03 abril 2024

HERESIAS: A GUERRA CULTURAL DO CRISTIANISMO ANTIGO


https://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/2016924

Eduardo Simões (a Margarida Maria)

O cristianismo se coloca como uma religião “revelada”, logo como guardiã de uma mensagem específica, exarada de uma esfera transcendente, impossível portanto de ser legítima ou licitamente modificada por ação humana, por quem quer que seja.

Ora, essa questão, a da mensagem revelada, coloca de saída dois problemas internos sérios: primeiro, o da imperfeição estrutural da linguagem humana, do código de comunicação, incapaz de abarcar as nuances emocionais, cujo tônus pode modificar consideravelmente o sentido do texto, além de outros problemas decorrentes, por exemplo, de traduções, para ampliar o alcance da mensagem, as  quais não conseguem transpor, para a nova língua todo o tônus emocional, e assim a essência da cultura onde a mensagem surgiu originalmente, e que lhe dá o significado.

Outro problema é com o receptor, as pessoas a quem a mensagem se dirige, e que a entendem, cada um deles, de um modo específico, pois nenhuma linguagem consegue reproduzir fielmente a realidade psicoemocional de seus falantes, de tal sorte que todos os que falam determinada linguagem entendam o que todos os outros falantes dessa linguagem dizem, sem mal-entendidos. A construção do pensamento, e seu derivado imediato: a capacidade de expressar esse pensamento, a linguagem, são fenômenos essencialmente pessoais, pois o instrumento coletivo é aprendido por uma individualidade, e a comunicação sempre se dá por aproximação de sentido.

Outra questão é o choque, que uma determinada mensagem pode causar a um meio onde ela é introduzida pela primeira vez, desafiando ou desmerecendo usos e costumes antigos consagrados, e contra a neófita naturalmente se levantam as vozes dos grupos de interesse que prosperam com a concepção antiga. Não foi diferente com o cristianismo, nem quando ele se inaugurou no seio da sociedade judaica, com a qual guardava muitos pontos em comum, e muito menos quando foi transplantada para a realidade do mundo pagão-politeísta greco-romano.

Tanto judeus como greco-romanos forçaram ou tentaram forçar, conscientemente ou não, mudanças na mensagem cristã, para que ela se adaptasse melhor aos esquemas mentais seus próprios e o de outros, não só para conforto próprio como para aumentar, pelo volume, o poder de pressão de sua mensagem, e quem sabe adquirir prestígio na sua comunidade, ou apenas porque não eram capazes de assimilar a doutrina conforme lhe era apresentada e eram incapazes de perceber todo o peso que tem uma mensagem dita “revelada”. A essas tentativas a Igreja Cristã Católica designou-as como “heresias”, entre as mais antigas delas encontram-se:

a) Docetismo: própria do meio judeo-cristão, que, incapaz de conter seu horror a um deus que se submete à humilhação da cruz, afirmava que a aparência humana de Jesus era uma ilusão, uma miragem, e que aquele que foi pregado na cruz não foi o Cristo original, mas outra pessoa. O termo procede do grego, “dokein”, que quer dizer “aparição”, “fantasma”. Condenada pelo Concílio de Niceia de 325.

b) Judaizantes: boa parte dos judeus convertidos por Jesus e os apóstolos (maioria ou minoria muito ativa?) resistiu muito a cortar os laços com o judaísmo, em especial o culto do Templo, por isso estavam sempre molestando os convertidos a adotarem práticas judaicas, como a circuncisão e a guarda do sábado. Esse grupo, a princípio numeroso e influente, recebeu dois golpes fatais: primeiro a perseguição movida pela elite judaica contra os cristãos, que gerou uma grande dispersão destes, e facilitou o espalhamento e o crescimento da religião, em especial em Roma, para onde migraram os Apóstolos Pedro e Paulo; e a destruição do Templo de Herodes em 70, que lhes tirou a âncora, que estabilizava as suas reivindicações. Entre os desse grupo estavam os ebionitas, os nazarenos, e muitos outros.  

c) Encratismo: os encratitas, ou seja: “os que se controlam”, são uma das vertentes de pensamento cristãs mais comuns na história da Igreja, também conhecidos como “rigoristas”, que veem na ascese, na penitência, um fim em si mesma, o melhor caminho para a perfeição. Essa mentalidade era comum entre os judeus da época: séculos I e II. Eles proibiam o consumo de carnes e outros alimentos (típico do judaísmo), e opunham-se terminantemente ao casamento, e à vida sexual. As disposições religiosas do imperador Teodósio, entre 381 e 383, praticamente liquidaram a influência desse grupo na Igreja.

