https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/4/43/Antonio_Conselheiro.jpg/1024px-Antonio_Conselheiro.jpg
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(Única foto ou imagem direta conhecida de Antônio Conselheiro, logo após ter sido exumado de sua tumba no "santuário", em Canudos. Segundo um texto não assinado, esse santuário seria na verdade a capelinha que existia em Canudos antes do Conselheiro chegar. Aí ficavam as imagens que o recém-chegados traziam. Ao lado do santuário havia um quarto onde o Conselheiro vivia)
Eduardo Simões (a Margarida Maria)
A personalidade do
Conselheiro
A criação de mitos sociais é um dos papeis mais destacados de
literatos e romancistas, e dos historiadores que não se importam que seu texto
seja reconhecida pelo rigor acadêmico ou científico. Tudo bem, faz parte. Mas
não deixa de chamar a atenção a dificuldade de os historiadores e autores
brasileiros de outras áreas, que fazem incursões na nossa história, em
definirem corretamente o que estão descrevendo, como se estivessem com receio
de se afastar de algo pré-estabelecido, apesar da demanda por uma
maior objetividade histórica. Este não será o meu caso.
Infelizmente as crenças dos autores desfigura tanto o fato e
os personagens, para acomoda-los ao molde da ideologia pessoal, que os deixa
irreconhecíveis, enquanto agridem à lógica mais elementar – lembro de um texto
do livro de Edmundo Moniz, A guerra
social de Canudos, de viés marxista onde autor, querendo mostrar que Antônio
Conselheiro era um líder nato e grande estrategista, faz uso de um episódio, já no
crepúsculo da campanha, quando ele, pela primeira vez no conflito, mostra-se a todos, próximo à Igreja Nova, e aparece no meio do campo de batalha. Os soldados atiram
loucamente na sua direção, sem o acertar, e ele então, displicentemente, lhes dá
as costas e desaparece, andando, no meio do casario.
A interpretação de Moniz é que Conselheiro, simplesmente saíra
a campo aberto para estudar as posições dos inimigos, e assim planejar suas
próximas contramedidas, sem falar que ele antecipara, em pelo quase 20 anos a
guerra de trincheiras que seria travada na 1ª Guerra Mundial. Um gênio militar.
Antes que o leitor pleiteie um monumento a esse gênio militar
eu ponderaria o seguinte:
a) Se ele queria uma visão melhor do campo inimigo, não seria
melhor fazê-lo de uma posição elevada, mesmo que fosse sobre o telhado de um
dos casebres? Ele teria uma visão melhor e estaria mais abrigado das balas.
b) Nada mudou na dinâmica do cerco após essa aparição.
Exceto a rendição de homens velhos e crianças. Precisava de tudo isso, só para
isso?
c) Se ele era realmente um grande gênio militar, como pode
simplesmente se deixar cercar passivamente, por uma força sabidamente superior
em número e armamento, como aconteceu ao longo do conflito?
d) Ele se expôs gratuitamente a um perigo enorme, pois
poderia ser atingido por um tiro, não de um atirador mais especializado, pois
parece que o exército brasileiro ainda não abrira os olhos para a importância
dos snipers, que os americanos usaram em abundância mais de 30 anos antes. Ele correu um risco enorme. Sem necessidade.
Eu, pessoalmente, creio mais que essa foi mais uma daquelas
espetaculosas demonstrações de loucura e fé, que impressiona tanto aos
sertanejos, como a mostrar que, para aquele
que tem fé, nada lhe aconteceria. Foi loucura e pura sorte!
Quanto às trincheiras, chega a ser bizarro. Canudos foi um
cerco, e no cerco você só tem três estruturas onde se abrigar: uma vala no chão
(trincheira), a muralha e a torre. Os canudenses usaram dois, a torre da igreja
e as trincheiras feitas entre as casas e até dentro delas, o que aumentava
enormemente o número de vítimas entre os não-combatentes... Isso não é muito
inteligente.
