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https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=Lx5RLpvq2_U
(visão de Jerusalém no início dos anos 1900)
Eduardo Simões (a Margarida Maria)
É comum ouvir que
os europeus ocidentais, foram os responsáveis pelo conflito árabe-israelense,
em virtude da perseguição aos judeus na Europa, em especial pelo “holocausto”, provocado
pelos nazista, em função do qual os judeus começaram a se “atirar” sobre a
Palestina, criando problemas para os antigos moradores árabes-palestinos. Como
disse um professor palestino ao apresentador de TV inglês Piers Morgan: “nós
[os palestinos] não temos culpa dos ocidentais perseguirem os judeus na segunda
Guerra”. Será que a história demográfica da região sustenta essa teoria?
Pelo cálculo dos
demógrafos, baseados nos documentos da época nota-se que a população de judeus
na Palestina, ao longo da Idade Média devia ser muito irrisório. Pequenas
comunidades campesinas, que somadas não alcançariam 10 mil pessoas, sujeitas a
toda sorte de incidentes, como massacre perpetrado pelos cruzados na tomada de
Jerusalém, em 1099. Dados mais seguros começam na metade do século XVI, permitindo
a estimativa de uns 7.000 judeus, fora os muçulmanos, morando na Palestina,
nessa época.
Esses mesmo 7.000
estariam presentes no início do século XIX (1801), o que mostra as terríveis
condições de vida na região ou um quadro de violências, com mortes ou
conversões forçadas rotineiras. O número de cristãos também oscila por aí.
Muçulmanos são a maioria esmagadora. Nos anos 1850, a medida que aumenta o
interesse e a presença de potências europeias na região, por causa do Canal de
Suez, os judeus saltam para 13.000 e os cristãos para o dobro disso, uns 25.500.
Consta na Jewish
Encyclopedia, no verbete Turquey, que
deu-se início, nos anos 1880, a uma política da autoridade central otomana de
dificultar a instalação de imigrantes judeus na Palestina. Em 1882, os Estados
Unidos intervêm para garantir a entrada de alguns judeus russos e há um novo
estresse diplomático por causa da expulsão de dois judeus americanos, em 1885.
As autoridades otomanas se manifestam, preocupadas com a crescente onda de
imigração judaica, e baixam um decreto, em 1888, de que os judeus estrangeiros
só poderiam permanecer 3 meses na Palestina. Em 1895 reafirmam uma proibição,
já vigente na Palestina, de os judeus comprarem imóveis em Jerusalém e
arredores.
A causa desse
movimento foi o impacto da Primeira Aliyah, ou “onda de retorno”, quando 25.000
imigrantes da Europa Oriental e do Iêmen, mudaram-se para a Palestina, entre
1881-1903. Mais tarde seguiu-se a Segunda Aliyah, entre 1904 e 1914, quando
35.000 judeus da Rússia e da Polônia mudaram-se para lá. Temerosos desse
movimento. Diz o verbete History of
Palestine, Wikipedia, um grupo de notáveis palestinos foi a Istambul, já em
1891, pedir providências para que se estancasse essa imigração.
Em 1900, a população
judaica era próxima a 24.446 e a cristã 64.832 – o aumento explosivo dos
cristãos tem a ver com a presença das potências imperiais europeias, sobre os
turcos, que ainda assim tentavam controlar a imigração judaica. Em 1914, quando
a Turquia deu o passo em falso, apoiando a Alemanha, na guerra, os judeus já
somavam 38.754 e os cristãos 81.012, os muçulmanos eram 602.377.
Com a derrota de
1918, a Turquia é obrigada a abandonar a Palestina, que a Liga das Nações, e
acordos nada transparentes, cedem para a Inglaterra, na condição de um Mandato
– ele se tornou a Potência Mandatária da Palestina – preparando o terreno para,
na ocasião oportuna, ceder o domínio dos territórios aos povos que aí moravam.
Em 1922, os judeus
são 83.790, os cristãos 73.024, e os muçulmanos 589.177. Nota-se tanto o
crescimento explosivo dos judeus, se tornando a 2ª etnia mais numerosa, e o
decréscimo dos muçulmanos em relação a 1914. A grande maioria vinha da Europa
Oriental, onde havia um poderosa tradição antissemita. Em 1931 os judeus são
174.610, os cristãos 91.398, e muçulmanos 759,717. Em 1945, os judeus eram
553.600, os cristãos 135.550, e os muçulmanos 1.061.270. Como se pode ver o
crescimento da população judaica supera, percentualmente, ao de todas as
outras, antes do fim da 2ª Guerra Mundial, e portanto antes das consequências do
Holocausto. Em números absolutos, a população judaica cresceu, nesse período
(1922-1945), 6,5 vezes, enquanto a cristã e a árabe mal dobraram.
