https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/86/Lord_Randolph_Churchill.jpg
https://en.wikipedia.org/wiki/Lord_Randolph_Churchill
(Lord Randolph Henry Spencer-Churchill, em 1883, como membro da Casa dos Comuns )
Eduardo Simões (a
Margarida Guimarães)
WINSTON CHURCHILL -
Uma raiz nobre, mas nem tanto
Churchill nasceu
numa época de auge e decadência - o auge político, econômico e social do
Império Britânico, e a decadência das classes patrocinadoras desse império: a
burguesia e a aristocracia inglesa. O pai de Churchill, Randolph Henry
Spencer-Churchill, era descendente em linha direta de John Churchill, o 1º
Duque de Marlborough, um dos maiores generais ingleses da história, e filho
mais novo do 7º duque, John-Spencer Churchill, logo não pode herdou o título
nem o espetacular Palácio de Blenheim,
mas mas não media recursos para manter as aparências.
Já podemos tirar uma
conclusão sobre Winston Churchill: ele descendia da mais alta nobreza britânica,
por parte de pai, mas, também do ramo mais pobre, e em virtude do hábito
paterno de gastar além de suas posses, como o filho, e não ter a
competência e o brilhantismo deste para fazer dinheiro com a sua inteligência,
a questão financeira era num estresse permanente dentro da família. Churchill
sempre acreditou que tinha uma “estrela”, um destino especial, pois a sua mãe começou
sentir as dores de parto justo quando fazia uma visita a Blenheim, e Winston
nasceu lá mesmo, em um dos quartos do grande palácio, que ele jamais herdaria,
mas já nascia com a marca do destino dos Marlborough.
Mas essa não era a única fama da família. Lorde Roy Jenkins, em sua biografia de Churchill, assevera que os Marlborough não eram muito benquistos pela nobreza e que tinham uma fama de gente libertina e desregrada. Adoravam se meter em farras e passar do ponto. Churchill também adorará por toda a sua vida as festas e as alegrias de uma mesa regada com boa comida e bebidas, mas nunca perderá a linha com as mulheres. Já o pai, era um homem de politicamente "avançado", comparado com a média, mas seu excesso de oportunismo ou sua moral muito utilitária e curta, o levou para as migalhas do curto prazo e a se meter em enrascadas desnecessárias, como no arroubo “burro” com que destruiu a sua carreira na política – quis dar uma de "bonzão", pedindo demissão de um gabinete: a demissão foi aceita, e ele nunca mais voltou.
Mas o pior deslize
de Lorde Randolph, foi nunca ter percebido a incrível mina de ouro que o
destino pôs gratuitamente em suas mãos: seu filho primogênito
Winston – ele teve outro: John – que ele sempre tratou com um rara indiferença
e descrédito, como numa carta que ele escreveu ao filho, após este passar em
uma colocação medíocre em um concurso para o Colégio Militar Real:
“Você me impôs uma carga extra de 200 libras
anuais [despesas com educação]. Não pense que vou me dar ao trabalho de escrever longas cartas
[como as que o filho lhe escrevia, implorando atenção]... porque não dou a menor importância a
qualquer coisa que você possa dizer sobre suas façanhas e realizações. Grave permanentemente
isso no seu espírito, de que, se a sua conduta for igual a que foi em outras
instituições [escolares]... minha
responsabilidade para com você chegará ao fim... se não conseguir se abster de
levar a vida ociosa inútil e imprestável que levou na escola... você se tornará
um mero vagabundo social, um entre centenas de fracassos da escola pública, e
degenerará numa existência vil, infeliz e fútil. Se assim for, você mesmo terá
de arcar com toda a culpa por tais infortúnios. Seu pai amoroso Randolph”
(Roberts, Andrew; Churchill – caminhando
com o destino; Companhia das Letras; 2020; pg 76).