Se conselheiro era um gênio, militar e Canudos uma comunidade
espantosamente próspera, porque não se construíram estruturas defensivas mais
pujantes e variadas. Senão uma muralha, pelo menos uma paliçada de espinheiros,
estrepes ou muretas, com as pedras que abundavam no solo, para proteger pontos
chaves? Os relatos apontam apenas para a improvisação
e a utilização intensiva, do relevo e de recursos naturais.
No livro de Frederico Pernambucano, A guerra total de Canudos, não se sai melhor. Para ele foi o
Conselheiro quem aplicou pela primeira vez o conceito de guerra total, como ele
diz: “avant la letter” (pioneiro). O problema é que em Canudos não houve
propriamente uma guerra convencional, de movimento, mas antes um cerco, e em todos os cercos, onde se
encontraram dois contendores decididos, as ações se encaminharam fatalmente para
a guerra total – Em Cartago, 146 a.C., as mulheres cortaram o cabelo para fazer
cordas, cenas semelhantes ou piores se viram em Numância, Jerusalém, Massada...
para ficarmos na antiguidade. “Nada de novo sob o sol”.
A pessoa do Conselheiro não era isenta de reparos. Nascido num
clã de rudes guerreiros, os Maciel, na ocasião de uma longa e tormentosa guerra
dessa família, contra os Araújo, gente não tão combativa, porém bem mais
poderosa. Para fugir do ambiente de violência endêmica ele chegou a ser
abrigado por uma família aliada dos Araújo, os Veras.
Era um garoto pacífico, órfão precoce de mãe, razoavelmente
inteligente e culto, mas que era também impressionável, e por um tempo desejou
em ser padre. Mas quis o destino, a sua condição social ou a sabedoria dos
padres, que ele tomasse outro rumo, casasse e, após quebrar o negócio de seu
pai, se tornasse professor e advogado leigos. Morando em várias cidades no
interior do Ceará, aí conheceu a desventura completa: a sua esposa o abandonou
por um soldado da polícia, que também a abandonou logo depois.
Isso disparou nele um processo de desagregação mental, e a partir daí
passou a vagar pelo sertão, assumindo a figura de um penitente, no sentido mais
rude e primitivo do conceito, conforme vemos na sua descrição por um jornal
sergipano de 1874: “Esse misterioso personagem, trajando uma enorme camisa azul
[a cor dos penitentes de Maria, a Mãe de Jesus] que lhe serve de hábito a forma
do de sacerdote, pessimamente suja, cabelos mui espessos e sebosos entre os
quais se vê claramente uma espantosa multidão de bichos (piolhos). Distingue-se
pelo ar misterioso, olhos baços [cansados, inexpressivos, vazios], tez
desbotada e de pés nus” (O Rabudo; 22
de novembro de 1874).
Vaga nos sertões, evitando as grandes cidades. Dorme ao
relento, no chão ou sobre uma esteira. Faz jejuns rigorosos e outras
penitências, que não eram mais vistas no catolicismo oficial desse o fim da
Idade Média. Sua figura bizarra, seu sofrimento pessoal, bate fundo na
generosidade crédula do povo sertanejos, e logo começam a surgir histórias mirabolantes
a seu respeito, talvez como sendo um importante personagem do Império, um
Conselheiro, amigo do Imperador, que se embrenhara nos sertões para purgar
pecados para ensinar ao povo o caminho da salvação, por
meio de conselhos morais rigorosíssimos, além de supostos milagres, e
logo o estão chamando de Bom Jesus ou
Bom Jesus Conselheiro. Está
canonizado.
Uma pequeno grupo o segue, e junto a ele dedicam-se à
edificação ou conserto de igrejas e cemitérios. Ele esporadicamente faz
preleções em novenas e outros momentos de oração, nem sempre bem vistos pelos
padres locais, desconfiados do seu rigorismo moral e das imagens apocalípticas
que ornavam as preleções do Conselheiro, turbinados tanto por seu timbre de
voz, seu discurso fluente e fácil, e sua figura em geral, que formavam um todo
impressionante, assim como pode ter pintado algum ciúme da prédica daquele
pregador, aparentemente ‘raso’ em teologia, mas que arrastava multidões para as
suas pregações..