Como prova de que o
Holocausto não foi tão determinante assim, se tomarmos as tabelas dos
imigrantes chegados à Palestina no período do Mandato Britânico (1920-1948),
teremos que os quatro anos em que chegaram mais imigrantes à Palestina foram:
1925, com 34.641, dos quais 33.801 eram judeus; 1933, com 31.977, dos quais
30.327 eram judeus; 1935, com 64.147, dos quais 61.854 eram judeus; e 1936, com
31.671, dos quais 29.727 eram judeus. Os imigrantes árabes muçulmanos tiveram
seus melhores anos em 1935, com 903 imigrantes; 1936, com 675; 1937, com 743 e
1945, com 714. Durante a 2ª Guerra (1939-1945), houve uma queda no número dos
imigrantes judeus, com o pior ano sendo 1942, com 2.194 imigrantes judeus e o
maior foi 1939, com 16.405. O pior ano para a imigração judaica foi 1928, com
2.178. (Wikipedia em inglês, Demographic
history of Palestine (region), dados do The
"Survey of Palestine" of the British Government in Palestine)
Podemos concluir que:
a) Bem antes da 2ª
Guerra já havia um forte movimento migratório judaico para a Palestina, obstado
em parte, pelos esforços ingleses no sentido de não contrariar os árabes em
demasia, e evitar confrontos entre as duas etnias, nem os judeus contavam com
tantas simpatias assim entre os ingleses, apesar da declaração de Lorde Balfour.
b) Desde o início
os judeus foram o grupo que mais se interessou em povoar e colonizar a
Palestina, e o que mais investiu nesse intento. Colhendo hoje os frutos, desse
processo: uns bons outros nem tanto.
Acreditamos que o
choque do Holocausto deve ter contribuído muito para sensibilizar os judeus
mais endinheirados da Europa e EUA no sentido de serem mais generosos, e
contribuírem mais para a emigração de uma grande massa de judeus pobres, que
estavam impedidos, pelos custos impostos tanto pelo Império Turco como pelo Mandato
Britânico, de emigrar para a Palestina. Nesse sentido ajudou nas ondas de
imigrantes judaicos do pós 2ª Guerra. Entretanto o Holocausto, exterminando
fisicamente milhões de judeus, também serviu como um atenuante, pois muitas de
suas vítimas poderiam, se sobrevivessem, querer se mudar para a Palestina.
O papel dos Árabes nesse Processo
É preciso não
esquecer que um dos grandes entusiastas da “Solução Final” hitlerista foi o
mufti de Jerusalém, Mohammed Amin al-Hussayni, embora seja evidentemente
exagerado dizer que todo o processo nasceu de ideias suas ou que ele teve um
papel determinante nisso. Mas há outras perseguições a considerar, e que
ajudaram a superpovoar a Palestina de judeus.
Líbano: no ano de
1948 havia uns 10.000 judeus no país, mas com os conflitos acontecidos em
Israel, essa comunidade passou a ser selvagemente perseguida, inclusive
legalmente, quando na década de 1950 foram proibidos, por lei de ingressar no
exército libanês. Muitos fugiram para Israel, existindo atualmente apenas 27
judeus no Líbano.
Síria: no ano de
1948 havia 15.000 judeus no país, com os conflitos eles experimentaram
massacres ainda mais numerosos e selvagens que no Líbano – como o rumoroso caso
das irmãs Seibak, presas, estupradas, mortas e mutiladas, quando fugiam da
violência do país, em direção a Israel. Hoje na Síria os judeus são menos de
duas dezenas de velhos.
Iraque: no ano de
1948 havia uns 150.000 judeus no Iraque, que, infelizmente, experimentaram
brutais perseguições desde a década de 1930. A violência no Iraque abaixou ao
nível da Idade Média, com execuções públicas de judeus, na década de 1960, em
meio a grandes comemorações, presenciadas multidões jubilosas. Hoje, 2023,
Iraque abriga 3 judeus. Muitos emigraram para Israel.
Arábia saudita: os
600 judeus que lá viviam, em 1949, foram expulsos do país e hoje não há nenhum.
Egito: no ano de
1948 havia 75.000 judeus no país. Com o agravamento dos conflitos na Palestina
a comunidade foi perseguida e massacrada e a grande maioria fugiu,
principalmente para Israel. Hoje existe 3 judeus no Egito, remanescentes de uma
comunidade que já acumulara 3 mil anos de prosperidade e convivência mais ou
menos pacífica! Mais um reforço para Israel.
Turquia: no Império
Otomano havia uns 200.000 judeus. As perseguições eram esporádicas e não tão
sangrentas como entre os árabes, mas ainda assim, entre 1923 a 1948, mais de
7.000 judeus turcos emigraram para Israel, principalmente após o Pogrom da
Trácia de 1934. Hoje os judeus são 23.000
Tunísia: no ano de
1940 o país abrigava uns 100.000 judeus. As más condições e perseguições fez
com que, em 1970, a maioria deles tivesse deixado o país, tanto para Israel
como para França.
