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(Resultado da derrubada improvisada dos cortiços no Centro do Rio de Janeiro: a favelização dos morros. ++Na foto o Morro do Pinto, em 1912)
O mundo, no último quartel do século XIX, sofria notáveis mudanças ante o impacto de novas descobertas científicas e avanços tecnológicos
formidáveis. Os novos conhecimentos sobre medicina preventiva e
regras sanitárias, necessários para conter o espalhamento de
novas cepas de microorganismos, em virtude do aumento de circulação
de mercadorias nas rotas comerciais, a primeira globalização propriamente dita,
com a recíproca troca de microrganismos entre as
nações mais ativas nesse comércio, cujos efeitos, no ambiente tropical da
cidade do Rio de Janeiro, passaram a ser sentidos a partir de 1850, quando
aconteceu a primeira epidemia de febre amarela da sua história, deixando um
saldo entre 4.160 mortos, números
oficiais, e mais de 15 mil mortos, extraoficialmente (1).
A partir daí a doença se manifestou praticamente todos os anos,
em determinada época do ano, até 1902, fazendo quase 60 mil óbitos ao longo dos anos.
Pegando o número mais baixo de 1850, isso equivaleria hoje perto de 200 mil
mortes, só na cidade do Rio de Janeiro! A teoria dos miasmas, que prevalecia na época tentando explicar as
doenças pelo acúmulo de sujeira e o mal odor que esta exalava, também presente
nas regiões pantanosas, favorecia a que se criasse uma
prevenção apaixonada e cruel contra os cortiços.
Sob pressão
constante de jornais, da polícia, dos intelectuais e especialistas as
autoridades políticas foram cada vez mais fechando o cerco sobre os cortiços,
na medida em que eles naturalmente iam se proliferando, por causa da migração
de ex-escravos do campo para as cidades, após a Lei Áurea, a vinda precipitada
de imigrantes, gente muito pobre, para substituir os escravos nos campos, que
acabavam largando a agricultura por causa das péssimas condições de trabalho e
do tratamento a eles dispensado, gerando
conflitos, fazendo muitos imigrantes buscarem trabalhos nas cidades,
pressionando o mercado imobiliário, em especial as moradias populares, sem
falar da migração interna do campo para a cidade.
Os prefeitos
do Rio de Janeiro, chamados de ‘intendentes’, após a Proclamação da República, porém,
encontraram nos donos do Cabeça de Porco uma resistência renhida aos seus
projetos de urbanização e melhoramento sanitário, e suas ordens de despejo,
fazendo uso de todo tipo de recurso jurídico – como acontece até hoje – até que no dia 26 de janeiro de 1893, o cortiço foi cercado por
forças federais e municipais, e, ainda com os moradores dentro de suas casas,
começou a ser demolido, sob as ordens do Intendente Barata Ribeiro (1893-1894),
que num gesto de ‘magnanimidade’ permitiu que os moradores apanhassem o que
pudessem dos escombros, vigas, folhas de madeira e qualquer outra coisa
que pudesse ajudar na construção de um abrigo – como faziam os grupos
caçadores-coletores do Paleolítico, construindo choças
improvisadas enquanto se deslocavam atrás dos rebanhos – e com aquilo o povo
subiu o morro da Providência, que ficava atrás do cortiço, e deram início ao
enfavelamento do local, mais tarde abastecido pelos veteranos da Guerra de
Canudos, que acabaram dando um novo nome ao local, que inicialmente ‘pegou’,
mas depois deixou de ‘pegar’. Hoje o termo ‘favela’ foi estigmatizado.
Reflexão
A demolição do Cabeça de Porco foi justificada tanto por uma questão sanitária como de melhoria
viária, pois se pensava em construir um túnel atravessando o morro da
Providência, que ligaria a região da Central do Brasil, polo de ligação,
de trem, com o interior e outros
estados, com a zona portuária, que conectava o Rio de Janeiro ao mundo, obra que,
devido a desorganização de sempre, só foi concluída em 1919 com a inauguração
do Túnel João Ricardo, em 24 de dezembro
de 1919 ou de 1921, as fontes são divergentes e pouco confiáveis, pelo então Presidente Epitácio Pessoa.
A questão sanitária é de fato importante, e era de fato sabido que os cortiços eram, pela sua estrutura precária, no mínimo facilitadores de epidemias, que precisavam ser contidas, para o bem de todos, inclusive dos moradores locais. O grande equívoco foi o as elites sociais da época, de forma quase unânime, não terem percebido a necessidade de diferenciar o ambiente de seus moradores, ou perceber que eles se comportavam inadequadamente por causa da precariedade das condições em que viviam, e não porque eram sujos ou de mente 'curta' por si mesmos, como em um déficit racial – nessa mentalidade com certeza há elementos do antigo platonismo e da filosofia cristã medieval, que colocava exclusivamente sobre os ombros dos indivíduos as responsabilidades de acertos e as desgraças que lhe acometiam – faziam uma generalização precipitada, como hoje o fazem bolsonaristas e esquerdistas.