No final de sua
curta vida, 46 anos, Randolph experimentou uma doença debilitante que atacou
suas faculdades mentais e o tornou uma pessoa mais difícil do que normalmente
era, até morrer em 24 de janeiro de 1895, quando Winston tinha 21 anos, sempre
amparado pela esposa de quem se divorciara. A seu respeito seus contemporâneos
escreveram:
[Archibald
Primrose, 5º Conde de] Rosebery descreveu seu velho amigo e oponente político,
assim: "seu sistema nervoso sempre
esteve tenso, altamente tenso; ... ele não parece tomar conhecimento dos
homens, nem tem consideração por seus sentimentos, nenhuma troca de ideias."..."em uma sociedade agradável, sua conversa era
totalmente encantadora. Ele então exibia seu domínio de ironia e brincadeiras
agradáveis..." O biógrafo Roy Jenkins, apontando para o sua personalidade
impetuosa e ligeiramente vulgar, perguntou: "Ele já esteve perto de ser um estadista sério?": “Sem dúvida, ele
tinha alguns grandes talentos políticos. Ele tinha o dom para frases mordazes,
ofensivas e às vezes muito engraçadas [o filho foi um mestre nisso]. E, tendo pensado no ataque mais escandaloso
possível, tem a audácia de desferi-lo, sem medo de ofender o gosto ou os amigos,
ou prejudicar a sua própria reputação... Ele era forte na insolência... Além
disso, ele tinha um charme esporádico, embora misturado com uma grosseria
ofensiva e muitas vezes sem sentido.” Jenkins
[irônico] compara sua juventude à de
William Pitt, o Jovem: "Pitt foi primeiro-ministro durante 19 de seus 46
anos. Churchill teve 11 meses no cargo e não teve rival em atrair tanta atenção
e em realizar tão pouco”.(Wikipedia, adaptação livre, Lord Randolph
Churchill).
Uma característica singular
de Lorde Randolph Churchill no Parlamento, era discursar com as duas mãos na
cintura.
Esse péssimo marido
e pai ausente, teve no seu gigantesco filho um advogado, um admirador e um
defensor incondicional, tanto que ao escrever a biografia do pai: Lord Randolph Churchill, em dois
volumes, publicados em 1906, Churchill, apesar da excelente nível de linguagem
e do ritmo agradável do livro, recebeu críticas ferozes pela escandalosa falta
de fidelidade aos fatos, principalmente pelas omissões – ele teve que escolher:
ou a fidelidade aos fatos e à história, ou à boa fama do pai. Dá para
condená-lo por escolher a segunda opção? Como também não dá para condenar a
reação de Theodore Roosevelt, que conheceu Randolph, após ler o livro: “uma vida inteligente, diplomática e bastante
barata e vulgar daquele egoísta inteligente, diplomático e bastante barato e
vulgar” (idem, Lord Randolph
Churchill (book))
O livro foi um razoável
sucesso de vendas, mas um escândalo como livro histórico, podendo ser
considerado antes uma declaração de amor filial, de um filho abandonado e
ansioso pela atenção do pai, que nunca percebeu nada de mérito no filho, enquanto viveu! O
último ato de amor de Winston ao pai, e a tentativa mais dramática de chamar a
sua atenção, foi morrer exatamente no mesmo dia em que o pai, exatos 70
anos depois.
A admiração de
Churchill pelo pai, entretanto não era gratuita, como político ele foi um dos
maiores entusiasta da chamada democracia tory (1). Diz a Encyclopaedia Britannica,
vol 5, p 746, London, 1966“o julgamento
da posteridade foi que Lord Randolph não foi bem-sucedido no esforço para
produzir um novo tipo de conservadorismo popular, e que na verdade ele estava
preocupado principalmente, ainda que de uma forma errática, em equipar o
Partido Conservador para ganhar apoio de massa para o que era, em essência, uma
política especificamente radical de reforma interna e paz no exterior”.
Essa seria também a grande meta de Winston Churchill, ao longo de sua vida.
PS: Churchill teve
um único filho homem e o chamou justamente de Randolph. Certa vez, após um
almoço, em que bebeu e conversou longamente com o filho, ao se levantarem,
Churchill comentou: “conversamos hoje, mais do que eu e meu pai durante toda a
sua vida”. Só Deus e Randolph sabem da desolação com que essas palavras foram ditas.
Nota
1 – Desenvolvida pelo Primeiro-Ministro Benjamin Disraeli (1804-1881), “é uma forma... de conservadorismo político britânico. Defende a preservação das instituições estabelecidas e dos princípios tradicionais dentro de uma democracia política, em combinação com programas sociais e econômicos concebidos para beneficiar a pessoa comum. De acordo com essa filosofia política, a sociedade deveria desenvolver-se de uma forma orgânica, ao invés de planejada. Argumenta que os membros da sociedade têm obrigações uns com os outros e enfatiza particularmente o paternalismo, o que significa que aqueles que são privilegiados e ricos devem compartilhar com os outros as suas vantagens. Argumenta que esta elite deve trabalhar para conciliar os interesses de todas as classes sociais... em vez de identificar o bem da sociedade apenas com os interesses da classe empresarial ou dirigente” (fonte: Wikipedia em inglês, One-nation conservatism, trad. Livre).
(abaixo Lord Randolph na postura de ânfora grega, que lhe era peculiar, inclusive quando discursava)
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