09 maio 2024

CANUDOS: A GUERRA INTERMINÁVEL – 1 (revisto em 16.05.2024)


 https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/4/43/Antonio_Conselheiro.jpg/1024px-Antonio_Conselheiro.jpg

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B4nio_Conselheiro#/media/Ficheiro:Antonio_Conselheiro.jpg

(Única foto ou imagem direta conhecida de Antônio Conselheiro, logo após ter sido exumado de sua tumba no "santuário", em Canudos. Segundo um texto não assinado, esse santuário seria na verdade a capelinha que existia em Canudos antes do Conselheiro chegar. Aí ficavam as imagens que o recém-chegados traziam. Ao lado do santuário havia um quarto onde o Conselheiro vivia)

Eduardo Simões (a Margarida Maria)

A personalidade do Conselheiro

A criação de mitos sociais é um dos papeis mais destacados de literatos e romancistas, e dos historiadores que não se importam que seu texto seja reconhecida pelo rigor acadêmico ou científico. Tudo bem, faz parte. Mas não deixa de chamar a atenção a dificuldade de os historiadores e autores brasileiros de outras áreas, que fazem incursões na nossa história, em definirem corretamente o que estão descrevendo, como se estivessem com receio de se afastar de algo pré-estabelecido, apesar da demanda por uma maior objetividade histórica. Este não será o meu caso.

Infelizmente as crenças dos autores desfigura tanto o fato e os personagens, para acomoda-los ao molde da ideologia pessoal, que os deixa irreconhecíveis, enquanto agridem à lógica mais elementar – lembro de um texto do livro de Edmundo Moniz, A guerra social de Canudos, de viés marxista onde autor, querendo mostrar que Antônio Conselheiro era um líder nato e grande estrategista, faz uso de um episódio, já no crepúsculo da campanha, quando ele, pela primeira vez no conflito, mostra-se a todos, próximo à Igreja Nova, e aparece no meio do campo de batalha. Os soldados atiram loucamente na sua direção, sem o acertar, e ele então, displicentemente, lhes dá as costas e desaparece, andando, no meio do casario.

A interpretação de Moniz é que Conselheiro, simplesmente saíra a campo aberto para estudar as posições dos inimigos, e assim planejar suas próximas contramedidas, sem falar que ele antecipara, em pelo quase 20 anos a guerra de trincheiras que seria travada na 1ª Guerra Mundial. Um gênio militar.

Antes que o leitor pleiteie um monumento a esse gênio militar eu ponderaria o seguinte:

a) Se ele queria uma visão melhor do campo inimigo, não seria melhor fazê-lo de uma posição elevada, mesmo que fosse sobre o telhado de um dos casebres? Ele teria uma visão melhor e estaria mais abrigado das balas.

b) Nada mudou na dinâmica do cerco após essa aparição. Exceto a rendição de homens velhos e crianças. Precisava de tudo isso, só para isso?

c) Se ele era realmente um grande gênio militar, como pode simplesmente se deixar cercar passivamente, por uma força sabidamente superior em número e armamento, como aconteceu ao longo do conflito?

d) Ele se expôs gratuitamente a um perigo enorme, pois poderia ser atingido por um tiro, não de um atirador mais especializado, pois parece que o exército brasileiro ainda não abrira os olhos para a importância dos snipers, que os americanos usaram em abundância mais de 30 anos antes. Ele correu um risco enorme. Sem necessidade.

Eu, pessoalmente, creio mais que essa foi mais uma daquelas espetaculosas demonstrações de loucura e fé, que impressiona tanto aos sertanejos, como a mostrar que, para aquele que tem fé, nada lhe aconteceria. Foi loucura e pura sorte!

Quanto às trincheiras, chega a ser bizarro. Canudos foi um cerco, e no cerco você só tem três estruturas onde se abrigar: uma vala no chão (trincheira), a muralha e a torre. Os canudenses usaram dois, a torre da igreja e as trincheiras feitas entre as casas e até dentro delas, o que aumentava enormemente o número de vítimas entre os não-combatentes... Isso não é muito inteligente.

