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A importância da
política (meio)
A confusão se espalha
A desordem no centro de poder espalhou-se para os estados
onde forças políticas divergentes procuraram ampliar o seu espaço de domínio à
custa do adversário. Mais uma vez as elites locais, mobilizaram seus exércitos
de peões e foram para cima uma das outras, em especial no Rio Grande do Sul e
na Bahia, mas se no Rio Grande a sanguinolência da Revolta Federalista, por
questões locais, marcou o momento histórico, na Bahia predominou o caos e a
anarquia política, em virtude da contaminação local dos embates que ocorriam no
Rio, aos quais a Bahia estava muito ligada, por ter uma forte presença ao longo
do império.
O problema é que a Bahia experimentava ela mesma um certo
vazio de poder, com a morte ou idade avançada das antigas elites imperiais,
abrindo um vasto espaço para novas lideranças, sedentas de poder e de resultados
a curto prazo, tudo posto por conta do improviso. As facções desmoronavam-se
mutuamente na capital estadual, em função dos eventos na Capital Federal, e em
um ano e meio o estado teve 5 governadores.
Esse vazio de poder na capital deu motivo a que muitas
lideranças no sertão, que eram muitas e bem articuladas, começassem também a
disputar localmente, espaços de poder diante de um poder estadual limitado pela
ausência de direção e representatividade. Foi um período de caos, e muito
gasto, principalmente com expedições policiais por todo estado, para acalmar
levantes e punir, quando possível, violências políticas praticadas pelas
grandes famílias. Um clima de alarme e medo se espalha pelo sertão.
Para um homem mentalmente frágil e impressionável como
Antônio Conselheiro, aquele ambiente de caos e desordem bem pode ter parecido
um fim de mundo, de manifestação do poder do “mal” associado à República
nascente, tanto que em seu livro Canudos: cartas para o barão – nesse
caso o Barão de Jeremoabo – a autora, Consuelo Novais Sampaio, relata que numa
conversa com o Conselheiro, Jeremoabo tentou demover-lhe de sua oposição à
república, argumentando que até o Papa, Leão XIII, já havia e aprovado o novo
regime, ao que Conselheiro lhe respondeu:
- Se o Papa o autorizou então caiu em erro, pois o próprio
nome já diz: República. E há muitos que gabam o discernimento do Conselheiro!!!
Vários os grupos oligárquicos, famílias e clãs,
aproveitavam-se da desordem para ampliar o caos e alcançar, por meio deste,
vantagens políticas e econômicas. Por exemplo: em Soure, na área de domínio de
Jeremoabo, no ano de 1893, houve a célebre quebra de tabuletas com os novos
impostos, que se tornavam cada vez mais necessários em virtude da situação
falimentar das prefeituras, a partir de pequenas aglomerações, que se juntaram
nos dias 10, 17 e por fim 24 de abril de 1893, num crescente que chegou a juntar
umas 500 pessoas no último dia revoltadas, armadas, e gritando que não pagariam
os novos impostos. O Conselheiro, soube-se depois, não participou da quebra das
tabuletas, não estava na cidade no dia da quebra, mas apoiou verbalmente o
motim.
Essa sublevação, segundo Sampaio, fora promovida e liderada
por um comerciante, José Honorato de Souza Neto, filho de uma liderança local
em Soure, que fazia oposição ao Barão. Esse homem, ou o seu grupo, espalhou que
até para se deitar junto com a esposa o cidadão teria que pagar impostos. Nada
de novo na política brasileira.
A multidão só se dispersou após a chegada de um pelotão de
polícia, e com essa multidão fugiram dali os adeptos do Conselheiro, e, por
alguma razão, a polícia foi-lhe no encalço, talvez porque fossem os de aspecto
mais miserável, mas chegando em Masseté, encontrando decidida resistência,
patrocinaram a mais desmoralizante correria da polícia baiana – tudo indica que
não houve mortos no confronto, mas o tenente comandante do pelotão chegou de
pés descalços, sem armas, sem boné, e o uniforme todo rasgado. Melhor
informado, o governador, o médico Rodrigues Lima (1892-1896), mandou retornar
uma companhia de 80 homens, que já partira contra o Conselheiro.
