https://cdn.pixabay.com/photo/2024/04/01/19/37/karl-marx-8669662_640.png
https://pixabay.com/pt/vectors/karl-marx-o-comunismo-retrato-8669662/
O jornalista global Silio Boccanera, fez uma entrevista recente
com um dos mais prestigiados biógrafos de Karl Marx, o inglês, Gareth Stedman
Jones, que escreveu um livro sobre o filósofo alemão, cujo título é Karl Marx – grandeza e ilusão, além de
uma introdução de quase 200 páginas, mais várias outras de notas explicativas
ao Manifesto Comunista, de Marx e Engels,
pela editora Penguin. Para que o leitor tenha ideia do “peso” de Jones nessa
obra, saiba que o texto do Manifesto propriamente dito tem menos de 60 páginas.
Só em inglês por enquanto.
Boccanera, habituado a trabalhar em programas de entretenimento,
fez um matéria relativamente rasa, sobre um assunto superrico e interessante, talvez
tenha tentado ficar no nível do grande público no Brasil, mas alguma coisa deu
para aproveitar, afinal o entrevistado é um grande pesquisador, no sentido
europeu do termo, e um homem acostumado a lidar um mercado editorial exigente,
atento ao nível de seus clientes e consumidores; por isso copiei algumas partes
que apresento abaixo, com os meus comentários portos entre colchetes.
Silio Boccanera — O senhor diria que Marx foi um
homem vitoriano?
Gareth Stedman Jones — Claro que sim, principalmente por sua atitude em relação às mulheres,
ao moralismo sexual, à educação das filhas… Mas não devemos exagerar. Ele fez
questão que elas se tornassem muito letradas, mas tiveram de aprender piano
para que tivessem chance de atrair bons pretendentes [li em outra parte que
ele as matriculava em boas escolas e contratava boas, e caras, preceptoras para
elas. Intelectualmente eram muito preparadas]. E um dos problemas dele, ou oportunidades, foi que ele havia se
casado com alguém proveniente de um estrato social mais alto.
Silio Boccanera — Jenny Westphalen.
Gareth Stedman Jones — Sim. Ela era filha de Ludwig Westphalen que era parte da nobreza de
serviço na Prússia. Ela não estava disposta a abrir mão dessa posição. Mesmo
com uma vida difícil, quando eles viajavam, principalmente para Trier, ela
comprava um vestido novo. O objetivo era parecer rica e burguesa, mesmo se
tivesse de penhorar de tudo em nome da boa aparência. Ele não tinha muito
dinheiro. Viveu quase sempre falido. Ele era um falido, mas ganhou algum
dinheiro como jornalista para o New York Daily Tribune, na década de 1850. A
mulher dele escreveu uma autobiografia e diz que aquela foi uma época boa. Fora
isso, eles dependiam de parentes que morriam e deixavam algum dinheiro ou de
Engels, que o ajudou. Vale lembrar que, nos últimos 15 anos, a família dele
dependeu inteiramente de Engels, o que criou muito ressentimento e também
gratidão.
Silio Boccanera — Para muita gente, os horrores
praticados em nome do marxismo no século 20 – o Gulag, a repressão, os
processos de Moscou e todas essas coisas – são atribuídos a Stalin e até a
Lênin, a Mao e outros. Mas tem gente que diz que as sementes disso estavam em
Marx. O senhor concorda? Afinal, ele defendeu o terror na Revolução Francesa.
Gareth Stedman Jones — É verdade. Eu acho que o problema do pensamento dele é que, embora ele
dissesse que a humanidade é muito ativa em relação à natureza e à história, ele
nunca aborda isso do ponto de vista do indivíduo [eu diria que também não
do ponto de vista prático, embora entre os marxistas se fale muito em “práxis”,
ação revolucionária, etc.]. Ele foi
influenciado, a partir da década de 1840, pela ideia de que a declaração dos
direitos dos homens era apenas uma declaração dos direitos dos capitalistas,
então não devia ser levada muito a sério. Uma coisa importante sobre a
diferença entre Marx e o marxismo é que Marx se envolveu muito com a Associação
Internacional dos Trabalhadores, a Primeira Internacional. Ele testemunha seu
impacto no Reino Unido após o segundo
congresso de 1867. Ele testemunha e apoia a chamada “pressão externa”, que um
sistema muda com pressão, não necessariamente através de uma revolução
violenta, através do povo invadindo o Palácio de Inverno. Pode significar
apenas políticos cedendo a pressões externas, como aconteceu em 1867 [sendo
um burguês, ou antes um “pequeno burguês”, muito preocupado com a aparência,
não é de se esperar que ele simpatizasse com um processo que poria abaixo aquilo que ele tanto prezava].
Silio Boccanera — Qual foi a importância de Engels
em termos do desenvolvimento e de ajudar Marx a desenvolver suas teorias? Foi
indispensável?
Gareth Stedman Jones — Acho que ele foi muito importante no início, na década de 1850. Quando
Marx veio para a Inglaterra, ele mal falava inglês. Ele escrevia os artigos
para o New York Daily Tribune em alemão e Engels os traduzia. Ele aos poucos se tornou capaz de fazer isso
sozinho. Em termos do funcionamento das bolsas de valores e das finanças,
Engels tinha a experiência de ser empresário em Manchester.
