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Eduardo Simões (a Margarida Maria)
Missão Abreviada do padre Manuel Couto e a realidade espiritual catastrófica
do século XIX
Os avanços da Revolução Francesa, e em especial da doutrina
liberal, nos países de maioria católica, se fez em boa parte em prejuízo do
prestígio e da riqueza patrimonial da Igreja Católica, movidos que estavam, os
liberais, de um forte sentimento anticlerical, e, principalmente, anticatólico.
Aos poucos a Igreja perde o controle sobre a produção do
pensamento nas universidades, em especial nos cursos de filosofia, e centros de
pesquisas, sem falar na literatura e nas artes em geral, onde seus valores não
são mais alardeados, onde o liberalismo, na sua vertente mais radical, ganha
cada vez mais espaço, gerando uma sensação de encurralamento, na Igreja, e até
certo ponto de inutilidade, diante das mudanças sociais e políticas, o
operariado no lugar dos camponeses, a burguesia no lugar da nobreza, o
presidente no lugar do rei e a república no lugar da monarquia. O mundo
medieval, e mesmo o do início da Era Moderna, quando a ideologia católica podia
aspirar uma certa influência, não existe mais.
A situação foi pior na Itália, durante a década de 60 do
século XIX, quando os patriotas italianos, aspirando a união política da Península, entraram
em choque com o Papado e com o catolicismo, por causa da disputa de Roma, da
qual o Papa Pio IX não queria abrir mão. Com a tomada, manu militari, de Roma, em setembro de 1870, teve início desgastante Questão Romana, que jogou o Estado Italiano contra a Santa Sé,
com os Papas então se colocando como prisioneiros no Vaticano, proibindo aos católicos que participar da vida política na Itália., o que enfraqueceu
muito a democracia local. Terá facilitado a ascensão do fascismo após a 1ª
Guerra?
Acuado o clero assume uma postura e discurso de vítima, como
um agente que muito fizera pelo resgate e manutenção da Civilização Ocidental,
desde os tumultuosos anos da queda do Império Romano – e era verdade – e em
troca sofria sofria ataques injustos, esbulho patrimonial e humilhações, que o clero respondia, em geral, com uma espiritualidade penitencial, amarga, e com um discurso apocalíptico, para explicar, o seu ocaso
a partir da falência espiritual do mundo, atribuindo-a apenas
aos fatos externos e hostis a ela, recusando-se a assumir qualquer responsabilidade
pelos impasses surgidos, apoiando qualquer regime monárquico, que estivesse disposto a
reconhecê-la como religião oficial. A república tornou-se sinônimo de
liberalismo e anticlericalismo, e no extremo uma instância do mal.
O padre Manuel José Couto Gonçalves, nasce nesse contexto, no
seio de uma família camponesa, abastada, em 1819, e, ao contrário do nosso
Conselheiro, sua vocação religiosa teve plena continuidade, e ele se tornou um
padre famoso entre seus compatriotas, e pela dedicação às suas missões
populares, pregadas entre a gente pobre do campo, como o nosso Conselheiro, a
assim como este tinha fama de ser homem desprendido, pois embora o seu livro
tenha sido o mais editado em Portugal ao longo do século XIX, ele não pegou nem
um centavo dos direitos autorais.
O padre Gonçalves viveu boa parte de sua vida sob os solavancos do avanço da ideologia liberal em Portugal, que, acabou levando o reino a um cisma de dez anos com a Igreja, de 1832 a 1842, além da aplicação de uma lei que proibia a existência de ordens religiosas em Portugal, enquanto o país experimentava uma enfiada interminável de convulsões e violência políticas e desacertos sociais, típicos de uma sociedade em transição, de uma monarquia absoluta para uma constitucional. De uma certa forma, em Portugal a Igreja e a religião sofreram muito mais dificuldades do que aqui no Brasil, e tudo dentro do regime monárquico!
