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Eduardo Simões (a Margarida Maria)
A estranha Despedida de
Antônio Conselheiro
Quando as tropas federais invadiram o Belo Monte, ou Canudos,
encontraram alguns cadernos manuscritos que foram preservados, contendo trechos
que se supõe serem escritos pessoalmente por Antônio Conselheiro, ou quiçá por
um secretário, entre eles reflexões devocionais e, para a finalidade deste
artigo um testamento espiritual, ou Despedida, provavelmente escrita nos
estertores finais de Canudos – Conselheiro morreu em 22 de setembro e Canudos
caiu em 5 de outubro – que chegou até nós, e que reproduzo abaixo.
O texto:
“Praza aos céus que abundantes frutos produzam os conselhos
que tendes ouvido; que ventura para vós se assim o praticardes; podeis
entretanto estar certos de que a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo, nossa luz e
força, permanecerá em vosso espírito: Ele vos defenderá das misérias deste
mundo; um dia alcançareis o prêmio que o Senhor tem preparado (se converterdes sinceramente
para Ele) que é a glória eterna. Como não ficarei plenamente satisfeito sabendo
da vossa conversão, por mim tão ardentemente desejada!
Outra cousa, porém, não é de esperar de vós à vista do fervor
e animação com que tendes concorrido para ouvirdes a palavra de Deus, o que é
uma prova que atesta o vosso zelo religioso. Antes de fazer-vos a minha despedida,
peço-vos perdão se nos conselhos vos tenho ofendido. Conquanto em algumas
ocasiões proferisse palavras excessivamente rígidas, combatendo a maldita
república, repreendendo os vícios e movendo o coração ao santo temor e amor de
Deus, todavia não concebam que eu nutrisse o mínimo desejo de macular a vossa
reputação.
Sim, o desejo que tenho da vossa salvação (que fala mais alto
do que tudo quanto eu pudesse aqui deduzir) me forçou a proceder daquela maneira.
Se porém se acham ressentidos de mim, peço-vos que me perdoeis pelo amor de
Deus. É chegado o momento para me despedir de vós; que pena, que sentimento tão
vivo ocasiona esta despedida em minha alma, à vista do modo benévolo, generoso
e caridoso com que me tendes tratado, penhorando-me assim bastantemente! São
estes os testemunhos que me fazem compreender quanto domina em vossos corações
tão belo sentimento!
Adeus povo, adeus aves, adeus árvores, adeus campos, aceitai
a minha despedida, que bem demonstra as gratas recordações que levo de vós, que
jamais se apagarão da lembrança deste peregrino, que aspira ansiosamente a
vossa salvação e o bem da Igreja. Praza aos céus que tão ardente desejo seja
correspondido com aquela conversão sincera que tanto deve cativar o vosso afeto”.
(Esse texto pode ser encontrado em Ataliba Nogueira; António Conselheiro e Canudos; Coleção Brasiliana 355; 2a edição; Editora Nacional; São Paulo; 1978 - A obra manuscrita de António Conselheiro e que pertenceu a Euclides da Cunha. Disponível online)
Considerações
1º - Ele fala diretamente ao povo sem a intermediação de referências bíblicas, Jesus, Maria, anjos e santos, como se
tivesse dado por encerrado o seu propósito de evangelizar aquela gente, e
transfere a responsabilidade da proteção deles para Jesus Cristo, como a dizer:
“o que acontecer daqui para frente é de responsabilidade de Jesus e da sinceridade
de vossa fé”. “Lavou as mãos”, em meio à maior secura.
2º - Ao dizer que “Ele [Jesus] vos defenderá das misérias
desse mundo”, Conselheiro não só se exime da responsabilidade sobre tudo que aconteceu
ou ainda acontecerá, como faz uma referência longínqua sobre o que se passava – o arrasamento brutal
e minucioso de seu projeto, acontecendo ali ao lado, desconhecido por seus
olhos, ouvidos e olfato. Imagine-se o cheiro de um monte de cadáveres,
apodrecendo em um curto espaço sob o sol esturricante do sertão.
3º - Alheio a tudo, ele perde perdão por seus excessos
verbais, adequados à orientação dada pela Missão Abreviada do padre Couto, mas
não faz qualquer referência à tragédia apocalíptica que acontece para além da
porta do aposento onde ele expira, e mais uma vez faz uma menção aparente, longínqua,
mas se justificando, ao que acontece, clamando pela “maldita república”. Não
fosse a “maldita” tudo estaria bem...
