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Eduardo Simões (a Margarida Maria)
A rapidez, a eficiência e a autonomia, sempre estiveram entre as
prioridades dos americanos, e no que diz respeito aos negócios isso é
inegociável, portanto desde cedo houve a preocupação de criar nos Estados
Unidos uma rede de estradas e hidrovias, canais, para facilitar a comunicação
entre as diversas colônias, tanto para facilitar interações comercias como para
controlar veleidades separatistas, típicas de comunidades psicologicamente muito
autossuficientes.
Havia, já em 1744, uma frota de 18 precárias carruagens sendo
utilizadas na ligação entre Nova York e Filadélfia, numa viagem de 3 dias, e depois
em 2 dias – é uma distância de 156,4 km, que hoje, com tecnologia de carros e
autopistas pode ser feita em apenas 2 horas. Considerando as paradas
necessárias, troca de cavalos, de cocheiros, pernoites, etc. a média de
velocidade mais rápida nas viagens, ao longo do século XIX, mal alcançava 24
km/h, mas ainda assim o negócio prosperou. Em 1832 já eram 106 linhas saindo de
Boston.
O grande problema desses veículos era o extremo desconforto gerado
pelos solavancos em estradas profundamente irregulares; situação que foi
compensada pela engenhosidade de um carpinteiro especializado, Lewis Downing
(1792-1873), e um fabricante de carrocerias, J Stephen Abbot, que graças a um intricado
mecanismo de travessas de ferro e tiras de couro, conseguiram das mais molejo e
estabilidade ao veículo, reduzindo o desconforto e enquanto permitia o aumento
da velocidade, que no século XVIII ficava em torno de 10 km/h. Isso aconteceu
lá por volta de 1825, e como é próprio de uma nação de empreendedores, sob leis
estáveis, os dois fundaram uma empresa, a Abbot-Downing Company, para
construção de carruagens, que serviam para o transporte a longa distância de
pessoas, malotes e correspondências. Aqueles carros que vinham com o sistema de
suspensão Abbot-Downing, chamavam-se Concord,
e vemos abaixo um exemplar no museu da Wells Fargo. Observe que na parte de trás do teto cabem mais dois passageiros - sem cinto de segurança, cair daí já devia ser um esporte.
https://en.wikipedia.org/wiki/Wells_Fargo_(1852%E2%80%931998)#/media/File:Wells_Fargo_museum_(216562290).jpg
A carruagem Concord foi amplamente usada pela empresa Wells Fargo &
Co, fundada em 1852 por Henry Wells e William Fargo, especialistas em serviços
financeiros, e que já haviam fundado a American Express, como uma empresa
especializada em transporte de valores, correspondência e passageiros, tirando
o máximo proveito das condições do veículo.
Uma coisa curiosa era a capacidade nominal de transporte de passageiros
sugerida: de nove a doze, porque entre os bancos que tinham encostos nas
extremidades da carroceria, havia uma fileira de pequenos bancos sem encostos,
no meio, onde se apinhavam mais três, sem falar de espaços livre no teto, que
tinham a vantagem de ser mais baratos. Em caso de chuva, rolos de couro ou lona
desciam da moldura superior da janela, para proteger os viajantes... que
estavam dentro. Lona e couro também protegiam as bagagens que ficavam na
prateleira, sustentada com suportes de corrente, na parte de trás. O porta-malas
de hoje.
Como transportava valores, e o West não era tão civilizado como a
Europa (ironia), e a possibilidade de assalto, naquelas vastidões vazias, eram imensa;
ia um segurança, um “mensageiro armado”, sentado no lado esquerdo do cocheiro,
ou motorista, com uma espingarda dupla calibre dez ou doze, a semelhança das
atuais escopetas. Aliás a própria presença dele já indicava, para os bandidos,
que o veículo valia a pena, e
portanto não é de espantar que de 1850 a 1900 haja o registro de pelo menos 450
assaltos, sendo que o último ocorreu em 5 de dezembro de 1916, com a morte do cocheiro,
pela quadrilha de Ben Khul, o último assaltante notório de diligências, que
escondeu os 4 mil dólares que roubou em algum lugar que ninguém até hoje achou –
o equivalente hoje a quase 114 mil dólares.
Em 1869 a Wells Fargo, que ainda existe e é uma grande instituição
financeira, deixou de atuar no setor de transporte, transferindo esse ramo da
empresa para outro proprietário.
Rescaldo: as viagens de diligências nos Estados Unidos, ajudaram a
integrar o país, distribuir a riqueza inicialmente concentrada na parte leste,
desenvolver a tecnologia, estimular o empreendedorismo e enriquecer a história
e o imaginário da nação, ajudando a formar o caráter da nação. No Brasil, infelizmente,
o império e a Primeira República, nessa ponto preferiram continuar com o modelo
colonial português, que buscava isolar as regiões interioranas da colônia para
evitar evasão fiscal (preocupação central das autoridades brasileiras até
hoje), no caso português, ou por interesses particulares e de curto prazo de potentados
locais, com uma mentalidade pré-capitalista.
Ao longo do século XIX os americanos construíram veículos e sistemas de
deslocamento impressionantes. Só em canais, que nós sempre desprezamos, ele
tinham quase a mesma extensão do que nós tínhamos de estradas de ferro, a grande
vedete dos transportes no século XIX. Nesse item, enquanto nós acumulamos uns
10 mil km de ferrovias em 1900, os americanos acumularam 215.000 milhas (= 344.000
km) – a Índia, colônia da Inglaterra, tinha uns 39,6 mil km de ferrovia. Por
isso não é de admirar que embora tenham entrado no século XIX praticamente parelhos,
no início do século XX os EUA já eram a maior potência industrial do mundo,
enquanto a gente segue tentando até hoje...

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