Se conselheiro era um gênio, militar e Canudos uma comunidade espantosamente próspera, porque não se construíram estruturas defensivas mais pujantes e variadas. Senão uma muralha, pelo menos uma paliçada de espinheiros, estrepes ou muretas, com as pedras que abundavam no solo, para proteger pontos chaves? Os relatos apontam apenas para a improvisação e a utilização intensiva, do relevo e de recursos naturais.

No livro de Frederico Pernambucano, A guerra total de Canudos, não se sai melhor. Para ele foi o Conselheiro quem aplicou pela primeira vez o conceito de guerra total, como ele diz: “avant la letter” (pioneiro). O problema é que em Canudos não houve propriamente uma guerra convencional, de movimento, mas antes um cerco, e em todos os cercos, onde se encontraram dois contendores decididos, as ações se encaminharam fatalmente para a guerra total – Em Cartago, 146 a.C., as mulheres cortaram o cabelo para fazer cordas, cenas semelhantes ou piores se viram em Numância, Jerusalém, Massada... para ficarmos na antiguidade. “Nada de novo sob o sol”.

A pessoa do Conselheiro não era isenta de reparos. Nascido num clã de rudes guerreiros, os Maciel, na ocasião de uma longa e tormentosa guerra dessa família, contra os Araújo, gente não tão combativa, porém bem mais poderosa. Para fugir do ambiente de violência endêmica ele chegou a ser abrigado por uma família aliada dos Araújo, os Veras.

Era um garoto pacífico, órfão precoce de mãe, razoavelmente inteligente e culto, mas que era também impressionável, e por um tempo desejou em ser padre. Mas quis o destino, a sua condição social ou a sabedoria dos padres, que ele tomasse outro rumo, casasse e, após quebrar o negócio de seu pai, se tornasse professor e advogado leigos. Morando em várias cidades no interior do Ceará, aí conheceu a desventura completa: a sua esposa o abandonou por um soldado da polícia, que também a abandonou logo depois.

Isso disparou nele um processo de desagregação mental, e a partir daí passou a vagar pelo sertão, assumindo a figura de um penitente, no sentido mais rude e primitivo do conceito, conforme vemos na sua descrição por um jornal sergipano de 1874: “Esse misterioso personagem, trajando uma enorme camisa azul [a cor dos penitentes de Maria, a Mãe de Jesus] que lhe serve de hábito a forma do de sacerdote, pessimamente suja, cabelos mui espessos e sebosos entre os quais se vê claramente uma espantosa multidão de bichos (piolhos). Distingue-se pelo ar misterioso, olhos baços [cansados, inexpressivos, vazios], tez desbotada e de pés nus” (O Rabudo; 22 de novembro de 1874).

Vaga nos sertões, evitando as grandes cidades. Dorme ao relento, no chão ou sobre uma esteira. Faz jejuns rigorosos e outras penitências, que não eram mais vistas no catolicismo oficial desse o fim da Idade Média. Sua figura bizarra, seu sofrimento pessoal, bate fundo na generosidade crédula do povo sertanejos, e logo começam a surgir histórias mirabolantes a seu respeito, talvez como sendo um importante personagem do Império, um Conselheiro, amigo do Imperador, que se embrenhara nos sertões para purgar pecados para ensinar ao povo o caminho da salvação, por meio de conselhos morais rigorosíssimos, além de supostos milagres, e logo o estão chamando de Bom Jesus ou Bom Jesus Conselheiro. Está canonizado.

Uma pequeno grupo o segue, e junto a ele dedicam-se à edificação ou conserto de igrejas e cemitérios. Ele esporadicamente faz preleções em novenas e outros momentos de oração, nem sempre bem vistos pelos padres locais, desconfiados do seu rigorismo moral e das imagens apocalípticas que ornavam as preleções do Conselheiro, turbinados tanto por seu timbre de voz, seu discurso fluente e fácil, e sua figura em geral, que formavam um todo impressionante, assim como pode ter pintado algum ciúme da prédica daquele pregador, aparentemente ‘raso’ em teologia, mas que arrastava multidões para as suas pregações..