d) Adocionismo: teoria desenvolvida por Teódoto de Bizâncio, um curtidor de pele com certa bagagem cultural, que afirmou que Jesus não era Deus, mas antes tinha sido adotado por Ele no ato do batismo, com a pomba, cujo nome próprio, seria Cristo, de onde se formaria Jesus Cristo, e só a partir desse momento se torna capaz de ações maravilhosas. A Santíssima Trindade logo não existe. Excomungado pelo Papa Victor, em 190, seu movimento se aguentou até o século seguinte. Aqui há uma transição entre a cultura hebraica e a greco-romana. Nessa linha de diminuição da figura de Jesus Cristo estava o modalismo, o monarquianismo, e outros.

e) Gnosticismo: era uma espécie de crença difusa, generalizada, a partir de algumas afirmações aceitáveis nas ortodoxia do cristianismo, mas que, no seu desenvolvimento, descambaram para as mais extravagantes teorias, e contaminaram a principal corrente do cristianismo  com afirmações absurdas, entre elas a de que o homem, por conter em si uma centelha do divino, pode, apenas com o uso da razão, o método correto e a orientação adequada alcançar o conhecimento, “gnosis”, das mais elevadas e complexas verdades do universo. Essa tendência existe até hoje.

f) Marcionismo: foi uma teoria dualista nascida de um teólogo, Marcião, por sinal filho de um bispo da Ásia Menor, que pregava uma diferenciação radical entre o deus do Antigo Testamento, uma espécie de anjo mau (demiurgo), cuja maldade contamina todo o universo visível, inclusive o nosso corpo mortal. O deus bom e benévolo, anunciado por Jesus Cristo ainda nos é desconhecido. São Paulo, para ele, era o único apóstolo, e inclusive Marcião teve o mérito de ser o primeiro a criar um cânon (coleção) de escritos sagrados. Uma versão curta do Evangelho de Lucas e dez cartas de São Paulo. O repúdio ao Antigo Testamento era absoluto. Marcião buscou proximidade com os docetistas e os gnósticos.

g) Montanismo: fruto da exaltação mística descontrolada e irracional de Montano, um teólogo cristão, mas também ex-sacerdote da deusa Cibele, em cujo culto alguns praticavam a autocastração. A ele se ajuntaram duas “profetisas”, Priscila e Maximila. Da fantasia fértil de suas mentes saiu necessidade de uma renovação espiritual da Igreja, por meio da ação sem controle do Espírito Santo, que falando diretamente por meio dele (não havia uma sugestão espiritual, mas uma verdadeira possessão, pelo Espírito Santo, do corpo e da mente do profeta) e de outros, anunciavam ensinamentos com autoridade para anular o que já fora dito pelos apóstolos. Como havia o forte senso de um fim do mundo próximo, alguns pararam de trabalhar e viviam perambulando pelas praças e tenderam a ensinar uma moral rigorista, com proibição de alimentos, jejuns extremados e restrições ao casamento. Apesar dessa extravagâncias, esse movimento conseguiu atrair para si uma das mais importantes figuras intelectuais da Igreja: o teólogo leigo Tertuliano, em 205.   

h) Arianismo: em linha análoga ao que vimos acima segue essa teoria que nega a divindade de Cristo e na sua forma mais radical chega a pregar que Jesus era uma criatura como as outras e por isso capaz de pecar. Portanto nada de Santíssima Trindade. Essa corrente foi terrível para a Igreja, e quase conseguiu se tornar a versão única, oficial, do cristianismo que hoje é professado, pois embora não tivesse uma teologia ou arsenal argumentativo afinado, sabia fazer o trabalho de bastidor junto ás autoridades romanas, capaz de induzi-las a intervir nos aspectos doutrinais da Igreja e impor a visão do sacerdote Ário aos outros. O imperador Constantino I, o Grande, que levantou a proibição da prática da religião cristã no Império Romano, pelo Edito de Milão, em 313, foi batizado nessa corrente.

i) Monofisismo: é uma corrente que prega a existência de uma só natureza em Cristo pela absorção da natureza humana pela divina. Enquanto os católicos romanos e bizantinos defendiam, conforme o Concílio de Calcedônia, em 451, que Jesus Cristo possuía duas naturezas plenas: uma humana e outra divina, sem estarem totalmente divididas, mas tampouco fundidas, de tal sorte que a natureza divina absorvesse a humana, o que fatalmente aconteceria se houvesse essa fusão ou mistura, mas os monofisistas diziam que as duas naturezas se misturavam, em total prejuízo à natureza humana. Calcedônia não foi entretanto o fim da contenda, pois às questões teológicas juntaram-se problemas político-culturais, no decadente Império Romano, de tal sorte que os cristãos do Egito, Sudão e Etiópia permaneceram majoritariamente monofisitas, até hoje.   

j) Nestorianismo: Outro grupo que se apartou da raiz romano-bizantina foi o nestorianismo, teoria cristã elaborada pelo monge Nestório, que, acirrando a oposição contra os monofisitas e os ortodoxos, pregava a completa separação entre as duas naturezas de tal sorte que Maria, por exemplo, seria mãe carnal só de Jesus-homem, e portanto não merecedora do título de “mãe de Deus”, mas apenas de “portadora de Deus”. Os nestorianos também resistiram a Calcedônia, onde essa questão foi arrematada. Enquanto os monofisitas se embrenhavam no centro da África os nestorianos partiram para a conquista do Centro da Ásia, a partir de sua base na Síria e na Pérsia, numa atividade missionária impressionante, que os levou a fundar igrejas até na China, durante a Idade Média.

