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Eduardo Simões (a Margarida Maria)
O cristianismo se coloca como uma religião “revelada”, logo
como guardiã de uma mensagem específica, exarada de uma esfera transcendente,
impossível portanto de ser legítima ou licitamente modificada por ação humana,
por quem quer que seja.
Ora, essa questão, a da mensagem revelada, coloca de saída
dois problemas internos sérios: primeiro, o da imperfeição estrutural da
linguagem humana, do código de comunicação, incapaz de abarcar as nuances
emocionais, cujo tônus pode modificar consideravelmente o sentido do texto,
além de outros problemas decorrentes, por exemplo, de traduções, para ampliar o
alcance da mensagem, as quais não
conseguem transpor, para a nova língua todo o tônus emocional, e assim a
essência da cultura onde a mensagem surgiu originalmente, e que lhe dá o significado.
Outro problema é com o receptor, as pessoas a quem a mensagem
se dirige, e que a entendem, cada um deles, de um modo específico, pois nenhuma
linguagem consegue reproduzir fielmente a realidade psicoemocional de seus
falantes, de tal sorte que todos os que falam determinada linguagem entendam o
que todos os outros falantes dessa linguagem dizem, sem mal-entendidos. A
construção do pensamento, e seu derivado imediato: a capacidade de expressar
esse pensamento, a linguagem, são fenômenos essencialmente pessoais, pois o instrumento coletivo é aprendido por uma individualidade, e a
comunicação sempre se dá por aproximação de sentido.
Outra questão é o choque, que uma determinada mensagem pode
causar a um meio onde ela é introduzida pela primeira vez, desafiando ou
desmerecendo usos e costumes antigos consagrados, e contra a neófita
naturalmente se levantam as vozes dos grupos de interesse que prosperam com a
concepção antiga. Não foi diferente com o cristianismo, nem quando ele se
inaugurou no seio da sociedade judaica, com a qual guardava muitos pontos em
comum, e muito menos quando foi transplantada para a realidade do mundo
pagão-politeísta greco-romano.
Tanto judeus como greco-romanos forçaram ou tentaram forçar,
conscientemente ou não, mudanças na mensagem cristã, para que ela se
adaptasse melhor aos esquemas mentais seus próprios e o de outros, não só para
conforto próprio como para aumentar, pelo volume, o poder de pressão de sua
mensagem, e quem sabe adquirir prestígio na sua comunidade, ou apenas
porque não eram capazes de assimilar a doutrina conforme lhe era apresentada e
eram incapazes de perceber todo o peso que tem uma mensagem dita “revelada”. A
essas tentativas a Igreja Cristã Católica designou-as como “heresias”, entre as
mais antigas delas encontram-se:
a) Docetismo:
própria do meio judeo-cristão, que, incapaz de conter seu horror a um deus que
se submete à humilhação da cruz, afirmava que a aparência
humana de Jesus era uma ilusão, uma miragem, e que aquele que foi pregado na
cruz não foi o Cristo original, mas outra pessoa. O termo procede do grego,
“dokein”, que quer dizer “aparição”, “fantasma”. Condenada pelo Concílio de
Niceia de 325.
b) Judaizantes: boa
parte dos judeus convertidos por Jesus e os apóstolos (maioria ou minoria muito
ativa?) resistiu muito a cortar os laços com o judaísmo, em especial o culto do
Templo, por isso estavam sempre molestando os convertidos a adotarem práticas
judaicas, como a circuncisão e a guarda do sábado. Esse grupo, a princípio numeroso
e influente, recebeu dois golpes fatais: primeiro a perseguição movida pela
elite judaica contra os cristãos, que gerou uma grande dispersão destes, e
facilitou o espalhamento e o crescimento da religião, em especial em Roma, para
onde migraram os Apóstolos Pedro e Paulo; e a destruição do Templo de Herodes
em 70, que lhes tirou a âncora, que estabilizava as suas reivindicações. Entre
os desse grupo estavam os ebionitas,
os nazarenos, e muitos outros.
c) Encratismo: os
encratitas, ou seja: “os que se controlam”, são uma das vertentes de pensamento
cristãs mais comuns na história da Igreja, também conhecidos como “rigoristas”,
que veem na ascese, na penitência, um fim em si mesma, o melhor caminho para a
perfeição. Essa mentalidade era comum entre os judeus da época: séculos I e II.
Eles proibiam o consumo de carnes e outros alimentos (típico do judaísmo), e
opunham-se terminantemente ao casamento, e à vida sexual. As disposições
religiosas do imperador Teodósio, entre 381 e 383, praticamente liquidaram a
influência desse grupo na Igreja.
d) Adocionismo:
teoria desenvolvida por Teódoto de Bizâncio, um curtidor de pele com certa bagagem cultural, que afirmou que Jesus não era Deus, mas antes
tinha sido adotado por Ele no ato do batismo, com a pomba, cujo nome próprio,
seria Cristo, de onde se formaria Jesus Cristo, e só a partir desse momento se
torna capaz de ações maravilhosas. A Santíssima Trindade logo não existe.
