A importância da
política (início)
Em função do excesso de abordagens marxistas, superficiais e excessivamente
economicistas, é possível que tenhamos ignorado sistematicamente uma boa fonte
para entender a questão de Canudos: a política.
É mais fácil e simples jogar tudo em cima da bipolaridade
classista, criada a partir do eterno dilema da propriedade privada, gerada pela
fantasia, e assim fica muito fácil explicar Conselheiro como um reformador
social e até um revolucionário, à frente de seu tempo, e até como uma forma de
vingar a violência criminosa com que aquela gente foi exterminada.
Similitude com o
Período Regencial
Se tivesse que escolher um momento histórico semelhante ao
que se vivia no Brasil durante a consolidação da República, acho que a primeira
metade do Período Regencial, entre 1831 e 1837, seria o que mais se lhe
assemelha, pelo clima de desordem política, insegurança jurídica e violência
que assomou o país.
Ao sair enxotado do país, o primeiro imperador, abandonou o
cargo na calada da noite e foi se refugiar num navio inglês. As elites
palacianas, que com ele partilhavam o poder, tiveram então que fazer frente a
outros grupos das elites regionais, que a ela eram mantidas submissos, com mão
de ferro, pelos até então donos do poder, que decerto também se colocavam
submissos ao Imperador, já tendo suas vantagens garantidas, até para estimular
a submissão dos outros – a oposição – dando a entender que ele eram só mais um
entre os que se submetiam ao centro e símbolo máximo de poder.
A fuga desse centro de poder, pegou a todos de surpresa, e
criou um vazio psicológico de autoridade profundo, pois Pedro I sempre
deixava bem claro quem era que mandava. E todos a isso se submeteram, fosse por
fraqueza fosse por interesse. E agora que o gato se foi, os ratos subiram à
mesa para fazer a festa, e o país então mergulhou no período mais violento de sua
história.
Essa violência foi causada pelas divergências entre grupos da
elite agrária, que passaram a disputar, com armas na mão, o poder nas
províncias, colocado à disposição com o fim do centro de autoridade. Não havia
mais repressão a temer. Seria luta entre iguais, às custas do país.
O ciclo de violências começou com cada grupo da elite
arregimentando a sua gente, trabalhadores rurais, inclusive escravos, para
guerrear contra outros grupos dessa mesma elite fundiária e escravocrata, para
ver quem se apossaria do maior naco de poder deixado em aberto, com a fuga do
Imperador.
Com o tempo, porém, aquela situação começou a dar ideias a
muitos peões e escravos, que se sacrificavam pelos interesses de seus senhores,
no sentido de que eles poderiam lucrar mais lutando pelos seus próprios
interesses, inclusive o de uma razoável parcela de escravos, que tomou parte em
diversas disputas pelo país.
Percebendo que a situação saía de controle, as elites
refluíram: costuraram acordos de convivência e liberaram seus jagunços e as
forças armadas para conter, com mão de ferro, as revoltas em andamento, com
destaque aos ominosos massacres de negros, índios e caboclos rebelados no
Maranhão e no Pará.
O país se “pacificou”,
A história se repete
A queda do Império em 1889, foi ainda mais surpreendente. Um
golpe de estado inesperado, começado numa simples quartelada para proteger
interesses da classe militar, e, de repente, muda a regime político do país; sem
um plano prévio, sequer, refletido e discutido pelo menos em de círculos
privilegiados. O novo regime tenta se estabelecer e consolidar ao sabor do mais
esculachado improviso (1). Pelo menos da parte dos civis.
O único grupo organizado, que possuía um projeto político de
república próprio era o exército, e o seu projeto não ensejava nada mais que
uma ditadura militar, personalista, caudilhista, semelhante às que proliferavam
em outros países da América-Hispânica. Ora, esse projeto se chocava frontalmente
com o esboço trazido pelo mais poderoso grupo econômico do país: os
cafeicultores paulistas, focados obsessivamente no atendimento de suas
demandas econômicas, a principal delas: crédito à cafeicultura. “O Brasil é o
café!” Era o seu slogan.
Em alguns estados, de uma maneira menos açodada que na
Regência, surgiram rupturas entre grupos das elites político-econômicas, em
especial no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Amazonas. Repetíamos o que já experimentáramos
60 anos antes, apenas com menor intensidade, e assim como acontecera na
Regência, a Bahia foi particularmente afetada pela mudança de regime, em
especial as sequelas geradas pela disputa entre militares e cafeicultores
paulistas.
Os cafeicultores paulistas tinham o poder econômico, mas não
dispunham do apoio de massas que possuíam o exército e seus aliados civis,
políticos autoritários com apelo popular. O projeto paulista, originalmente, era
economicamente mais atrasado, mas politicamente mais moderno, pois prestigiava
as instituições, mas também mais burocrático e impessoal, o que não facilitou a
criação de ligações consistentes dessas lideranças com os anseios e necessidades
das pessoas nas cidades e nos campos. Era, enfim, um democracia liberal de
fachada importada, contra um projeto de república autoritária, comandada por
militares, certamente mais próxima do povo, e mais afeita ao autoritarismo
(atropelo das instituições)
Deodoro passou a governar o Brasil como se fosse uma caserna.
Logo suas ordens e desejos deviam ser imediatamente obedecidos, e começou a
obstaculizar os interesses do setor cafeeiro paulista, que se amotinou,
assenhorando-se do Poder Legislativo, enquanto cooptava para o seu lado o
vice-presidente também militar. Como resultado do confronto, Deodoro dissolve o
congresso, tocando nos calos de ambiciosas e ressentidas lideranças da Marinha,
que aspiravam por mais espaço político, já que a arma perdera o prestígio que
tinha no império.
Pressionado Deodoro se demite do cargo e os paulistas
ascendem ao lado de seu aliado, o misterioso Floriano Peixoto.
Algo semelhante ao que ocorrera com as elites nas Regências,
divididas entre progressistas, regressistas e caramurus!
Nota
1- O fato de os golpistas não terem um plano ou um projeto de
país, não é tão grave quanto o fato de as nossas elites, até hoje, não terem
gestado um projeto pactuado de país. Seguimos ao improviso, mais ou menos como
o quadro de aviso uma repartição pública acéfala, onde avisos e documentos
relevantes são colados aleatoriamente, até cobrir toda parede, ninguém se
preocupa em retirar os que já estão desatualizados, dificultando a leitura e a
consecução do que se queria ao colar o aviso.
(Abaixo: assim era o Barão de Jeremoabo, uma máquina de escrever cartas, deixou mais de 44,4 mil cartas, 1.300 se referem a Canudos. Ele é considerado um cidadão benemérito na cidade)
https://museubaraodejeremoabo.com.br/fotos/barao/Foto%207%20-%20Bar%C3%A3o%20de%20Jeremoabo.jpg
https://museubaraodejeremoabo.com.br/barao-de-jeremoabo.php


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