22 agosto 2024

KARL MARX PARA OS ÍNTIMOS - 2



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O jornalista global Silio Boccanera, fez uma entrevista recente com um dos mais prestigiados biógrafos de Karl Marx, o inglês, Gareth Stedman Jones, que escreveu um livro sobre o filósofo alemão, cujo título é Karl Marx – grandeza e ilusão, além de uma introdução de quase 200 páginas, mais várias outras de notas explicativas ao Manifesto Comunista, de Marx e Engels, pela editora Penguin. Para que o leitor tenha ideia do “peso” de Jones nessa obra, saiba que o texto do Manifesto propriamente dito tem menos de 60 páginas. Só em inglês por enquanto.

Boccanera, habituado a trabalhar em programas de entretenimento, fez um matéria relativamente rasa, sobre um assunto superrico e interessante, talvez tenha tentado ficar no nível do grande público no Brasil, mas alguma coisa deu para aproveitar, afinal o entrevistado é um grande pesquisador, no sentido europeu do termo, e um homem acostumado a lidar um mercado editorial exigente, atento ao nível de seus clientes e consumidores; por isso copiei algumas partes que apresento abaixo, com os meus comentários portos entre colchetes.

Silio Boccanera — O senhor diria que Marx foi um homem vitoriano?

Gareth Stedman JonesClaro que sim, principalmente por sua atitude em relação às mulheres, ao moralismo sexual, à educação das filhas… Mas não devemos exagerar. Ele fez questão que elas se tornassem muito letradas, mas tiveram de aprender piano para que tivessem chance de atrair bons pretendentes [li em outra parte que ele as matriculava em boas escolas e contratava boas, e caras, preceptoras para elas. Intelectualmente eram muito preparadas]. E um dos problemas dele, ou oportunidades, foi que ele havia se casado com alguém proveniente de um estrato social mais alto.

Silio Boccanera — Jenny Westphalen.

Gareth Stedman JonesSim. Ela era filha de Ludwig Westphalen que era parte da nobreza de serviço na Prússia. Ela não estava disposta a abrir mão dessa posição. Mesmo com uma vida difícil, quando eles viajavam, principalmente para Trier, ela comprava um vestido novo. O objetivo era parecer rica e burguesa, mesmo se tivesse de penhorar de tudo em nome da boa aparência. Ele não tinha muito dinheiro. Viveu quase sempre falido. Ele era um falido, mas ganhou algum dinheiro como jornalista para o New York Daily Tribune, na década de 1850. A mulher dele escreveu uma autobiografia e diz que aquela foi uma época boa. Fora isso, eles dependiam de parentes que morriam e deixavam algum dinheiro ou de Engels, que o ajudou. Vale lembrar que, nos últimos 15 anos, a família dele dependeu inteiramente de Engels, o que criou muito ressentimento e também gratidão.

Silio Boccanera — Para muita gente, os horrores praticados em nome do marxismo no século 20 – o Gulag, a repressão, os processos de Moscou e todas essas coisas – são atribuídos a Stalin e até a Lênin, a Mao e outros. Mas tem gente que diz que as sementes disso estavam em Marx. O senhor concorda? Afinal, ele defendeu o terror na Revolução Francesa.

Gareth Stedman JonesÉ verdade. Eu acho que o problema do pensamento dele é que, embora ele dissesse que a humanidade é muito ativa em relação à natureza e à história, ele nunca aborda isso do ponto de vista do indivíduo [eu diria que também não do ponto de vista prático, embora entre os marxistas se fale muito em “práxis”, ação revolucionária, etc.]. Ele foi influenciado, a partir da década de 1840, pela ideia de que a declaração dos direitos dos homens era apenas uma declaração dos direitos dos capitalistas, então não devia ser levada muito a sério. Uma coisa importante sobre a diferença entre Marx e o marxismo é que Marx se envolveu muito com a Associação Internacional dos Trabalhadores, a Primeira Internacional. Ele testemunha seu impacto no Reino Unido após o segundo congresso de 1867. Ele testemunha e apoia a chamada “pressão externa”, que um sistema muda com pressão, não necessariamente através de uma revolução violenta, através do povo invadindo o Palácio de Inverno. Pode significar apenas políticos cedendo a pressões externas, como aconteceu em 1867 [sendo um burguês, ou antes um “pequeno burguês”, muito preocupado com a aparência, não é de se esperar que ele simpatizasse com um processo que poria abaixo aquilo que ele tanto prezava].

Silio Boccanera — Qual foi a importância de Engels em termos do desenvolvimento e de ajudar Marx a desenvolver suas teorias? Foi indispensável?

Gareth Stedman JonesAcho que ele foi muito importante no início, na década de 1850. Quando Marx veio para a Inglaterra, ele mal falava inglês. Ele escrevia os artigos para o New York Daily Tribune em alemão e Engels os traduzia. Ele aos poucos se tornou capaz de fazer isso sozinho. Em termos do funcionamento das bolsas de valores e das finanças, Engels tinha a experiência de ser empresário em Manchester.