Excomungado pelo Papa Victor, em 190, seu movimento se aguentou até o século
seguinte. Aqui há uma transição entre a cultura hebraica e a greco-romana.
Nessa linha de diminuição da figura de Jesus Cristo estava o modalismo, o monarquianismo, e outros.
e) Gnosticismo:
era uma espécie de crença difusa, generalizada, a partir de algumas afirmações
aceitáveis nas ortodoxia do cristianismo, mas que, no seu
desenvolvimento, descambaram para as mais extravagantes teorias, e contaminaram a principal corrente do cristianismo com afirmações absurdas,
entre elas a de que o homem, por conter em si uma centelha do
divino, pode, apenas com o uso da razão, o método correto e a orientação
adequada alcançar o conhecimento, “gnosis”, das mais elevadas e complexas
verdades do universo. Essa tendência existe até hoje.
f) Marcionismo:
foi uma teoria dualista nascida de um teólogo, Marcião, por sinal
filho de um bispo da Ásia Menor, que pregava uma diferenciação radical entre o
deus do Antigo Testamento, uma espécie de anjo mau (demiurgo), cuja maldade
contamina todo o universo visível, inclusive o nosso corpo mortal.
O deus bom e benévolo, anunciado por Jesus Cristo ainda nos é desconhecido. São
Paulo, para ele, era o único apóstolo, e inclusive Marcião teve o mérito de ser
o primeiro a criar um cânon (coleção) de escritos sagrados. Uma versão curta do
Evangelho de Lucas e dez cartas de São Paulo. O repúdio ao Antigo Testamento era
absoluto. Marcião buscou proximidade com os docetistas e os gnósticos.
g) Montanismo:
fruto da exaltação mística descontrolada e irracional de Montano, um teólogo
cristão, mas também ex-sacerdote da deusa Cibele, em cujo culto alguns
praticavam a autocastração. A ele se ajuntaram duas “profetisas”, Priscila e
Maximila. Da fantasia fértil de suas mentes saiu necessidade de uma renovação
espiritual da Igreja, por meio da ação sem controle do Espírito Santo, que
falando diretamente por meio dele (não havia uma sugestão espiritual, mas uma
verdadeira possessão, pelo Espírito Santo, do corpo e da mente do profeta) e de
outros, anunciavam ensinamentos com autoridade para anular o que já fora dito
pelos apóstolos. Como havia o forte senso de um fim do mundo próximo, alguns
pararam de trabalhar e viviam perambulando pelas praças e tenderam a ensinar
uma moral rigorista, com proibição de alimentos, jejuns extremados e restrições
ao casamento. Apesar dessa extravagâncias, esse movimento conseguiu atrair para
si uma das mais importantes figuras intelectuais da Igreja: o teólogo leigo
Tertuliano, em 205.
h) Arianismo: em
linha análoga ao que vimos acima segue essa teoria que nega a divindade de
Cristo e na sua forma mais radical chega a pregar que Jesus era uma criatura
como as outras e por isso capaz de pecar. Portanto nada de Santíssima
Trindade. Essa corrente foi terrível para a Igreja, e quase conseguiu se tornar
a versão única, oficial, do cristianismo que hoje é professado, pois embora não
tivesse uma teologia ou arsenal argumentativo afinado, sabia fazer o
trabalho de bastidor junto ás autoridades romanas, capaz de induzi-las a
intervir nos aspectos doutrinais da Igreja e impor a visão do sacerdote Ário aos outros. O imperador Constantino I, o Grande, que levantou a
proibição da prática da religião cristã no Império Romano, pelo Edito de Milão, em 313,
foi batizado nessa corrente.
i) Monofisismo: é
uma corrente que prega a existência de uma só natureza em Cristo pela absorção
da natureza humana pela divina. Enquanto os católicos romanos e
bizantinos defendiam, conforme o Concílio de Calcedônia, em 451, que Jesus
Cristo possuía duas naturezas plenas: uma humana e outra divina, sem estarem
totalmente divididas, mas tampouco fundidas, de tal sorte que a natureza divina
absorvesse a humana, o que fatalmente aconteceria se houvesse essa fusão ou
mistura, mas os monofisistas diziam que as duas naturezas se
misturavam, em total prejuízo à natureza humana. Calcedônia não foi entretanto
o fim da contenda, pois às questões teológicas juntaram-se problemas político-culturais,
no decadente Império Romano, de tal sorte que os
cristãos do Egito, Sudão e Etiópia permaneceram majoritariamente monofisitas, até hoje.
j) Nestorianismo: Outro
grupo que se apartou da raiz romano-bizantina foi o nestorianismo, teoria cristã
elaborada pelo monge Nestório, que, acirrando a oposição contra os monofisitas
e os ortodoxos, pregava a completa separação entre as duas naturezas de tal
sorte que Maria, por exemplo, seria mãe carnal só de Jesus-homem, e portanto
não merecedora do título de “mãe de Deus”, mas apenas de “portadora de Deus”. Os nestorianos também
resistiram a Calcedônia, onde essa questão foi arrematada. Enquanto os
monofisitas se embrenhavam no centro da África os nestorianos partiram para a
conquista do Centro da Ásia, a partir de sua base na Síria e na Pérsia, numa
atividade missionária impressionante, que os levou a fundar igrejas até na
China, durante a Idade Média.
