(Acho que é um pouco assim que eu vejo Marx: rindo de toda a bagunça que fizeram a partir da deturpação de sua mensagem. Mas é preciso não esquecer de toda a imensa tragédia que isso causou a bilhões de pessoas pelo mundo e aprendermos daí o valor maior da EVOLUÇÃO sobre a REVOLUÇÃO, como Marx acreditava, pelo menos até quando morreu...)
Dessa vez eu trouxe, abaixo, mais uma entrevista com Gareth Stedman Jones, um dos mais conceituados biógrafos de Marx, só que numa abordagem mais profunda ligada às suas ideias e menos a detalhes de sua vida pessoal. Essa entrevista foi dada ao jornalista espanhol Sergio Enríquez-Nistal, do diário espanhol El Mundo, em 2018 (link abaixo).
Quais foram os maiores
erros dos biógrafos de Marx?
Parte do problema é que
no século XX, independentemente do que se diga sobre Marx, isso tinha uma
tremenda carga política, num sentido ou noutro [se elogiasse era visto como
revolucionário, se criticasse era visto como explorador reacionário, ou justo o
oposto dependendo da posição política de quem escutasse sua opinião]. Assim, os biógrafos desenvolveram uma forma
de falar sobre o que ele fez e suas ações, mas sem se envolverem muito em seu
pensamento político... Parece que seus biógrafos sempre quiseram retratá-lo
como um bom homem [alimentando o culto da personalidade]. Para mim, a verdade é que não creio que
fosse necessário. Nem quero dizer com isto que deva ser apresentado como um
número negativo: basta dar uma imagem honesta do que dizem as fontes, que é o
que tentei fazer.
......
Como Marx, o homem, se diferencia do
mito?
Uma grande diferença é que, começando
por Engels, existe esta crença de que o marxismo é igual a Marx e que isso
também significa que o capitalismo vai acabar num futuro não muito distante. Na
verdade, isso é um mito criado já nos últimos anos da vida do próprio Marx,
quando Engels escreveu o Anti-Dühring, sobre como o capitalismo irá perecer
devido às suas próprias contradições. Os sociais-democratas alemães não podiam
desafiar o governo Bismarck e esta era a forma de os estimular. Depois da morte
de Marx, Engels começou a produzir o segundo volume de O Capital. Os
socialdemocratas estavam um pouco ansiosos porque queriam ver o capítulo em
que o capitalismo acabasse e desaparecesse. De certa forma, Engels encorajou-os
ao dizer que nos manuscritos que Marx deixara entre 1861 e 1864 havia material
fantástico para argumentar nesse sentido. Mas quando analisou detalhadamente o
que aquele tinha escrito nesses cinco anos, após a sua morte, descobriu que não
há um momento em que o capitalismo desaparece [tudo que Marx fez foi uma
crítica ao capitalismo. Ele não pretendeu fazer profecia: fizeram por ele]. Há
um capítulo sobre o declínio das taxas de lucro, e o que Marx faz é falar sobre
circunstâncias em que o capitalismo sofreria um abalo, que é o termo que ele
usa. Mas Engels... no desejo de agradar aos sociais-democratas alemães, risca o
termo “abalo” e escreve “colapso”
[ou seja, uma grande farsa, que nos faz dizer sem medo de errar: “pobre Marx, quantos
crimes não se cometeram em teu nome... por puro engano!”].
Até se parece com a escrita dos
Evangelhos, pois uma coisa foi o que Jesus realmente disse, e outra era o que
queriam que ele tivesse dito.
Concordo. Algo que é bastante evidente
é que desde o início da década de 1870 Marx deixou de tentar escrever O Capital
e tornou-se mais interessado em considerar as sociedades pré-capitalistas, com
a crença de que na Rússia as comunidades rurais poderiam sobreviver sem passar
por uma fase burguesa [a Rússia tinha
uma tradição de coletivismo agrário arcaico, nas comunidades supostamente socializantes
chamadas “mir”]. O Grupo para a
Emancipação do Trabalho, formado pelos primeiros marxistas russos em Genebra,
enviou uma carta a Marx em 1881 na qual o questionavam a sua posição sobre se a
Rússia poderia evitar passar pelo capitalismo. Marx acha a questão complicada e
escreve quatro rascunhos de sua resposta. Mas o que envia a Vera Zasulich
parece aludir à possibilidade de saltar a fase capitalista [ele, aparentemente
dava pouca importância ao processo de industrialização, como uma etapa para o
auge do capitalismo, antes do socialismo]. E
isto vai claramente contra o que propugnavam Plekhanov e Lenin. Então eles
fingem que isso nunca aconteceu e que a carta nunca foi enviada. Quando o
estudioso de Marx David Ryazanov perguntou aos sobreviventes deste grupo em
1911 se Karl escreveu aquela carta ou não, eles responderam que não sabiam, que
não se lembravam. E então, finalmente, em 1921, a carta aparece entre os papéis
de Pavel Axelrod. O interessante é que eles disseram que haviam esquecido.