Os efeitos desse movimento anticatólico foi o esvaziamento
dos seminários, e consequentemente das paróquias, em especial aquelas mais
retiradas do interior, e o povo foi gradualmente esfriando a sua fé. Foi para
corrigir isso que o padre Couto pôs mãos à obra nas suas missões populares, e
uma vez que estas tiveram uma boa acolhida, ele resolveu passar sua doutrina e seu
método, fortemente baseados no chamado catolicismo popular, para um livro, a
fim de orientar outros padres que quisessem ir pela mesma senda. Assim surgiu Missão Abreviada, uma espécie de manual
do missionário
E ele o fez, mas fortemente influenciado pela mentalidade
rigorista e ressentida da Igreja da época, que via tudo como que encaminhando-se
para um fim, talvez o Fim do Mundo, onde as piores premonições fatalmente se
realizariam, e que se combinava com a impressão difusa de um mundo que se acabava,
a sociedade agrária-rural-aristocrática, dos séculos anteriores, para uma
sociedade burguesa-industrial-urbana, que assustava a muita gente de antiga mentalidade.
Eram ações honestas, coerentes com a crença e o comportamento
do padre Couto, a situação da Igreja em Portugal e a cultura católica da época –
a cultura teologia do século anterior era mais leve, e às vezes até leviana,
mas bem mais otimista – que juntou o tradicional medo da morte com o medo da perdição
no inferno, que parecia prenunciado nas chaminés das fábricas e a explosão numérica e qualitativa da pobreza antes desconhecida, ou porque estava mais disperso ou porque o pobre
morria antes que pudesse impressionar ser notado.
A padre teve uma vida longa e morreu na simplicidade e em paz,
numa casa bem em frente à casa onde passou a sua infância, numa simples vilinha
no sertão de Portugal, com o nome de Telões, bem diferente do profeta de
Canudos, seu imitador mais fervoroso.
Para que você tenha uma ideia mais clara do tipo de mensagem
que o padre Couto passava, e que “fazia a cabeça” do Conselheiro, selecionei
alguns trechos da 1ª edição da Missão Abreviada. Se você é uma pessoa que se
impressiona muito com esse tipo de mensagem religiosa, centrada no
julgamento e nos castigos, PARE AQUI, embora eu deva dizer que ele
contrabalança esses trechos mais sombrios com notas positivas de esperança para
quem se entrega verdadeiramente aos cuidados de Deus, vivendo uma fé coerente,
e que eu não reproduzi nos trechos abaixo, que, a meu ver, explicam melhor o conteúdo
das pregações do Conselheiro.
“O juiz que há de julgar-te é um Deus Onipotente, um Deus por
ti ofendido e maltratado... Oh! quanto Ele estará irritado contra li, pecador!
Os seus divinos olhos estarão lançando faíscas de fogo contra ti. As suas mãos
estarão cheias de raios contra ti. O seu semblante estará cintilando furor
contra li. Só a sua vista irada é bastante para reduzir-te a cinzas, e quanto mais
se aumentará o teu susto, e crescerá a tua aflição, quando o Juiz Supremo te pedir
estreita conta de toda a tua vida, e te for mostrando todo o horror dos teus pecados,
em que lautas vezes tens caído? ... Os demónios te acusando todas as tuas
maldades; o Anjo da tua guarda confirmando estas acusações; Maria Santíssima
apresentando o seu coração, rasgado por esses punhais dos teus pecados, que
sobre ela descarregaste; seu Filho Jesus Cristo, o mesmo Juiz, coberto de
chagas também te estará mostrando o sangue, ainda escorrendo das feridas, que há
pouco agravaste com as tuas culpas... Lá o processo são as tuas culpas; a
sentença é sem apelação; a pena é um inferno de fogo o mais devorante, são
tormentos eternos... Não há lá companheiros, nem advogados em teu favor;
ninguém lá responderá por ti; ninguém faltará por ti, porque o tempo das misericórdias
se acabou para ti... Então conhecerás, pecador, a gravidade dos teus crimes, e
o seu grande número, e não poderás desculpa-los, ou nega-los, como agora fazes
muitas vezes até no ato da confissão, cometendo desta sorte horrendos
sacrilégios a cada instante. Lá serás examinado desde que chegaste ao uso da
razão até ao último suspiro da tua vida; e darás conta dos anos, dos meses, dos
dias, das horas, e de todos os momentos... Á vista desta verdade, que não podes
negar sem negar a Fé que professas, que conta darás a Deus de ti, pecador? Com
tanto tempo perdido, por andares ocupado com pensamentos vãos, com vistas curiosas,
conversas escusadas, comendo, bebendo, dormindo, tudo com excesso? E que maior conta
darás a Deus daquele tempo que empregaste... para a conversa ociosa, para o
namoro ... ou para qualquer pecado? Lá darás conta ... também das boas obras
que deixaste de fazer por preguiça e descuido .... Darás conta dos teus pecados,
e também dos pecados alheios, de que foste a causa, por via do escândalo e mau
exemplo; e destes será o maior número, nem tu os conheces. Darás conta dos pecados
dos filhos, dos criados, domésticos e afilhados, e de outras pessoas a ti
sujeitas ... Darás conta das missões, dos sermões, das práticas e das instruções
que tens ouvido, e de que te não tens aproveitado. Darás conta das confissões,
das comunhões, das orações, das missas, das inspirações, dos beneficies das
graças, e das exortações, de que também não tens colhido fruto algum.