A base da sua pregação se vinculava a uma obra catequética portuguesa
famosa, embora um tanto controversa, chamada Missão Abreviada – para despertar os descuidados, converter
os pecadores e sustentar os frutos das missões. É destinado este livro para
fazer oração e instruções ao povo de aldeia, obra utilíssima para os párocos,
para os capelães, para qualquer sacerdote, que deseja salvar almas e,
finalmente, para qualquer pessoa que faz oração pública – para nós Missão
Abreviada – do Pe Manuel José Gonçalves Couto, editado em 1859, ele foi o livro
mais editado em Portugal em todo o século XIX, e bastante reproduzido nos
papéis que foram encontrados em Conselheiro (1).
O Padre Couto, assim como o Conselheiro, procurava pegar
ouvinte pela emoção, e carregava nas tintas, e nos gestos teatrais em suas
apresentações, no intuito de trazer o camponês luso, fortemente secularizado, o
que não acontecia aqui, de volta para o catolicismo – ele mudava a tonalidade
de voz, fazia gestos exagerados, mostrava caveiras, se flagelava e se
esbofeteava, enquanto expunha a cruz e fazia procissões de penitência, tipo
aquelas em que você se espanca em via pública, até escorrer sangue. Que ele
exagerou nas tintas mostra esse trecho de um artigo escrito por Roberto Viana
de Oliveira Filho e apresentado em um encontro regional (2), que traz uma notícia, de um
jornal alagoano de 1876, que é muito elucidativa. Diz o autor:
“Uma marca importante... presente na Missão Abreviada é o
“sermão forte”, ou seja, a pregação que tem como principal mote a ideia do temor, e do medo causados pelo castigo
divino... Um jornal alagoano... A
Palavra noticiava... do dia 24 de setembro de 1876 [o trecho do jornal,
fotocopiado, diz o seguinte: “Na freguesia
da Piedade, ilha do Pico, enlouqueceu uma pobre rapariga, devido à leitura de
um livro que ali se espalhou, intitulado Missão abreviada. As tenebrosas
pinturas do inferno que nesta obra se acham, incutiram no ânimo da infeliz
terror tal, que ocasionaram a grande enfermidade de que é agora vítima. Na
freguesia de S. Matheus... também já se deu um caso idêntico” o título da
matéria é irônico: “Frutos dos bons
livros”].
Os excessos do Conselheiros, escorados nos ensinamentos do padre português o afastarão do que restou de sua família, das cidades, da cultura urbana, das instituições do seu país e por fim da instituição de que ele se fazia defensor incondicional: a Igreja Católica, que o desautorizou a falar em seu nome e praticamente o excomungou, durante a visita de dois frades capuchinhos a Canudo, nas vésperas do conflito, embora ele tenha continuado a agir como se nada tivesse acontecido, aprimorando a edificação da Igreja Nova, usando termos, sinais e gestos da Igreja, embora proibisse os padres de pregar para o seu povo.
Um detalhe muito esclarecedor de seu alheamento mental, de
sua fuga do mundo, é um texto preservado na forma de um testamento, intitulado “Despedida”,
aparentemente escrito às vésperas de sua morte, uns doze dias antes de Canudos
cair, em 22 de setembro de 1897, e preservado, quando a cidade já estava quase
toda destruída ou ocupada por forças militares, em meio a um mar imenso de
sangue, dor e agonia de milhares pessoas inocentes.
E ele então escreve: “podeis
entretanto estar certos de que a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo, nossa luz e
força, permanecerá em vosso espírito: Ele vos defenderá das misérias deste
mundo; um dia alcançareis o prêmio que o Senhor tem preparado (se converterdes sinceramente
para Ele) que é a glória eterna... Antes de fazer-vos a minha despedida, peço-vos perdão se nos
conselhos vos tenho ofendido. Conquanto em algumas ocasiões proferisse palavras
excessivamente rígidas, combatendo a maldita república, repreendendo os vícios
e movendo o coração ao santo temor e amor de Deus, todavia não concebam que eu
nutrisse o mínimo desejo de macular a vossa reputação... é chegado o momento
para me despedir de vós; que pena, que sentimento tão vivo ocasiona esta despedida
em minha alma, à vista do modo benévolo, generoso e caridoso com que me tendes
tratado... Adeus povo, adeus aves, adeus árvores, adeus campos, aceitai a minha
despedida, que bem demonstra as gratas recordações que levo de vós, que jamais
se apagarão da lembrança deste peregrino, que aspira ansiosamente a vossa
salvação e o bem da Igreja. Praza aos céus que tão ardente desejo seja
correspondido com aquela conversão sincera que tanto deve cativar o vosso afeto”.
