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https://revistagalileu.globo.com/Cultura/Livros/noticia/2020/09/3-ideias-de-karl-marx-em-o-capital-que-voce-deveria-entender.html
Nada melhor para destruir mitos e entender uma obra, que a
vida do seu autor, ainda mais quando verte de fontes tão íntimas, como a troca
de correspondências entre o jovem Karl Marx e seu pai, que aparece retratada
com cores vivas, em toda a sua expressão documental, como nesses trechos de cartas
retratadas no livro de Michael Heinrich. Karl
Marx e o nascimento da sociedade moderna, considerada como uma obra
exemplar, e a mais avantajada em pesquisas, para o conhecimento da pessoa do
filósofo alemão – só podemos recomendar muito a quem se interessa pelo assunto..
Para evitar confusão ressalte-se que o pai de Marx também se
chamava Heinrich, como o autor. A seguir trechos do livro, as minhas
considerações estão entre parênteses.
Assim, ele escreve no dia 12 de agosto de 1837: “Trato você de maneira bastante justa, mas
não consigo deixar de pensar que você não é livre do egoísmo... Algumas linhas adiante, lê-se: “Entregar-se à dor a cada tempestade, revelar
um coração dilacerado a cada sofrimento, e isso para dilacerar também aqueles
que amamos, será que isso quer dizer poesia?”. E, por fim, mais uma
advertência: Agora, você tem de se
tornar, e se tornará, pai de família. Mas nem honra, nem riqueza, nem fama
farão a mulher e as crianças felizes, só você pode fazê-lo, seu melhor lado,
seu amor, a suavidade de seu comportamento, o controle das tendências
tempestuosas, das intensas perdas de controle, da sensibilidade exagerada etc.
etc. etc.
Além de temer que Karl estivesse possuído por um demônio
“fáustico” (ou seja, um desejo incontrolável de saber tudo, num nível em que se
sacrifica todos os outros aspectos da vida, para possuir esse saber), o que
tornaria a vida familiar impossível, Heinrich também formula duas acusações
mais concretas: Karl seria sensível demais, abrindo logo seu coração
dilacerado, e se irritaria facilmente – o que corresponde ao comentário de
Eleanor, citado antes, segundo o qual Marx “era,
na época, um verdadeiro Orlando furioso”...(Orlando, o personagem da obra
clássica, de poesia, Orlando furioso, enlouquece após perceber que a sua doce amada
se entregara a outro homem, e sai, dominado por uma força sobre humana, que advém
de sua própria loucura, destruindo tudo e matando pessoas, descontroladamente)
Durante sua estada em Bad Ems, para um tratamento em cura
termal, Heinrich Marx escreve, em meados de agosto de 1837: “Quando você tiver tempo e for me escrever,
eu agradeceria que você fizesse um resumo rápido dos estudos jurídicos positivos
que fez neste ano”. Heinrich queria receber um pequeno relatório dos
estudos de Karl, tendo em vista, evidentemente, a duração do curso do filho –
dos três anos que um curso costumava durar, dois já haviam se passado (como pai
ele queria saber como estavam os estudos do filho, pelo qual a família se
sacrificava para pagá-los).
A carta seguinte de Karl não continha o tal relatório;
assim, no dia 16 de setembro de 1837, o pai escreve que esperava recebê-lo na
próxima carta ... Por fim, chega também em novembro a carta de Karl, já mencionada...
ela tampouco continha o que mais interessava a Heinrich: quais cursos Karl
havia frequentado e informações sobre o futuro andamento de seus estudos
oficiais. Em vez disso, Karl descreve seus projetos e seus estudos que, afinal
de contas, não produziam resultados palpáveis – exceto sua transição à
filosofia hegeliana. Desde o início, a carta deve ter sido vista como um
desaforo por Heinrich...
Caro pai! Há momentos
na vida que são como um marco de um tempo passado, e que, simultaneamente,
apontam com firmeza uma nova direção. Em tal ponto de transição, sentimo-nos
impelidos a olhar para o passado e para o presente com os olhos de águia do
pensamento a fim de nos tornarmos conscientes de nossa verdadeira posição. A
própria história do mundo adora tais retrospectivas; examina a si mesma, o que
com frequência dá a impressão de que retrocede ou de que está parada, quando,
na verdade, ela somente se jogou em sua poltrona a fim de se compreender, de
penetrar intelectualmente em sua própria ação, a ação do espírito. (Noutras
palavras: uma obra prima da mais descarada “enrolação”, fazendo-nos suspeitar
ou de sua má fé em relação ao pai, que o amolava com preocupações tão “banais”,
ou de uma confusão mental devido à sua indisciplina pessoal, o elevado senso de
genialidade e superioridade que tinha de si mesmo, e que o impedia de criar
obras consistentes. Karl Marx se comportava como um vulcão permanentemente em
erupção, mas se o vulcão não para a sua erupção, nunca vai poder revelar o
tamanho da fertilidade e riqueza que ele traz ao solo, após a cessação daquela)
O pai pede um simples relatório de estudos e o filho lhe
envia nada menos que uma comparação entre sua “retrospectiva” e o curso da
história do mundo. Karl continua: “Mas o
indivíduo se torna lírico nesses momentos, pois cada metamorfose é, em parte,
canto de cisne e, em parte, abertura de um poema novo e maior [...]”.