A base da sua pregação se vinculava a uma obra catequética portuguesa famosa, embora um tanto controversa, chamada Missão Abreviada – para despertar os descuidados, converter os pecadores e sustentar os frutos das missões. É destinado este livro para fazer oração e instruções ao povo de aldeia, obra utilíssima para os párocos, para os capelães, para qualquer sacerdote, que deseja salvar almas e, finalmente, para qualquer pessoa que faz oração pública – para nós Missão Abreviada – do Pe Manuel José Gonçalves Couto, editado em 1859, ele foi o livro mais editado em Portugal em todo o século XIX, e bastante reproduzido nos papéis que foram encontrados em Conselheiro (1).

O Padre Couto, assim como o Conselheiro, procurava pegar ouvinte pela emoção, e carregava nas tintas, e nos gestos teatrais em suas apresentações, no intuito de trazer o camponês luso, fortemente secularizado, o que não acontecia aqui, de volta para o catolicismo – ele mudava a tonalidade de voz, fazia gestos exagerados, mostrava caveiras, se flagelava e se esbofeteava, enquanto expunha a cruz e fazia procissões de penitência, tipo aquelas em que você se espanca em via pública, até escorrer sangue. Que ele exagerou nas tintas mostra esse trecho de um artigo escrito por Roberto Viana de Oliveira Filho e apresentado em um encontro regional (2), que traz uma notícia, de um jornal alagoano de 1876, que é muito elucidativa. Diz o autor:

“Uma marca importante... presente na Missão Abreviada é o “sermão forte”, ou seja, a pregação que tem como principal mote a ideia do temor, e do medo causados pelo castigo divino... Um jornal alagoano... A Palavra noticiava... do dia 24 de setembro de 1876 [o trecho do jornal, fotocopiado, diz o seguinte: “Na freguesia da Piedade, ilha do Pico, enlouqueceu uma pobre rapariga, devido à leitura de um livro que ali se espalhou, intitulado Missão abreviada. As tenebrosas pinturas do inferno que nesta obra se acham, incutiram no ânimo da infeliz terror tal, que ocasionaram a grande enfermidade de que é agora vítima. Na freguesia de S. Matheus... também já se deu um caso idêntico” o título da matéria é irônico: “Frutos dos bons livros”].

Os excessos do Conselheiros, escorados nos ensinamentos do padre português o afastarão do que restou de sua família, das cidades, da cultura urbana, das instituições do seu país e por fim da instituição de que ele se fazia defensor incondicional: a Igreja Católica, que o desautorizou a falar em seu nome e praticamente o excomungou, durante a visita de dois frades capuchinhos a Canudo, nas vésperas do conflito, embora ele tenha continuado a agir como se nada tivesse acontecido, aprimorando a edificação da Igreja Nova, usando termos, sinais e gestos da Igreja, embora proibisse os padres de pregar para o seu povo.

Um detalhe muito esclarecedor de seu alheamento mental, de sua fuga do mundo, é um texto preservado na forma de um testamento, intitulado “Despedida”, aparentemente escrito às vésperas de sua morte, uns doze dias antes de Canudos cair, em 22 de setembro de 1897, e preservado, quando a cidade já estava quase toda destruída ou ocupada por forças militares, em meio a um mar imenso de sangue, dor e agonia de milhares pessoas inocentes.

E ele então escreve: “podeis entretanto estar certos de que a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo, nossa luz e força, permanecerá em vosso espírito: Ele vos defenderá das misérias deste mundo; um dia alcançareis o prêmio que o Senhor tem preparado (se converterdes sinceramente para Ele) que é a glória eterna... Antes de fazer-vos a minha despedida, peço-vos perdão se nos conselhos vos tenho ofendido. Conquanto em algumas ocasiões proferisse palavras excessivamente rígidas, combatendo a maldita república, repreendendo os vícios e movendo o coração ao santo temor e amor de Deus, todavia não concebam que eu nutrisse o mínimo desejo de macular a vossa reputação... é chegado o momento para me despedir de vós; que pena, que sentimento tão vivo ocasiona esta despedida em minha alma, à vista do modo benévolo, generoso e caridoso com que me tendes tratado... Adeus povo, adeus aves, adeus árvores, adeus campos, aceitai a minha despedida, que bem demonstra as gratas recordações que levo de vós, que jamais se apagarão da lembrança deste peregrino, que aspira ansiosamente a vossa salvação e o bem da Igreja. Praza aos céus que tão ardente desejo seja correspondido com aquela conversão sincera que tanto deve cativar o vosso afeto”.