Dá para acreditar que isso tenha sido escrito no momento em que uma 'cidade' inteira, a sua cidade, e uma multidão de ardentes devotos estava ali fora, logo após a porta que separava o mundo de fantasia do “santuário” da realidade, sendo vítima de um massacre, que não tinha como ele não saber? Isso são as últimas palavras a se esperar de um homem inteligente, cordato, sensível, líder inconteste, e outros adjetivos que muitos querem atribuir a Antônio conselheiro? Não há uma única palavra sobre o que estava acontecendo!
Naquele momento, sob a luz bruxuleante dos candeeiros a
querosene e velas, deitado no chão, sobre uma esteira de palha, que depois
abrigou o seu corpo, cercado de homens e mulheres, algumas marcadas por dezenas
de partos, pelo sol do sertão e a brutalidade dos homens, inclusive de “seus
homens”, todos compungidos e tomados de íntimo terror, da batalha que
prosseguia furiosa do lado de fora, onde se ouviam explosões, tiros,
imprecações, ofensas recíprocas, palavrões, gritos de dor, choro, desespero, estupros,
degola, ódios profusos, aquela gente toda, de quem ele se despede tão
poeticamente, e pede desculpas por alguma palavra ofensiva, mas nenhuma por tê-los
levado àquela situação, por não ter tomado nenhuma iniciativa de propor uma
acordo, um cessar-fogo, ou mesmo se oferecer para morrer no lugar do povo, como
fez o Jesus original, e logo ele que era o Bom Jesus. NADA, NADA, NADA. Ele
está indo para junto de Deus, de Jesus, dos anjos e santos, e da sempre bendita
Virgem Maria, enquanto o que sobrou do seu povo será entregue às mãos dos militares
republicanos incréus, que ele sempre identificou como demônios ou gente a seus
serviços.
Aquela gente humilde, muito mais do que a da música de
Vinícius de Moraes, pobre, e agora abandonada pelo seu Bom Jesus, terá que
pagar com a vida e a desmoralização o fato de um dia ter largado tudo para
segui-lo, essa gente ficou, sozinha, para enfrentar a fúria da soldadesca fanática
e sanguinária. Mulheres, crianças e velhos, estes nem tanto, pois serão imediatamente
degolados, enquanto as primeiras experimentarão para o resto de suas vidas uma
violência e uma discriminação sem fim, enquanto assistem ao seu grande
benfeitor definhar e morrer em virtude de seus rigorosos jejuns e péssimas
condições sanitárias. Conselheiro se esvairá até à morte.
Quando era jovem, afastara-se do eu clã, para fugir de uma violenta guerra de família, e terminará por morrer em meio a uma guerra pior ainda.
Que tragédia! Que tragédia!
1 – O padre Couto, nascido numa família muito religiosa,
viveu numa época ruim, muito agitada e violenta, em Portugal, mas
particularmente ruim para a Igreja Católica, que após romper com o liberalismo
do nosso Pedro I, o IV de Portugal, experimentou cerca de 10 anos de cisma, de
1832 a 42, num ambiente pesadamente anticlerical, que esvaziou a fé católica
dos campos portugueses e foi para sanar esse problema, que não existia no
Brasil, o padre Couto, ele próprio um campeão das chamadas missões populares,
derivadas do Concílio de Trento, escreveu a Missão
Abreviada, num clima de tensão e catástrofe moral-espiritual causadas pelas
medidas do governo.
2 – “O livro do começo do mundo”: A “missão abreviada” e os
penitentes peregrinos públicos em Juazeiro do Norte, CE (1970-2000)- XI
Encontro Regional Nordeste de História Oral – Ficção e Poder, Oralidade imagem
e escrita; maio 2017

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