tao-secreta-que-nao-e-possivel-ve-la-do-espaco-18082014/

(A PROVA MAIS ACACHAPANTE DO FRACASSO: Um satélite americano, enviando fotos da superfície terrestre descobriu que a Coreia do Sul, na verdade é uma ilha, na foto mais acima. Porém se traçarmos com uma linha branca os contornos do litoral veremos que o mar escuro, entre a Coreia do Sul e a China é a Coreia do Norte. O país que gasta bilhões fazendo armas nucleares é incapaz de garantir uma boa oferta de energia elétrica à noite, para suprir as necessidades básicas de seus habitantes, mas seus dirigentes estão tranquilos, pois sabem que essas imagens jamais chegarão ao povo do país, e se chegarem eles têm polícia e até forças armadas o suficiente para garantir que esse conhecimento não tenha consequência alguma)

Eduardo Simões (à Margarida Maria)

Sobre as eleições de maio de 1948, que o senhor Filipe Castanhari pretendeu sugerir no seu vídeo, que elas foram maliciosamente fiscalizadas pela ONU apenas no âmbito da Coreia do Sul, como se a ONU, por instigação alienígena, supostamente americana, não quisesse homologar eleições no norte, quem sabe temendo a derrota, vejamos o relato e a análise abaixo feita pelo professor universitário e historiador militar Alexander Bevin, que inclusive participou da guerra, em seu livro muito seco e direto: Korean War The First War We Lost (Guerra da Coreia, a primeira que nós perdemos). Sobre os episódios que antecederam e sucederam às eleições da ONU.

“Como fronteira administrativa, e muito menos política, o paralelo 38º não tinha nada a recomenda-lo. Ele cruzava a Coreia em seu ponto mais largo e não tinha conexão com nenhuma característica geográfica... A seleção do paralelo 38ª como fronteira, imediatamente irritou os coreanos, e sua divisão tão pouco natural do país desempenhou um papel importante na paixão com que os coreanos de ambos os lados, desejaram eliminá-lo e reunificar o país”.

Os soviéticos rapidamente consolidaram o seu controle da Coreia do Norte em 1945 e se empenharam em destruir qualquer possibilidade de um país unificado, que não fosse sob seu domínio. Primeiro eles minaram um governo de tutela de toda a Coreia, sob uma Comissão Conjunta de quatro potências (Rússia, Estados Unidos, Grã-Bretanha, China) aprovada no final de 1945. Em seguida a Rússia insistiu por uma comissão que trabalhasse apenas com os grupos políticos coreanos que apoiavam uma tutela [, destaque de minha autoria] — na verdade, apenas grupos comunistas minoritários e grupos simpatizantes do comunismo se encaixavam nesse critério, já que todas as outras facções políticas coreanas se opunham à tutela, e queriam uma independência rápida. Os russos também selaram a fronteira no paralelo 38ª, controlando o tráfego de entrada e saída da Coreia do Norte. Essa decisão na prática sacramentava a divisão da Coreia.

[Ou seja, os soviéticos queriam uma eleição definida previamente, como eram as eleições na URSS, de tal sorte que só vencesse quem eles queria. Fora isso não haveria eleição em absoluto]

Incapazes de superar a intransigência soviética, os Estados Unidos, apresentaram a questão às Nações Unidas. A Assembleia Geral da ONU votou, em 14 de novembro de 1947, por uma eleição para toda a Coreia, e nomeou uma Comissão Temporária da ONU sobre a Coreia (UNTCOK), de nove nações para supervisioná-la. A comissão, menos um de seus membros (a República Socialista Soviética Ucraniana que se recusou a participar), se reuniu em 8 de janeiro de 1948, no Palácio Duksoo em Seul, mas a Rússia proibiu a eleição no norte e se recusou a permitir que a comissão entrasse na Coreia do Norte [destaque de minha autoria].

[Vemos assim que as eleições decididas da Assembleia Geral da ONU foi antecedida por outra tentativa de pactuação, que envolvia apenas as potências mais diretamente envolvidas no entorno coreano, que o Castanhari não cita, e que também foi vetada pela URSS. Ficando uma pergunta diante desses fatos: quem estava com boa-vontade para resolver a situação da Coreia, e quem radicalizou até produzir a guerra?]  

Essa oposição levantou dúvidas dentro da comissão sobre seu status legal, e o seu presidente pediu uma nova resolução da ONU. Em 26 de fevereiro de 1948, o Comitê Interino da ONU resolveu que a comissão prosseguisse com a eleição em toda a Coreia, onde isso fosse possível. Isso significava, é claro, apenas a parte da Coreia ao sul do paralelo 38º, que ficou sob o governo militar dos EUA. Porém, apenas dois partidos de extrema direita na Coreia do Sul endossaram a eleição da ONU: a Sociedade Nacional para a Rápida Realização da Independência Coreana de Syngman Rhee e o Partido Democrático Coreano.

Os coreanos [a classe média urbana] temiam que tal eleição perpetuasse a divisão da Coreia, porque os russos fatalmente responderiam, criando um estado comunista rival no norte... insatisfeitos com essa perspectiva, os partidos moderados e esquerdistas pediram um boicote à eleição da ONU, marcada para 9 de maio de 1948. Nesse ínterim (22 a 23 de abril de 1948), o Comitê Popular comunista norte-coreano convidou grupos coreanos de ambos os lados do paralelo 38º para uma grande conferência sobre unificação, em Pyongyang... Estiveram presentes 545 delegados, 360 deles do Sul....muitas organizações moderadas e esquerdistas no Sul participaram [só um líder mais à direita]. O comandante militar dos EUA na Coreia, tenente-general John R. Hodge, reagiu mal e denunciou a conferência como uma conspiração política comunista.

