17 abril 2024

UCRÂNIA: A POLÍTICA EXTERNA CATASTRÓFICA DOS ESTADOS UNIDOS (corrigido em 18.04.2024)



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Eduardo Simões (a Margarida Maria)

Os superficiais e ignorantes sempre acreditaram que a força de Roma repousava nas suas legiões, ignorando a intensa e eficiente atividade diplomática, que sempre precedia os conflitos, por vezes esvaziando-os antes de começarem, graças aos quais os adversários eram isolados e se obtinha o concurso de forças aliadas, barateando o custo da guerra enquanto reduzia o seu alcance. Graças a essa ação, eles eram capazes de isolar conflitos potencialmente "mundiais", e transforma-los em guerras localizadas. Não fosse assim eles não teriam podido arcar com o custo de manter as legiões necessárias para enfrentar as guerras ocorridas na construção do império – uma legião em operação tinha um custo exorbitante – e nunca haveria a estabilidade que teve, se fosse baseasse apenas na violência.

Na história da humanidade, o povo que chegou mais perto do ideal romano foi sem dúvida os ingleses, cuja diplomacia é muito gabada entre os especialistas, e os que leem, construtores que foram de um grande império, quando a humanidade passou por um processo de desenvolvimento econômico e tecnológico incomum, bem diferente daqueles que lhe sucederam na direção das tendências mundiais: os americanos.

Os EUA, ao contrário dos países da Europa, não nasceu do projeto de uma elite esclarecida, que ficou maturando por séculos, sofrendo as piores vicissitudes, antes de alcançar o estado-nação contemporâneo. Antes foi um amálgama de povos criados às pressas, enquanto fugiam das perseguições na Europa. Tudo que aqueles colonos queriam era se ver livres de governantes “metidos”, para viver de acordo com seus valores comunitários rotineiros, paroquiais. A elite nascida desse povo tinha um projeto nacional interessante, mas de curto alcance. era o que eles mais queriam.

Para mal dos pecados, ou virtudes, deles e nossas, o projeto deu certo, e no final do século XIX, os EUA firmaram-se como a maior potência econômica do mundo, com uma mentalidade média semirrural, pretensiosa, que se orgulhava de ignorar o mundo, por considera-lo "indigno", um tanto "pecaminoso", exceto na hora de fazer negócios. Havia um autonomismo, uma autossuficiência, ignorante e conformada, e, segundo um autores americanos (Sellers, C. May, H. McMillen, N.; Uma reavaliação da história do Estados Unidos; Jorge Zahar; 1990),  para garantir que as coisas continuassem assim, buscavam eleger à presidência personalidades apagadas o bastante para não se arriscarem a criar um estado grande internamente, que se intrometesse nos assuntos dos indivíduos, ou a se meter em aventuras externas, salvo para garantir o interesse de indivíduos americanos.

Havia, pela classe média, uma avaliação muito superficial sobre a motivação básica da natureza humana, tomando como indiscutível o conjunto de valores que moviam a sociedade americana, visto como modelo válido para todas as outras. Como certa vez me disse o antropólogo americano Sidney M. Greenfield, o cidadão médio americano, tende a acreditar que todos pensam como ele e que cultuam os mesmos valores, de tal sorte que se alguém se desvia desse comportamento, ou dessa lógica, o faz por ignorância, e então precisa-se mandar mais dinheiro, mais professores ou mais séries de TV sobre o american way of life idealizado (assisti a muitas na adolescência!), ou então por má fé; e se isso prejudica os interesses americanos, e o dinheiro extra não é suficiente, então está na hora de mandar os marines. É evidente que hoje em dia esse tipo de cultura está em transformação, sem ninguém, mesmo nos EUA, saber dizer com certeza para onde vai – Donald Trump é um sintoma.

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(Acima, é isso que os americanos gostam de penar sobre seus líderes. São bobos da corte para consumo e diversão interna, mas desgraça para o resto do mundo)

 

Seja como for, forçados pelas circunstâncias os americanos inevitavelmente, em função do caráter das antigas relações internacionais, começaram a intervir no mundo – já em 1802, no governo Jefferson, a marinha americana atacou o Império Otomano, na Líbia, por causa da pirataria contra navios americanos, e em 1895, deteve uma agressão certa da França e da Inglaterra juntas contra a Venezuela, etc. Esse poderio entretanto foi recolhido no momento mais crucial: na Primeira Guerra Mundial, quando os americanos ficaram fora dos tratados e discussões preliminares, que poderiam ter evitado a guerra, enquanto já participavam, por meio de ameaças e ações militares diretas, para “proteger seus interesses”, em outras partes do mundo, como na China, no Japão e no Caribe, pois não havia interesses americanos imediatos envolvidos. Ficando de fora no início da Guerra de 14 os americanos tiveram lucros fabulosos com a venda de mercadorias e capitais para a Europa em chamas, só entrando no conflito devido ao desastrado jogo diplomático alemã, senão eles teriam assistido de camarote a derrocada de seus "amigos" mais próximos - ainda assim criaram um monte de dificuldades de caráter nacionalista, quase pondo tudo a perder.

