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(A foto acima, que não esclarece absolutamente nada, é tradicionalmente apontada como sendo do Cabeça de Porco. Um sintoma do nosso tradicional desapreço de nossa história ou, quiçá, sentimento de inferioridade ou medo de tocar nos calos de alguém: "pra que falar sobre isso?" Mas se não falarmos como vamos entender o que acontece ao nosso redor, e para e repetir os mesmos erros)
Eduardo Simões
Uma das coisas que mais incomodam na História do Brasil, é a tradicional precariedade das
fontes, em especial temas sociais, embora a presença a existência de uma internet ainda livre no Brasil tenha melhorado
muito nesse aspecto, e muitas fontes que antes só se encontravam em arquivos e
bibliotecas fechadas, agora são razoavelmente franqueadas ao público, muito há por fazer. Arrisco-me, portanto, ao lançar um olhar sobre um
tema obscuro, que são os cortiços do Rio de Janeiro.
A primeira coisa a considerar são as características da
cidade do Rio de Janeiro e o seu entorno, principalmente na chegada do Príncipe
Regente João, sua família e a nata da nobreza portuguesa em 1808, que deu
ensejo à instalação de uma corte europeia, numa vila colonial criada às pressas
e com poucos recursos. Mas ainda assim foi feito.
No Rio sempre houve, a partir das descobertas de ouro, no século XVIII, um
extenso quadro de funcionários públicos, com salários muito desiguais, o
tradicional cabide de empregos, além grupos de negociantes, ‘eternamente’
portugueses, em geral associados à corte, e que, apesar de há várias gerações morando
no Brasil, sonhavam em voltar para Portugal ou para lá mandar seus filhos para
receberem uma educação “civilizada”, enfim uma burguesia politicamente impotente,
e que compensava a sua desimportância, competindo com seus pares para ver
quem obtinha mais proximidade e favores do rei, e no seu desprezo visceral ao
povo, costumes e ares da terra de seu exílio, ou “o quinto dos infernos”, em
referência ao imposto sobre o ouro, por cuja arrecadação o rei demandava a seus
súditos todos os sacrifícios (1).
Muitos senhores de engenho ou donos de fazendas tinham, no Rio, uma casa de veraneio onde recebiam os amigos e a sociedade da
época, sentados numa rede (2), de camisolão, em meio à maior familiaridade, e
costumes absolutamente rudes, ou despojados, como os que se observam em pessoas
simples do mais bravio sertão, mas sem a hospitalidade e a franqueza que tornou a
estes famosos. As mulheres da família, é claro, vivem fechadas em quartos e áreas
bem protegidas de olhares cobiçosos. É uma elite agraria analfabeta, rude, mas tão ciosa de seus direitos e honras, em relação aos
estratos mais baixos da sociedade, sistematicamente desumanizados, quanto são subservientes
àqueles que lhe superam em títulos ou favores reais.
Há também muita gente tipo artesãos de habilidades variadas,
donos de botica (farmacêuticos-médicos), barbeiros, ferreiros, gente que
trabalha com madeira, couro, pedreiros e ourives, sempre pontos a criar belas joias,
para que os felizardos da fortuna nas Minas Gerais possam enfeitar a amada do
seu coração ou a amante da ocasião, que, apesar da pose – ninguém ousaria a
folgar com a ‘mulher’ do senhor beltrano ou cicrano – pode ser uma das escravas
de seu borralho. O “escândalo” era mais ou menos público conforme a linhagem da
mulher com quem ele estava oficialmente casado.
Era uma ‘classe intermediária’, enfim, que vivia em grande parte das migalhas que caiam da mesa grandes funcionários do rei, em especial do Vice-Rei, uma função que só apareceu depois da descoberta de ouro, que fez com que a nobreza de raiz portuguesa se prontificasse a pôr seus seletos pés em nossa terra, onde havia pouco entretenimento, e cuja renda, medíocre, estava muito concentrada, uma vez que a economia baseava-se na monocultura escravista e no extrativismo, sem falar no aristocratismo social que a tudo emperrava, por razões de hierarquia, tradição, etc. tudo sustentado pelos braços de brancos livres pobres e escravos africanos e indígenas, todos muito desmotivados.
Nessa classe intermediária, porém, no degrau mais baixo, contava-se,
aqueles que, junto com os índios, porém muito mais numerosos que estes e todos
os outros grupos da sociedade brasileira, menos os ‘pardos’, que são os homens
livres, brancos, pretos ou pardos, mas pobres, são os agentes invisíveis de
nossa história e, segundo os estudos de Jorge Caldeira, em Mauá um empresário do Império, eram de longe o principal suporte de
mão de obra, embora sempre mantendo distância da dura faina dos canaviais, ou
de onde houvesse mais interesse comercial ou fiscal ao estado português- pois aí havia mais exigência e coações.