Finalmente, até darás conta d'essa palavra ociosa ... que será de ti, pecador,
quando Jesus Cristo entrar em contas contigo, e te disser:—Vem cá, pecador; vem
cá, dá-me conta da tua vida ... —Ah! ficarás confuso e aterrado, e serás condenado!
Ao mesmo tempo serás desamparado de Deus e de Maria Santíssima; serás
desamparado dos Anjos e dos Santos; serás entregue aos demónios, a esses lobos
do inferno, que já lhes estão rangendo os dentes, e até desesperados, para te
despedaçarem e arrastarem aos abismos infernais! ... Que gritos não darás, pecador,
quando vires o inferno aberto, e lá no fundo já acesa a fogueira-; que te
servirá de cama por toda a eternidade! ... Que gritos não darás? quando te
vires cercado desses dragões do inferno, quando estiverem te lançando as
garras, sem que ninguém te possa acudir, nem tu mesmo te possas defender!
[Na Ressurreição Final] “sairás do inferno, pecador, para lá
tornares a cair em corpo e alma por toda a eternidade; sairás do inferno para
seres publicamente acusado, convencido e envergonhado; paia seres condenado com
os homens mais infames do mundo; para um juízo de condenação eterna, sem
remédio e sem fim! ... nesse grande dia do juízo sairá pois a tua alma do
inferno para unir-se ao corpo, seu antigo companheiro; mas em que estado o
encontrará? Há de encontra-lo horroroso e abominável como tição destinado para
o fogo eterno; e talvez o encontrará n'aquele mesmo lugar onde cometeste o mais
feio delito; e depois que o conhecer, com um triste e raivoso pranto lhe dirá: “Ai
de mim! Ai, infeliz de mim! ... É este o cárcere horrível em que hei de entrar,
e habitar por toda a eternidade?! Oh corpo infeliz e maldito! tu foste a causa
de toda a minha infelicidade; foste a origem da minha perdição; pois sejas tu
maldito para sempre! infeliz e desgraçado sejas comigo por toda a eternidade! ...
Ai de mim! Que por dar gosto a este monstro eu me privei de gostos eternos, e
me condenei a eternos tormentos. Oh! se eu tornara para o mundo, como trataria
este corpo criminoso! ... lhe arrancaria os olhos, para que me não fossem mais ocasião
de pecado; lambem lhe cortaria os pés, para que nunca mais desse passos para
ofender a Deus ... Eu tratei sempre este corpo como amigo, porém ele agora será
meu inimigo por toda a eternidade. ... Por não assistir de joelhos a uma missa,
irei de rastos ao tribunal da justiça divina”. Nisto clamarão os demónios com vozes
espantosas: “Ó alma mal-aventurada ... esse é o teu corpo. É essa a morada, que
preparaste com os teus crimes” ... Nisso entrará esta alma condenada no seu
corpo criminoso: e como alma vem do inferno cheia de fogo, também o corpo ficará
penetrado de logo como ferro em brasa: pela boca fora, pelos olhos, pelos
ouvidos, e pelo nariz saltam logo faíscas e lavaredas de fogo! em todo o corpo
não se verá senão fogo! Aqui os demónios, como dragões os mais ferozes, se enroscarão
no condenado para o levarem... Ó pecador, que isto agora consideras, eu não sei
como não dás um grito que penetre até os Céus; não sei como não cais desmaiado:
pelo contrário, vejo que te andas rindo, divertindo e regalando; e então em pecado
mortal. Que é isto, pecador? Aonde está a Fé que professas? Pois em pecado
mortal, e a rir-te! Hás de cair no inferno, com os mesmos olhos abertos, e a
rir-te!

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