Uma afirmação exagerada como essa também não deve ter agradado
muito ao pai. Contudo, interessa-nos, aqui, que o próprio Karl, com dezenove
anos, estava bem consciente de que havia ocorrido, em 1837, uma profunda
ruptura em seu desenvolvimento intelectual... entretanto, para Heinrich,
faltavam as informações que ele havia solicitado.
Na resposta de Heinrich do dia 9 de dezembro, é possível
perceber seu esforço para se manter objetivo, apesar de todo o aborrecimento.
Ele relembra Karl de seus compromissos para com os pais, a noiva e os pais
dela, que haviam aprovado um relacionamento incomum e perigoso para a própria
filha. Justamente essa era a grande preocupação de Heinrich Marx. Pois, de
fato, milhares de pais não teriam consentido. E, em momentos obscuros, seu
próprio pai chega a desejar que eles não o tivessem feito – “pois o bem-estar dessa moça angelical me é
muito caro; apesar de amá-la como uma filha, também temo muito por sua
felicidade”. (Não podemos negar que o pai de Marx era um homem muito
correto e honrado).
É possível perceber quanto aborrecimento Heinrich Marx havia
acumulado quando responde a sua própria pergunta retórica sobre ter Karl
cumprido seus compromissos:
Que infelicidade!!!
Desordem, um pairar incerto por todas as áreas do saber, um enfurnar-se vago
embaixo da fraca lâmpada a óleo; arruaça em roupão erudito e com cabelos
despenteados em vez de arruaça com o copo de cerveja [evidente referência ao
período em Bonn]; antissociabilidade que afugenta, colocando de lado toda a
civilidade e até mesmo o respeito pelo pai [Karl parece ter rompido o
contato com as famílias que ele havia conhecido por recomendação de Heinrich]
(Um traço da antissociabilidade que o marcou pela vida toda, tanto pela sua
linguagem desabrida como pela forma com que tratava quem dele se aproximava,
como se exigisse de todos esses o reconhecimento prévio de sua genialidade ou
superioridade; o próprio Engels foi duramente tratado da primeira vez que se
encontrou com Marx). O próprio Heinrich percebe que está ficando cada vez mais
nervoso e que está ofendendo Karl [“quase
me sufoca a sensação de te machucar”], mas aquele era o momento de falar
tudo:
Quero e tenho de lhe
dizer que você causou muito desgosto a seus pais e pouca ou nenhuma alegria.
Mal havia acabado a selvageria de Bonn, mal haviam sido saldadas suas dívidas –
que eram, realmente, de natureza vária –, tão logo vieram, para nossa
consternação, seus sofrimentos amorosos [...]. Enfim, que frutos colhemos?
[...] Diversas vezes ficamos meses sem receber carta, e, da última vez, você
sabia que Eduard estava doente, a mãe tolerando e eu sofrendo, e ainda por cima
a [epidemia de] cólera dominando Berlim; como se isso não exigisse ao menos um
pedido de desculpas, não havia, na carta seguinte, uma palavra sequer sobre
tudo isso [...]. Por fim, Heinrich trata do tema dinheiro, expressando uma
ironia amargurada:
Como se tivéssemos uma
árvore de dinheiro[s], o sr. filho dispõe de quase setecentos táleres em um
ano, ignorando todos os acordos, todos os costumes, ao passo que os mais ricos
mal gastam quinhentos. E por quê? Serei justo com ele, que não é nenhum
gourmet, nenhum desperdiçador. Mas como pode um homem, que inventa novos
sistemas a cada oito ou catorze dias e que tem de rasgar os trabalhos antigos,
feitos com tanto esforço, como pode ele, eu me pergunto, envolver-se com coisas
pequenas? Como pode ele inserir-se na ordem mesquinha? Heinrich menciona
aqui duas pessoas que, aparentemente, haviam lhe passado informações sobre
Karl. É possível que a descrição “arruaça em roupão erudito”, citada, não tenha
surgido apenas de sua imaginação, mas sim partido dessas informações recebidas.
