21 agosto 2024

KARL MARX PARA OS ÍNTIMOS - 1

 

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https://revistagalileu.globo.com/Cultura/Livros/noticia/2020/09/3-ideias-de-karl-marx-em-o-capital-que-voce-deveria-entender.html

Nada melhor para destruir mitos e entender uma obra, que a vida do seu autor, ainda mais quando verte de fontes tão íntimas, como a troca de correspondências entre o jovem Karl Marx e seu pai, que aparece retratada com cores vivas, em toda a sua expressão documental, como nesses trechos de cartas retratadas no livro de Michael Heinrich. Karl Marx e o nascimento da sociedade moderna, considerada como uma obra exemplar, e a mais avantajada em pesquisas, para o conhecimento da pessoa do filósofo alemão – só podemos recomendar muito a quem se interessa pelo assunto..

Para evitar confusão ressalte-se que o pai de Marx também se chamava Heinrich, como o autor. A seguir trechos do livro, as minhas considerações estão entre parênteses.

Assim, ele escreve no dia 12 de agosto de 1837: “Trato você de maneira bastante justa, mas não consigo deixar de pensar que você não é livre do egoísmo...  Algumas linhas adiante, lê-se: “Entregar-se à dor a cada tempestade, revelar um coração dilacerado a cada sofrimento, e isso para dilacerar também aqueles que amamos, será que isso quer dizer poesia?”. E, por fim, mais uma advertência: Agora, você tem de se tornar, e se tornará, pai de família. Mas nem honra, nem riqueza, nem fama farão a mulher e as crianças felizes, só você pode fazê-lo, seu melhor lado, seu amor, a suavidade de seu comportamento, o controle das tendências tempestuosas, das intensas perdas de controle, da sensibilidade exagerada etc. etc. etc.

Além de temer que Karl estivesse possuído por um demônio “fáustico” (ou seja, um desejo incontrolável de saber tudo, num nível em que se sacrifica todos os outros aspectos da vida, para possuir esse saber), o que tornaria a vida familiar impossível, Heinrich também formula duas acusações mais concretas: Karl seria sensível demais, abrindo logo seu coração dilacerado, e se irritaria facilmente – o que corresponde ao comentário de Eleanor, citado antes, segundo o qual Marx “era, na época, um verdadeiro Orlando furioso”...(Orlando, o personagem da obra clássica, de poesia, Orlando furioso, enlouquece após perceber que a sua doce amada se entregara a outro homem, e sai, dominado por uma força sobre humana, que advém de sua própria loucura, destruindo tudo e matando pessoas, descontroladamente)

Durante sua estada em Bad Ems, para um tratamento em cura termal, Heinrich Marx escreve, em meados de agosto de 1837: “Quando você tiver tempo e for me escrever, eu agradeceria que você fizesse um resumo rápido dos estudos jurídicos positivos que fez neste ano”. Heinrich queria receber um pequeno relatório dos estudos de Karl, tendo em vista, evidentemente, a duração do curso do filho – dos três anos que um curso costumava durar, dois já haviam se passado (como pai ele queria saber como estavam os estudos do filho, pelo qual a família se sacrificava para pagá-los).

A carta seguinte de Karl não continha o tal relatório; assim, no dia 16 de setembro de 1837, o pai escreve que esperava recebê-lo na próxima carta ... Por fim, chega também em novembro a carta de Karl, já mencionada... ela tampouco continha o que mais interessava a Heinrich: quais cursos Karl havia frequentado e informações sobre o futuro andamento de seus estudos oficiais. Em vez disso, Karl descreve seus projetos e seus estudos que, afinal de contas, não produziam resultados palpáveis – exceto sua transição à filosofia hegeliana. Desde o início, a carta deve ter sido vista como um desaforo por Heinrich...

Caro pai! Há momentos na vida que são como um marco de um tempo passado, e que, simultaneamente, apontam com firmeza uma nova direção. Em tal ponto de transição, sentimo-nos impelidos a olhar para o passado e para o presente com os olhos de águia do pensamento a fim de nos tornarmos conscientes de nossa verdadeira posição. A própria história do mundo adora tais retrospectivas; examina a si mesma, o que com frequência dá a impressão de que retrocede ou de que está parada, quando, na verdade, ela somente se jogou em sua poltrona a fim de se compreender, de penetrar intelectualmente em sua própria ação, a ação do espírito. (Noutras palavras: uma obra prima da mais descarada “enrolação”, fazendo-nos suspeitar ou de sua má fé em relação ao pai, que o amolava com preocupações tão “banais”, ou de uma confusão mental devido à sua indisciplina pessoal, o elevado senso de genialidade e superioridade que tinha de si mesmo, e que o impedia de criar obras consistentes. Karl Marx se comportava como um vulcão permanentemente em erupção, mas se o vulcão não para a sua erupção, nunca vai poder revelar o tamanho da fertilidade e riqueza que ele traz ao solo, após a cessação daquela)

O pai pede um simples relatório de estudos e o filho lhe envia nada menos que uma comparação entre sua “retrospectiva” e o curso da história do mundo. Karl continua: “Mas o indivíduo se torna lírico nesses momentos, pois cada metamorfose é, em parte, canto de cisne e, em parte, abertura de um poema novo e maior [...]”.