Silio Boccanera — Ele sabia como uma fábrica funciona…

Gareth Stedman JonesSim, de como uma fábrica funciona [curioso nesse sentido é que essa experiência não aparece nos textos dos livros, haja visto a forma extremamente agressiva como ele trata o surgimento do comércio no seu A origem da família, da propriedade privada e do estado; até parece que ele nunca teve contato com a realidade empresarial moderna, com a extrema, e importante, ligação da indústria com o comércio, já avançada na sua época, e os percalços da atividade mercantil num mundo dominado por tribos e/ou aristocratas, e com a dinâmica das atividades econômicas] Em todos esses aspectos, Engels foi muito importante. Ele perde a importância com o passar do tempo. E o interessante é que, nos últimos 6 ou 7 anos de vida, Marx não mostrou nada a Engels [única conclusão possível é que ele estava de “saco cheio” daquele assunto, e principalmente do livro] E quando Engels, que foi executor de seu testamento, vê a pilha de textos no chão, fica horrorizado, porque Marx não estava fazendo o que ele pensava, que era a sequência de O Capital. [Noutras palavras: Marx o embromou, como embromou a seu pai décadas antes. Agora se ele escreveu O capital só para conseguir uma grana fácil, e tirar o Engels do seu pé, sou obrigado a dizer: o filho da mãe é um gênio. Uma das coisas curiosas nesse sentido é o fato de Marx não procurar ligar o seu nome ao seus textos, inclusive ao Capital, como se isso fosse uma coisa aparte, uma obrigação, caso contrário seria uma prova de humildade incomum e muito desvinculada do resto de suas reações e temperamento, que sempre primou por uma colossal autoestima, chegando à beira da mais crassa egolatria. Isso é esquisito! Agora Engels não podia dizer que foi enganado, pois Marx o tratou mal desde o primeiro encontro]

 Silio Boccanera — E Engels não achava que o volume 1 era muito claro. Ele o achava confuso, assim como muita gente que lê Das Kapital, volume 1.

Gareth Stedman JonesPois é, ele ficou muito impaciente com todas aquelas coisas sobre valor, que Marx nunca chegou a esclarecer [de fato há muitas lacunas em O capital, o eu provavelmente explica o fracasso de todas as tentativas feitas até hoje em transformar a abstração ali contida numa orientação para a ação.... que funcione] . Mas não foi só Engels [que ficou frustrado], os sociais-democratas alemães pressionavam Engels, perguntavam: “Mas e o clímax. Quando é que o capitalismo vai fracassar?” E Engels responde a isso – e talvez concordasse com esse raciocínio – dizendo que chegará o momento do colapso do capitalismo. Mas ele muda a palavra. Esse é um daqueles detalhes importantes. O que Marx diz, na verdade, é que, se várias situações acontecessem ao mesmo tempo, o capitalismo seria “erschüttert”, ou seja, “abalado” [que termo mais ambíguo! Tá na cara: TÁ ENROLANDO]. E Engels corta essa palavra e a substitui por “zusammengebracht”, ou “implodido”. Isso deu pano para as mangas dos sociais-democratas [e os marxistas ficaram aí, até hoje, esperando pelo acontecimento que nem o fundador da seita queria saber ou se deu ao trabalho de jogar alguma luz a respeito, até que alguém jogou a expressão “última instância”, sem esclarecer como isso se apresenta na realidade social ou como se sabe que já batemos no último nível da última instância para deflagrar o processo revolucionário, talvez para não correr o risco de heresia, avançando mais do que o “santo” fundador foi. Agora se o papel do marxista for não só refletir a realidade mas transformá-la, ficam sem respostas as questões: Quando? Em que termos? Em que direção? Na ausência desses parâmetros Castro, Jong un, Pol Pot, Lenin, Stalin, Mao, etc. inventaram os seus, e se tornaram senhores da vida e da morte de bilhões de seres humanos, acumulando mais poder que qualquer governante na história do mundo, desde que a humanidade saiu das cavernas. Que revolução!!!].

Então no final das contas, todo o desassossego revolucionário que sacudiu o século XX, e mantém na misérias vários países do século XXI, partiu mais do “burguesão”, do aprendiz de feiticeiro de vida dupla, Engels, que de seu guia, o filósofo irritadiço, furioso como Orlando, o mestre dos textos biliosos, Karl Marx, que pode perfeitamente aparecer no meio de uma assembleia dos BRICS, bem arrumado e limpo, com as barbas e as mãos cheirando a perfume sofisticado e dizer: “Eu não disse para vocês fazerem nada disso”.

Fontes: https://www.conjur.com.br/2018-dez-26/milenio-gareth-stedmanhistoriador-biografo-karl-marx/

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/04/cultura/1522865179_665829.html

(Adivinhem quem foi o único que não passou a roupa, nem a experimentou antes de comprar)

https://jornada.com.bo/wp-content/uploads/2023/08/XV-Cumbre-de-Jefes-de-Estado-y-Gobierno-de-los-BRICS-696x464.jpg

https://jornada.com.bo/los-brics-dan-el-historico-paso-de-admitir-a-seis-nuevos-miembros-incluida-argentina/


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