Essa corte estranha e desencontrada do ambiente dos trópicos, com rituais e liturgia que lembravam o início dos Tempos Modernos ou o fim da Idade Média, onde o Príncipe Regente levava coxinhas de frango assadas no bolso, para merendar em seus passeios, e a sua esposa chicoteava as pessoas que, ao vê-la passar, não faziam uma espalhafatosa inclinação, como sinal de subserviência, criando sérios problemas diplomáticos, ao chicotear estrangeiros insolentes, sem falar da cerimônia do beija-mão, que acontecia todas as noites, menos aos domingo, e que lembra um costume antigo, de as crianças beijarem as mãos dos pais e pedirem a sua benção antes de dormir. Esse beija-mão era tão concorrido, afinal era uma oportunidade de ficar com o rei cara a cara, que deu ensejo à criação da primeira companhia de transporte urbano da cidade.
É claro que essa corte, ou esse espírito de corte, com todos
esses salamaleques e exigências litúrgico-rituais, exigia uma quantidade e uma
gama de serviços que não havia em absoluto no Rio, e se os houvesse de boa
qualidade ou referência profissional, boa parte daqueles que constituíam sua
classe intermediária, não poderiam paga-los, restando-lhes apenas recorrer a
brancos pobres, escravos de ganho ou aqueles mais velhos ou doentes, por isso
mais baratos, para fornece-los precariamente – o importante era ter um escravo,
fosse do jeito que fosse, para não passar atestado de pobreza e a seus pares.
Ora, manter escravos em casa, algumas vezes, estava acima das
posses dessa classe média ‘esforçada’, por isso criou-se uma tipo de relação
senhorial extravagante, na pessoa dos chamados “escravos para si mesmos”, que eu vi descritos pela primeira vez no livro de Sidney Chaloub: Cidade
febril, cortiços e epidemias na corte imperial.
Segundo Chaloub essa gente, embora pertencesse legalmente a
um dono, não morava na casa deste, mas em cômodos precariamente alugados por
eles mesmos, que assim tinham ampla liberdade para ganhar a vida ou gozar de
entretenimentos comuns à gente livre, apenas entregando uma parte dos seus
ganhos ao seu dono legal. Era uma situação de quase escravidão ou quase
liberdade, tudo gerado, creio eu, por razões econômicas,
Vimos assim que se cria no Rio de Janeiro uma quantidade
enorme de gente trabalhadora, pouco ou quase nada qualificada,
e eventualmente escrava, mas necessária para dar qualificação social a um
razoável grupo de pessoas que aspiravam ascender socialmente, mas não tinham
recursos financeiros suficientes para ficar sempre próxima ao rei, e,
posteriormente, aos imperadores do Brasil, enquanto estes encenavam a
tragicomédia nacional. Essa gente qualificadora, os que trabalhavam, precisava
estar disponível, logo morar razoavelmente perto seja para economizar o
custo do transporte, seja porque este simplesmente não o havia.
A volta da corte portuguesa, em 1831, também deve ter aberto
os olhos de muita gente para as vantagens dos aluguel de imóveis, em especial
os comerciantes portugueses, mais atualizados nessas coisas, e
decerto já apareceu claro para alguns, que era muito mais vantajoso alugar uma
dúzia de pequenos cômodos que um só confortável bangalô. Com certeza havia
demanda por esse tipo de imóvel pequeno e barato, e por isso antigos sítios e
vivendas deixadas vazias pelo portugueses, começaram a ser subdivididos e
alugados, a preços módicos à mão de obra
que se ampliava no entorno do centro do Rio.
Essas construções, que passaram a se chamar cortiço,
começaram a despontar mais ou menos na segunda metade da década de 1850, e
justamente pelo ano de 1858 surge o mais famoso deles: o Cabeça de Porco, pois
tinha a efígie, creio que em alto relevo, de gesso, de uma cabeça de porco no
portão – símbolo clássico de abundância de comida e de recursos em geral. E que
acabou dando nome à comunidade, mais ou menos como um bairro, afinal suas
proporções eram quase isso, pois acredita-se que no seu auge aí moravam entre 2
mil e 4 mil pessoas, sem conforto, em condições sanitárias precárias
(banheiros coletivos) e muita promiscuidade (3).
Notas
1 – em Dante, na divina Comédia, o quinto círculo do inferno
é o dos iracundos, dos raivosos, que, atolados num lodaçal, afundam
estraçalhando uns aos outros; observando os atuais níveis de violência e
polarização no país podemos dizer que nisso também há certa similaridade.
2 – Gilberto Freyre, em Casa grande e senzala, chega a falar
de uma “civilização da rede”, típica dos descendentes de senhores ricos
afazendados, que chegavam a passar o dia nelas estirados, aí fazendo suas
necessidades e até aumentando a família, com filhos legítimos ou bastardos.
3 – Não há dados oficiais sobre a população e as condições de vida no Cabeça de Porco acessíveis, mas o deprimente romance O cortiço, de Aluísio Azevedo é todo ambientado dentro do Cabeça de Porco, pode-se por meio dele, ter uma ideia do que se passava lá dentro
(continua)
(a foto abaixo, de 1906, no Rio de Janeiro, mostra o esquema básico de um cortiço onde várias famílias diferentes dividem um único casarão, resto de uma época de prosperidade, com um pátio interno e banheiros coletivos e quase nenhuma privacidade, o que favorece a disseminação de doenças e a promiscuidade)


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