O que você acha desta teoria de que o
marxismo basicamente procurou substituir o cristianismo por uma religião
secular?
Bobagem
(risos). Marx traça uma análise do que
ele acreditava que aconteceria no desenvolvimento do modo de produção
capitalista, isso é inegável. Acreditava que ele iria acabar em algum momento.
Mas quando algumas pessoas corrigiram certas ideias que ele estava
desenvolvendo, ele decide abandoná-las. Originalmente, começa de um ponto de
vista semirreligioso dizendo que, quando a propriedade privada no cristianismo
e no direito romano substitui a polis grega, num certo sentido há uma queda na
cultura humana [com base em que critério?]. E isso estabelece as bases desta ideia, por volta de 1844, da vocação
do proletariado para devolver a humanidade ao estado anterior àquela queda,
àquela corrupção das instituições humanas. Mas então Max Steiner, no seu ataque
a Feuerbach, que está na origem de toda esta questão, questiona-o: o homem não
tem vocação para nada, exceto para viver tranquilamente, e a classe
trabalhadora também não tem vocação. Embora também não mexa muito nisso: coloca
Marx numa posição impossível de defender. Porque se a classe trabalhadora não
tem essa vocação, por que representaria a queda do capitalismo? [Nunca um
operário ou uma comissão deles jamais reivindicou, na história, a mudança
completa da sociedade; seus movimentos sempre foram no sentido de resolver
questões específicas quanto à sua qualidade de vida. Quando os comunistas russos
determinam que o partido e não os sindicatos comporiam a vanguarda da classe
trabalhadora, eles, de certa forma, desmascaram o mito, e afirmam claramente
que e revolução do proletariado é, de fato, produzida e dirigida por acadêmicos
e intelectuais pequeno burgueses, que governarão o mundo mais ou menos como os
filósofos República de Platão e os sábios da utopia positivista]
Ele queria ser poeta...
...
No começo ele quis ser poeta, mas não foi
muito bom nisso. E aos poucos acaba evoluindo para a crítica filosófica. A
razão pela qual, talvez, ele possa ter uma visão mais ampla da mudança
histórica é porque leu Hegel e utiliza no seu pensamento esse quadro hegeliano
de mudança global, em vez de mudança local. Portanto, por seguir Hegel, ele tem
uma noção diferente de outros socialistas e filósofos, como Spinoza. Eles
sustentam que a alternativa à visão cristã é acreditar que o homem é um ser
natural que procura o prazer e evita a dor, que ele é sensual e, portanto, um
produto do seu ambiente, etc. O que Marx, baseado em Hegel e nessa tradição
idealista (Kant), sustenta é que o homem não é apenas um ser natural... Isso
significa que sua origem não é apenas a natureza, mas também a história. O
homem faz-se através da sua vontade, e esta não é determinada por
circunstâncias externas, mas é algo que ele próprio cria [desde que não
viva num regime socialista]. É por isso
que tem uma visão muito ampla de como ocorrem as mudanças históricas. E quando
aplica estas noções ao socialismo, ele acredita que os trabalhadores podem
transformar a situação de uma forma que os seus contemporâneos socialistas não
acreditavam ser possível. Porque Marx tem uma noção muito mais ativa de como se
poderia formar e transformar a história. [A grande vantagem de Marx,
portanto, não é dele próprio, mas de Hegel, embora Marx tenha o mérito de
reconhecer o seu valor]
Poder-se-ia dizer que Marx, como
Platão, queria tornar-se um governante?