Dá para acreditar que isso tenha sido escrito no momento em que uma 'cidade' inteira, a sua cidade, e uma multidão de ardentes devotos estava ali fora, logo após a porta que separava o mundo de fantasia do “santuário” da realidade, sendo vítima de um massacre, que não tinha como ele não saber? Isso são as últimas palavras a se esperar de um homem inteligente, cordato, sensível, líder inconteste, e outros adjetivos que muitos querem atribuir a Antônio conselheiro? Não há uma única palavra sobre o que estava acontecendo!

Naquele momento, sob a luz bruxuleante dos candeeiros a querosene e velas, deitado no chão, sobre uma esteira de palha, que depois abrigou o seu corpo, cercado de homens e mulheres, algumas marcadas por dezenas de partos, pelo sol do sertão e a brutalidade dos homens, inclusive de “seus homens”, todos compungidos e tomados de íntimo terror, da batalha que prosseguia furiosa do lado de fora, onde se ouviam explosões, tiros, imprecações, ofensas recíprocas, palavrões, gritos de dor, choro, desespero, estupros, degola, ódios profusos, aquela gente toda, de quem ele se despede tão poeticamente, e pede desculpas por alguma palavra ofensiva, mas nenhuma por tê-los levado àquela situação, por não ter tomado nenhuma iniciativa de propor uma acordo, um cessar-fogo, ou mesmo se oferecer para morrer no lugar do povo, como fez o Jesus original, e logo ele que era o Bom Jesus. NADA, NADA, NADA. Ele está indo para junto de Deus, de Jesus, dos anjos e santos, e da sempre bendita Virgem Maria, enquanto o que sobrou do seu povo será entregue às mãos dos militares republicanos incréus, que ele sempre identificou como demônios ou gente a seus serviços.

Aquela gente humilde, muito mais do que a da música de Vinícius de Moraes, pobre, e agora abandonada pelo seu Bom Jesus, terá que pagar com a vida e a desmoralização o fato de um dia ter largado tudo para segui-lo, essa gente ficou, sozinha, para enfrentar a fúria da soldadesca fanática e sanguinária. Mulheres, crianças e velhos, estes nem tanto, pois serão imediatamente degolados, enquanto as primeiras experimentarão para o resto de suas vidas uma violência e uma discriminação sem fim, enquanto assistem ao seu grande benfeitor definhar e morrer em virtude de seus rigorosos jejuns e péssimas condições sanitárias. Conselheiro se esvairá até à morte.

Quando era jovem, afastara-se do eu clã, para fugir de uma violenta guerra de família, e terminará por morrer em meio a uma guerra pior ainda. 

Que tragédia! Que tragédia!

 Nota

1 – O padre Couto, nascido numa família muito religiosa, viveu numa época ruim, muito agitada e violenta, em Portugal, mas particularmente ruim para a Igreja Católica, que após romper com o liberalismo do nosso Pedro I, o IV de Portugal, experimentou cerca de 10 anos de cisma, de 1832 a 42, num ambiente pesadamente anticlerical, que esvaziou a fé católica dos campos portugueses e foi para sanar esse problema, que não existia no Brasil, o padre Couto, ele próprio um campeão das chamadas missões populares, derivadas do Concílio de Trento, escreveu a Missão Abreviada, num clima de tensão e catástrofe moral-espiritual causadas pelas medidas do governo.

2 – “O livro do começo do mundo”: A “missão abreviada” e os penitentes peregrinos públicos em Juazeiro do Norte, CE (1970-2000)- XI Encontro Regional Nordeste de História Oral – Ficção e Poder, Oralidade imagem e escrita; maio 2017



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