No final da guerra o país praticamente rompeu com os seus aliados: recusou-se a assinar o Tratado de Versalhes e à fundação da Liga das Nações, investiu um monte de dinheiro na Alemanha, ajudando-a a reerguer a sua economia, e fez bons acordos comerciais e de troca de tecnologia com a União Soviética nascente – o mercado financeiro americano, com poderosos financistas judeus, que odiavam o antissemitismo dos czares, remeteu muitos recursos para a Revolução de 1917. Os alemães, por sua vez, foram fundamentais para que os bolcheviques conquistassem a vitória e a Revolução Russa tomasse o rumo que tomou, além do reerguimento da União Soviética, no tempo de Stalin.

Os americanos,  fechados no seu isolamento, começaram a fazer as loucuras que levariam à derrocada do capitalismo liberal em 1929: 1º - começaram a exigir fortemente dos países europeus, seus ex-aliados, destruídos pela Guerra, o pagamento integral dos empréstimos de guerra; 2º - aprovaram uma série de leis protecionistas draconianas, para atender aos apelos da indústria doméstica: a Tarifa de Emergência de 1921, a Tarifa Fordney McCumber de 1922, e, finalmente, em plena depressão, a Tarifa Smooth-Hawley de 1930; ou seja, ao mesmo tempo que o estado americano cobrava impiedosamente aos devedores, impunha tarifas, que impediam a estes acesso ao rico mercado americano, o único ainda de pé, tornando impossível àqueles saldar suas dívidas. Os europeus responderam na mesma moeda, e o comércio internacional, que poderia ser a saída salvadora, colapsou, agravando a depressão. Graças também aos efeitos dessa depressão econômica, Hitler e seus nazistas começaram a parecer razoáveis aos alemães.

Começada a Guerra, os americanos voltaram a sonhar em permanecer isolados, enquanto observavam seus antigos aliados virarem pó, enquanto a Alemanha Nazista e a União Soviética se fortaleciam por meio de acordos secretos. Quando a máscara caiu e a Alemanha atacou a URSS, enquanto o Japão, encurralado por Roosevelt e a esquerda americana, agora convencida que Hitler não era um “bom companheiro”, atacou, os americanos tiveram que correr para compensar o atraso. Ou seja, a sua espera só fez agravar as perdas, e quando os EUA interviram o fez de forma tão desastrada que acabou por fomentar o próximo conflito mundial, fornecendo, por meio da Lei de Empréstimos e Arrendamentos, material e capital abundante à União Soviética, enquanto cedia empréstimos usurários para a Inglaterra, que teve que ceder várias de suas bases pelo mundo afora, criadas ao longo de 250 anos, em troca do apoio militar americano. 

Quando a guerra acabou o Império Britânico era apenas uma sombra e a União Soviética evoluiu de um país falido, antiquado, para uma potência capaz de enfrentar os Estados Unidos em pé de igualdade, amplamente financiada por este (!) – Stalin se recusou a devolver ou a pagar o equipamento civil e militar recebido durante a guerra, avaliado em centenas de bilhões de dólares atuais. Ah, se a Ucrânia dispusesse desse crédito! Além disso a URSS foi ajudada por cientistas alemães, levados à força para o país, e pelo saque da parte da Europa Oriental por ela conquistada. A URSS saiu da guerra territorialmente maior e mais forte do que quando entrou.

A marca da política externa americana nesses episódios cruciais, onde eles podiam fazer a diferença, foi a de estar sempre atrasada, fazendo-o às vezes de forma equivocada, talvez ingênua demais, como os planos de Wilson para a paz Mundial, ou os devaneios de Roosevelt em relação ao Papai Stalin, o resultado é que os americanos, após grandes sacrifícios, acabam suscitando inimigos cada vez maiores e piores, para si mesmos, reforçando a crença de que os outros povos são "maus" e é melhor evita-los, como propõe Trump. Mas decerto que a pior das intervenções americanas foi a injustificada, imoral, idiota, desgraçada e catastrófica intervenção, do republicano George Bush, filho, no Iraque, contra tudo e contra todos, até contra o Papa, mas com o apoio massivo da sociedade americana. Essa intervenção desestabilizou politicamente o Oriente Médio e desmoralizou o papel mediador dos EUA nas crises dessa região. Nesse sentido é de notar-se que a invasão do Iraque, fez as crises do Oriente Médio perderem o seu caráter regional, local, e tornarem-se mundiais, da mesma forma que o cozimento, pelos americanos, da guerra na Ucrânia,   ameaça escalar para a Europa e o mundo. Justo o inverso de Roma.