Silio Boccanera — Ele sabia como uma fábrica
funciona…
Gareth Stedman Jones — Sim, de como uma fábrica funciona [curioso nesse sentido é que essa
experiência não aparece nos textos dos livros, haja visto a forma extremamente
agressiva como ele trata o surgimento do comércio no seu A origem da família, da propriedade privada e do estado; até parece
que ele nunca teve contato com a realidade empresarial moderna, com a extrema,
e importante, ligação da indústria com o comércio, já avançada na sua época, e
os percalços da atividade mercantil num mundo dominado por tribos e/ou
aristocratas, e com a dinâmica das atividades econômicas] Em todos esses aspectos, Engels foi muito importante. Ele perde a
importância com o passar do tempo. E o interessante é que, nos últimos 6 ou 7
anos de vida, Marx não mostrou nada a Engels [única conclusão possível é
que ele estava de “saco cheio” daquele assunto, e principalmente do livro] E quando Engels, que foi executor de seu
testamento, vê a pilha de textos no chão, fica horrorizado, porque Marx não
estava fazendo o que ele pensava, que era a sequência de O Capital.
[Noutras palavras: Marx o embromou, como embromou a seu pai décadas antes. Agora
se ele escreveu O capital só para conseguir
uma grana fácil, e tirar o Engels do seu pé, sou obrigado a dizer: o filho da
mãe é um gênio. Uma das coisas curiosas nesse sentido é o fato de Marx não
procurar ligar o seu nome ao seus textos, inclusive ao Capital, como se isso fosse
uma coisa aparte, uma obrigação, caso contrário seria uma prova de humildade
incomum e muito desvinculada do resto de suas reações e temperamento, que
sempre primou por uma colossal autoestima, chegando à beira da mais crassa egolatria.
Isso é esquisito! Agora Engels não podia dizer que foi enganado, pois Marx o
tratou mal desde o primeiro encontro]
Silio Boccanera — E Engels não achava que o volume 1
era muito claro. Ele o achava confuso, assim como muita gente que lê Das
Kapital, volume 1.
Gareth Stedman Jones — Pois é, ele ficou muito impaciente com todas aquelas coisas sobre
valor, que Marx nunca chegou a esclarecer [de fato há muitas lacunas em O
capital, o eu provavelmente explica o fracasso de todas as tentativas feitas
até hoje em transformar a abstração ali contida numa orientação para a ação....
que funcione] . Mas não foi só Engels
[que ficou frustrado], os
sociais-democratas alemães pressionavam Engels, perguntavam: “Mas e o clímax.
Quando é que o capitalismo vai fracassar?” E Engels responde a isso – e talvez
concordasse com esse raciocínio – dizendo que chegará o momento do colapso do
capitalismo. Mas ele muda a palavra. Esse é um daqueles detalhes importantes. O
que Marx diz, na verdade, é que, se várias situações acontecessem ao mesmo
tempo, o capitalismo seria “erschüttert”, ou seja, “abalado” [que termo
mais ambíguo! Tá na cara: TÁ ENROLANDO]. E
Engels corta essa palavra e a substitui por “zusammengebracht”, ou “implodido”.
Isso deu pano para as mangas dos sociais-democratas [e os marxistas ficaram
aí, até hoje, esperando pelo acontecimento que nem o fundador da seita queria
saber ou se deu ao trabalho de jogar alguma luz a respeito, até que alguém jogou
a expressão “última instância”, sem esclarecer como isso se apresenta na realidade
social ou como se sabe que já batemos no último nível da última instância para
deflagrar o processo revolucionário, talvez para não correr o risco de heresia,
avançando mais do que o “santo” fundador foi. Agora se o papel do marxista for
não só refletir a realidade mas transformá-la, ficam sem respostas as questões:
Quando? Em que termos? Em que direção? Na ausência desses parâmetros Castro,
Jong un, Pol Pot, Lenin, Stalin, Mao, etc. inventaram os seus, e se tornaram
senhores da vida e da morte de bilhões de seres humanos, acumulando mais poder
que qualquer governante na história do mundo, desde que a humanidade saiu das
cavernas. Que revolução!!!].
Então no final das contas, todo o desassossego revolucionário
que sacudiu o século XX, e mantém na misérias vários países do século XXI,
partiu mais do “burguesão”, do aprendiz de feiticeiro de vida dupla, Engels,
que de seu guia, o filósofo irritadiço, furioso como Orlando, o mestre dos
textos biliosos, Karl Marx, que pode perfeitamente aparecer no meio de uma
assembleia dos BRICS, bem arrumado e limpo, com as barbas e as mãos cheirando a
perfume sofisticado e dizer: “Eu não disse para vocês fazerem nada disso”.
Fontes: https://www.conjur.com.br/2018-dez-26/milenio-gareth-stedmanhistoriador-biografo-karl-marx/
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/04/cultura/1522865179_665829.html
(Adivinhem quem foi o único que não passou a roupa, nem a
experimentou antes de comprar)
https://jornada.com.bo/wp-content/uploads/2023/08/XV-Cumbre-de-Jefes-de-Estado-y-Gobierno-de-los-BRICS-696x464.jpg


Nenhum comentário:
Postar um comentário