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Após o fim da Segunda Guerra era necessário organizar o mundo
em frangalhos, e os 3 grandes decidiram, após manobras ardilosas feitas
por Stalin junto aos americanos, deixar a França de lado e se reuniram em
Moscou de 16 a 26 de dezembro de 1945, no chamada Conferência de Ministros das
Relações Exteriores ou Reunião Interina de Ministros das Relações Exteriores,
onde seria decidido o encaminhamento das questões mais espinhosas da Europa
Oriental e do Extremo Oriente.
Do lado Ocidental, infelizmente, faltaram a orientação tanto
de Roosevelt, que mesmo sendo um simpatizante contido do regime soviético, já
havia acumulado muita experiência no trato com Stalin, e que morrera em abril, como,
do lado do Reino Unido, faltava o seu maior líder: Winston Churchill, que perdera as últimas eleições para os trabalhistas, que,
além de novatos em política internacional, alimentavam uma incontida admiração
pelo socialismo soviético, que até aquele momento ainda enganava com a sua
propaganda. Não é a toa que Stalin se fartou, e será considerado, com razão, o
maior vencedor da Segunda Guerra.
No dia 27 de dezembro os ministros deram a conhecer o
resultado de suas negociações. Pelo lado da Coreia, a decisão mais importante
veio no artigo 3, do comunicado dirigido a ela, estabelecendo a criação “de uma
Comissão Conjunta, sob o controle de um consórcio formado pelos Estados Unidos,
União Soviética, Reino Unido e China, que estabeleceria uma tutela de cinco
anos até a independência plena da Coreia unificada”. (https://en.wikipedia.org/wiki/Moscow_Conference_(1945))
Inesperadamente, essa decisão causou um profundo mal estar em
toda Coreia, em especial no Sul (onde as pessoas ainda podiam demonstrar
desagrado com o governo), e nos setores mais moderados tanto à direita como à
esquerda, em geral a classe média e os setores a ela ligados. A única
alternativa aceitável para esse grupo era: independência completa e imediata – o
Partido Comunista da Coreia também integrava esse grupo, mas bastou ‘papai’
Stalin mandar um recado, e o Partido Comunista passou a defender a tutela. Mas isso
não arrefeceu o movimento antitutela, que num primeiro momento pregava até
resistência armada ao governo militar dos Estados Unidos.
Enquanto isso a Comissão Conjunta, que foi se articulando ao
longo de 1946 e 1947, passou a sofrer uma sabotagem contínua da União
Soviética, e na sociedade civil sul-coreana surgiu um grande movimento denominado
Movimento de Coligação Esquerda-Direita, englobando, a princípio, grupos de
direita como Associação Nacional, de
Singman Rhee, de direita; Partido Democrático da Coreia, de direita; Governo
Provisório Coreano, de direita; Partido Comunista da Coreia, de extrema-esquerda; pequenos empresários e intelectuais independentes, numa linha mais
moderada. Ele se organizava em comitês espalhados por toda Coreia, ao sul do
paralelo 38.
Em 8 de janeiro os quatro principais partidos, apesar da
enorme resistência da direita, chegam a um acordo com o governo provisório
instalado, para apoiar a tutela, mas no dia seguinte racharam, instigados pela direita, que, percebendo a perda de espaço político, denunciaram
o acordo, inviabilizando-o. A sociedade sul-coreana fica
irremediavelmente dividida.
A Comissão Conjunta Americano-Soviética, em março de 1946 se
divide também. A União Soviética quer que apenas os partidos que apoiaram a
Conferencia de Moscou sejam admitidos na formação do governo provisório,
enquanto os EUA, fieis à promessa de respeito à democracia que havia sido feita
em Moscou, queria que todas as forças políticas participassem, independente de
posicionamentos anteriores. Criou-se um impasse, e a Comissão foi perdendo legitimidade.
Em junho de 1946, Singman Rhee faz uma declaração
incendiária, seguida de uma grande manifestação. Sentindo a força de sua
presença entre o povo, a extrema-direita coreana, talvez iludida de que poderia
unificar a península sobre sua direção, ou já consciente de que perderia espaço
se o plano americano de unificação negociada fosse encaminhado, resolveu jogar
tudo para cima. A atmosfera fica cheia de pólvora.
Em julho de 1946 moderados da esquerda e da direita retomam a
luta da Coligação Esquerda-Direita, e praticamente fecham um acordo com a
Comissão Conjunta e as forças pró-tutela, aproximando afinal a Coreia de um
acordo. Essa situação foi reforçada pelo afastamento temporário pelos Estados
Unidos do intratável Singman Rhee.
Em 21 de maio de 1947, o segundo Comitê Misto EUA-URSS começa
a funcionar, e os moderados se aproximam do governo provisório criado pelos
americanos. Entretanto, com o acirramento da Guerra Fria nessa época, o Governo
Militar Americano foi endurecendo para o lado da esquerda, ao mesmo tempo em
que as divergências dentro da própria Coligação Esquerda-Direita, resultante da
Guerra Fria e da política ‘extraoficial’ de sabotagem da União Soviética,
começam a ser resolvidas a tiros e facadas, fazendo várias vítimas ilustres;
todas de direita, como Song ji-woo, Kim Ku e Lyun
Won-hyung, este último um político muito moderado e querido, até hoje, na
Coreia do Sul, que caiu sob os tiros de um rapaz de 19 anos, de uma organização
fascista, a Sociedade dos Camisas Brancas, e que foi se refugiar na Coreia do
Norte (seria um agente comunista infiltrado ou será esse o destino natural de
comunistas e fascistas?). Para se ter uma ideia de seu prestígio, ao funeral de
Lyun compareceu uma multidão de umas 600 mil pessoas.
Em dezembro de 1947 o Comitê Central da Coalizão
Esquerda-Direita se dissolve. O país está definitivamente polarizado. A direita
anseia pelo poder absoluto e autoritário, como dos antigos monarcas. A União
Soviética fecha as fronteiras do norte no paralelo 38º, dividindo na prática a
Península, enquanto mantém seu discurso de unificação, que a classe média e as
correntes políticas moderadas compram, fazendo sua ira voltar-se contra os EUA
e a ONU, apresentados falsamente como vilões, ao mesmo tempo em que a
radicalização da esquerda local fez Syngman Rhee se reaproximar dos americanos,
como a melhor, quiçá a única, opção possível. Stalin saboreia, a confusão e a
perplexidade do americanos no nó cego em que se transformou a política
sul-coreana, enquanto ele mantém o seu lado pacificado com pulso de ferro. Na
China os comunistas avançam contra as forças do corrupto governo nacionalista
de Chiang Kai Chek, aproximando-se do rio Yalu, fronteira com a Península
Coreana. Talvez dê para ficar com tudo
A guerra torna-se inevitável
(Abaixo membros da embaixada francesa aguardam a chegada do ministro inglês Ernest Bevin, a Moscou para a conferência. Essa consideração não será demonstrada pelo representante americano que teve o desplante de isolar a França, contra a recomendação da Inglaterra - a França possuía algum know how em Extremo Oriente, e ajudaria a contrabalançar o peso e a influência carismática do líder soviético - os americanos, novatos na área, cometeram muitas gafes e mancadas, que se voltaram contra eles).
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