A guerra cultural, portanto, travada pela Igreja Cristã Primitiva, para fazer valer a pureza e a correta declinação de sua doutrina, nos primeiros séculos nossa era, foi titânica; um autor, Epifânio de Salamina, escreveu no século IV, que o cristianismo tinha uns 80 grupos “heréticos” ou “não ortodoxos” em atuação ainda no seu tempo, portanto, as seitas acima são apenas uma pálida amostra do tamanho e da complexidade da luta do cristianismo para se impor como a religião que hoje é professada, sem falar da luta tremenda que os primeiros pensadores cristãos tiveram que travar com filósofos e autoridades pagãs, tanto para desmentir falsificações e fraudes que estes levantavam, como para mostrar o valor intelectual de uma religião.
Porque os brasileiros temem tanto a guerra cultural?
Tem-se falado muito nesses últimos anos de uma tal “guerra
cultural”, movida insidiosamente por grupos socializantes no Brasil, como uma
forma de conspiração, um instrumento para a tomada do poder por esses
grupos políticos, batida e rebatida principalmente pelo controvertido professor
Olavo de Carvalho. É-me estranho esse temor uma vez que a “guerra cultural” é
própria de onde há divergência de opinião e essa opinião pode ser livremente expressa,
inclusive no longínquo Império Romano, que estaria assim à nossa frente em
termos de liberdade de expressão.
Penso que a “guerra cultural” começou no momento mesmo em que
foi inventada a linguagem, e dois caçadores-coletores, membros de um mesmo
grupo, começaram a divergir sob a melhor forma de fazer uma caçada ou mesmo
contar as peripécias, da última, com os dois disputando, na narrativa, o prestígio
de ter sido aquele a desfechar o golpe mortal ou fazer o movimento mais eficaz.
Quantas fogueiras não foram apagadas às pressas ou de forma inadequada, quantas
boas amizades e grupos coesos não se acabaram, após os lados não encontrarem mais
argumentos lógico-verbais para embasar a sua reivindicação?
A ênfase dada pelo célebre teórico esquerdista italiano Antonio
Gramsci ao conceito de guerra cultural, tem muito a ver com o reconhecimento de
que pela violência, pela revolução sangrenta, o socialismo não se implantaria
nas sociedades desenvolvidas, simplesmente porque a maioria das pessoas achava
melhor continuar viva para tentar, no dia seguinte, buscar algo melhor para a
sua vida, do que morrer matando precocemente, só para satisfazer o frenesi por
sangue de ideólogos e intelectuais marxistas, e isso por si só seria motivo de
alegria. “Ótimo, vamos debater e aprimorar o funcionamento da sociedade, por
meios pacíficos, racionais, sem precisar, como antes, antes entrar numa caverna, ou naquilo
que é a sua culminância: uma trincheira”.
Se a guerra cultural nos assusta tanto é porque não estamos habituados a ela. Vivemos numa sociedade historicamente autoritária, fortemente classista e ainda razoavelmente escravagista – veja-se o desinteresse metódico das elites pela educação e os direitos básicos dos mais pobres.
Depois vieram os barões do Império, os coronéis, burocratas e militares da República, todos eles a repetir o mesmo estribilho aprendido na convivência com o colonizador, quando alguém se atrevia a querer solicitar o início de uma troca de opiniões: “Você sabe com quem está falando? É por isso, eu creio, que as nossas elites nunca se preocuparam em criar um projeto escrito, fundamentado, abrangente, sobre o nosso país, que pudesse se tornar o programa de um partido. Afinal ia partilha-lo e discuti-lo com quem, se 90% da população era analfabeta, e os alfabetizados não tinham o hábito de ler? Sem falar que nossas elites alimentavam uma brutal discriminação contra o povo que a sustentava.
É preciso reconhecer que os reacionários pré-capitalistas,
portugueses e brasileiros, que dominaram esse país por 500 anos nunca se
preocuparam com um projeto de longo prazo para a nossa sociedade, simplesmente
porque não acreditavam nela, mas os socializantes sim, tem um projeto, UM HORROR! Mas
pelo menos tem um projeto, e compete àqueles que divergem desse projeto,
arregaçar as mangas, criar o seu projeto, e com ele ir às praças, livrarias,
clubes, convenções, etc. convencer as pessoas que o seu projeto é melhor, mais
viável, etc. numa autêntica, franca e honesta guerra cultural onde todos terão
o que ganhar, tanto enquanto apresentam e aperfeiçoam os seus argumentos, como quando
escutam o contraditório.
O problema mesmo não é a guerra cultural, mas o cidadão se encontrar no meio dela, totalmente desarmado de argumentos.
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