24 agosto 2024

KARL MARX PARA OS ÍNTIMOS - 4



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(Acho que é um pouco assim que eu vejo Marx: rindo de toda a bagunça que fizeram a partir da deturpação de sua mensagem. Mas é preciso não esquecer de toda a imensa tragédia que isso causou a bilhões de pessoas pelo mundo e aprendermos daí o valor maior da EVOLUÇÃO sobre a REVOLUÇÃO, como Marx acreditava, pelo menos até quando morreu...)

Dessa vez eu trouxe, abaixo, mais uma entrevista com Gareth Stedman Jones, um dos mais conceituados biógrafos de Marx, só que numa abordagem mais profunda ligada às suas ideias e menos a detalhes de sua vida pessoal. Essa entrevista foi dada ao jornalista espanhol Sergio Enríquez-Nistal, do diário espanhol El Mundo, em 2018 (link abaixo).

Quais foram os maiores erros dos biógrafos de Marx?

Parte do problema é que no século XX, independentemente do que se diga sobre Marx, isso tinha uma tremenda carga política, num sentido ou noutro [se elogiasse era visto como revolucionário, se criticasse era visto como explorador reacionário, ou justo o oposto dependendo da posição política de quem escutasse sua opinião]. Assim, os biógrafos desenvolveram uma forma de falar sobre o que ele fez e suas ações, mas sem se envolverem muito em seu pensamento político... Parece que seus biógrafos sempre quiseram retratá-lo como um bom homem [alimentando o culto da personalidade]. Para mim, a verdade é que não creio que fosse necessário. Nem quero dizer com isto que deva ser apresentado como um número negativo: basta dar uma imagem honesta do que dizem as fontes, que é o que tentei fazer.

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Como Marx, o homem, se diferencia do mito?

Uma grande diferença é que, começando por Engels, existe esta crença de que o marxismo é igual a Marx e que isso também significa que o capitalismo vai acabar num futuro não muito distante. Na verdade, isso é um mito criado já nos últimos anos da vida do próprio Marx, quando Engels escreveu o Anti-Dühring, sobre como o capitalismo irá perecer devido às suas próprias contradições. Os sociais-democratas alemães não podiam desafiar o governo Bismarck e esta era a forma de os estimular. Depois da morte de Marx, Engels começou a produzir o segundo volume de O Capital. Os socialdemocratas estavam um pouco ansiosos porque queriam ver o capítulo em que o capitalismo acabasse e desaparecesse. De certa forma, Engels encorajou-os ao dizer que nos manuscritos que Marx deixara entre 1861 e 1864 havia material fantástico para argumentar nesse sentido. Mas quando analisou detalhadamente o que aquele tinha escrito nesses cinco anos, após a sua morte, descobriu que não há um momento em que o capitalismo desaparece [tudo que Marx fez foi uma crítica ao capitalismo. Ele não pretendeu fazer profecia: fizeram por ele]. Há um capítulo sobre o declínio das taxas de lucro, e o que Marx faz é falar sobre circunstâncias em que o capitalismo sofreria um abalo, que é o termo que ele usa. Mas Engels... no desejo de agradar aos sociais-democratas alemães, risca o termo “abalo” e escreve “colapso” [ou seja, uma grande farsa, que nos faz dizer sem medo de errar: “pobre Marx, quantos crimes não se cometeram em teu nome... por puro engano!”].

Até se parece com a escrita dos Evangelhos, pois uma coisa foi o que Jesus realmente disse, e outra era o que queriam que ele tivesse dito.

Concordo. Algo que é bastante evidente é que desde o início da década de 1870 Marx deixou de tentar escrever O Capital e tornou-se mais interessado em considerar as sociedades pré-capitalistas, com a crença de que na Rússia as comunidades rurais poderiam sobreviver sem passar por uma fase burguesa [a Rússia tinha uma tradição de coletivismo agrário arcaico, nas comunidades supostamente socializantes chamadas “mir”]. O Grupo para a Emancipação do Trabalho, formado pelos primeiros marxistas russos em Genebra, enviou uma carta a Marx em 1881 na qual o questionavam a sua posição sobre se a Rússia poderia evitar passar pelo capitalismo. Marx acha a questão complicada e escreve quatro rascunhos de sua resposta. Mas o que envia a Vera Zasulich parece aludir à possibilidade de saltar a fase capitalista [ele, aparentemente dava pouca importância ao processo de industrialização, como uma etapa para o auge do capitalismo, antes do socialismo]. E isto vai claramente contra o que propugnavam Plekhanov e Lenin. Então eles fingem que isso nunca aconteceu e que a carta nunca foi enviada. Quando o estudioso de Marx David Ryazanov perguntou aos sobreviventes deste grupo em 1911 se Karl escreveu aquela carta ou não, eles responderam que não sabiam, que não se lembravam. E então, finalmente, em 1921, a carta aparece entre os papéis de Pavel Axelrod. O interessante é que eles disseram que haviam esquecido.