Lima deixou o Conselheiro em paz no seu novo reduto, fosse
porque era um homem moderado e de espírito aberto fosse porque percebeu que o
Conselheiro era propício a criar problemas para a maior liderança da região, o
Barão de Jeremoabo, de cujo comando Rodrigues se afastara, na cisão do Partido
Republicano Federal, na Bahia. Foi a pedido dele que o arcebispo, mandou os
missionários capuchinhos a Canudos. Ele leu o relatório alarmista de frei João
Evangelista, mas não fez nada. Ou ele só queria tomar pé das coisas, ou,
percebendo justamente a pólvora no ar, achou que aquilo bem poderia ser um
ótimo problema para Jeremoabo.
Ele foi sucedido pelo seu parceiro político, Luís Viana
(1896-1900), que também preferiu não tomar nenhuma providência contra o
Conselheiro. Politicamente falando, a presença de Conselheiro na região, e em
Canudos, era um desafio forte à liderança do Barão de Jeremoabo. Fora isso
tanto o grupo de vianistas, como o grupo que lhe fazia oposição mais renhida
dentro do estados, os gonçalvistas, liderados pelo ex-governador José Gonçalves
da Silva (1890-1891), deposto por uma sedição popular, após apoiar Deodoro,
gostariam de cooptar o Conselheiro para o seu lado, mas este fechou-se a essa
possibilidade.
Nesse caso, para Viana Conselheiro em Canudos era uma benção,
e para Jeremoabo e os gonçalvistas, entre os quais se colocava o juiz Arlindo
Leoni, de Juazeiro, era um espinho cravado no calcanhar.
Viana, no governo, comportou-se um chefe autoritário, que adorava
mandar tropas para enquadrar os coronéis mais turbulentos. E as ordens eram
sempre de ‘arrochar a oposição’, até acumular vários desafetos. Enquanto isso
Jeremoabo recebia levas de cartas de seus aliados, em especial fazendeiros nas
redondezas de Canudos, que ficava em área de domínio do Barão.
O problema é que estava chegando em Canudos gente de todas as
partes, além dos arredores, esvaziando as fazendas próximas de mão-de-obra, sem
falar da presença de bandidos afamados na região, que o Conselheiro fez
integrar à sua Guarda Católica, para evitar futuras tentativas de prisão. Mas e
se ele resolvesse, como faziam os coronéis na mesma situação, usar desses
jagunços para constranger vizinhos e criar um espaço de poder?
Quem conhecia a região, sabia que o local da fazenda de
Canudos era muito árido e que de forma alguma daria condições para a manutenção
de um ajuntamento tão grande de gente pobre, e uns poucos um pouco endinheirados,
e que só fazia crescer, enquanto o Conselheiro não mostrava discernimento para
orientar a exploração mais eficiente daquele território, com o Padre Cícero em
Juazeiro, no Ceará.
O temor que se percebe nas cartas é que, na eventualidade de desacerto
climático, sobrevenha o colapso das condições locais, e aquela gente toda, bem
armada – todos o dizem – resolvesse partir para o saque das fazendas vizinhas, por
necessidade, embora seja bom dizer que em nenhuma delas os conselheiristas, até
aquele momento, tinham forçado alguma coisa ou cometido algum crime. Eram
temores prováveis e localizados entre fazendeiros, comerciantes e burocratas
fechados com a corrente de Jeremoabo.
Bastaria uma seca, para as condições de Belo Monte e
arredores colapsar. Quem mora no sertão sabe. É fato notório que o semiárido, tanto
que a economia nunca estagnou por falta de mão de obra, apesar das emigrações.
Os moradores da região, em especial os fazendeiros, menos propensos a
abandona-la, decerto tinham memórias das grandes secas de 1877-1879 e
1888-1889, querer portanto comparar o temor daqueles fazendeiros com o Grande Medo
de 1789, na França, é.... Sem comentário (1). A irresponsabilidade do
Conselheiro estava criando uma bomba relógio que, mais cedo ou mais tarde iria
explodir no rosto daquela gente e no colo da classe média, pequenos e médio
fazendeiros e comerciantes, locais.
Viana não era fácil de conviver politicamente, acabou
isolado, no ostracismo, não acolhe o pedido de ajuda de Arlindo Leoni do
Juazeiro, este que era achegado a Jeremoabo, sem falar que, de fato, o pedido
era precipitado. Ele também não tinha contingente e polícia disponível em
Salvador, tantos já mandara para outros lugares a mostrar que estava à frente
do Estado. Nesse processo ele arranja uma treta com o Comandante do 3º Distrito
Militar de Salvador, o General Sólon Sampaio Ribeiro, sogro de Euclides da
Cunha. Viana não sossegará até conseguir sua transferência, na altura da
Expedição Febrônio de Brito.