A guerra cultural, portanto, travada pela Igreja Cristã Primitiva, para fazer valer a pureza e a correta declinação de sua doutrina, nos primeiros séculos nossa era, foi titânica; um autor, Epifânio de Salamina, escreveu no século IV, que o cristianismo tinha uns 80 grupos “heréticos” ou “não ortodoxos” em atuação ainda no seu tempo, portanto, as seitas acima são apenas uma pálida amostra do tamanho e da complexidade da luta do cristianismo para se impor como a religião que hoje é professada, sem falar da luta tremenda que os primeiros pensadores cristãos tiveram que travar com filósofos e autoridades pagãs, tanto para desmentir falsificações e fraudes que estes levantavam, como para mostrar o valor intelectual de uma religião.

Porque os brasileiros temem tanto a guerra cultural?

Tem-se falado muito nesses últimos anos de uma tal “guerra cultural”, movida insidiosamente por grupos socializantes no Brasil, como uma forma de conspiração, um instrumento para a tomada do poder por esses grupos políticos, batida e rebatida principalmente pelo controvertido professor Olavo de Carvalho. É-me estranho esse temor uma vez que a “guerra cultural” é própria de onde há divergência de opinião e essa opinião pode ser livremente expressa, inclusive no longínquo Império Romano, que estaria assim à nossa frente em termos de liberdade de expressão.

Penso que a “guerra cultural” começou no momento mesmo em que foi inventada a linguagem, e dois caçadores-coletores, membros de um mesmo grupo, começaram a divergir sob a melhor forma de fazer uma caçada ou mesmo contar as peripécias, da última, com os dois disputando, na narrativa, o prestígio de ter sido aquele a desfechar o golpe mortal ou fazer o movimento mais eficaz. Quantas fogueiras não foram apagadas às pressas ou de forma inadequada, quantas boas amizades e grupos coesos não se acabaram, após os lados não encontrarem mais argumentos lógico-verbais para embasar a sua reivindicação?

A ênfase dada pelo célebre teórico esquerdista italiano Antonio Gramsci ao conceito de guerra cultural, tem muito a ver com o reconhecimento de que pela violência, pela revolução sangrenta, o socialismo não se implantaria nas sociedades desenvolvidas, simplesmente porque a maioria das pessoas achava melhor continuar viva para tentar, no dia seguinte, buscar algo melhor para a sua vida, do que morrer matando precocemente, só para satisfazer o frenesi por sangue de ideólogos e intelectuais marxistas, e isso por si só seria motivo de alegria. “Ótimo, vamos debater e aprimorar o funcionamento da sociedade, por meios pacíficos, racionais, sem precisar, como antes, antes entrar numa caverna, ou naquilo que é a sua culminância: uma trincheira”.

Se a guerra cultural nos assusta tanto é porque não estamos habituados a ela. Vivemos numa sociedade historicamente autoritária, fortemente classista e ainda razoavelmente escravagista – veja-se o desinteresse metódico das elites pela educação e os direitos básicos dos mais pobres. 

Depois vieram os barões do Império, os coronéis, burocratas e militares da República, todos eles a repetir o mesmo estribilho aprendido na convivência com o colonizador, quando alguém se atrevia a querer solicitar o início de uma troca de opiniões: “Você sabe com quem está falando? É por isso, eu creio, que as nossas elites nunca se preocuparam em criar um projeto escrito, fundamentado, abrangente, sobre o nosso país, que pudesse se tornar o programa de um partido. Afinal ia partilha-lo e discuti-lo com quem, se 90% da população era analfabeta, e os alfabetizados não tinham o hábito de ler? Sem falar que nossas elites alimentavam uma brutal discriminação contra o povo que a sustentava. 

É preciso reconhecer que os reacionários pré-capitalistas, portugueses e brasileiros, que dominaram esse país por 500 anos nunca se preocuparam com um projeto de longo prazo para a nossa sociedade, simplesmente porque não acreditavam nela, mas os socializantes sim, tem um projeto, UM HORROR! Mas pelo menos tem um projeto, e compete àqueles que divergem desse projeto, arregaçar as mangas, criar o seu projeto, e com ele ir às praças, livrarias, clubes, convenções, etc. convencer as pessoas que o seu projeto é melhor, mais viável, etc. numa autêntica, franca e honesta guerra cultural onde todos terão o que ganhar, tanto enquanto apresentam e aperfeiçoam os seus argumentos, como quando escutam o contraditório.

O problema mesmo não é a guerra cultural, mas o cidadão se encontrar no meio dela, totalmente desarmado de argumentos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

  TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 1 Por que estudar a história do pensamento econômico? Em primeiro lugar, professo...