21 junho 2024

CHUCHIL, AS RAÌZES - 1



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(Acima a senhorita Ann Elizabeth Everest (1832-1895), a governanta e mãe de verdade de Winston Churchill, no único retrato que existe dela, e que está sobre a lareira de Chartwell. Ela foi uma verdadeira protetora e companheira para Winston Churchill, que Sempre terminava suas cartas desejando “100 mil beijos” para ela. Ao contrário concussão fria e formal das cartas para os pais. Tinha uma inteligência simples e sábia. Conta-se que certa vez, quando Churchill tinha 8 anos, ambos passeavam quando o menino viu uma cobra e fez menção de mata-la, a senhorita Everest o proibiu: “deixe que ela siga a sua vida”. Talvez a ela Churchill deva uma de suas principais características, muito difícil de aplicar na política: a incapacidade de guardar rancor e a generosidade na vitória – não confundi-la com a matemática Mary Elizabeth (Everest) Boole, casada com o matemático George Boole, criador da álgebra booleana)

Eduardo Simões (a Margarida Maria)

WINSTON CHURCHILL – A mãe de verdade era outra.

Uma das formas com que a nobreza vitoriana tardia resolvia seus problemas financeiros era casando com uma plebeia americana, filha de pai rico – não havia tanta filha de milionários disponível na Inglaterra, e a burguesia americana já se mostrava bem mais eficiente em amealhar fortuna. Esse foi o caso dos pais de Churchill.

Sua mãe se chamava Jeanette, “Jennie”, Jerome, filha de um grande financista americano, que, após encontrarem-se, em um evento social-esportivo na ilha de Wight, logo pressentiram as vantagens recíprocas de uma união. Randolph seria para ela a porta para a aristocracia inglesa, que ela desejava, e ela seria a “porta da esperança” para o alívio das dificuldades financeiras do nobre inglês, graças ao dinheiro do “papai”. Não havia ilusões nem falsos pudores, menos ainda os verdadeiros, por parte dos dois. Três dias após se conhecerem estavam comprometidos.

Aquela explosão de amor à primeira vista, entretanto, não convenceu o núcleo ducal dos Marlborough, que enviou para a América um agente para sondar minuciosamente o valor do dote da noiva, voltando com uma péssima notícia: o pai-plebeu-milionário, não tinha tanto dinheiro assim, pois perdera muito na crise financeira de 1873, uma das mais longas da história recente. O sogro poderia dar ao casal um conforto de uma classe média abastada, mas nada digno de um nobre da importância de um Marlborough, por isso o casamento foi em Paris, alguns meses depois, sem a presença de um representante da orgulhosa família.

Em 30 de novembro de 1874 nasceu Winston Leonard, e seis anos depois seu irmão, John Stranger, mais conhecido como “Jack”, e como sua mãe estava sempre muito ocupada em compromissos sociais, quase nunca “honestos”, e seu pai numa titânica e inglória luta contra si mesmo e os percalços da política, seus genitores os entregaram cuidados de uma babá, e nessa cuidadora, a Srta. Elizabeth Everest, Winston tirou a sorte grande. Que ele soube agarrar e agradecer.

Ela era uma solteirona, vinda de uma família pobre, de uma cidade pequena, Chatham, no Kent, mas uma pessoa boa, cheia de afeto, dedicada e correta, que se apegou a Winston, como a um filho, o que certamente salvou-o de ser uma pessoa carente e desadaptada, em virtude do abandono sistemático e da indiferença emocional de seus genitores. Ambos trocaram muitas correspondências, onde ela chamava-o de “Winnie”, e ele a ela de “Woom” ou “Woomany”. Foi ela, por exemplo, quem percebeu e deu o alarme que Winston estava sendo brutalizado, com castigos físicos além do razoável, para os padrões vitorianos, na primeira escola que frequentou. Mais tarde ele escreverá: “Eu amava muito a minha mãe – mas à distância.  Minha cuidadora era a minha confidente. Foi a Sra. Everest quem cuidou de mim e atendeu a todos os meus desejos. Foi para ela que eu derramei todos os meus muitos problemas." (Wikipedia em inglês, Elizabeth Everest)

Não adiantava muito derramar problemas para a mãe. Houve um ano em que Churchill escreveu 76 cartas para a ela, mas só recebeu seis de volta. Ele estava no colégio interno quando ficou sabendo que seus pais, considerando a adolescência de Jack, resolveram demitir a Senhora Everest, em 1893. Ele escreveu para os pais pediu, pediu-lhes que considerassem a sua idade e a pobreza em que ficaria, tendo que começar a vida do zero, regateou o que pode, mas Lorde e Lady Randolph preferiram considerar a economia que iam fazer. Winston passou a ajudá-la de seu próprio bolso.