Uma afirmação exagerada como essa também não deve ter agradado muito ao pai. Contudo, interessa-nos, aqui, que o próprio Karl, com dezenove anos, estava bem consciente de que havia ocorrido, em 1837, uma profunda ruptura em seu desenvolvimento intelectual... entretanto, para Heinrich, faltavam as informações que ele havia solicitado.

Na resposta de Heinrich do dia 9 de dezembro, é possível perceber seu esforço para se manter objetivo, apesar de todo o aborrecimento. Ele relembra Karl de seus compromissos para com os pais, a noiva e os pais dela, que haviam aprovado um relacionamento incomum e perigoso para a própria filha. Justamente essa era a grande preocupação de Heinrich Marx. Pois, de fato, milhares de pais não teriam consentido. E, em momentos obscuros, seu próprio pai chega a desejar que eles não o tivessem feito – “pois o bem-estar dessa moça angelical me é muito caro; apesar de amá-la como uma filha, também temo muito por sua felicidade”. (Não podemos negar que o pai de Marx era um homem muito correto e honrado).

É possível perceber quanto aborrecimento Heinrich Marx havia acumulado quando responde a sua própria pergunta retórica sobre ter Karl cumprido seus compromissos:

Que infelicidade!!! Desordem, um pairar incerto por todas as áreas do saber, um enfurnar-se vago embaixo da fraca lâmpada a óleo; arruaça em roupão erudito e com cabelos despenteados em vez de arruaça com o copo de cerveja [evidente referência ao período em Bonn]; antissociabilidade que afugenta, colocando de lado toda a civilidade e até mesmo o respeito pelo pai [Karl parece ter rompido o contato com as famílias que ele havia conhecido por recomendação de Heinrich] (Um traço da antissociabilidade que o marcou pela vida toda, tanto pela sua linguagem desabrida como pela forma com que tratava quem dele se aproximava, como se exigisse de todos esses o reconhecimento prévio de sua genialidade ou superioridade; o próprio Engels foi duramente tratado da primeira vez que se encontrou com Marx). O próprio Heinrich percebe que está ficando cada vez mais nervoso e que está ofendendo Karl [“quase me sufoca a sensação de te machucar”], mas aquele era o momento de falar tudo:

Quero e tenho de lhe dizer que você causou muito desgosto a seus pais e pouca ou nenhuma alegria. Mal havia acabado a selvageria de Bonn, mal haviam sido saldadas suas dívidas – que eram, realmente, de natureza vária –, tão logo vieram, para nossa consternação, seus sofrimentos amorosos [...]. Enfim, que frutos colhemos? [...] Diversas vezes ficamos meses sem receber carta, e, da última vez, você sabia que Eduard estava doente, a mãe tolerando e eu sofrendo, e ainda por cima a [epidemia de] cólera dominando Berlim; como se isso não exigisse ao menos um pedido de desculpas, não havia, na carta seguinte, uma palavra sequer sobre tudo isso [...]. Por fim, Heinrich trata do tema dinheiro, expressando uma ironia amargurada:

Como se tivéssemos uma árvore de dinheiro[s], o sr. filho dispõe de quase setecentos táleres em um ano, ignorando todos os acordos, todos os costumes, ao passo que os mais ricos mal gastam quinhentos. E por quê? Serei justo com ele, que não é nenhum gourmet, nenhum desperdiçador. Mas como pode um homem, que inventa novos sistemas a cada oito ou catorze dias e que tem de rasgar os trabalhos antigos, feitos com tanto esforço, como pode ele, eu me pergunto, envolver-se com coisas pequenas? Como pode ele inserir-se na ordem mesquinha? Heinrich menciona aqui duas pessoas que, aparentemente, haviam lhe passado informações sobre Karl. É possível que a descrição “arruaça em roupão erudito”, citada, não tenha surgido apenas de sua imaginação, mas sim partido dessas informações recebidas. Pessoas mesquinhas como G. R. e Evers talvez cuidem dessas coisas. São rapazes ordinários. Em sua simplicidade, eles até frequentam as aulas – mesmo que só para digerir palavras e para, de vez em quando, arranjarem apoiadores e amigos [...] –, ao passo que meu competente e talentoso Karl permanece acordado por noites miseráveis, de intelecto e corpo fatigados [...], mas o que ele constrói hoje ele destrói amanhã.