Se ele tinha essa fantasia, nunca a
expressou abertamente. Não creio que ele possa ser equiparado a Platão, mas sim
a alguém interessado em compreender a direção que o mundo estava tomando e os
debates que nele decorriam. Desse ponto de vista, poderia moldar e estruturar
esses debates. A intenção de Marx não era ditar como deveria ser o futuro, mas
sim compreender que forma esse futuro poderia assumir. Mas é claro que também,
como comentarista político e jornalista, ele deixou algumas reflexões bem
malucas. Original, para dizer o mínimo.
Como explicar que um homem que não
queria ditar nada a ninguém, acabou dando origem a tantas doutrinas que fazem é
justamente isso: dizer às pessoas o que devem fazer?
Até 1848, ele acreditava entender como
o mundo estava indo, através da Liga Comunista. Ele acreditava que eles
formariam a revolução na Alemanha. Mas isso não aconteceu. Tudo correu muito
diferente do que estava previsto e embora ele nunca tenha admitido ter errado [seu ego morava nas alturas], mudou de posição, silenciosamente: já não
falava da classe operária num sentido revolucionário, mas sim Passou a se
referir à força de trabalho do capital, e àquelas contradições que levariam ao
fim do capitalismo ou que produziriam outro episódio como o de 1848. Mas isso
também não aconteceu. Assim, na década de 1860... o que acabou de emergir foi a
ideia de que a revolução era um processo, e não o resultado da ação de um
partido único, ou de uma ditadura, ou de um acontecimento em particular. Ele
acha que entende como o mecanismo funciona, mas quando a História não faz o que
ele pensava que faria, ele fica chateado. Então, no final dos anos 50 e início
dos anos 60, ele está culpando a todos, menos a si mesmo, por não ter acertado
o que deveria acontecer. Mas sempre esperando ver acontecer no mundo que pareça
promissor, e aí ele se agarra e guarda. [É como dizia aquele ‘pensador’: “preveja
todo dia a sua morte que um dia você acerta]
..............
Quão relevante é Marx nos dias de hoje?
Marx traça uma imagem muito
interessante do capitalismo, da sua energia, do seu dinamismo. E ele faz isso
com mais eloquência do que qualquer outra pessoa [principalmente no início do
Manifesto]. Por isso, o que ele escreve ainda é relevante. Agora sabemos que o
capitalismo é instável, que tem os seus altos e baixos, as crises, os ciclos...
E é precisamente essa imprevisibilidade do capitalismo, que cria e destrói, que
continua interessante. Em segundo lugar, e voltando a Feuerbach e à sua crítica
à religião, o capitalismo é uma criação humana e, portanto, poderia ser
desmantelado pelos humanos. Acho que esse conceito ainda é válido. [Aqui o autor se engana redondamente, o
capitalismo não foi uma criação ex-nihilo (do nada), ou ex-abrupto (subitamente),
de alguns pensadores tipo Cantillon (1660-1734), Adam Smith (1723-1790) a partir
do nada, como quando alguém contrói uma cadeira, por exemplo, pinta um quadro,
etc. Não, o capitalismo é antes uma tomada de consciência das melhores
interações possíveis, dentro dos condicionantes de um determinado período
histórico-cultural, para a criação coletiva de riquezas. Os marcos teóricos do podem
mudar em virtude das mudanças sociais produzidas pelo avanço tecnológico, e
nesse sentido pode tomar rumos inesperados, em função do volume de excedentes
produzido e das condições e relações de produção pelo menos influenciadas pelo
avanço tecnológico, a ponto de ficar muito diferente do que o descreveram os
seus teóricos fundadores, o que não tem nada a ver com o seu desmantelamento,
como uma teoria ou um romance que alguém muda o texto a bel prazer. Para isso
acontecer é preciso antes combinar com a realidade]. Por exemplo, quando os neoliberais pintam o mundo como um lugar onde as
pessoas são determinadas pelo seu habitat econômico. E finalmente há a questão
do que é revolução. Em 1848 ou 1917 tratava-se de atacar alguma coisa, com
tropas nas ruas. Mas, paralelamente, começou a ver-se que a revolução também
poderia significar pressionar em diferentes lugares, para transformar a sociedade
sem ter que matar ninguém. Com movimentos jurídicos e paralegais, cooperativas,
sindicatos, partidos políticos, legislações como a limitação do horário de
trabalho nas fábricas... É uma noção que ainda nos pode ser muito útil hoje.
https://www.elmundo.es/cronica/2018/04/13/5aca7370268e3e45268b45b1.html

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