23 agosto 2024

CANUDOS: GUERRA INTERMINÁVEL - 15

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(Casarão do Barão de Jeremoabo, construído por ele mesmo em 1894. Fica em Itapicuru, BA, e foi a sede do seu domínio senhorial, mas não feudal, sobre aquela região, e é uma das 61 fazendas que ele possuía na Bahia e em Alagoas)

A importância da política (início)

Em função do excesso de abordagens marxistas, superficiais e excessivamente economicistas, é possível que tenhamos ignorado sistematicamente uma boa fonte para entender a questão de Canudos: a política.

É mais fácil e simples jogar tudo em cima da bipolaridade classista, criada a partir do eterno dilema da propriedade privada, gerada pela fantasia, e assim fica muito fácil explicar Conselheiro como um reformador social e até um revolucionário, à frente de seu tempo, e até como uma forma de vingar a violência criminosa com que aquela gente foi exterminada.

Similitude com o Período Regencial

Se tivesse que escolher um momento histórico semelhante ao que se vivia no Brasil durante a consolidação da República, acho que a primeira metade do Período Regencial, entre 1831 e 1837, seria o que mais se lhe assemelha, pelo clima de desordem política, insegurança jurídica e violência que assomou o país.

Ao sair enxotado do país, o primeiro imperador, abandonou o cargo na calada da noite e foi se refugiar num navio inglês. As elites palacianas, que com ele partilhavam o poder, tiveram então que fazer frente a outros grupos das elites regionais, que a ela eram mantidas submissos, com mão de ferro, pelos até então donos do poder, que decerto também se colocavam submissos ao Imperador, já tendo suas vantagens garantidas, até para estimular a submissão dos outros – a oposição – dando a entender que ele eram só mais um entre os que se submetiam ao centro e símbolo máximo de poder.

A fuga desse centro de poder, pegou a todos de surpresa, e criou um vazio psicológico de autoridade profundo, pois Pedro I sempre deixava bem claro quem era que mandava. E todos a isso se submeteram, fosse por fraqueza fosse por interesse. E agora que o gato se foi, os ratos subiram à mesa para fazer a festa, e o país então mergulhou no período mais violento de sua história.

Essa violência foi causada pelas divergências entre grupos da elite agrária, que passaram a disputar, com armas na mão, o poder nas províncias, colocado à disposição com o fim do centro de autoridade. Não havia mais repressão a temer. Seria luta entre iguais, às custas do país.

O ciclo de violências começou com cada grupo da elite arregimentando a sua gente, trabalhadores rurais, inclusive escravos, para guerrear contra outros grupos dessa mesma elite fundiária e escravocrata, para ver quem se apossaria do maior naco de poder deixado em aberto, com a fuga do Imperador.

Com o tempo, porém, aquela situação começou a dar ideias a muitos peões e escravos, que se sacrificavam pelos interesses de seus senhores, no sentido de que eles poderiam lucrar mais lutando pelos seus próprios interesses, inclusive o de uma razoável parcela de escravos, que tomou parte em diversas disputas pelo país.

Percebendo que a situação saía de controle, as elites refluíram: costuraram acordos de convivência e liberaram seus jagunços e as forças armadas para conter, com mão de ferro, as revoltas em andamento, com destaque aos ominosos massacres de negros, índios e caboclos rebelados no Maranhão e no Pará.

O país se “pacificou”,

 A história se repete

A queda do Império em 1889, foi ainda mais surpreendente. Um golpe de estado inesperado, começado numa simples quartelada para proteger interesses da classe militar, e, de repente, muda a regime político do país; sem um plano prévio, sequer, refletido e discutido pelo menos em de círculos privilegiados. O novo regime tenta se estabelecer e consolidar ao sabor do mais esculachado improviso (1). Pelo menos da parte dos civis.

O único grupo organizado, que possuía um projeto político de república próprio era o exército, e o seu projeto não ensejava nada mais que uma ditadura militar, personalista, caudilhista, semelhante às que proliferavam em outros países da América-Hispânica. Ora, esse projeto se chocava frontalmente com o esboço trazido pelo mais poderoso grupo econômico do país: os cafeicultores paulistas, focados obsessivamente no atendimento de suas demandas econômicas, a principal delas: crédito à cafeicultura. “O Brasil é o café!” Era o seu slogan.

Em alguns estados, de uma maneira menos açodada que na Regência, surgiram rupturas entre grupos das elites político-econômicas, em especial no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Amazonas. Repetíamos o que já experimentáramos 60 anos antes, apenas com menor intensidade, e assim como acontecera na Regência, a Bahia foi particularmente afetada pela mudança de regime, em especial as sequelas geradas pela disputa entre militares e cafeicultores paulistas.

Os cafeicultores paulistas tinham o poder econômico, mas não dispunham do apoio de massas que possuíam o exército e seus aliados civis, políticos autoritários com apelo popular. O projeto paulista, originalmente, era economicamente mais atrasado, mas politicamente mais moderno, pois prestigiava as instituições, mas também mais burocrático e impessoal, o que não facilitou a criação de ligações consistentes dessas lideranças com os anseios e necessidades das pessoas nas cidades e nos campos. Era, enfim, um democracia liberal de fachada importada, contra um projeto de república autoritária, comandada por militares, certamente mais próxima do povo, e mais afeita ao autoritarismo (atropelo das instituições)

Deodoro passou a governar o Brasil como se fosse uma caserna. Logo suas ordens e desejos deviam ser imediatamente obedecidos, e começou a obstaculizar os interesses do setor cafeeiro paulista, que se amotinou, assenhorando-se do Poder Legislativo, enquanto cooptava para o seu lado o vice-presidente também militar. Como resultado do confronto, Deodoro dissolve o congresso, tocando nos calos de ambiciosas e ressentidas lideranças da Marinha, que aspiravam por mais espaço político, já que a arma perdera o prestígio que tinha no império.

Pressionado Deodoro se demite do cargo e os paulistas ascendem ao lado de seu aliado, o misterioso Floriano Peixoto.

Algo semelhante ao que ocorrera com as elites nas Regências, divididas entre progressistas, regressistas e caramurus!

Nota

1- O fato de os golpistas não terem um plano ou um projeto de país, não é tão grave quanto o fato de as nossas elites, até hoje, não terem gestado um projeto pactuado de país. Seguimos ao improviso, mais ou menos como o quadro de aviso uma repartição pública acéfala, onde avisos e documentos relevantes são colados aleatoriamente, até cobrir toda parede, ninguém se preocupa em retirar os que já estão desatualizados, dificultando a leitura e a consecução do que se queria ao colar o aviso.

(Abaixo: assim era o Barão de Jeremoabo, uma máquina de escrever cartas, deixou mais de 44,4 mil cartas, 1.300 se referem a Canudos. Ele é considerado um cidadão benemérito na cidade)

https://museubaraodejeremoabo.com.br/fotos/barao/Foto%207%20-%20Bar%C3%A3o%20de%20Jeremoabo.jpg

https://museubaraodejeremoabo.com.br/barao-de-jeremoabo.php



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