31 agosto 2024

CANUDOS: A GUERRA INTERMINÁVEL - 17

 

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(Acima: O caipira de Piracicaba. O melhor presidente que o Brasil já teve, e um completo desconhecido para nós, e talvez por isso, também o mais difamado)

A importância da política (final)

Eduardo Simões

O Rio de Janeiro não está melhor

A deposição de Deodoro gerou uma difícil aliança entre os cafeicultores paulistas e a ala autoritária do exército comandada pelo Vice-Presidente Floriano Peixoto. Os paulistas logo perceberam que com esse também não poderiam pregar os olhos. O seu autoritarismo natural, o seu temperamento inexorável, tendiam a ver a existência de outros projetos políticos para o país, como uma ofensa pessoal, e, de uma forma mais sorrateira e cruel que Deodoro, pôs-se a combatê-los com uma determinação neurótica, sem medir, tempo, despesas e vidas, que se perdiam aos montes.

A rendição incondicional era a sua única proposta na mesa. Enquanto isso os cofres públicos iam se esvaziando, a dívida externa crescendo, e um sólido programa de valorização para o café e a agricultura em geral ficava em compasso de espera.

A medida que o tempo passava Floriano dava sinais ambíguos, se iria largar o poder quando chegasse a hora. Os paulistas acercaram-se de todas as alianças para garantir o controle do Congresso e a realização de eleições normais ao final do mandato de Floriano. Destacou-se na defesa desse encaminhamento o político baiano Manuel Vitorino, que, por isso, foi chamado pelos republicanos para compor a chapa com Prudente de Morais, e que, na eleição de 1º de março de 1894, adiada por Floriano – deveria ser em outubro de 93 – saiu vitoriosa.

A presidência de Prudente começou estranha, em 15 de novembro de 1894. Ninguém foi busca-lo na estação Central do Brasil, e ele foi de taxi para o Palácio do Itamarati, a sede do Governo Federal, e o encontrou praticamente abandonado. Floriano escafedera-se após destruir a mobília. Segundo Edgar Carone (A Republica Velha II - evolução política (1889-1930); 4ª edição; Diffel; São Paulo; 1983; p 147), Floriano estava pensando em aplicar um golpe, mas foi demovido desse projeto em virtude de resistência no meio político e militar, inclusive do célebre coronel Moreira César, que nesse momento ajudou a salvar a legalidade e a democracia. Contrariado abandona o cargo, mas sai falando mal do governo – ele não suportava os civis – até que a morte nos livra desse flagelo, em junho de 95, não sem antes fomentar todo tipo de desconfiança contra Prudente e deixar um “testamento político” em que ignora completamente seu sucessor e o valor de governo pacífico.

A morte repentina de Floriano, não aliviou as coisas para Prudente, até piorou, poi ajudou a levantar um culto apaixonado ao Marechal, em especial na capital federal e no Rio Grande do Sul, ficando o paulista na incômoda oposição de o último grande inimigo do Marechal de Ferro, do Consolidador da República. Títulos bons para desviar a atenção para o grande desastre que foi a sua administração...

Os florianistas, que às vezes se autoproclamavam jacobinos, como na Revolução Francesa, muita agitação nas ruas, nos jornais e nas casernas, principalmente depois da iniciativa de Prudente em fechar um acordo com os marinheiros da Revolta da Armada e os Federalistas gaúchos, para a cessação das hostilidades. Os cofres públicos e a sociedade brasileira não suportavam mais tanta despesa, destruição e matanças. Em 23 de agosto de 1895, o país começa a entrar num ciclo de paz.

Golpe contra Prudente

Em 10 de novembro de 1896, após passar por uma intervenção cirúrgica Prudente entra em licença de tratamento. O Vice, Manuel Vitorino, andava bandeado para os florianistas, embora até ali inspirasse confiança, mas suas primeiras iniciativas geraram muita apreensão.

Em primeiro lugar reformou todo o ministério, deixando apenas um dos ministro de Prudente, Bernardino Campos, que informava o presidente licenciado de tudo – havia também um estudante de medicina disfarçado de copeiro de olho no golpista. Apesar de os cofres públicos estarem em petição de miséria – por causa do encilhamento e das guerras no Sul – Vitorino comprou um palácio novo para morar, o Palácio do Catete, por uma fortuna, e que será a residência oficial do Presidente da República até inauguração de Brasília.

Armando um golpe começou a se cercar de jacobinos e florianistas radicais, civis e militares, pensando em resistir a Prudente pela força. E é nesse momento, com a República em estado de “boteco em escombros”, que Canudos acontece, justo para salvar o regime que o Conselheiro tanto abominava. Nossa história é muito estranha.

Em 21 de novembro de 1896, acontece a inesperada e sangrenta batalha matinal de Uauá, evolvendo os conselheiristas e a tropa do Tenente Manuel da silva Pires Ferreira. Mas não chamou a atenção para do país.