É preciso entender que essa forma de análise,
platônico-cristã, correspondia ao grau de evolução do pensamento possível
naquela época, para a maioria dos brasileiros que atentavam para esses
problemas, agravado pelo fato de sermos uma
nação com uns 90% de analfabetos e dos 10% restantes talvez uns 90% fosse
precariamente alfabetizado, portanto não cabem aqui análises muito comuns em
autores à esquerda que supõem um projeto consciente, do tipo “teoria da
conspiração”, feito por uma elite que sabia exatamente o que era mais certo
fazer, mas ainda assim fez o errado, e cometeu um crime, só para ganhar mais
dinheiro com isso. Se uma atitude dessas pode ser verdadeira para alguns
indivíduos, generaliza-la no comportamento de toda uma lasse social é, no
mínimo, não fazer história ou quando muito apenas discurso ideológico com
finalidades políticas de curto prazo.
A grande maioria das pessoas agia de acordo com as possibilidades
culturais da época, reproduzindo os comportamentos e as falas mais aceitáveis
para o padrão médio do início do século XX. Os mais ricos, a classe média, a
igreja e a mídia indiferentes à sorte daquela gente, e as pessoas simplesmente
pegando o que podiam e subindo os morros para ali recomeçar sua vida. Alguém
duvida que se fosse nos dias de hoje haveria muito mais resistência em todos
esses setores, e de outros mais que surgiram e ampliaram a sua presença na
sociedade nesses últimos cento e tantos anos? Isso é mudança social, isso é
evolução, isso é história, e precisamos entender as limitações ou diferenças da
época que analisamos, em comparação com a nossa para não mergulharmos na
a-historicidade típica do pensamento
fanático-religioso.
Forçar aquela gente a partir sem nada, só levando restos
de escombros e entulhos, olhando com os olhos de um historiador, que procura
antes fazer ciência para compreender e melhorar o seu presente e o de seus
contemporâneo, que doutrinar, foi um desperdício de riqueza econômico-social
tremendo, de talentos e força de trabalho presente naquelas pessoas, e que decerto caiu de qualidade por
terem que se abrigar em locais tão insalubres, como seriam as futuras favelas, até
que mais tarde, com a omissão agora criminosa das autoridades, uma vez que a compreensão dos fenômenos psicossociais se aperfeiçoou, desinteressadas em educar a população urbana para as vantagens da integração daqueles
trabalhadores à sociedade organizada e próspera, fez com que a revolta grassasse entre eles, a principio expressa por meio de
expressões culturais próprias, muito ricas, principalmente no âmbito das artes,
transformando-se em ódio ou ressentimento destrutivo, dificilmente sanável por meio de negociações, que ajudem a promover os bons valores que ainda existem nela, e que
expuseram as favelas a crimes hediondos, local onde se alimenta e projeta o que há de pior no capitalismo, onde pontificam as organizações
criminosas, traficantes e milícias, cada vez mais espalhadas pelo resto do
tecido urbanos, formando um estado dentro de outro. Até uma explosão inevitável
com consequências imprevisíveis.
Perdemos apenas o melhor dos momentos para acertar essa
questão ou já perdemos o momento possível definitivamente?
ESCLARECIMENTO: O fato de o marido da Princesa Isabel, Gastão
de Orleans, o conde D’Eu, ser estrangeiro, foi um ‘prato’, para os republicanos
explorarem a tradicional xenofobia luso-brasileira, alimentada pelo isolamento
a que o Pacto Colonial nos reduziu. Por isso durante o movimento que culminou
com a república, alguns republicanistas aproveitaram para demonizar o marido da Princesa Isabel,
que, segundo o Visconde de Taunay, em suas Memórias,
era na verdade um criptoabolicionista, que inclusive tentou coopta-lo para o
Partido Liberal que, fora do republicano, tinha as bandeiras mais avançadas na
época, além de assinar a abolição da escravidão no Paraguai em 2 de outubro de
1869. É possível que nesse período tenha surgido o BOATO de que ELE ERA O DONO
DO CABEÇA DE PORCO, e que completava a sua renda explorando quem não podia
pagar... É preciso ser
muito ‘pato’, ou desconhecer completamente a história, ou as duas coisas, para
acreditar nessa baboseira. Entretanto gerações de brasileiros a repetem,
principalmente por causa da campanha que muitos marxistas, ignorantes ou mau
intencionados, fazem, repetindo-a como uma verdade. Até hoje não
se encontrou um único documento, ou qualquer coisa material, que ligue o Conde
D’Eu ao Cabeça de Porco... Fora isso qualquer um tem o direito de fazer papel
de tolo ou ignorante que queira.
Nota
1- Segundo estudiosos a doença começou a se manifestar em marinheiros americanos que estiveram na cidade, vindos de Cuba, no início de dezembro de 1849. O fato foi descoberto pelo médico Roberto Lallement, que deu o alerta, solenemente ignorado pelas autoridades civis e médicas da Academia Nacional de Medicina, até que se tornou impossível ignorar o desastre, já no início de fevereiro do ano seguinte.
(Em cores: Túnel João Ricardo, visto do lado da Central do Brasil, oposta a antigo Cabeça de Porco. Abaixo: obras no túnel no final da década de 1910 ou início de 1920)



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