Pessoas mesquinhas como G. R. e Evers
talvez cuidem dessas coisas. São rapazes ordinários. Em sua simplicidade, eles
até frequentam as aulas – mesmo que só para digerir palavras e para, de vez em quando,
arranjarem apoiadores e amigos [...] –, ao passo que meu competente e talentoso
Karl permanece acordado por noites miseráveis, de intelecto e corpo fatigados
[...], mas o que ele constrói hoje ele destrói amanhã.
Provavelmente foi Karl que chamou esses estudantes de
“mesquinhos” e “simples”, o que seu pai retoma de maneira bastante sarcástica
(até hoje não se tem conhecimento certo sobre quem foram esses “olheiros” do
sr, Heinrich, mas há algumas suspeitas).... Por fim, Heinrich ainda menciona os
irmãos ignorados por Karl: “Também tenho
de lhe transmitir as reclamações de seus irmãos. Em suas cartas, mal se percebe
que você os tem. E a boa Sophie, que tanto sofreu por você e por Jenny, lhe é
tão efusivamente devotada, e você só pensa nela quando precisa de algo”.
Para entender melhor o aborrecimento de Heinrich Marx, é
necessário antes esclarecer o implícito “contrato familiar” que havia na época
– quando ainda não existia seguro-saúde nem fundo público de pensão. Karl teve
a possibilidade de estudar durante vários anos, o que representava um enorme
encargo financeiro para a família. No início da década de 1830, a renda anual
de Heinrich Marx era de 1.500 táleres. Em 1837, durante alguns meses, Heinrich
padeceu de uma forte tosse, tendo, por fim, de fazer um tratamento em estância
termal. Ele provavelmente não pôde trabalhar tanto quanto antes, de modo que
sua renda deve ter sido menor do que os 1.500 táleres habituais. Se Karl gastou
700 táleres no ano anterior, isso significaria cerca de metade da renda anual
da família de dez pessoas. Além disso, havia gastos com médicos e remédios,
tanto para Heinrich quanto para Eduard, que também estava doente, e a
necessidade de preparar reservas que depois fariam as vezes de uma
aposentadoria. Mesmo que os gastos de Karl tivessem sido menores do que
setecentos táleres, ainda assim a família não suportaria o encargo por muito
tempo. Aos enormes gastos com os estudos de Karl estava associada a expectativa
de que ele estudasse determinadamente e obtivesse um emprego bem remunerado,
podendo um dia ajudar seus pais e, sobretudo, seus irmãos, caso fosse
necessário. Em uma carta mais antiga, Heinrich havia formulado essa expectativa
com ironia, da seguinte forma: “A
esperança de que você um dia possa ser um apoio para seus irmãos é bela demais,
sorri demais a um coração dócil, para que eu queira tirá-la de você”.
Michael Henrichi; Karl Marx e o nascimento da sociedade
moderna 1818-1841; trad Claudio Cardinali; Boitempo; 2018
Outro biógrafo de, também muito badalado lá fora, Francis
Wheen, escreve essa pequena notícia que nos informa sobre a predisposição de
Marx quanto ao sistema burguês capitalista, muito surpreendente, para quem aparentemente
se predispôs a destruí-lo, embora, como como coloca muito bem Schumpeter no seu
livro Capitalismo, socialismo e democracia, se você pinçar algumas
considerações de Marx a respeito do sistema capitalismo nas primeiras páginas
do Manifesto Comunista, verá uma série de elogios raros, digno dos liberais mais
entusiastas... entremeados das mais viscerais acusações, mais ou menos como
quando o indivíduo tem uma relação ambígua de amor e ódio ao mesmo tempo, por
uma coisa ou uma pessoa.
Se Marx tivesse sido o
boêmio descuidado descrito em tantos relatórios policiais (na sua juventude), poderia ter-se saído muito bem. Na
realidade, ele pertencia àquela classe de pessoas de boa família que estavam em
ruínas, desesperadas para manter as aparências sem querer abandonar os seus
hábitos burgueses. Durante a maior parte da década de 1850, ela mal conseguia
alimentar os próprios filhos, mas insistiu em ter um secretário, o jovem
filólogo alemão Wilhelm Pieper, ao seu serviço, embora Jenny Marx estivesse
ansiosa para fazer o trabalho (sem falar que Marx nunca se dispôs a
trabalhar para alguém, para uma empresa, o que lhe daria um arsenal enorme de elementos
fáticos para embasar sua teoria, preferindo ficar sob a tutela de Engels, este
mesmo um grande capitalista, embora sem fazer o que este lhe pedia, tendo
inclusive sepultado alguns filhos devido à grande pobreza em que vivia).
Francis Wheen; Karl Marx; trad Rafael Fontes Muñoz; Penguim
Randon House; Barcelona; 2015.

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