27 março 2024

O DOCUMENTO DE DAMASCO


https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/7/77/The_Damascus_Document_Scroll.jpg/300px-The_Damascus_Document_Scroll.jpg

https://en.wikipedia.org/wiki/Damascus_Document 

Eduardo Simões (a Margarida Guimarães)

Esse documento fazia parte daqueles encontrados na Geniza do Cairo, em 1896, e foi classificado por Solomon Schechter em 1897, que percebeu tratar-se de um tipo de “regra-manifesto” de um grupo de judeus piedosos, que evocavam muito elogiosamente a memória do Sumo Sacerdote Sadoc, e de sua genealogia, em oposição àqueles que, na época do documento, um século antes de Cristo, pontificavam em Jerusalém, trazendo, na concepção dos autores do texto, a corrupção e a ira de Deus sobre a comunidade judaica e Jerusalém, agora sob domínio dos romanos. O documento trazia ainda várias orientações sobre como deveria ser convivência entre os membros da seita, suas crenças e esperanças básicas e questões organizacionais, de uma forma ainda muito incipiente e incompleta.

Como o documento mencionava muito ao sacerdote Sadoc, aquele que ficou ao lado de Davi, na tentativa de golpe de Absalão, e posteriormente contra Adonias, a favor de Salomão, na tentativa de golpe daquele, tornando-se o exemplo do sacerdócio historicamente exemplar, claramente perceptível nas passagens de Ezequiel 40,46; 43,19; 44,15; 48,11. Com base nessa bagagem bíblica, e ainda desconhecendo a extrema riqueza e diversidade do judaísmo da época, só revelado ao mundo após a descoberta dos Pergaminhos do Mar Morto, a partir de 1947, Schechter batizou o texto como Documento Sadoquita, em referência a Sadoc.

Entretanto, as buscas arqueológicas feitas em diversas cavernas nos arredores do Mar Morto, após as primeiras descobertas feitas entre novembro de 1946 e fevereiro de 1947, e que redundaram nos milhares de documentos conhecidos como os Rolos, Manuscritos ou Pergaminhos do Mar Morto, espalhados em diversas cavernas na região, tudo mudou, e o Documento Sadoquita de Schechter, ganhou um novo nome: Documento de Damasco.

O que acontece é que novos pedaços do Documento Sadoquita, e outros a ele conectados, foram descobertos nas cavernas Q4, Q5 e Q6, permitindo a reconstrução do seu texto integral, ou pelo menos mais completo que o anterior, e perceber que o que caracterizava esse grupo era muito mais a sua expectativa escatológica, ou seja o mundo que há de vir depois deste, do que envolver-se nas questões políticas referentes a ocupação do cargo de Sumo-Sacerdote, e aí entra o texto de um dos profetas mais vigorosos e acusativos do Antigo Testamento, digno de servir de modelo a um grupo que repudiava de forma tão extremada o sacerdócio oficial do Templo: o Profeta Amós, que em uma de suas profecias diz: “portanto [como um castigo] levarei você para um exílio além de Damasco” (5,27), que neste caso específico não se refere literalmente à cidade de Damasco, mas a um lugar distante de Jerusalém e do Templo.

A repetição inúmeras vezes do termo Damasco na recensão completa, ou mais completa, obtida após a tradução dos Rolos do Mar Morto, e o seu significado escatológico fundamental, para a comunidade dos sadoquitas, que passaram a se chamar essênios, justificaram a mudança do nome.

Esse episódio mostra a importância do historiador se manter aberto e humilde, pronto para renunciar as suas crenças políticas, econômicas e sociais em vista às novas descobertas que a cada momento acontecem no mundo e lançam nova luz sobre os eventos, mesmo aqueles tão antigos, como os ocorridos há mais de 2 mil anos, achados nas margens do Mar Morto, e evitar todo tipo de dogmatismo e doutrinação no que se refere tanto aos acontecimentos históricos como à interpretação de seu sentido.

 O texto espanhol do Documento de Damasco: http://comuna.cat/Glosario/q_cd.pdf


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