08 julho 2024

A CASA-GRANDE E A SENZALA DE DENTRO


 

https://revistaforum.com.br/u/fotografias/m/2024/7/4/f960x540-132285_206360_5050.png

https://revistaforum.com.br/brasil/2024/7/4/video-abordagem-violenta-racista-da-pm-do-rio-pode-virar-problema-diplomatico-161596.html

Eduardo Simões

Essa semana fui marcado por dois episódios tão previsíveis, quanto indesejados.

No primeiro, todo país viu quando policiais saíram de uma viatura, de armas em punhos, prontos para causar uma tragédia, por terem visto um grupo de 5 adolescentes reunidos na calçada de um prédio, num bairro de classe média do Rio de Janeiro. A ação é fulminante, ninguém teve tempo de respirar, qualquer resistência, ou mesmo um gesto instintivo inocente, poderia resultar em morte ou ferimento grave. Somos levados, pelo contexto e a extravagância da ação, a dar graças a Deus, que tenha sido apenas um amostra brutal, pública e insana de racismo: poderia ser muito pior...

Agora certamente haverá um processo administrativo e talvez civil contra os policiais ou a Polícia Militar, e o próprio Itamaraty entrou no circuito para pedir desculpas oficiais a três países africanos, além de uma sensação generalizada de que: “a polícia do Rio não tem jeito”. Mas precisa ter, e de qualquer jeito, e logo; mas eu também gostaria de observar que não é só racismo, em uma polícia composta majoritariamente de pretos e pardos, que aparecem nessa cena: os policiais também mostraram no seu atabalhoamento que estão com medo, com muito medo, mais ou menos como aquelas pessoas, brancas, cruzando num beco escuro com um baita negão – um medo transmitido por gerações por razões que a história explica... Mas isso aponta também para todo um sistema de impunidade que se criou no país, como forma de compensar, na geração atual, os crimes cometidos por gerações passadas, a guisa de reparação, desrespeitando a letra da constituição, que proíbe, retroatividade da lei, enquanto assistimos ao aumento explosivo da violência; e isso não devia nos surpreender.

O Outro episódio veio de um capítulo de uma série documental, de um canal por assinatura. A série chama-se Alerta aeroporto, onde agentes de polícia alfandegária e criminal fiscalizam passageiros que chegam nos aeroportos de diversos países: EUA, Itália, Espanha, Colômbia, Peru, etc. Às vezes paro para ver esses episódios por causa da engenhosidade de traficantes, contrabandistas e policiais e de todo o clima que se cria com a tentativa de saber porque o comportamento deste ou daquele está tão diferente. Mas também gosto de observar o comportamento dos policiais de cada país sobre como eles abordam os tipos criminosos.

De todos os episódios que eu vi, em especial o dessa semana, reparei que os agentes policiais mais grosseiros, ríspidos e até debochados, são os do Brasil – os italianos são os mais calmos e gentis. Os brasileiros entram em disputa com os ‘marginais’, parece que levam para o lado pessoal, quando não é o caso: porque não se escudar no cumprimento da lei? O bandido não tem nada contra o agente em si nem ele contra o bandido, a questão é a lei, que o agente deve fazer cumprir; por que simplesmente não dizer: “estou cumprindo a lei?”.

A postura de nosso agentes guarda muita relação com uma máxima, que já vi colada em muito lugar, bem à vista das pessoas: “A minha educação depende da sua”, como se fosse a grande sacada filosófica, a síntese da identidade brasileira, quando na verdade é profundamente antiprofissional e um atestado de miséria pessoal, pois é o mesmo que dizer: “É você quem manda em mim”, sem falar que quem define a postura do agente exercendo uma função pública é o código interno da repartição ou da empresa, e a lei que rege o funcionalismo. Esse dito personaliza a relação do funcionário ou agente com o outro, desprofissionalizando-a.

Isso é típico de um complexo gigantesco e difuso de superioridade-inferioridade, provindo da relações escravistas, onde a cada momento você precisa zelar por sua honra, mostrando ao outro qual é o seu lugar, ao mesmo tempo em que coíbe, no outro, qualquer tentativa de mudança do polo na relação, onde entra tanto o temor do motim, ou da fuga, do escravo, como o receio de fazer alguma coisa errada – deixar alguém escapar – e receber, no mínimo, uma catracada do chefe hierárquico, que exerce, senhorialmente, uma função superior, passem as gerações ou os regimes políticos.           

Nenhum comentário:

Postar um comentário

  TRECHOS DE HISTÓRIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE SCHUMPETER - 1 Por que estudar a história do pensamento econômico? Em primeiro lugar, professo...