O que você acha desta teoria de que o marxismo basicamente procurou substituir o cristianismo por uma religião secular?

Bobagem (risos). Marx traça uma análise do que ele acreditava que aconteceria no desenvolvimento do modo de produção capitalista, isso é inegável. Acreditava que ele iria acabar em algum momento. Mas quando algumas pessoas corrigiram certas ideias que ele estava desenvolvendo, ele decide abandoná-las. Originalmente, começa de um ponto de vista semirreligioso dizendo que, quando a propriedade privada no cristianismo e no direito romano substitui a polis grega, num certo sentido há uma queda na cultura humana [com base em que critério?]. E isso estabelece as bases desta ideia, por volta de 1844, da vocação do proletariado para devolver a humanidade ao estado anterior àquela queda, àquela corrupção das instituições humanas. Mas então Max Steiner, no seu ataque a Feuerbach, que está na origem de toda esta questão, questiona-o: o homem não tem vocação para nada, exceto para viver tranquilamente, e a classe trabalhadora também não tem vocação. Embora também não mexa muito nisso: coloca Marx numa posição impossível de defender. Porque se a classe trabalhadora não tem essa vocação, por que representaria a queda do capitalismo? [Nunca um operário ou uma comissão deles jamais reivindicou, na história, a mudança completa da sociedade; seus movimentos sempre foram no sentido de resolver questões específicas quanto à sua qualidade de vida. Quando os comunistas russos determinam que o partido e não os sindicatos comporiam a vanguarda da classe trabalhadora, eles, de certa forma, desmascaram o mito, e afirmam claramente que e revolução do proletariado é, de fato, produzida e dirigida por acadêmicos e intelectuais pequeno burgueses, que governarão o mundo mais ou menos como os filósofos República de Platão e os sábios da utopia positivista]

Ele queria ser poeta...

... No começo ele quis ser poeta, mas não foi muito bom nisso. E aos poucos acaba evoluindo para a crítica filosófica. A razão pela qual, talvez, ele possa ter uma visão mais ampla da mudança histórica é porque leu Hegel e utiliza no seu pensamento esse quadro hegeliano de mudança global, em vez de mudança local. Portanto, por seguir Hegel, ele tem uma noção diferente de outros socialistas e filósofos, como Spinoza. Eles sustentam que a alternativa à visão cristã é acreditar que o homem é um ser natural que procura o prazer e evita a dor, que ele é sensual e, portanto, um produto do seu ambiente, etc. O que Marx, baseado em Hegel e nessa tradição idealista (Kant), sustenta é que o homem não é apenas um ser natural... Isso significa que sua origem não é apenas a natureza, mas também a história. O homem faz-se através da sua vontade, e esta não é determinada por circunstâncias externas, mas é algo que ele próprio cria [desde que não viva num regime socialista]. É por isso que tem uma visão muito ampla de como ocorrem as mudanças históricas. E quando aplica estas noções ao socialismo, ele acredita que os trabalhadores podem transformar a situação de uma forma que os seus contemporâneos socialistas não acreditavam ser possível. Porque Marx tem uma noção muito mais ativa de como se poderia formar e transformar a história. [A grande vantagem de Marx, portanto, não é dele próprio, mas de Hegel, embora Marx tenha o mérito de reconhecer o seu valor]

Poder-se-ia dizer que Marx, como Platão, queria tornar-se um governante?