Provavelmente foi Karl que chamou esses estudantes de “mesquinhos” e “simples”, o que seu pai retoma de maneira bastante sarcástica (até hoje não se tem conhecimento certo sobre quem foram esses “olheiros” do sr, Heinrich, mas há algumas suspeitas).... Por fim, Heinrich ainda menciona os irmãos ignorados por Karl: “Também tenho de lhe transmitir as reclamações de seus irmãos. Em suas cartas, mal se percebe que você os tem. E a boa Sophie, que tanto sofreu por você e por Jenny, lhe é tão efusivamente devotada, e você só pensa nela quando precisa de algo”.

Para entender melhor o aborrecimento de Heinrich Marx, é necessário antes esclarecer o implícito “contrato familiar” que havia na época – quando ainda não existia seguro-saúde nem fundo público de pensão. Karl teve a possibilidade de estudar durante vários anos, o que representava um enorme encargo financeiro para a família. No início da década de 1830, a renda anual de Heinrich Marx era de 1.500 táleres. Em 1837, durante alguns meses, Heinrich padeceu de uma forte tosse, tendo, por fim, de fazer um tratamento em estância termal. Ele provavelmente não pôde trabalhar tanto quanto antes, de modo que sua renda deve ter sido menor do que os 1.500 táleres habituais. Se Karl gastou 700 táleres no ano anterior, isso significaria cerca de metade da renda anual da família de dez pessoas. Além disso, havia gastos com médicos e remédios, tanto para Heinrich quanto para Eduard, que também estava doente, e a necessidade de preparar reservas que depois fariam as vezes de uma aposentadoria. Mesmo que os gastos de Karl tivessem sido menores do que setecentos táleres, ainda assim a família não suportaria o encargo por muito tempo. Aos enormes gastos com os estudos de Karl estava associada a expectativa de que ele estudasse determinadamente e obtivesse um emprego bem remunerado, podendo um dia ajudar seus pais e, sobretudo, seus irmãos, caso fosse necessário. Em uma carta mais antiga, Heinrich havia formulado essa expectativa com ironia, da seguinte forma: “A esperança de que você um dia possa ser um apoio para seus irmãos é bela demais, sorri demais a um coração dócil, para que eu queira tirá-la de você”.

Michael Henrichi; Karl Marx e o nascimento da sociedade moderna 1818-1841; trad Claudio Cardinali; Boitempo; 2018

Outro biógrafo de, também muito badalado lá fora, Francis Wheen, escreve essa pequena notícia que nos informa sobre a predisposição de Marx quanto ao sistema burguês capitalista, muito surpreendente, para quem aparentemente se predispôs a destruí-lo, embora, como como coloca muito bem Schumpeter no seu livro Capitalismo, socialismo e democracia, se você pinçar algumas considerações de Marx a respeito do sistema capitalismo nas primeiras páginas do Manifesto Comunista, verá uma série de elogios raros, digno dos liberais mais entusiastas... entremeados das mais viscerais acusações, mais ou menos como quando o indivíduo tem uma relação ambígua de amor e ódio ao mesmo tempo, por uma coisa ou uma pessoa.  

Se Marx tivesse sido o boêmio descuidado descrito em tantos relatórios policiais (na sua juventude), poderia ter-se saído muito bem. Na realidade, ele pertencia àquela classe de pessoas de boa família que estavam em ruínas, desesperadas para manter as aparências sem querer abandonar os seus hábitos burgueses. Durante a maior parte da década de 1850, ela mal conseguia alimentar os próprios filhos, mas insistiu em ter um secretário, o jovem filólogo alemão Wilhelm Pieper, ao seu serviço, embora Jenny Marx estivesse ansiosa para fazer o trabalho (sem falar que Marx nunca se dispôs a trabalhar para alguém, para uma empresa, o que lhe daria um arsenal enorme de elementos fáticos para embasar sua teoria, preferindo ficar sob a tutela de Engels, este mesmo um grande capitalista, embora sem fazer o que este lhe pedia, tendo inclusive sepultado alguns filhos devido à grande pobreza em que vivia).

Francis Wheen; Karl Marx; trad Rafael Fontes Muñoz; Penguim Randon House; Barcelona; 2015.

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