A Sra. Everest, inclusive, fez uma coisa que seu pai nunca fez, enquanto Winston foi estudante. Visitou-o na escola, além de comparecer às reuniões pedagógicas, na ausência dos pais. Certa vez, numa dessas visitas, apesar da zoação dos colegas, desfilou por toda a escola de braço dado com ela, mostrando-lhe e explicando cada prédio, o que ele fazia, como fazia, e, para o estupor de todos, a beijou ternamente quando se despediram na estação ferroviária. Ele sempre foi topetudo, afinal era um Marlborough, a mais alta nobreza da Inglaterra, logo podia fazer o que bem quisesse – sendo lícito – sem pedir licença a ninguém, inclusive demonstrar publicamente o seu afeto por uma pobre senhora do povo.

A Sra Everest voltou para a casa de um antigo patrão, onde ficou por um ano, até se mudar em definitivo para a casa de uma irmã, onde viveu até 3 de julho de 1895, quando morreu de peritonite, aos 63 anos. Um pouco antes, Churchill, que já era cadete, recebeu um telegrama noticiando a gravidade do seu estado. Avisou então ao superior que estava de saída, e sem mais explicações foi assistir os últimos momentos de “Woomany”. Ele estava na sua cabeceira, quando ela se foi às 2:15 h.

Winston pagou todas as despesas do seu funeral e de sua sepultura, e enquanto viveu, pagou gente para mantê-la limpa e florida, e eventualmente a visitava. Depois que ele morreu, a obrigação de manter o túmulo da Senhora Everest, passou à Churchill Society

Enquanto a vida de Winston se expandia e prenunciava um futuro difícil, mas grandioso, a de seus pais descia ladeira abaixo. Talvez incomodada pela indiferença olímpica de Lorde Randolph, talvez porque era animada de uma certa vocação ao “alpinismo social” pouco escrupuloso, Jennie dispôs-se a permitir que boa parte da nobreza inglesa subisse ao seu leito, acumulando vários amantes, entre os quais o Príncipe de Gales, filho da rainha Vitória, futuro Eduardo VII. Embora, seja-lhe feito justiça, ela usou muito dessas relações para ajudar na ascensão de seu filho, conforme a ocasião. Ela vislumbrou no filho algo do gênio que o pai ignorara completamente.

A favor dela também deve ser dito que, quando Lorde Randolph mergulhou na sua doença terminal – que foi sífilis, contraída de uma aventura com uma camareira de Blenheim, logo após seu casamento, como era habitual na nobreza ociosa, em especial os Marlborough – e que o levará ao túmulo, também em 1895, ela ficou com ele e o cuidou com toda dedicação. Depois disso ela foi à luta, envolvendo-se com nobres e playboys bem mais novos, num estilo, como se dizia nessa época, “viúva alegre”. Churchill nunca se importou com isso, aparentemente...

A casa preferida de Churchill chamava-se “Chartwell”, onde ele passou seus últimos anos e onde tomou suas mais importantes decisões, o seu paraíso particular, localiza-se em Kent, no sul da Inglaterra, justo a região que foi o berço de sua querida Woom. A historiografia ainda não fez justiça ao que essa mulher fez pela criação de um dos maiores líderes mundiais de todos os tempos...

(Abaixo a mãe biológica, Jeanette, entre John, à esquerda, e Winston à direita)

https://winstonchurchill.hillsdale.edu/wp-content/uploads/2019/02/Jennie-c1800s-640x430.jpg

https://winstonchurchill.hillsdale.edu/jennie-lady-randolph-churchill/



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