Nos dias 18 e 19 de janeiros de 1897 ocorrem as duas batalhas envolvendo a expedição do Major Febrônio de Brito, com centenas de homens, canhões e metralhadora. Ao ser forçada a recuar, essa expedição chamou a sua atenção das autoridades para o que estavam enfrentando em Canudos. Não podia ser apenas um ajuntamento de fanáticos e gente simplória e sem juízo. O problema começou a ganhar contornos nacionais, e para justificar as pataquadas e motivar a repressão os militares e civis jacobinos começaram a falar em reação monarquista e ajuda externa aos rebeldes. Ninguém dava nada pelos homens e mulheres que habitavam e a região mais inóspita e pobre do Brasil.

Alguém, creio que foi Edgar Carone, conjeturou que, quando esse assunto chegou à capital, empolgando os meios militares e a classe média do Rio de Janeiro, Vitorino viu aí uma forma de ganhar estatura nacional, vencendo esse “levante monarquista”, junto com os radicais, e para tanto escolheu um dos florianistas mais respeitados para dirigir a 3ª Expedição: Moreira César, até para agradá-lo, pois mais uma vez este se opôs ao projeto de Vitorino de dar um golpe em Prudente – segundo ainda Carone. Vitorino usaria de quem resistiu ao seu projeto de poder para aumentar as chances desse projeto dar certo.

Alarmado com o encaminhamento das coisas, vendo ir por terra todo seu esforço de pacificação do país, Prudente resolve antecipar seu retorno ao Rio de Janeiro. Fê-lo de surpresa, sem que Vitorino soubesse. No dia 3 de março de 1897, ele chegou de mansinho, foi de mansinho para o seu gabinete. Chamou o secretário e disse-lhe: “Encontre o senhor Vice-Presidente e diga-lhe que estou reassumindo o meu cargo”.

Vitorino tomou um susto, mas ele ainda tinha um trunfo: Moreira César em Canudos. O trunfo chegou, mas não foi exatamente para ele.

No dia 4 de março de 1897, pela madrugada, Moreira César, morre de um ferimento a bala e a sua expedição se desfaz da forma mais vexaminosa impossível. As notícias da derrocada chegam ao Rio no dia 7 de março. Os jacobinos mais raivosos saem às ruas, jornais e púlpito do Congresso, a vociferar providências, como se tudo fosse culpa exclusiva de Morais. ‘Não está ainda convalescente? Quem sabe ele não fica nervoso e morre’. ‘Quem sabe ele não se acovarda, os militares se enfurecem, e tudo mais fácil?’.

A medida que os detalhes vão chegando aos jornais e a alta oficIalidade do 3º Distrito Miltar de Salvador, passa os detalhes colhidos dos sobreviventes para as altas oficialidades dos outros distritos, cria-se um clima de estupor e ódio visceral. Aconteça o que acontecer, Moreira César deve ser vingado. Florianistas e jacobinos piram. Em várias cidades do país há manifestações e passeatas, no Rio e em São Paulo jornais ligados aos monarquistas, por mais moderados que sejam, são empastelados, pessoas são cassadas nas ruas, no Rio de Janeiro, um ex-militar monarquista: Gentil de Castro é selvagemente assassinado, em São Paulo outro monarquista é gravemente ferido. Em algumas escolas militares os alunos a sinalizar a possibilidade de motins, que no final ocorrerão, enquanto os combates se desdobram no sertão.

Aquilo era uma desgraça para Prudente. Depois de tudo o que ele sofreu para pacificar o país, isolar a agressividade de florianistas/jacobinos e tentar recuperar economicamente a República, ali estava ele às voltas com uma nova guerra civil, herdada do seu substituto, sem ter dado um único passo nessa direção. Era a volta a estaca zero. E não há alternativa.

Nas reuniões do alto-comando do exército e nas ruas, a sorte cruenta de Canudos já está decidida, resta saber se Prudente de Morais vai endurecer o discurso ou tentar mais uma vez serenar os espíritos, se colocar contra a corrente, e ser arrastado por ela à perda do cargo e ou a uma violência pior. Ele faz um discurso duro, embora ponderado e perfeitamente dentro da legalidade e do bom senso, a partir do que se supunha ser, e era divulgado por toda a imprensa, a causa do problema em Canudos, e manda preparar uma tropa para encerrar aquele conflito definitivamente.

O Ministro da Guerra, General Argolo, florianista roxo, que fora nomeado por Vitorino, após dispensar o ministro de Prudente, entrega o comando da missão a outro florianista pior ainda: Arthur Oscar. Eles exultam! Talvez agora dê para matar dois coelhos de uma só paulada: dar um passeio no Conselheiro, e depois, carregados nos braços do povo, depor definitivamente a Prudente de Morais.

Mas o futuro planejou diferente.

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