4º - Ele pede perdão
pela incontinência verbal, mas imediatamente a justifica, pois fizera o que fez
pensando na “vossa salvação”, ao mesmo tempo em que agradece os sentimentos
amorosos que seus devotos têm em relação a ele mesmo. Logo não há porque se
desculpar, sem falar que o homem, que nos estertores, da morte preocupa-se com
o “bem da Igreja” foi o mesmo que assistiu, impassível, a ofensa rude de
sua guarda pessoal feita aos frades que chegaram ao seu arraial, em nome do
Arcebispo da Bahia e Primaz do Brasil!!! Será que em algum dia, o Conselheiro
teve uma ideia clara, lúcida, sobre o que acontecia ao seu redor?
5º - Porém, a ambiguidade que domina a primeira parte ou o
preâmbulo da despedida cede lugar a algo muito esquisito, no parágrafo correspondente
à despedida propriamente dita, quando ele cita nominalmente o “povo”, as “aves”,
as “árvores”, os “campos”; ou seja, tudo aquilo que compõe esse mundo material
em que vivemos, e não faz nenhuma menção ao mundo espiritual, para o qual ele
sempre chamara a atenção, enquanto vivera neste mundo cheio de “misérias” e contaminado
pela “maldita república”.
Uma pessoa que passou sua vida orientando as outras pessoas
sobre a ilusão deste mundo concreto, sobre as maravilhas do mundo espiritual de
Jesus Cristo, da Gloriosa Sempre Virgem Maria – ele que trajava o camisolão
azul, a veste de Nossa Senhora, o que deve ter gerado muita molecagem, típica
dos cearenses, no início de sua carreira ou em lugares de pouca fé católica –
dos Anjos e Santos ... que fazia sua gente se prostrar diante de qualquer
imagem que representasse essa realidade “espiritual superior”, chegado ao
momento de ingressar nessa realidade, não faça nenhuma menção a esta?! Os
santos, aqueles que Conselheiro indicava como modelo, exultaram com a
aproximação da morte, mas ele mesmo ficou profundamente indiferente... Como
quem não acreditava mais em nada. Será que um dia acreditou?
O silêncio do Conselheiro sobre o mundo espiritual, no qual,
por meio da morte, ele ia agora ingressar, é absolutamente assustador. Será que
ele, no seu interior, perdeu a fé, no final da vida? Ou teria ele passado a sua vida a
responsabilizar Deus e a Igreja por sua desdita – seu aspecto extravagante
seria um modo de dizer: “vejam como eu sou infeliz, vejam a que os céus e a
terra me reduziram!” – embora, é claro, ele jamais assumisse isso ou talvez nem
o percebesse?
Quando Antônio Beatinho vai apresentar seu pedido de rendição
ao general Arthur Oscar, suas palavras, conforme reproduzidas por Martins Horcades,
dão conta de um grande desapontamento, acontecido após a morte do Conselheiro, e que
também não encontrou, do outro lado, a civilização que deveria encontrar, mas antes
a mesma selvageria do meio onde viviam os abandonados da República. Ele será o
primeiro do seu grupo a ser degolado.
Uma das autorizações mais difíceis de alguém receber da
Igreja, até os dias de hoje, é o de retirar-se para uma vida de isolamento
eremítico, mesmo nas ordens propensas ao eremitismo. É que a longa
história dessa instituição e de seus representantes lhe ensinou do enorme peso
que recai sobre os ombros de alguém que busca encontrar Deus na solidão, quando
o busca de fato, e não usa a solidão para esconder a sua vergonha, o seu fracasso
no mundo, como aparentemente foi o caso de Conselheiro.
Ao deserto, dizem os místicos, o penitente vai para
confrontar a Deus, como aconteceu na luta de Jacó contra um anjo, mas também
tem que confrontar suas próprias fantasias, medos e desejos, nos abismos de sua
mente e de sua afetividade, meios em que, frequentemente, se infiltra o inimigo
de Deus, e é por isso que a Igreja só autoriza para o eremitério homens de
longa vida espiritual e virtude comprovada, com uma longa caminhada na religião
e na vida em comum, para ter uma maior garantia de que ele sairá incólume e até
melhor de uma luta tão titânica.
Foi esse o caso do Conselheiro?
(Abaixo um quadro sobre as tentações de Santo Antão, o primeiro eremita da Igreja, conforme seus biógrafos, que teve de enfrentar visões e miragens terríveis, para viver coerentemente a sua vocação)
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgZIYCTX8Bt2v3WSqkzf-OzzwJCsOONSZGxh9vzABpmrm3-MAz0SV0RFvnK0a17OfSyLGt0U7NV6pdZAN54KQxyAiqwlW6ltJYUryWXxy-OrO-vG_dE4tx-BH0oY3KwWwomMcamUcyvhZV3/s1600/030anthogiovani+batista+tiepollo.jpg
https://tulacampos.blogspot.com/2013/01/santo-antao-torment-of-saint-anthony.html


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