https://en.wikipedia.org/wiki/Damascus_Document
Eduardo Simões (a Margarida Guimarães)
Esse documento fazia parte daqueles encontrados na Geniza do
Cairo, em 1896, e foi classificado por Solomon Schechter em 1897, que percebeu tratar-se
de um tipo de “regra-manifesto” de um grupo de judeus piedosos, que evocavam muito
elogiosamente a memória do Sumo Sacerdote Sadoc, e de sua genealogia, em
oposição àqueles que, na época do documento, um século antes de Cristo,
pontificavam em Jerusalém, trazendo, na concepção dos autores do texto, a
corrupção e a ira de Deus sobre a comunidade judaica e Jerusalém, agora sob
domínio dos romanos. O documento trazia ainda várias orientações sobre como
deveria ser convivência entre os membros da seita, suas crenças e esperanças
básicas e questões organizacionais, de uma forma ainda muito incipiente e
incompleta.
Como o documento mencionava muito ao sacerdote Sadoc, aquele
que ficou ao lado de Davi, na tentativa de golpe de Absalão, e posteriormente
contra Adonias, a favor de Salomão, na tentativa de golpe daquele, tornando-se
o exemplo do sacerdócio historicamente exemplar, claramente perceptível nas
passagens de Ezequiel 40,46; 43,19; 44,15; 48,11. Com base nessa bagagem
bíblica, e ainda desconhecendo a extrema riqueza e diversidade do judaísmo da
época, só revelado ao mundo após a descoberta dos Pergaminhos do Mar Morto, a
partir de 1947, Schechter batizou o texto como Documento Sadoquita, em referência a Sadoc.
Entretanto, as buscas arqueológicas feitas em diversas
cavernas nos arredores do Mar Morto, após as primeiras descobertas feitas entre
novembro de 1946 e fevereiro de 1947, e que redundaram nos milhares de
documentos conhecidos como os Rolos, Manuscritos ou Pergaminhos do Mar Morto, espalhados
em diversas cavernas na região, tudo mudou, e o Documento Sadoquita de Schechter,
ganhou um novo nome: Documento de Damasco.
O que acontece é que novos pedaços do Documento Sadoquita, e
outros a ele conectados, foram descobertos nas cavernas Q4, Q5 e Q6, permitindo
a reconstrução do seu texto integral, ou pelo menos mais completo que o
anterior, e perceber que o que caracterizava esse grupo era muito mais a sua
expectativa escatológica, ou seja o mundo que há de vir depois deste, do que
envolver-se nas questões políticas referentes a ocupação do cargo de
Sumo-Sacerdote, e aí entra o texto de um dos profetas mais vigorosos e
acusativos do Antigo Testamento, digno de servir de modelo a um grupo que
repudiava de forma tão extremada o sacerdócio oficial do Templo: o Profeta
Amós, que em uma de suas profecias diz: “portanto [como um castigo] levarei
você para um exílio além de Damasco” (5,27), que neste caso específico não se
refere literalmente à cidade de Damasco, mas a um lugar distante de Jerusalém e
do Templo.
A repetição inúmeras vezes do termo Damasco na recensão
completa, ou mais completa, obtida após a tradução dos Rolos do Mar Morto, e o
seu significado escatológico fundamental, para a comunidade dos sadoquitas, que
passaram a se chamar essênios, justificaram a mudança do nome.
Esse episódio mostra a importância do historiador se manter
aberto e humilde, pronto para renunciar as suas crenças políticas, econômicas e
sociais em vista às novas descobertas que a cada momento acontecem no mundo e
lançam nova luz sobre os eventos, mesmo aqueles tão antigos, como os ocorridos
há mais de 2 mil anos, achados nas margens do Mar Morto, e evitar todo tipo de
dogmatismo e doutrinação no que se refere tanto aos acontecimentos históricos
como à interpretação de seu sentido.
O texto espanhol do
Documento de Damasco: http://comuna.cat/Glosario/q_cd.pdf
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