A alegação era que Sólon, estava se imiscuindo muito na
política local. Era partidário de Gonçalves e Jeremoabo? Não posso asseverá-lo.
Mas a verdade é que Viana tentou retardar ao máximo o envio de tropas para
Canudos, fosse porque compreendesse as razões do Conselheiro,
fosse porque este ainda não havia feito a Jeremoabo todo o mal que poderia
potencialmente fazer...
De um jeito ou de outro a presença de tropas federais na
região não deixa de ser um tanto desmoralizante, pois mostra a incapacidade
daqueles chefes tão ciosos de sua honra e prerrogativas em manter a ordem,
contra um povo que eles normalmente desprezavam, como havia o perigo de os
militares, vindo a mando das oligarquias centrais, com projetos próprios,
quererem aproveitar para impor agendas que não interessavam. Os dois lados viam
com muita desconfiança a presença dos militares.
A ideia, portanto, de os fazendeiros baianos mancomunados com
os militares como aparece no filme Canudos, é menos que ridícula.
Nota
1- Quando ocorria uma seca no Nordeste, a área de solo mais estéril e isolada, como em Canudos, era a primeira a sentir os efeitos, com as pessoas juntando o que tivesse de comida e de valor, coisa raríssima (para comprar comida) saindo em grupos de suas casas ou vilinhas, e ajudando-se pelo caminho. Por necessidade inadiável, começavam saqueando as médias e pequenas fazendas da redondeza, pois os fazendeiros sempre tinham comida guardada para a sobrevivência da sua família e agregados, se não os tivesse dispensado. Só que depois do saque eles também ficavam sem comida e se ajuntam aos retirantes. Eles então chegam numa pequena cidade, com certo padrão de renda, ligada a rotas comerciais, que, por conseguinte, podia comprar a comida que precisasse, e como os retirantes não têm recursos para comprar toda a comida que precisam, começam a saquear armazéns, bodegas, residências, estão desesperados de fome e sede, quem irá confronta-los? Consumido o que havia na cidade sobrevêm a catástrofe. Os comerciantes estão sem dinheiro para comprar mais comida, pois seus estoques foram “sequestrados”, e não têm dinheiro para renova-los, enquanto os seus fornecedores, nas cidades maiores, sabendo que houve saque no local, cessam de mandar alimentos, agora todo o povo da cidade também se ajunta à massa dos retirantes a caminho da capital ou uma grande cidade no litoral, em meio à miséria total, gente roubando e matando por comida ou objetos preciosos, para depois trocar por comida, e nessas condições vão saqueando uma cidade após outra até se tornarem dezenas de milhares, chegando à capital, ou grande cidade, no último estádio de degradação: semi-humanos ou semiferas, pensando e agindo apenas em função da sobrevivência biológica. Os grandes fazendeiros sobreviviam indo para outra fazenda numa área mais próspera, ou para a residência na capital, já os pequenos e médios fazendeiros, que escreviam cartas a Jeremoabo, alguns dos quais foram, no passado, rapazes pobres mas trabalhadores e inteligentes, que se tornaram capatazes de Jeremoabo e outros grandes da região, e que haviam, pelo seu esforço, recebido cabeças de gado de seus patrões, a guisa de pagamento, até se tornarem pequenos e médios fazendeiros, uma classe média remediada, mas que só tinham aquilo. Esses perdiam tudo, e podiam acabar seus dias como trabalhador braçal para outros grandes fazendeiros, por um prato de comida, como mendigos nas grandes cidades, matando e roubando por um pedaço de pão, depois de assistir à degradação de esposa e filhas, obrigadas a se prostituir pelo mesmo motivo. O receio dessa gente era real, tinha base histórica, e, portanto, nenhuma ligação com o Grande Medo de 1789 na França, da mesma forma que é uma prova de má fé ou ignorância profunda, criticar como alguns têm feito, como se fossem “campos de extermínio”, ou “currais”, os chamados “campos de concentração” de flagelados pela seca no Ceará. É a mesma mentalidade da oposição irresponsável que quase destruiu o país no início das Regências e durante na consolidação da República.
(Luís Viana manobrou Conselheiro e seus adeptos para alcançar seus objetivos políticos? Abaixo)
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/68/Luis_Vianna.jpg
https://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Viana


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