Argélia: nos anos
de 1961 e 1962, com a derrota francesa na Guerra da Independência, 130.000
judeus preferiram emigrar, e 10.000 foram para Israel.
Marrocos: no ano de
1948 havia entre 250.000-265.000 judeus, mas o aumento da violência da
população, após a fundação de Israel, em que pese a boa vontade dos
governantes, essa comunidade transferiu-se em massa para Israel.
Iran: no ano de
1948 havia entre 140.000 e 150.000 judeus no país. 70.000 emigraram para
Israel, antes da Revolução Islâmica, e mais 61.000 depois, temendo a
hostilidade dos fundamentalistas.
No total
acredita-se que de centenas de milhares de judeus que viviam nos países árabes-muçulmanos,
em 1948, restam poucos milhares, hoje em dia, enquanto eu nos países
muçulmanos, mas não árabes, Como Turquia, Iran, etc. de algo em torno de 200.000,
caiu para 24.000 residentes, no final dos anos 2010 ou início de 2020.
Autorizando-nos a dizer que, inadvertidamente, o mundo islâmico deu uma
preciosa contribuição para a expansão da colonização judaica na Palestina.
Finalmente um dado
interessante sobre isso. O boom da imigração judaica aconteceu após o final da
2ª Guerra, quando foram coletados os seguintes dados imigratórios no período
que vai de 1948 a 1952: Nesse período, entraram 738.891 imigrantes judeus em
Israel. Desses imigrantes, 377.251, mais da metade, vieram de países islâmicos,
e quase metade destes: 124.226 do Iraque, onde as hostilidades antissemitas
ganharam ares de extermínio. Outra minoria esmagadora, 307.082, veio de países
que tradicionalmente se colocaram ao lado dos árabes, contra Israel, os países
comunistas, do leste europeu, onde havia um antissemitismo cultural arraigado, e
uma suspeita de que eles eram agentes do “imperialismo buguês”, etc. Enquanto
uma minoria inexpressiva veio de países Ocidentais, que sempre se colocaram
politicamente ao lado de Israel, cerca uns 33.760. Dos EUA e do Canadá, saíram
uns 1.809 imigrantes (https://www.jewishvirtuallibrary.org/immigrants-to-israel-1948-1952).
O contrário da tese sustentada pelo professor acima citado e “narrativas” de
uso fácil.
Conclusão
Os dados
demográficos mostram que desde as últimas décadas do século XIX, havia um forte
movimento migratório de judeus, das mais várias partes do mundo, para a
Palestina. Esse movimento não era mais expressivo então devido a precariedade
dos meios de transporte da época, assim como das precárias condições de vida da
região. As fotos do início do século XX mostram uma região muito pobre,
parcamente povoada, com aldeias muito acanhadas e pessoas vivendo num ritmo semimedieval,
lançando sérias dúvidas sobre a possibilidade de a região um dia abrigar uma
grande massa de gente.
É preciso
reconhecer que mesmo quando ninguém ainda dava muita atenção a essa região do
Império Turco, os judeus não só investiram dinheiro, comprando terras e criando
infraestrutura, como também direcionando uma mão-de-obra, os colonos, numerosa
e bem educada, que, se fosse aproveitada por todos, talvez tivesse trazido um
progresso mais intenso, abrangente e precoce. As razão porque isso não
aconteceu escapa a esse artigo.
Afinal de quem é
realmente a culpa pela grandeza dos números das levas de imigrantes judeus na
Palestina? Acho que a única resposta para isso, que os dados demográficos nos
mostram é que, além de reminiscências religiosas próprias, difíceis de
aquilatar, foram os países e povos que os trataram mal, independentemente de
sua localização geográfica, seu posicionamento político e sua religião, em
geral ditaduras e regimes autoritários, que mais estimularam, e ainda
estimulam, a ida em massa de judeus para a Palestina...
Acirrar, portanto,
o antissemitismo ao redor do mundo, talvez seja uma péssima ideia daqueles que,
supostamente apoiam os árabes palestinos, forçando judeus em todo mundo a
associar paz e sossego com a residência permanente em Israel, aumentando a
pressão por colônias judaicas na Cisjordânia e menos espaço para os palestinos,
conforme querem os grupos nacionalistas israelenses mais radicais no governo
atual.
É dar um tiro no pé.
(Abaixo Haifa no início do século XX)
https://www.palestineremembered.com/GeoPoints/Shafa_Amr_1573/index.html
Nota
1 - Nesse artigo
usarei os dados dos demógrafos Roberto Bachi e Justin McCarthy, compilados
no verbete Demographic history of
Palestine (region), da Wikipédia em ingês. Consultamos também a Wikipedia
em inglês, nos verbetes Demogaphic
History of Palestine e Jewish exodus
from the Muslim world


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