[Era óbvio que embora os Estados Unidos não tivessem um projeto consolidado para a Coreia, e esta não fizesse parte do arco de segurança que eles estavam montando, eles não iam deixar que os russos, que não mexeram um dedinho no pior do enfrentamento ao Império Japonês, agora simplesmente saíssem abocanhando tudo naquela região, sem falar que todos sabiam da ajuda da URSS à guerrilha comunista chinesa. Os russos haviam feito grandes sacrifícios na luta contra os alemães, e já tinham sido regiamente presenteados com o domínio sobre Europa Oriental, graças à ingenuidade roosevelteana]   

Por volta dessa época, a Rússia propôs a retirada de todas as tropas estrangeiras da Coreia e deixar os assuntos pendentes nas mãos dos coreanos, uma proposta que era similar e paralela aos principais pontos contidos no comunicado da conferência de Pyongyang. A conferência de Pyongyang foi um último esforço da União Soviética e dos comunistas norte-coreanos para bloquear a eleição da ONU, e teve apenas o efeito de polarizar a situação política na Coreia em um grau surpreendente. Como todos os líderes moderados na Coreia do Sul se opuseram à eleição da ONU, Syngman Rhee, que passou quarenta anos exilado fora da Coreia [e era muito reacionário], ficou sem desafiantes.... Assim, a eleição da ONU [e a decisão desastrada dos moderados] criou forçosamente um governo direitista [radical] no Sul, que seria necessariamente contrastado por um governo comunista [radical] no Norte, sustentado pela Rússia.

Os moderados, que sem dúvida representavam a maioria em ambos os lados do 38º, foram assim completamente enganados, e a Península Coreana, de um golpe, foi dividida em dois campos políticos extremos e em dois estados soberanos, pelo paralelo 38º.... O maior obstáculos foi a pouca esperança que os moderados na Coreia tinham, antes da eleição da ONU, de criar pacificamente um país unificado e democrático diante, da intransigência russa e da suspeita americana sobre os motivos dos comunistas. .....A Coreia foi manipulada por ambos os lados para propósitos totalmente estranhos à península, e os próprios coreanos se tornaram dispensáveis.

[A direita coreana jamais concordaria com as decisões de Pyongyang, e a classe média centrista, moderada e majoritária foi incapaz de perceber a malícia e a hipocrisia dos movimentos e dos discursos dos soviéticos e seus asseclas do norte. A atitude de boicote dos moderados apenas abriu caminho para que os radicais, nas duas extremidades, conduzissem o processo e tornassem a guerra inevitável, com o caráter que teve: impiedoso ajuste de contas]

Os Estados Unidos, com a subversão comunista na Europa Oriental ainda fresca na memória, não confiavam na Rússia. E os soviéticos, paranoicos sobre a antipatia ocidental, não confiavam nos Estados Unidos. Talvez mais do que qualquer outra coisa, os russos, que há muito cobiçavam o controle da Coreia, não estavam dispostos a se retirar da posição que ocupavam, apenas para satisfazer as aspirações nacionais do povo coreano.

[Ou seja, os soviéticos pensando em termos estreitamente nacionalistas, aproveitaram para resgatar a honra nacional da humilhante derrota frente ao Japão, em 1904, e, na melhor das hipóteses, avançar sobre o Japão – é sabido a enorme lentidão com que os russos devolveram seus prisioneiros alemães e japoneses, após a 2ª Guerra. Aqueles que voltaram das prisões soviéticas relataram, além da rígida disciplina, sessões intermináveis de doutrinação no comunismo e a brutalidade mortal com que executavam os prisioneiros que resistiam à doutrinação]  

Consequentemente, a Coreia se viu novamente seguindo uma política que já havia adotado um milênio antes: a sadae-sasang, dependência de uma grande potência como salvaguarda de sua independência. Esta política permitiu à Coreia manter uma existência separada da China durante séculos, beneficiando a ambos os países: a Coreia tinha a sua quase independência, quando a China protegia a Coreia do expansionismo japonês, enquanto a mantinha como um estado-tampão, entre ela e os mesmos japoneses... Em 1948, no entanto, a Coreia viu-se forçada a jogar sadae-sasang com duas potências opostas, não uma só. No Sul, surgiu uma República da Coreia apoiada pelos EUA..., com Syngman Rhee, de setenta e três anos, como presidente autocrático

Os Estados Unidos, por sua vez, não tinham uma ideia clara, quando apoiaram a eleição da ONU, de que estavam adquirindo um "estado tributário civilizado" na forma da Coreia do Sul e que, como o Império Chinês de outrora, estavam assumindo um relacionamento de "irmão mais velho" com um "irmão mais novo" da Coreia do Sul. No entanto, Rhee regularmente defendia o uso da força como meio para realizar a unificação coreana... Rhee tratava qualquer opinião sobre uma reunificação pacífica do dois países como heresia.

Também não está claro se a União Soviética assumiu conscientemente o papel de um irmão mais velho... Mas o fato é que Kim II Sung no Norte adotou posturas agressivas muito pouco diferentes das de Rhee. No final de 1948, portanto, dois governos coreanos hostis defrontavam-se no paralelo 38, cada um alegando representar toda a Coreia e cada um dedicado à destruição do outro lado, ambos os lados estimulavam ataques fronteiriços, alguns deles bastante sangrentos.

Korean, The First War We Lost; Hipocrenes Books; New York; 2000 (p 10-14)

Para mais dados sobre as eleições de 1948 na Coreia do Sul, recomendo dois artigos da wikipedia em inglês: 1948 South Korean Constitutional Assembly election (a de maio, supervisionada pela ONU, para eleição de um Parlamento) e 1948 South Korean presidential election (quando Syngman Rhee foi eleito presidente, por voto indireto, por 92% dos representantes)


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