https://en.wikipedia.org/wiki/Piquet
O quadro acima, chamado de jogo de piquet, pintado pelo francês Ernest Massonier (1815-1891), em 1861,
mostra um momento de relax e entretenimento entre alguns homens, que, pelo seu
aspecto e trajes, devem ser do século XVII, momento em que esse jogo de cartas se
tornou muito popular na Europa, em especial no âmbito da Guerra dos Trinta Anos
(1618-1648), quando as tropas francesas se espalharam pela Europa Central,
levando com elas o hábito desse jogo.
Sabemos que é do século XVII, pelos grandes e soltas cabeleiras,
juntas aos indefectíveis bigodes finos e cavanhaques, última moda nesse
período.
Também desse período são as roupas coloridas e cheias de
adereços, botões e uma golas de camisa grandes e delicadamente bordadas, além
das botas frouxas, mas de cano muito alto, às vezes dobrados, e chapéus vistosos
e empenachados. Apesar desse aspecto meio espetaculoso não se enganem: esses
homens não são nobres, caso contrário estariam cercados de serviçais... Mas
também não são homens comuns.
Um adereço denuncia sua condição: as armas, em quantidade
abundante, sobressaindo de vários deles. Então são soldados, mas como não estão
em trajes semelhantes são um tipo especial de soldados: os mercenários. Muito usados
nos exércitos dessa época, que em tempos de paz não eram muito grandes. A existência
deles barateava a manutenção dos exércitos regulares, sem falar que uma boa
parte do seu pagamento advinha dos saques que eles cometiam contra as
populações pobres nas vilas, onde as mulheres corriam os maiores riscos, e nas
cidades onde os comerciantes viam desaparecer o seu dinheiro em espécie, joias
e utensílios em ouro e prata, que marcavam seu prestígio na comunidade.
Por conta desse “mal hábito” não era seguro um mercenário
andar sozinho ou em pequenos grupos pelos campos, se alguma comunidade
camponesa os detectasse cairia sobre eles usando seus utensílios de trabalho,
foices, machados, facão, o que tivesse, e os massacraria na hora.
Estão claramente divididos em dois grupos, aparentemente interessados
em dirimir uma diferença ou uma aposta por meio de um jogo de piquet (jogado
com um baralho de 32 cartas). O problema é que, como acontece em todos os
jogos, um lado está se dando bem, enquanto o outro está amargando uma possível
derrota.
Não bastassem as armas e o jogo, aumenta as chances de uma
tragédia a presença de bebida, numa garrafa de metal sobre a mesa e num artístico
jarro de vinho sobre o banco. As taças estão vazias ou semivazias, sinal que boa
parte da bebida já está circulando no sangue e no juízo dos jogadores.
O grupo da esquerda, gente mais velha, cobra criada, parece
está se saindo melhor. Os dois sentados mais à frente olham para o outro jogador
muito desconfiados, enquanto um terceiro já sinaliza uma expressão de
satisfação do tipo “está no papo”, que pode ser sincera mas também pode ser um
blefe, como tudo o mais na cena. Atrás parece que há um mero espectador de pé, embora
suas mãos para trás também possam ser um gesto de precaução, e ele está
envolvido na aposta do jogo, e um segundo espectador, com um cachimbo comprido, observa
curioso a jogada do outro time. Observe saindo da bota do jogador em primeiro
plano o cabo de um punhal.
Do outro lado e tensão é evidente: os dois mais jovens
sentados, parecem mais abastados, se vestem melhor, mas não tão sagazes quanto os primeiros, aparentam sinais de nervosismo, o de gola mais sofisticada, com mais bordados, aparenta um nível social ou de recursos pouco
superior. Serve-se em um recipiente de prata. Um terceiro elemento, este sim com aspecto de serviçal, mas
provavelmente o dono da hospedaria ou da taberna, está de pé, sem conseguir
conter seu nervosismo. Um quarto homem em primeiro plano, de bota de cano alto
levantado, de aspecto mais maduro, está tão nervoso, embora procure mostrar
frieza, que já pôs a mão esquerda disfarçadamente no cabo de sua espada. Ele pode ser um serviçal ou um guarda costa dos rapazes
Dependendo do que eles apostaram, daqui a pouco esse jogo acaba ou num difícil acordo de cavalheiros, o que não é bem a praia dos mercenários, ou num trágico banho de sangue. É melhor o taberneiro deixar de ser curioso e sair de perto.
Esse quadro bem que podia se chamar: PERIGO: NOMENS SE DIVERTINDO
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