Se ele tinha essa fantasia, nunca a expressou abertamente. Não creio que ele possa ser equiparado a Platão, mas sim a alguém interessado em compreender a direção que o mundo estava tomando e os debates que nele decorriam. Desse ponto de vista, poderia moldar e estruturar esses debates. A intenção de Marx não era ditar como deveria ser o futuro, mas sim compreender que forma esse futuro poderia assumir. Mas é claro que também, como comentarista político e jornalista, ele deixou algumas reflexões bem malucas. Original, para dizer o mínimo.

Como explicar que um homem que não queria ditar nada a ninguém, acabou dando origem a tantas doutrinas que fazem é justamente isso: dizer às pessoas o que devem fazer?

Até 1848, ele acreditava entender como o mundo estava indo, através da Liga Comunista. Ele acreditava que eles formariam a revolução na Alemanha. Mas isso não aconteceu. Tudo correu muito diferente do que estava previsto e embora ele nunca tenha admitido ter errado [seu ego morava nas alturas], mudou de posição, silenciosamente: já não falava da classe operária num sentido revolucionário, mas sim Passou a se referir à força de trabalho do capital, e àquelas contradições que levariam ao fim do capitalismo ou que produziriam outro episódio como o de 1848. Mas isso também não aconteceu. Assim, na década de 1860... o que acabou de emergir foi a ideia de que a revolução era um processo, e não o resultado da ação de um partido único, ou de uma ditadura, ou de um acontecimento em particular. Ele acha que entende como o mecanismo funciona, mas quando a História não faz o que ele pensava que faria, ele fica chateado. Então, no final dos anos 50 e início dos anos 60, ele está culpando a todos, menos a si mesmo, por não ter acertado o que deveria acontecer. Mas sempre esperando ver acontecer no mundo que pareça promissor, e aí ele se agarra e guarda. [É como dizia aquele ‘pensador’: “preveja todo dia a sua morte que um dia você acerta]

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Quão relevante é Marx nos dias de hoje?

Marx traça uma imagem muito interessante do capitalismo, da sua energia, do seu dinamismo. E ele faz isso com mais eloquência do que qualquer outra pessoa [principalmente no início do Manifesto]. Por isso, o que ele escreve ainda é relevante. Agora sabemos que o capitalismo é instável, que tem os seus altos e baixos, as crises, os ciclos... E é precisamente essa imprevisibilidade do capitalismo, que cria e destrói, que continua interessante. Em segundo lugar, e voltando a Feuerbach e à sua crítica à religião, o capitalismo é uma criação humana e, portanto, poderia ser desmantelado pelos humanos. Acho que esse conceito ainda é válido. [Aqui o autor se engana redondamente, o capitalismo não foi uma criação ex-nihilo (do nada), ou ex-abrupto (subitamente), de alguns pensadores tipo Cantillon (1660-1734), Adam Smith (1723-1790) a partir do nada, como quando alguém contrói uma cadeira, por exemplo, pinta um quadro, etc. Não, o capitalismo é antes uma tomada de consciência das melhores interações possíveis, dentro dos condicionantes de um determinado período histórico-cultural, para a criação coletiva de riquezas. Os marcos teóricos do podem mudar em virtude das mudanças sociais produzidas pelo avanço tecnológico, e nesse sentido pode tomar rumos inesperados, em função do volume de excedentes produzido e das condições e relações de produção pelo menos influenciadas pelo avanço tecnológico, a ponto de ficar muito diferente do que o descreveram os seus teóricos fundadores, o que não tem nada a ver com o seu desmantelamento, como uma teoria ou um romance que alguém muda o texto a bel prazer. Para isso acontecer é preciso antes combinar com a realidade]. Por exemplo, quando os neoliberais pintam o mundo como um lugar onde as pessoas são determinadas pelo seu habitat econômico. E finalmente há a questão do que é revolução. Em 1848 ou 1917 tratava-se de atacar alguma coisa, com tropas nas ruas. Mas, paralelamente, começou a ver-se que a revolução também poderia significar pressionar em diferentes lugares, para transformar a sociedade sem ter que matar ninguém. Com movimentos jurídicos e paralegais, cooperativas, sindicatos, partidos políticos, legislações como a limitação do horário de trabalho nas fábricas... É uma noção que ainda nos pode ser muito útil hoje.

https://www.elmundo.es/cronica/2018/04/13/5aca7370268e3e45268b45b1.html

 

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