02 julho 2024

GUERRA DA COREIA LEVADA A SÉRIO

 

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(Da esquerda para direita: Secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, Ernest Bevin; Comissário de Relações Exteriores da União Soviética, Vyacheslav  Mikhaylovich Molotov; Secretário de Estado dos Estados UNidos, James Francis Byrnes, em Moscou, durante a conferência de dezembro de 1945)

Eduardo Simões (a Margarida Maria)

Após o fim da Segunda Guerra era necessário organizar o mundo em frangalhos, e os 3 grandes decidiram, após manobras ardilosas feitas por Stalin junto aos americanos, deixar a França de lado e se reuniram em Moscou de 16 a 26 de dezembro de 1945, no chamada Conferência de Ministros das Relações Exteriores ou Reunião Interina de Ministros das Relações Exteriores, onde seria decidido o encaminhamento das questões mais espinhosas da Europa Oriental e do Extremo Oriente.

Do lado Ocidental, infelizmente, faltaram a orientação tanto de Roosevelt, que mesmo sendo um simpatizante contido do regime soviético, já havia acumulado muita experiência no trato com Stalin, e que morrera em abril, como, do lado do Reino Unido, faltava o seu maior líder: Winston Churchill, que perdera as últimas eleições para os trabalhistas, que, além de novatos em política internacional, alimentavam uma incontida admiração pelo socialismo soviético, que até aquele momento ainda enganava com a sua propaganda. Não é a toa que Stalin se fartou, e será considerado, com razão, o maior vencedor da Segunda Guerra.

No dia 27 de dezembro os ministros deram a conhecer o resultado de suas negociações. Pelo lado da Coreia, a decisão mais importante veio no artigo 3, do comunicado dirigido a ela, estabelecendo a criação “de uma Comissão Conjunta, sob o controle de um consórcio formado pelos Estados Unidos, União Soviética, Reino Unido e China, que estabeleceria uma tutela de cinco anos até a independência plena da Coreia unificada”. (https://en.wikipedia.org/wiki/Moscow_Conference_(1945))

Inesperadamente, essa decisão causou um profundo mal estar em toda Coreia, em especial no Sul (onde as pessoas ainda podiam demonstrar desagrado com o governo), e nos setores mais moderados tanto à direita como à esquerda, em geral a classe média e os setores a ela ligados. A única alternativa aceitável para esse grupo era: independência completa e imediata – o Partido Comunista da Coreia também integrava esse grupo, mas bastou ‘papai’ Stalin mandar um recado, e o Partido Comunista passou a defender a tutela. Mas isso não arrefeceu o movimento antitutela, que num primeiro momento pregava até resistência armada ao governo militar dos Estados Unidos.

Enquanto isso a Comissão Conjunta, que foi se articulando ao longo de 1946 e 1947, passou a sofrer uma sabotagem contínua da União Soviética, e na sociedade civil sul-coreana surgiu um grande movimento denominado Movimento de Coligação Esquerda-Direita, englobando, a princípio, grupos de direita como Associação Nacional, de Singman Rhee, de direita; Partido Democrático da Coreia, de direita; Governo Provisório Coreano, de direita; Partido Comunista da Coreia, de extrema-esquerda; pequenos empresários e intelectuais independentes, numa linha mais moderada. Ele se organizava em comitês espalhados por toda Coreia, ao sul do paralelo 38.

Em 8 de janeiro os quatro principais partidos, apesar da enorme resistência da direita, chegam a um acordo com o governo provisório instalado, para apoiar a tutela, mas no dia seguinte racharam, instigados pela direita, que, percebendo a perda de espaço político, denunciaram o acordo, inviabilizando-o. A sociedade sul-coreana fica irremediavelmente dividida.

A Comissão Conjunta Americano-Soviética, em março de 1946 se divide também. A União Soviética quer que apenas os partidos que apoiaram a Conferencia de Moscou sejam admitidos na formação do governo provisório, enquanto os EUA, fieis à promessa de respeito à democracia que havia sido feita em Moscou, queria que todas as forças políticas participassem, independente de posicionamentos anteriores. Criou-se um impasse, e a Comissão foi perdendo legitimidade.

Em junho de 1946, Singman Rhee faz uma declaração incendiária, seguida de uma grande manifestação. Sentindo a força de sua presença entre o povo, a extrema-direita coreana, talvez iludida de que poderia unificar a península sobre sua direção, ou já consciente de que perderia espaço se o plano americano de unificação negociada fosse encaminhado, resolveu jogar tudo para cima. A atmosfera fica cheia de pólvora.

Em julho de 1946 moderados da esquerda e da direita retomam a luta da Coligação Esquerda-Direita, e praticamente fecham um acordo com a Comissão Conjunta e as forças pró-tutela, aproximando afinal a Coreia de um acordo. Essa situação foi reforçada pelo afastamento temporário pelos Estados Unidos do intratável Singman Rhee.

Em 21 de maio de 1947, o segundo Comitê Misto EUA-URSS começa a funcionar, e os moderados se aproximam do governo provisório criado pelos americanos. Entretanto, com o acirramento da Guerra Fria nessa época, o Governo Militar Americano foi endurecendo para o lado da esquerda, ao mesmo tempo em que as divergências dentro da própria Coligação Esquerda-Direita, resultante da Guerra Fria e da política ‘extraoficial’ de sabotagem da União Soviética, começam a ser resolvidas a tiros e facadas, fazendo várias vítimas ilustres; todas de direita, como Song ji-woo, Kim Ku e Lyun Won-hyung, este último um político muito moderado e querido, até hoje, na Coreia do Sul, que caiu sob os tiros de um rapaz de 19 anos, de uma organização fascista, a Sociedade dos Camisas Brancas, e que foi se refugiar na Coreia do Norte (seria um agente comunista infiltrado ou será esse o destino natural de comunistas e fascistas?). Para se ter uma ideia de seu prestígio, ao funeral de Lyun compareceu uma multidão de umas 600 mil pessoas.

Em dezembro de 1947 o Comitê Central da Coalizão Esquerda-Direita se dissolve. O país está definitivamente polarizado. A direita anseia pelo poder absoluto e autoritário, como dos antigos monarcas. A União Soviética fecha as fronteiras do norte no paralelo 38º, dividindo na prática a Península, enquanto mantém seu discurso de unificação, que a classe média e as correntes políticas moderadas compram, fazendo sua ira voltar-se contra os EUA e a ONU, apresentados falsamente como vilões, ao mesmo tempo em que a radicalização da esquerda local fez Syngman Rhee se reaproximar dos americanos, como a melhor, quiçá a única, opção possível. Stalin saboreia, a confusão e a perplexidade do americanos no nó cego em que se transformou a política sul-coreana, enquanto ele mantém o seu lado pacificado com pulso de ferro. Na China os comunistas avançam contra as forças do corrupto governo nacionalista de Chiang Kai Chek, aproximando-se do rio Yalu, fronteira com a Península Coreana. Talvez dê para ficar com tudo

A guerra torna-se inevitável

(Abaixo membros da embaixada francesa aguardam a chegada do ministro inglês Ernest Bevin, a Moscou para a conferência. Essa consideração não será demonstrada pelo representante americano que teve o desplante de isolar a França, contra a recomendação da Inglaterra - a França possuía algum know how em Extremo Oriente, e ajudaria a contrabalançar o peso e a influência carismática do líder soviético - os americanos, novatos na área, cometeram muitas gafes e mancadas, que se voltaram contra eles). 

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