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, desmoralizando as três maiores potências ocidentais, Estados Unidos, Reino Unido e França, que haviam assinado, em 1994, o Memorando de Budapeste, em troca de a Ucrânia ceder o antigo arsenal nuclear da URSS à Rússia, que também assinou o memorando, essas potências, tomando a Crimeia, essas mesmas lideradas por Barack Obama, apostaram na Rússia (!), e negaram toda ajuda à Ucrânia. Quando houve a invasão, agora com Joe Biden, limitaram-se a oferecer asilo para o governo Zelenski, esperando que uma vitória fácil de Vladimir Putin o contentasse, e ele deixasse seus vizinhos em paz, exatamente como ingleses e franceses fizeram com Hitler em 1938, no Pacto de Munique, quando entregaram os tchecos numa bandeja a Hitler, esperando com isso deter a guerra.

A ajuda militar foi chegando à Ucrânia como que a conta-gotas, até hoje os ucranianos ainda não foram autorizados a pilotar os F-16, tivesse ela sido mais rápida e em quantidade suficiente, Putin, percebendo o tamanho das perdas e a incompetência do comando russo, inventaria uma desculpa do tipo: “eu só queria dar uma lição na Ucrânia”, teria tirado suas tropas, e estariam agora negociando só a Crimeia, e os ucranianos teriam boas motivações para negociar, afinal se livrariam de uma guerra e teriam mostrado força a Putin.

Mas agora é tarde! Com todas as barbaridades já cometidas pelo russos, e o nível da destruição generalizada no país, os ucranianos não podem querer menos que a expulsão total dos russos, e só aceitarão negociar quando a população do país estiver á beira à extinção, ao mesmo tempo que os russos depois de tantos assassinatos políticos, tantas refinarias bombardeadas, sem falar que as perdas de militares e materiais, que deve ser muito maior do que a gente pensa, o que gerará um gigantesco prejuízo na hora de indenizar as famílias, sem falar das derrotas humilhantes, não aceitará menos que a Ucrânia toda, ou pelo menos a maior parte dela, com suas maiores cidades, como troféu de guerra, sabendo que se a Rússia sair derrotada Putin morre no dia seguinte.

A longa guerra serviu de pretexto para destruir o que sobrava de democracia na Rússia, e esta mergulhou decididamente no mesmo totalitarismo da era soviética, enquanto boa parte da população, saturada de propaganda e desinformação, cultiva um verdadeiro culto às armas de destruição em massa, colocando sobre os seus carros modelos de mísseis intercontinentais, como o “SARMAT”, acreditando piamente que a Rússia está só sendo paciente com o Ocidente, e que, na hora que Putin quiser risca os Estados Unidos e a Europa Ocidental do mapa, sem nenhuma consequência para o seu país. Será que essa cultura não está também presente nas atuais elites militares e políticas da Rússia.

Percebendo a hesitação e a política apaziguadora do Ocidente na Ucrânia a China se encheu de audácia, na esperança de recuperar Taiwan, e se livrar dessa situação anômala, que é o status político de Taiwan: nem país independente nem província de fato da China, graças a uma inovação grotesca da política externa americana, fruto de remendos diplomáticos de curto prazo, na chamada “Ambiguidade Estratégica”, que diz que Taiwan pertence à China, mas quem manda nela é os Estados Unidos. É uma humilhação constante para a China, algo feito para não dar certo.

Enquanto a questão ucraniana foi mantida ao longo dos dois últimos anos, pelos americanos, em “banho maria”, à custa de centenas de milhares de vítimas e a destruição minuciosa da Ucrânia, a tensão aumentou enormemente no Extremo Oriente, explodiu no Oriente Médio, o Ocidente sofre derrotas políticas e militares importantes para os mercenários russos na África e até a América Latina, por meio da falida Venezuela, fala grosso com o grande primo do norte.

Conclusão

Os americanos, e o estado nacional por eles criados, mostraram, a partir da segunda metade do século XX, uma notável inaptidão a exercer o Imperium sobre o mundo, que, no nosso nível de civilização consiste basicamente em organizar espaços, administrar e esvaziar conflitos regionais, desentupir canais de comércio para favorecer a circulação de riquezas, que geraria uma maior distribuição da renda mundial. 

Após a Segunda Guerra, eles, junto com os russos comunistas, pasmem, puseram-se a acelerar o desmonte de antigos impérios, cujas estruturas antiquadas precisavam ser recicladas antes de receberem uma revoada de novas nações precariamente organizadas, seja pela militância esquerdista, baseada apenas em um discurso difuso de ódio contra quem detinha antes o poder, seja por acordos comerciais-financeiros entre empresas américas e elites isoladas, artificiais e corruptas. 

Os russos queriam aumentar o seu império ao estilo antigo, e os americanos fazer bons negócios, mas com isso o que eles conseguiram foi destruir os alicerces políticos delicados, que davam estabilidade ao mundo moderno, que agora está solto, ao sabor das ondas, e o que vemos agora é o espalhamento de conflitos internos, guerras civis, golpes de estado, guerras internações, potenciais ou em andamento, em todos os continentes, menos na América do Norte, por enquanto, anunciando uma grande conflagração mundial, que, esperamos, não seja a última 



 

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